Esta notícia sensacional ganhou pouco espaço na mídia, mas circulou um pouco, como no blog amigo F(r)ases da Vida – O Blog do Feroli: no dia em que se comemorou os 50 anos do histórico Show do Telhado dos Beatles (veja mais aqui), a banda anunciou que irá lançar uma nova versão do filme Let it Be, agora, dirigida por Peter Jackson, o cineasta de O Senhor dos Anéis e King Kong. Como se isso não fosse fantástico o suficiente, o filme original, dirigido por Michael Linsday-Hogg, também será relançado, totalmente remasterizado. Quem informou foi o próprio site oficial da banda.

Para ser mais claro, Jackson irá lançar um filme novo, mas baseado no mesmo material fílmico que forjou o Let it Be original. Explicamos: em janeiro de 1969, os Beatles iniciaram um ousado projeto que consistia em compor e ensaiar material novo e executar um show ao vivo com essas canções, gravando tudo em áudio e vídeo para o lançamento em disco e filme. Seria um disco ao vivo de canções inéditas gravadas em um show que também viraria filme. Um projeto dos sonhos. Mas deu tudo errado: as relações internas da banda estavam abaladas, a tensão no ar, ao ponto que o grupo nunca se empolgou muito com o material que produziram, até desistirem de tudo no meio do caminho. Mas como havia uma equipe de filmagens registrando tudo, um diretor contratado e um contrato de lançamento de filme com a United Artists, precisavam dar um destino à empreitada, e decidiram lançar o filme a partir daqueles ensaios que nunca viraram um disco ou um show. Ou melhor, viraram: para dar um fim decente ao filme, de improviso, o grupo decidiu subir no telhado do prédio da Apple Corps., a empresa deles, e fazer o concerto lá mesmo.

Foi assim que ocorreu o Show do Telhado (ou The Rooftop Concert), na hora do almoço de 30 de janeiro de 1969, onde tocaram seis canções até serem parados pela polícia, que reclamou do barulho. No fim das contas, aquela terminou sendo a última apresentação dos Beatles e a última vez em que apareceram em público.

A banda ainda voltou aos estúdios da Apple no dia 31 para realizar performances mais sérias – ou seja, menos como ensaio, mais como performances definitivas – das canções inéditas que não haviam sido tocadas no telhado, para acabar tudo de vez.

John Lennon aparece alienado e distante nas filmagens.

Com isso, os ensaios para o que virou o álbum e filme Let it Be duraram 14 dias, de 02 a 10 e de 25 a 31 de janeiro (o intervalo no meio se deu porque houve uma grande briga e George Harrison decidiu sair da banda, eles pararam, os ânimos se acalmaram e o quarteto retomou o trabalho até o final). Tudo isso resultou em 55 horas de filmagens e 140 horas de áudio com as sessões. Este é o material em que Peter Jackson está trabalhando.

Originalmente, os Beatles entregaram essas gravações para que o engenheiro de som Glyn Johns (uma lenda que trabalhou com Rolling Stones, The Who e Led Zeppelin) produzisse um álbum com o melhor do material. Johns precisou montar três versões diferentes do disco e ainda assim os Beatles não aprovaram. A banda pensou seriamente em simplesmente engavetar tudo e deixar canções como Let it be, I’ve got a feeling e Dig a pony inéditas e perdidas.

Isso não aconteceu porque deviam um filme por contrato a United Artists. Então, a banda encarregou Michael Linsday-Hogg de finalizar o filme, enquanto o badalado produtor norteamericano Phil Spector foi contratado para criar a versão final do álbum. E ele o fez. Let it Be, álbum e filme (e também livro de fotografias, para dizer a verdade) foram lançados em maio de 1970, com o LP ganhando o Grammy e o filme ganhando o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original.

A primeira edição de “Let it Be” veio em um box com um livro de fotografias.

Mas eu sempre achei o filme Let it Be uma peça meio sem alma. Por um lado, é fantástico ver a banda criando, ensaiando e tocando numa fase bonita visualmente e com um punhado de canções (que se não são as melhores de sua carreira, são) muito legais, ao mesmo tempo em que se permitem alguns improvisos interessantes, culminando com a performance espetacular do telhado. Tanto que, da versão final do álbum, três canções foram tiradas diretamente do show: Dig a pony, I’ve got a feeling e One after 909.

O filme parece não ter uma história, embora, acompanhe de modo cronológico o grupo iniciando o projeto, fazendo as primeiras versões rústicas das canções, que vão evoluindo, mudam de um estúdio de filmagens para o moderno e novíssimo estúdio de gravação da Apple, lapidam as faixas e sobem ao telhado para tocá-las. Enquanto isso, há momentos tensos – uma severa discussão entre Paul McCartney e George Harrison – e outros mais leves – Harrison, Ringo Starr e John Lennon brincando enquanto criam um arranjo para uma composição do guitarrista – mas não parece se deter em nada.

