Gerry Conway: criador critica o uso do símbolo do personagem.

Em meio à proximidade da estreia da segunda temporada de O Justiceiro, a série de TV sobre o personagem da Marvel Comics exibida pela Netflix, o criador do anti-herói, Gerry Conway, deu uma entrevista ao SyFy Wire e criticou duramente o uso do símbolo do personagem, a caveira estilizada, por parte das forças policiais ou do exército.

Numa conversa sobre sua carreira e, claro, a estreia de O Justiceiro, o SyFy Wire questionou sobre um fenômeno cada vez mais comum nos EUA e também no Brasil: policiais ou membros das forças armadas usando o símbolo do Justiceiro, a caveira branca estilizada. O escritor foi duro em sua crítica:

Eu já falei sobre isso em outras entrevistas. Para mim, é sempre perturbador ver figuras de autoridade abraçando a iconografia do Justiceiro, porque ele representa uma falha do sistema de justiça. Ele deveria ser uma denúncia do colapso da autoridade moral, e da realidade em que algumas pessoas não podem confiar em instituições como a polícia e o exército para agir de forma justa e competente.

O anti-herói vigilante é fundamentalmente uma crítica ao sistema de justiça, um exemplo de derrocada social. Então, quando os policiais colocam a caveira do Justiceiro em seus carros, ou membros do exército usam estampas com a caveira do Justiceiro, eles estão se alinhando com um inimigo do sistema. Estão abraçando a mentalidade de um fora da lei. Quer você ache as ações do Justiceiro justificadas ou não, quer você admire o seu código de ética ou não, ele é um criminoso. A polícia não deveria estar abraçando um criminoso como o seu símbolo.

O Justiceiro é um dos trabalhos de assinatura de Steve Dillon.

Meu ponto de vista é este: o Justiceiro é um anti-herói, alguém por quem você pode até torcer, desde que se lembre também que ele é um fora da lei e um criminoso. Se um oficial da lei, representando o sistema de justiça, coloca o símbolo de um criminoso em seu carro de polícia, ou cria moedas comemorativas honrando um criminoso, ele ou ela estão criando uma visão doentia de como entendem a lei.

A morte de Gwen Stacy

Gerry Conway tinha apenas 16 anos de idade quando começou a escrever quadrinhos para a DC Comics, e aos 18, chegou na Marvel Comics, onde escreveu histórias do Capitão América antes de assumir a revista do Homem-Aranha (Amazing Spider-Man, a principal da editora), em 1972. Ao lado dos desenhistas Gil Kane e John Romita, Conway criou a célebre história A Noite em Que Gwen Stacy Morreu, em Amazing Spider-Man 121, de 1973. Ao lado de Romita, Conway criou o Justiceiro para Amazing Spider-Man 129, de 1974, numa edição desenhada por Ross Andru.

O Justiceiro em sua primeira aparição.

Na trama, o Justiceiro é um vilão que é enganado por outro criminoso, o Chacal para perseguir o Homem-Aranha. O personagem fez bastante sucesso e apareceu outras vezes na revista. Com o passar dos anos, e das décadas, o Justiceiro foi se tornando cada vez mais popular e virou um grande sucesso no fim dos anos 1980.

O Justiceiro nas HQs.

Conway deixou o Homem-Aranha em 1974, mas regressou outras vezes, inclusive já dois anos depois para lançar uma nova revista do personagem: Peter Parker, The Spectacular Spider-Man, de temática mais social e trazendo o herói no convívio com minorias sociais na Universidade. Na Marvel, também escreveu histórias dos Vingadores, antes de ir voltar à DC Comics, onde trabalhou com Liga da Justiça e Batman e criou o herói Nuclear (Firestorm, no original), que apareceu recentemente nas séries de TV The Flash e Legends of Tomorrow.

O Justiceiro no cinema em três versões: Dolph Lugreen, Thomas Jane e Mark Stevenson.

Devido à sua popularidade, o Justiceiro já foi adaptado ao cinema três vezes, mas nenhuma delas fez realmente sucesso. O anti-herói Frank Castle foi então introduzido na segunda temporada de Demolidor, da Marvel na Netflix, e foi tão bem recebido que ganhou sua própria série, já também na segunda temporada. Infelizmente, esta deve ser a última, pois o acordo Marvel-Netflix parece estar indo pelo buraco, com rusgas entre as duas companhias que resultaram no cancelamento de Demolidor, Luke Cage, Punho de Ferro e Os Defensores.

O Demolidor à mercê do Justiceiro.

A crítica de Conway ao uso do personagem que criou faz todo o sentido. Frank Castle é uma anomalia do sistema, um criminoso que mata criminosos indiscriminadamente e, na vida real, deveria ser perseguido pelas forças policiais, não ser o símbolo delas. Se a polícia elege o Justiceiro como símbolo, significa que ela própria não acredita no sistema que representa. E se o sistema não é endossado pela própria polícia, que legitimidade a polícia tem diante da sociedade? Afinal, se o sistema não funciona, eles são uma parte importante disso.

O Justiceiro nos quadrinhos, por Mike Zeck.

O Justiceiro luta, nos quadrinhos, porque não acredita no sistema, não acredita na polícia, não acredita na justiça. Se a polícia não acredita na polícia, eles acreditam em quê?