Chega aos cinemas X-Men – Fênix Negra, último filme da franquia dos heróis mutantes da Marvel Comics levados ao cinema pela 20th Century Fox. “Último” porque a Fox foi comprada pela Disney, que repassa os personagens ao Marvel Studios, que irá produzir novas versões a partir do zero para colocá-los no mesmo mundo dos Vingadores. Mas isso é o futuro. Vamos falar do passado, de 1992 e Fênix Negra. E aí, o que o filme é? É bom? É ruim?

Em primeiro lugar, é importante afirmar que quando analisamos um filme, ele tem que ser visto como uma obra em si mesma. Essa é a diferença entre um longametragem e o episódio de uma série de TV. (Embora mesmo este também pode ser analisado assim). Ou seja, pensar Fênix Negra como um filme é diferente de pensá-lo como mais um episódio da saga dos X-Men nos cinemas.

Dito isso, como filme, Fênix Negra é ótimo!

Não dê muita bola para o que a crítica vem afirmando sobre o filme. O motivo dos críticos – e alguns fãs – não terem gostado está relacionado exatamente ao segundo ponto daquele parágrafo acima. E falaremos mais disso adiante, mas por ora, vamos nos concentrar no filme em si.

A estreia de Simon Kinberg na direção traz um filme enxuto dos X-Men e isso resulta em uma ótima aposta. Fênix Negra é mais um drama de personagens do que um filme de ação. (E não se preocupe, a ação está boa no filme). Isso dá ao longa uma profundidade dramática que não é muito comum nos filmes de super-heróis.

E enquanto pensamos que isso – cinematograficamente – é bom, é justamente o que está incomodando muito gente. Fênix Negra não é frenético de ação como a maioria dos filmes de ação nos dias de hoje, é mais pausado, traz diálogos fortes (embora ainda rápidos) e uma grande carga emocional. Também não é épico ou grandioso como Vingadores – Ultimato. E isso não é um problema. Não é essa a proposta do filme.

Fênix Negra é uma história sobre uma garota, Jean Grey, que se percebe extremamente poderosa, e se torna mais ainda quando incorpora uma poderosíssima entidade cósmica que a transforma em uma deusa quase sem limites. Tal transformação, claro, afeta todos a sua volta e mexe com segredos do passado que não deviam ser expostos.

No turbilhão de emoções que daí aflora, famílias são destroçadas, uma história de amor é abalada, refugiados precisam voltar, uma morte abala tudo, ódios emergem descontrolados, uma boa imagem pública é jogada no lixo. E tudo isso ainda é atrapalhado por uma invasão alienígena!

Dessa forma, mais ainda do que X-Men – Primeira Classe, que renovou a franquia em 2011, fazendo-a se voltar ao passado, Fênix Negra se concentra em desenvolver essa personagem central – Jean Grey – ao mesmo tempo em que “enquadra” seu tutor, o professor Charles Xavier, por seus erros, excessos e por seu ego.

Alguns outros irão gravitar em torno desses dois – em especial Magneto, Fera e Ciclope – mas todos em um plano ligeiramente inferior, com menos tempo de tela e um pouco menos de aprofundamento.

Claro, falamos de “aprofundamento” dentro dos limites narrativos que um filme de 2 horas e um elenco estelar de mais de meia dúzia de atores que precisam gastar tempo com lutas e cenas de ação mirabolantes. Mas ainda assim, Fênix Negra cumpre bem esse papel dramático.

E sinceramente, depois da avalanche épica de Ultimato e seus 40 personagens nas quais a maioria só serve de fundo de cenário, ter um drama carregado de emoções pautado no desenvolvimento de dois ou três personagens é quase um alívio. Muito bem-vindo!

Então, aqueles que querem ação desenfreada do começo ao fim, ao estilo de Velozes e Furiosos ou cenas de ação conectadas entre si por meio de outras cenas sem muito desenvolvimento, como Thor – Ragnarok, vão sair mesmo decepcionados.