O anúncio dos Beatles diz que Peter Jackson vai construir um novo filme a partir desses registros:

As 55 horas de filmagens nunca vistas e as 140 horas de áudio disponibilizadas para nós deixam claro que este filme é a experiência
definitiva de olhar o buraco na fechadura que os fãs dos Beatles sempre sonharam! É como uma máquina do tempo que nos transporta de volta para 1969 e ficamos lá sentados no estúdio, assistindo esses quatro amigos fazer uma grande música juntos.

E ele tem um fio condutor: que as sessões não foram tão tensas como ficaram na história. É o que ele diz após ter visto e ouvido o material existente. Na nota, Jackson diz:

Eu fiquei aliviado em descobrir que a realidade é muito diferente do mito. Depois de rever toda a filmagem e o áudio que Michael Linsday-Hogg filmou 18 meses antes deles se separarem, é simplesmente um tesouro histórico e fantástico. Claro, há momentos de drama, mas nenhum desacordo ao qual este projeto esteve associado por tanto tempo. Assistindo John, Paul, George e Ringo trabalhando juntos, criando as agora clássicas canções desde o início é não apenas fascinante: é divertido, elevante e surpreendentemente íntimo.

Estou animado e honrado de ter sido confiado com esta gravação memorável, fazer o filme será um grande prazer.

O novo filme chegou a ser pensado para a televisão, mas foi transformado em um produto de cinema. Sem título oficial e dirigido por Peter Jackson, o longa terá produção de Jeff Jones e Jonathan Clyde pela Apple Corps.; e Ken Kumins pela WingNut Films, com produção de Clare Olssen e edição de Jabed Olssen. As filmagens originais – realizadas por Michael Linsday-Hogg – foram remasterizadas pela Park Road Post de Wellington, na Nova Zelândia, a mesma companhia que restaurou as filmagens da I Guerra Mundial no documentário de Jackson que foi indicado ao BAFTA (o Oscar Britânico).

Depois do novo filme, o Let it Be original, de Michael Linsday-Hogg (que também dirigiu o Rock and Roll Circus dos Rolling Stones), também será relançado em versão restaurada. O longa chegou aos cinemas em maio de 1970 e, como dito, ganhou o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original, e chegou a ser lançado em VHS nos anos 1980 e, somente no Japão, ganhou também uma versão em LaserDisc, nos anos 1990; porém, nunca ganhou uma versão digital propriamente dita, nem em DVD nem em Blu-ray, sendo uma das grandes lacunas da coleção dos Beatles em vídeo e uma demanda constante dos fãs da banda.

O álbum Let it Be – que, lembre-se, não foi propriamente gravado, mas apenas reuniu o melhor dos ensaios para o projeto de show que nunca ocorreu – foi lançado também em 1970, sendo o último álbum inédito lançado pelos Beatles, embora não tenha sido o último a ser gravado, pois depois daquelas sessões, eles gravaram e lançaram Abbey Road, ainda em 1969, com outro conjunto de canções.

O Let it Be é parte da coleção oficial dos Beatles e ganhou, como todos os outros, uma versão remasterizada em altíssima tecnologia em 2009 (substituindo a versão dos primeiros CDs de 1987); mas também ganhou uma outra versão, o Let it Be…Naked, em 2003, que reuniu o mesmo material, porém, sem as intervenções de Phil Spector; resgatando o “clima” original das sessões realizadas por George Martin (produtor) e Glyn Johns (engenheiro de som), mas honestamente, resultando em um produto inferior ao original. (Saiba mais na Discografia Comentada dos Beatles, do HQRock.).

Não há uma data de lançamento para o projeto, mas eu apostaria que tudo só chegará às lojas em 2020, celebrando os 50 anos do lançamento do álbum e do filme, e portanto, ganhando também uma versão estendida do álbum, com out-takes, novas mixagens e etc., ao estilo do que já foi lançado com Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (2017) e The Beatles [ou The White Album/ O Álbum Branco] (2018), quando os mesmos também comemoraram 50 anos de lançamento. Isto também indica que em setembro deste ano, Abbey Road deve ganhar sua edição especial.

Let it Be como filme original, filme novo e disco com extras é, provavelmente, a realização do maior sonho dos fãs dos Beatles, menor apenas que uma reunião do grupo – o que, afinal, não é mais possível desde 1980, quando John Lennon foi assassinado.