A editora Marvel Comics vai comemorar 80 anos de idade em 2019 e lançará uma superedição especial para marcar a data: a milésima edição da revista Marvel Comics, a primeira lançada pela editora. É uma tática celebrativa apenas – a tal revista sequer é publicada há mais de 60 anos – que “imita” de certo modo a prática da concorrente DC Comics, que recentemente lançou edições número 1000 das revistas de seus personagens que atingiram a marca de 80 anos de publicação, como Superman (em 2018) e Batman (agora há poucos meses atrás).

Marvel Comics 1000 será uma edição especial que contará uma história de um modo diferente: cada uma das 80 páginas se passará em um dos anos correspondentes e será criada por uma equipe de artistas diferentes, dentre nomes lendários da criação na editora (Roy Thomas, Gerry Conway, Peter David, Adam Kubert), passando por autores atuais (Saladin Ahmed, Gail Simone, Chip Zdarsky e Kris Anka) e até fãs que atuam em outros campos do entretenimento (os cineastas Phil Lord e Christopher Miller, Taboo do Black Eyed Peas e a lenda do basquete Kareem Abdul-Jabbar), conforme diz o comunicado oficial no site da Marvel. A capa traz uma pintura de Alex Ross retratando alguns dos personagens mais importantes da editora reproduzindo poses icônicas criadas ao longo de oito décadas.

A história em si foi criada e teve a direção criativa de Al Ewing, o escritor da aclamada fase atualmente publicada em The Immortal Hulk. Segundo o comunicado, a trama parte de um painel da revista Marvel Comics 01 e segue adiante por meio da busca a um misterioso artefato chamado A Máscara da Eternidade.

A edição é do editor-chefe da Marvel C.B Cebulski ao lado de Tom Brevoort, o editor executivo e vice-presidente sênior de publicações.

Marvel Comics 1000 será publicada em agosto nas comics shops dos EUA e ainda não há informações sobre o preço.

A revista Marvel Comics

A editora Marvel Comics foi fundada pelo editor Martin Goodman em 1939, mas seu primeiro nome foi Timely Comics. Goodman vinha do mercado de pulps (revistas mensais de contos de aventura, muito populares nas décadas de 1920 e 30) e decidiu surfar na onda do sucesso dos quadrinhos, capitaneados a partir da estreia do Superman em Action Comics 01, de 1938.

Uma das revistas pulp de Martin goodman dos anos 1930.

O nome Marvel já vinha sendo usado por Goodman em suas publicações pulp, com uma série de revistas de contos que, a partir de 1936 e seguindo até os anos 1950, seguiam mudando de títulos como Marvel Tales, Marvel Stories, Marvel Science Fiction etc.

Para a Timely Comics, Goodman contratou os criadores Joe Simon e Jack Kirby, respectivamente como editor-chefe e diretor de arte, para criarem a parte criativa da editora, e a primeira revista publicada foi a Marvel Comics 01, que chegou Às bancas de jornal com data de capa de outubro de 1939.

Marvel Comics 01 trazia uma capa pintada por Frank Paul, um típico capista de revistas pulp, com uma ilustração do Tocha Humana, a grande atração da edição. Como era comum com as revistas da época, Marvel Comics tinha 64 páginas, trazendo várias histórias de vários personagens, cada qual com média de 8 a 12 páginas, mais tiras e contos em prosa.

O Tocha Humana tinha sido criado pelo escritor e desenhista Carl Burgos, que criou a história do personagem retratada em destaque como a primeira da revista. Além dele, Marvel Comics trazia a estreia do Anjo de Paul Gustavson e de Namor, o príncipe submarino, de Bill Everett, além das histórias de faroeste do Masked Rider de Al Anders e uma história de Ka-Zar, o lorde da selva, de Ben Thompson. Completavam a revista mais algumas histórias curtas, duas tirinhas típicas de jornal e um conto em prosa de duas páginas.

Dois personagens da revista já tinham aparecido antes. O Namor de Bill Everett tinha sua história de origem publicada mais cedo naquele ano pela revista Motion Pictures Funnies Weekly, que era distribuída nos cinemas. Para a Marvel Comics 01, Everett ampliou de 8 para 12 páginas a história. Já Ka-Zar, o lorde da selva – nada mais do que uma imitação loira na cara dura de Tarzan, o rei da selva – tinha sido criado (e feito sucesso) nas revistas pulp de Goodman, criado por Bob Byrd em título próprio, Ka-Zar Magazine, que fora publicada a partir de 1936.