A amarração de Fênix Negra funciona ainda mais por causa de seu cimento: grandes atores. Sophie Turner (Jean Grey) e James McAvoy (Charles Xavier) brilham em interpretações intensas, que convencem o espectador. O sempre maravilhoso Michael Fassbender (Erik Lehnsherr/ Magneto) tem um papel um pouco menor e um arco menos resoluto do que em X-Men – Apocalipse, por exemplo, mas ele é um gigante da interpretação e o filme ganha cada segundo que seu rosto aparece em tela.

Tye Sheridan (Scott Summers/ Ciclope) está num plano inferior aos anteriores, mas é um bom ator e entrega um bom papel para aquele que nos quadrinhos é o líder de campo e força motriz dos X-Men. De qualquer modo, o Ciclope de Fênix Negra funciona como um personagem de verdade e até dá alguns lampejos do líder que poderia ser, indo muito além da fraca retratação do personagem na Trilogia Original dos X-Men nos anos 2000. Pesando os prós e contras, este Ciclope ganha destaque, com uma participação importante, embora ainda não seja um protagonista.

Por fim, Nicholas Hoult (Hank McCoy/ Fera) – ator que quase foi o novo Bartman ao disputar o papel com Robert Pattison – mesmo atrapalhado por sua maquiagem de pelos azul na maior parte do tempo, entrega uma boa performance, embora seu arco é o mais complicado: do homem que perde a mulher e sai louco atrás de vingança contra aqueles que são sua família. E Jennifer Lawrence (Raven/ Mística) tem pouco tempo de tela, pois sua personagem morre logo no 1º Ato – e isso não é spoiler, pois está nos trailers – mas sua pequena participação entrega o drama e serve de combustível aos meandros da trama, especialmente quanto às atitudes de seu irmão adotivo, enquanto sua morte é o gatilho que movimenta toda a história.

Tudo isso faz Fênix Negra ser um bom filme, ainda mais no histórico da franquia – que tem tanto pontos altos quanto baixos – e se sai bem melhor do o anterior X-Men – Apocalipse, por exemplo. E enquanto X-Men – Dias de Um Futuro Esquecido tem mais ação e fantasia, em termos meramente dramáticos, o novo capítulo é muito melhor.

Isso não quer dizer que Fênix Negra não tenha problemas. O 3º Ato parece um pouco apressado – e falaremos sobre os motivos adiante – mas até que amarra a ameaça da trama sem grandiloquência desnecessária ou viradas retumbantes típicas dos 3º Atos de filmes de heróis. O final é enxuto como o restante e, no fim das contas, isso funciona bem. O que realmente perde nessa pressa é a relação Xavier-Jean, mas fazer o quê?

A ameaça de Vuk – a vilã de Jessica Chestain é minimizada e, na verdade, serve mais como uma desculpa para impulsionar a trama, sem nunca ter realmente muito destaque.

No fundo, o que os críticos não gostam de Fênix Negra são duas coisas. Primeiro, não é uma catarse de ação transloucada ao qual se acostumaram a ver. Segundo, porque pensam nele como o capítulo final de uma franquia, de uma saga, o que gera comparações – desnecessárias e injustas – com Vingadores – Ultimato.

Fênix Negra tem que ser pensado não como o encerramento da saga dos X-Men, mas como o último filme dos X-Men da Fox. Isso é uma grande diferença. Ele não foi originalmente pensado como um encerramento. Não tem em sua trama nem em arranjo final a tal pretensão – ou capacidade.

DF-06600_R – Sophie Turner stars as Jean Grey in Twentieth Century Fox’s DARK PHOENIX. Photo Credit: Doane Gregory.

Na verdade, se você voltar ao passado e ler as antigas reportagens, irá ver que o plano da Fox (e de Kinberg) era fazer de Fênix Negra um filme em duas partes. O resultado que chegou aos cinemas é basicamente a primeira parte condensada em seus primeiros 2/3) e o um final recriado para emular o que seria o final da segunda parte.

