Um caso no mínimo curioso é palco de uma insólita disputa judicial na Inglaterra: a propriedade de uma gravação rara dos Beatles que estava nas mãos do já falecido ex-engenheiro de som da gravadora EMI, Geoff Emerick, que trabalhou extensivamente com o quarteto de Liverpool, que é questionada pela Universal Music Group, que hoje em dia é proprietária do acervo da EMI britânica, gravadora na qual a banda fez todos os seus discos. A fita em questão tem uma enorme importância histórica: é a gravação de teste da primeira audição dos Beatles na EMI, que resultou neles sendo contratados, em junho de 1962.

A disputa é insólita porque o costume da época era descartar esse tipo de registro, afinal, não existia – no início dos anos 1960 – um mercado consolidado para explorar arquivos não lançados de artistas célebres, como hoje é bastante comum, ao mesmo tempo em que nada naquele momento dizia que aquele grupinho vindo do norte da Inglaterra teria o futuro glorioso que teve. Queremos dizer que a EMI jogou a fita da gravação no lixo para ser descartada, mas o jovem Geoff Emerick, que tinha trabalhado na seção, e tinha apenas 16 anos de idade (!), tinha gostado tanto da banda que decidiu resgatar a fita (do lixo) e a guardou em casa. Emerick morreu em 2018 e seus herdeiros querem leiloar a fita, algo que a Universal está tentando impedir na Justiça, alegando que é a legítima proprietária da fita.
Vamos aos fatos… Em 1962, os Beatles eram uma banda que tocava nos bares, pubs e bailes de Liverpool e cidades vizinhas do norte da Inglaterra e que tinha no currículo duas longas estadas em Hamburgo, na Alemanha, tocando nos inferninhos da zona portuária. A formação tinha John Lennon (o fundador do grupo e o mais velho, com 21 anos) nos vocais e guitarra base, Paul McCartney no baixo, George Harrison na guitarra solo e Pete Best na bateria, e o quarteto tinha conseguido um empresário em outubro do ano anterior, Brian Epstein. A principal missão dele? Conseguir um contrato de gravação. Atuante no circuito musical (Epstein era dono da principal cadeia de lojas de discos do norte), o empresário se dedicou a isso e conseguiu um teste primeiro na Decca, que os recusou, mas Epstein foi sagaz em ficar com uma cópia daquele registro, feito no Ano Novo de 1962, e passou a usá-lo como fita de demonstração do grupo, que foi oferecido a todas as gravadoras da Inglaterra. E recusados. Inclusive, na EMI.
Mas os contatos de Epstein no mundo da música conseguiram uma segunda chance na EMI por meio do selo Parlophone, liderado pelo produtor e maestro George Martin, que ouviu a fita da Decca e não achou nada demais, mas decidiu lhes dar uma chance e vê-los pessoalmente no estúdio. A sessão de teste foi agendada para o dia 06 de junho de 1962, no Estúdio 3 da EMI na avenida Abbey Road, no bairro de Saint John’s Wood, no norte de Londres (hoje chamados Abbey Road Studios). A banda chegou lá e montou seus equipamentos, enquanto Martin designou para acompanhar a sessão o produtor Ron Richards, ao lado do engenheiro de som Norman Smith (futuro produtor do Pink Floyd), seu assistente Chris Neal e o jovem Geoff Emerick, que tinha começado como estagiário no dia anterior.

Os Beatles tocaram tinha preparado um repertório de 20 canções, mas em vista do tempo, tocaram apenas 4, que foram apropriadamente gravadas, três canções autoriais e um cover: Love me do, Besame mucho, P.S. I love you e Ask me why. Besame mucho era um bolero escrito pela compositora mexicana Consuelo Velázquez em 1940, e que três anos depois, ganhou uma letra versionada para o inglês por Sunny Skylar e gravada por Jimmy Dorsey and his Orchestra, dali em diante, ganhando várias versões em inglês. Meio como brincadeira, meio como seriedade, os Beatles faziam uma versão rock de Besame mucho em seus incendiários shows no Cavern Club em Liverpool e no Star Club em Hamburgo. As demais três canções eram de autoria de John Lennon & Paul McCartney, que emergiam como prolíficos compositores.

O produtor da sessão, Richards, ficou impressionado com a performance da banda, em especial por suas composições originais (não era comum grupos musicais serem autorais naqueles tempos) e chamou George Martin para avaliar o material gravado. O diretor da Parlophone aprovou o grupo e os contratou para dois compactos, sob a condição de que trocassem de baterista, já que julgou que Pete Best imprimiu um ritmo vacilante e não acompanhava a energia do outros três instrumentistas. Por isso, quando os Beatles voltaram para a sessão de gravação propriamente dita em setembro (três meses depois, o longo tempo porque já tinham uma residência de verão agendada em Hamburgo), já trouxeram um novo baterista: Ringo Starr. Eles gravariam o primeiro compacto com Love me do e P.S. I love you, duas das canções apresentadas naquele primeiro dia, e Ask me why seria o Lado B do segundo single, cujo Lado A seria uma canção nova chamada Please please me, ao passo que Besame mucho jamais seria registrada novamente de modo profissional pela banda.