A revista era um teste para Goodman para ver se o empreendimento era viável. E foi: com uma tiragem de 80 mil unidades, a revista esgotou. Então, o editor rodou uma segunda tiragem, agora com 800 mil cópias e também esgotou. Então, encomendou rapidamente mais material original e publicou a Marvel Comics 02 em dezembro daquele ano, mantendo-a mensal dali em diante.

Com o sucesso de sua empreitada, Goodman foi gradativamente ampliando o leque da Marvel Comics, a editora (ainda com o nome Timely): enquanto Tocha Humana, Namor, Anjo e Ka-Zar faziam sucesso na revista original, o Tocha Humana ganhou uma revista própria com Human Torch 02 (não houve um número 01, porque a revista aproveitou o registro da finada Red Raven Comics 01, publicada no início daquele ano), de 1940, enquanto Namor the Submariner foi lançada ao mesmo tempo.

Como era tradição para títulos solo de heróis na época, ambas eram revistas de periodicidade quadrimestral. A Human Torch, por exemplo, seria publicada até o número 35, de 1949.

Além daqueles primeiros, outros personagens de sucesso surgiram na revista dali em diante. Enquanto Tocha Humana e Namor, obviamente, migraram para suas próprias publicações, o Anjo, por exemplo, continuou publicado todos os meses em Marvel até desaparecer na edição 79 de 1946. O Visão surgiu no número 13, de 1941, e teve alguma popularidade (e inspiraria o personagem com mesmo nome criado para os Vingadores em 1967), assim como o robô Electro, que apareceu a partir da edição 04, de 1940.

Marvel Comics teve o título alterado para Marvel Mystery Comics logo no número 02 e foi o palco do primeiro crossover da história dos quadrinhos, quando as históricas Marvel Mystery Comics 08 e 09, de 1940, trouxeram a história em que Tocha Humana e Namor lutam um contra o outro, com as tramas de cada um mostrando a mesma história sob perspectivas diferentes. Um grande feito.

Na época, não era comum os personagens interagirem entre si, algo que só ocorreu com os personagens da All America Comics (uma subsidiária da DC Comics), que em 1942 (dois anos depois) criaria a Sociedade da Justiça reunindo vários heróis no mesmo grupo, como Lanterna Verde, Flash e Mulher-Maravilha. Embora a DC Comics publicasse as histórias de Batman e Superman, por exemplo, e os dois heróis até dividissem uma mesma revista, a World Finest, a partir de 1943, comumente aparecendo juntos nas capas, os dois personagem só se encontraram de verdade nas histórias em 1953 (13 anos depois de Marvel Comics 08!).

Joe Simon e Jack Kirby foram os editores da Timely somente até 1942, quando saíram e foram substituídos por Stan Lee, que era assistente dos dois e tinha apenas 19 anos! E se manteve no cargo por 30 anos até 1972, quando seria promovido a Publisher.

Com o declínio da popularidade das histórias de super-heróis após o fim da II Guerra Mundial, terminou dando cada vez mais espaço a histórias policiais, de faroeste e de terror na segunda metade dos anos 1940. Como o terror foi o que vendia melhor nas capas, a revista mudou o nome para Marvel Tales a partir da edição 93 de 1949 e seguiu publicando histórias de terror até ser encerrada no número 159 de 1957.

De modo quase paralelo, Goodman mudou o nome da Timley para Atlas Comics em 1953.

Em 1961, Martin Goodman resolveu voltar a publicar super-heróis e encomendou uma nova fornada de personagens ao editor-chefe Stan Lee, que os criou ao lado do desenhista Jack Kirby. Iniciando com o Quarteto Fantástico, a editora mudou de nome para Marvel Comics e vieram os sucessos de Thor, Hulk, Homem-Aranha, Homem de Ferro, Doutor Estranho, Os Vingadores e X-Men, entre 1961 e 1963.

Por causa disso, em 1964, a revista Marvel Tales foi relançada, agora com um novo número 01 e como uma publicação anual que trouxe republicações das histórias de estreia de alguns dos mais populares personagens de então. Em 1965, a editora repetiu a empreitada e Marvel Tales Annual 02 trouxe outra fornada de republicações.

A partir do verão de 1966, Marvel Tales voltou a ser publicada periodicamente, a partir do número 03, e de modo bimestral, trazendo republicações de alguns dos principais personagens da editora, em especial o Homem-Aranha. Esse formato foi bastante longevo e se manteve até o número 291 de 1994.