No dia 27 de outubro último, o HQRock divulgou a notícia de uma operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro que apreendeu supostas gravações inéditas do cantor e compositor Renato Russo, o lendário líder da banda Legião Urbana, morto em 1996, que estariam de posse de um fã e um produtor musical. A ação foi mitigada por Giuliano Manfredini, o filho do músico e diretor da empresa Legião Urbana Produções, responsável pelo legado musical do artista, mas gerou algum falatório e mal-estar entre setores do meio artístico. Como meio de se posicionar, o empresário escreveu um artigo na Folha de São Paulo no último domingo.

No texto, Giuliano Manfredini acusa os detentores das gravações de tentarem chantagear o legado de seu pai por meio de uma rede de mentiras. O caso é complicado. Pelo o que diz o empresário e os jornais, um perfil falso do Facebook, Ana Paul Ülrich, administrava uma página dedicada aos fãs da Legião Urbana que constantemente movimentava material “pirata” da banda ou do artista, ou seja, gravações não lançadas oficialmente, em especial, out-takes de gravações, áudios e vídeos de shows etc. Até aí, nenhuma novidade, já que a prática – ainda que ilegal – é bastante comum nas redes sociais e entre os fãs de qualquer artista ou produto. (Não custa lembrar o caso recente de usuários brasileiros do Torrent que foram multados em R$ 3 mil por baixarem ilegalmente filmes nessa rede de compartilhamento).

A questão que Giuliano Manfredini coloca em seu texto é que a tal Ana Paula Ülrich estava tentando chantagear a Legião Urbana Produções, alegando que possuía gravações inéditas de Renato Russo e que iria comercializá-las. Além disso, o perfil fake se apresentava como jornalista da Reuters e da Rede Globo. Em resposta, o empresário notificou a Delegacia de Proteção à Propriedade Imaterial que acionou uma operação que apreendeu material na casa do dono do perfil fake, apontado pela imprensa como sendo Josivaldo Bezerra da Cruz Junior; mas também foram à casa do produtor Marcelo Fróes, que foi o representante da família Manfredini nos negócios da Legião Urbana até Guiliano assumir a empresa, quando se tornou maior de idade em 2012.

Guiliano Manfredini.

As manchetes da apreensão mostravam um depoimento de Fróes que alegava não ter nenhum envolvimento com o caso e lamentava nunca ter sido procurado por Manfredini para o tema.

Como o HQRock apontou na postagem na época, o caso de Manfredini é complexo, pois ao assumir o legado artístico do pai imediatamente entrou em conflito com outros membros da família, rompendo as relações com a tia e a avó que lhe criaram que cuidava da Legião Urbana Produções até que ele assumisse a maior idade, inclusive, proibindo-as de entrar no apartamento deixado por Russo após sua morte. Depois, também entrou em conflito com os ex-membros da banda, Dado Vila-Lobos e Marcelo Bonfá; proibindo lançamentos de material inédito ou publicando material sem o aval dos outros dois.

Marcelo Bonfá e Dado Vila-Lobos.

De volta ao caso policial, ainda não ficou claro qual o material foi apreendido na ação da Polícia Civil, embora a polícia alegava na data que estimavam ter mais de 20 canções inéditas de Renato Russo.

O artigo de Guiliano Manfredini tenta justificar a ação por meio do aspecto legal – as gravações em questão seriam de propriedade da Legião Urbana Produções (o que ele tem razão, claro) – mas termina com um tom acusatório e conspiratório:

Não creio que os crimes cometidos sejam obra apenas de um jovem aposentado por invalidez. Existem verdades inconvenientes e tramas secretas por trás de tudo isso.

O que será que ele quer alegar? Nas entrelinhas o empresário quer dizer que Marcelo Fróes – por ter tido acessado ao vasto arquivo de Renato Russo quando trabalhou na empresa – está “contrabandeando” material pirata do músico e da banda? Quer implicar que Vila-Lobos e Bonfá têm algum envolvimento nisso tudo?

Aguardemos mais declarações de Manfredini e o avanço das investigações da polícia, mas fica claro que mais um capítulo na disputa pelo poder em relação ao legado da Legião Urbana está em desenvolvimento.

O que é uma pena.

A Legião Urbana: Bonfá, Vila-Lobos e Russo.

Renato Manfredini Jr. nasceu em 1960 no Rio de Janeiro, mas cresceu em Brasília, onde adotou o nome artístico de Renato Russo e fundou o Aborto Elétrico, primeira banda punk da capital, em 1978, e Marco Zero de todo um movimento musical na cidade, que deu origem a várias bandas, como Capital Inicial (derivada do AE) e Plebe Rude, além da Legião Urbana, que Russo fundou em 1982 com o baterista Marcelo Bonfá, e que ganhou o guitarrista Dado Villa-Lobos no ano seguinte. A Legião lançou seu primeiro álbum homônimo em 1985 e fez algum sucesso, mas foi o disco seguinte, Dois (1986), que a transformou na mais popular e influente banda de rock dos anos 1980, seguindo outros discos importantes, como As Quatro Estações (1989), seu maior sucesso.

Renato Russo morreu vítima de uma grave crise depressiva, agravada por ser portador do vírus HIV, em 11 de outubro de 1996, causando uma grande comoção no país, poucos dias depois do lançamento do álbum A Tempestade.