Com a banda contratada e a decisão de que aquele registro daquela fita de junho não seria utilizado, pois as canções foram regravadas em setembro, os funcionários da EMI seguiram o padrão: jogaram a fita no lixo, que foi encaminhada para uma sala que reunia o material de descarte que dali seria recolhido. Mas um funcionário comunicou isso a Geoff Emerick, que sendo um adolescente que gostava de rock, decidiu salvar para si aquela gravação da destruição, e a pegou e levou para casa, onde a guardou.
Por causa disso, 33 anos depois, quando os Beatles lançaram o projeto Anthology, como uma autobiografia multimídia, que envolveu um documentário para a TV, um livro e uma coleção de três CDs duplos, o Volume 1 (1995) trouxe duas faixas daquela sessão: Love me do e Besame mucho, captadas a partir da fita de posse de Emerick. A coleção do Anthology foi relançada no ano passado, com o livro de volta às livrarias em capa simples, a série documental com um episódio extra disponível no Disney+ e os álbuns remasterizados, adicionados de um Volume 4, além de versões remixadas das faixas Free as a bird e Real love, que serviram de chamariz ao projeto por trazerem uma reunião virtual dos Beatles (gravações de Lennon antes de morrer tocadas pelos três membros então vivos).

Agora que Emerick está morto e seus herdeiros querem vender a fita original em um leilão, a Universal (dona do catálogo da EMI) afirma que a fita é propriedade dela e entrou na Justiça britânica para que os herdeiros a “devolvam”.
A grande questão que fica é: a Universal é dona de uma fita que foi jogada no lixo?
A fita teria sido destruída se Emerick não a tivesse tirado da pilha descartada e ela não existiria mais. Isso não faz dele o proprietário da gravação?
Segundo informou o canal de YouTube de Gilvan Moura, o Beatles School, a família de Emerick cedeu o áudio da gravação à Universal e lhes deu autorização para usarem o áudio como quiserem, mas não abrem mão da propriedade da fita, que pode garantir milhões de libras em um leilão.
Caberá à Justiça decidir sobre quem é o proprietário, mas sem dúvidas, é um imbróglio bizarro típico de nossos tempos.

Geoff Emerick nasceu em Londres em 1945, no seio de uma família de classe média que lhe permitiu estudar música desde cedo, o que lhe motivou a tentar um trabalho na EMI em 1962, onde começou como estagiário, depois assistente de engenheiro de som e até ser promovido a engenheiro de som. Além daquela primeiríssima sessão dos Beatles, Emerick atuou como engenheiro assistente em várias gravações da banda entre 1963 e 1965, até que quando seu superior, Norman Smith, foi promovido a produtor, Emerick ascendeu ao cargo de engenheiro de som, estreando na nova função com os Beatles no início das sessões de Revolver (1966), no qual desenvolveu uma série de inovações sonoras, como novas estratégias para gravar baixo e bateria, o uso de fitas em loop e o sistema de ADT, que criava um delay artificial de uma gravação e permitia dar mais corpo ao som de um instrumento ou da voz.
Além de Revolver, Emerick foi o engenheiro nas sessões de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (1967), o álbum mais importante dos Beatles, no qual sua criatividade foi usada à exaustão na criação de artifícios técnicos e sonoros para preencher o disco de efeitos sonoros e inovações, o que rendeu a Emerick seu primeiro Grammy. O engenheiro brigou com a banda nas sessões do The White Album (1968), preferindo se manter longe deles por um tempo até ser chamado de volta um ano depois para trabalhar no álbum Abbey Road (1969), que seria o último gravado pela banda, e também rendeu a Emerick um Grammy.

Com maior afinidade com Paul McCartney, Emerick trabalhou em vários álbuns solo dele, como Band on the Run (1973), pelo qual ganhou outro Grammy, e Flaming Pie (1998), e como engenheiro ou produtor, trabalhou com inúmeros artistas, como Judy Garland, The Hollies, The Zombies, Manfred Mann, Gentle Giant, Jeff Beck, Supertramp, Nazareth, America, Elvis Costello, Art Garfunkel, Ultravox e Nellie McKay. Ele também escreveu um livro sobre suas sessões de gravação com os Beatles, Here, There and Everywhere: Minha vida gravando os Beatles. Ele morreu de um ataque cardíaco fulminante em 2018, aos 72 anos.
Os Beatles se formaram na cidade de Liverpool na Inglaterra, chegando às gravações com a formação com John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, estreando em 1962, e virando um fenômeno cultural em sucesso e aclamação com as composições de Lennon & McCartney e a capacidade de se comunicar com a geração jovem e refletir as grandes mudanças da sociedade dos anos 1960. Conjunto musical de maior sucesso e influência da história, eles gravaram 13 álbuns e duas dúzias de compactos antes de se separarem em 1970, a partir de que todos seus membros seguiram em carreiras solo de sucesso. Lennon terminaria assassinado por um fã com distúrbios mentais em 1980, encerrando a possibilidade de uma reunião, enquanto Harrison faleceu vítima de câncer em 2001.