Esse é o motivo secreto pelo qual Kinberg e a Fox decidiram refazer o final, o que resultou no longa ser adiado duas vezes, de novembro de 2018 para fevereiro deste ano, e enfim, para agora. O fim original de Fênix Negra traria uma batalha espacial, mas além das comparações com Capitã Marvel da Marvel – que da mesma forma termina com uma mulher superpoderosa, brilhando em chamas e voando no espaço destroçando naves espaciais – resolveram mudar as coisas para deixá-las mais mundanas e terrenas, fazendo a batalha final ocorrer dentro de um trem em velocidade.

DF-10689_R2_CROP – Sophie Turner and Jessica Chastain in Twentieth Century Fox’s X-MEN: DARK PHOENIX. Photo Credit: Doane Gregory.

O antigo final deveria deixar um gancho para a Parte 2 que, no fim do processo, Kinberg e a Fox perceberam que não ia mais acontecer, já antevendo a fusão Fox-Disney e decidiram dar um final mais rápido, fazendo emergir os elementos de redenção (que talvez estivessem ausentes no original) presentes na Saga da Fênix Negra nos quadrinhos.

E depois disso, bolar uma última cena (ou duas na verdade) que servem um pouco mais como um “ponto final” de toda a saga. A última cena, inclusive, repete de modo invertido um clássico diálogo de X-Men – O Filme, servindo como um tipo de ponte para conclusão.

Isso é irônico, porque dentro da confusa cronologia da Fox, (conheça a Cronologia dos X-Men clicando aqui) Fênix Negra se passa em 1992, oito anos antes dos eventos de X-Men – O Filme; que por sua vez não vão mais ocorrer porque a linha do tempo foi alterada quando Wolverine voltou ao passado e mudou o futuro em Dias de Um Futuro Esquecido.

É engraçado como os críticos (e os fãs) ficaram tão acostumados ao Universo da Marvel nos Cinemas (MCU – os Vingadores) que querem ver a analisar tudo como se este fosse a regra e não é. É um tipo de abordagem – e é ótima! – mas existem outras e, para o bem e para o mal (e há muito mal, não se engane), os X-Men da Fox eram outra coisa.

Vi críticos dizendo que não gostaram da relação entre Jean e Scott no filme porque os filmes anteriores não desenvolveram isso. Ora, mas isso não é justo. Cada filme é um filme. Apocalipse se passa em 1983, nove anos antes de Fênix Negra. Por discutível que seja a tática da Fox de pular uma década a cada filme para a Segunda Trilogia dos X-Men, esta é a lógica do filme e é sobre ela que ele funciona.

O longa faz o necessário para contextualizar o ponto em que aqueles personagens estão na trama, nuances de diálogos, de gestos (uma mão no ombro, um sorriso), e há até algumas cenas de paixão. É isso o que os filmes fazem. Dizer que “não foi convencido” porque o romance não foi mostrado na tela é esquecer de todas as comédias românticas de Hollywood na qual o casal se separa logo no início e o romance, que é a força motriz de todo o filme, é inteiramente sugerido e exibido apenas em rápidas cenas ou flashbacks e todo mundo embarca nisso, porque é o que o filme quer deles. Por que com os super-heróis é diferente?

Então, os críticos que assistem Fênix Negra sob o prisma de encerramento da saga (e não como último filme, como mencionei – afinal, não esqueça, é o último porque eles foram forçados a isso, porque uma nova empresa comprou a velha e vai jogar no lixo tudo o que foi produzido antes) vão mesmo ficar decepcionados, porque esta não é a finalidade nem a intenção do filme.

Tal característica faz com que algumas pontas fiquem soltas, particularmente na trama de certos personagens.

Mas se analisarmos Fênix Negra como um filme em si mesmo, ele é ótimo, muito melhor do que eu esperava e um vento fresco de drama e caracterização de personagens em um cenário já muito dominado por filmes de muita ação e pouco cérebro. Se não houver muito cérebro em Fênix Negra – e isso é discutível – pelo menos este tem muita emoção. Emoção do coração, do vínculo entre duas pessoas, de uma família e de como alguns episódios, passados mal resolvidos e segredos mal escondidos abalam a confiança e o amor entre as pessoas.

Não a emoção de pular de uma ponte.

Para isso você tem Hobbs & Shaw.