Anunciada inicialmente na ComicCon de 2025, foi confirmado de novo que X-Men: Elsewhen, uma fanfic criada pelo aclamado artista John Byrne, será lançada oficialmente em edições impressas com chancela da Marvel Comics. A notícia foi dada pelo Bleeding Cool, que deu o furo primeiro após o artista publicar que “grandes novidades vinham aí”, assim como no Fora do Plástico. É uma grande notícia, pois será a oportunidade dos fãs dos mutantes, do artista ou da Marvel de lerem um material de grande qualidade de um dos quadrinistas mais importantes da história das HQs de super-heróis, retornando aos personagens que ele ajudou a deixar tão famosos. A publicação será realizada pela Abraham ComicArts, a mesma editora que publicou Quarteto Fantástico: Ciclos de Alex Ross.

O grande John Byrne: despedida dos quadrinhos?

Nascido na Inglaterra, em 1950, mas crescendo no Canadá e nos EUA, John Byrne foi uma artista que chegou ao mercado das HQs na metade dos anos 1970, primeiramente, fazendo trabalhos secundários na Marvel Comics – como Punho de Ferro e Os Campeões – antes de estourar para o grande público na revista dos X-Men ao lado do escritor Chris Claremont, entre 1977 e 1981. Dono de um traço elegante e bonito, de beleza plástica clássica e cheio de movimento, Byrne encantou os leitores da época com seu retrato enérgico e fabuloso dos mutantes, e ele também era um escritor, contribuindo com os roteiros ao lado de Claremont. A fase da dupla ainda é considerada a melhor fase dos X-Men em todos os tempos e rendeu HQs clássicas, como A Saga da Fênix Negra e Dias de Um Futuro Esquecido, ambas já adaptadas aos cinemas.

Ciclope tenta salvar sua amada na bela arte de John Byrne.

Byrne também produziu outras passagens marcantes na época, como no Capitão América (ao lado de Roger Stern) e como roteirista e desenhista na superclássica fase do Quarteto Fantástico (entre 1980 e 1986) e no Hulk, antes de se transferir para a DC Comics onde recriou a origem e o universo do Superman pós-Crise nas Infinitas Terras (entre 1986 e 1988). Depois, alternou passagens na Marvel (Vingadores, Mulher-Hulk, Homem-Aranha) e DC (Superman, Liga da Justiça), além de produzir material autoral na Dark Horse Comics. Polêmico, de grande ego e brigão, Byrne terminou minando o próprio espaço no mercado mainstream ao longo da década de 1990, porém, permanece para sempre como um dos artistas mais celebrados da indústria e suas passagens deixaram marcas profundas nos personagens que trabalhou, tanto do ponto de vista criativo (sua qualidade e ousadia) quanto do ponto de vista cronológico (criando grandes arcos, feitos ou marcos).

No caso específico dos X-Men, Byrne sempre guardou bastante rancor, porque o final d’A Saga da Fênix Negra foi alterado pelo então poderoso editor-chefe da Marvel, Jim Shooter, o que também azedou de vez sua relação com Chris Claremont e levou ao fim da poderosa parceria pouco tempo depois. Porém, Claremont continuou a escrever os X-Men por quase uma década depois daquilo, o que causou um grande desgosto em Byrne, que discordava dos rumos que o colega deu à equipe que tanto gostava.

Escrever e desenhar histórias dos X-Men em “Hidden Years” era a realização de um sonho de Byrne. O cancelamento da revista, mesmo com boas vendas, o fez romper definitivamente com a editora.

Essa frustração levou Bryne a voltar aos mutantes algumas vezes… Após a saída de Claremont – numa turbulenta discussão com o editor Bob Harras e o artista sensação Jim Lee (hoje presidente da DC Comics!) que passava a liderar os títulos dos X-Men – Lee convidou Byrne para cuidar dos roteiros e o artista ficou por um curto período, deixando o trabalho porque não era o chefe, mas apenas um “parceiro” para seguir as diretrizes de Lee. Anos depois, Byrne criou X-Men: The Hidden Years (Anos Perdidos), uma saga que preenchia a lacuna de cinco anos (editoriais) entre o cancelamento da revista dos mutantes em 1970 e a retomada de sua publicação com sucesso estrondoso em 1975. Publicado como uma revista mensal pela Marvel, a saga foi cancelada sem aviso prévio após 22 edições, o que deixou Byrne furioso.

Página original de Elsewhen como foi publicada no site do artista em 32 volumes.

Mantendo um site e um fórum na internet desde os anos 1990, o ByrneRobotics, o artista decidiu iniciar a publicação de X-Men: Elsewhen como uma webcomics (publicada apenas na internet|) e fanfic, sem a autorização da Marvel, a partir de 2018. A trama seguia uma linha do tempo imaginária, alternativa à canônica, seguindo exatamente do ponto em que Byrne deixou a revista Uncanny X-Men (no número 143, de 1981) e imaginando o destino que ele daria para aquela história dali em diante. Foram publicados 32 números desenhados a lápis e letramento manual até o ano de 2022, quando encerrou a história.

Exemplo do material finalizado.

Agora, com o acordo com a Abraham ComicArts, a Marvel dá um tipo de chancela oficial à HQ (ainda que não seja a editora quem publique, propriamente) e o material será lançado impresso pela primeira vez, com o bônus de que agora terá finalização em nanquim, colorização e novo letramento e em três volumes de capa dura. Sem dúvida um grande presente para os fãs e um tipo de homenagem a Byrne, pelo reconhecimento da qualidade de seu trabalho, mesmo tendo sido criado à revelia da editora. Segundo informações d’O Vício, o editor-chefe da Marvel, C.B. Celbulski tinha manifestado interesse em publicar diretamente a HQ, mas não concordou com os termos de Byrne. Aparentemente, a Marvel queria a publicação como uma revista mensal, enquanto Byrne preferia que saísse diretamente como encadernados, como será agora. O artista também teria dito que pensa que Elsewhen será sua despedida dos quadrinhos.

Na trama, Jean Grey não é morta ao fim d’A Saga da Fênix Negra – retomando o final original que foi pensado para a saga – e os X-Men precisam investigar um fenômeno estranho na Terra Selvagem, colocando a equipe em rota de colisão com os Sentinelas e também o Quarteto Fantástico e os Vingadores. E ainda desenvolve uma origem totalmente diferente para Wolverine, aquela imaginada pelo artista ainda nos anos 1970, mas nunca executada nas HQs. Não é bom esquecer que foi Byrne (crescido no Canadá, como o herói) quem deu a Logan o papel de protagonista nas revistas, enquanto Claremont queria tirar o personagem do time por não gostar dele! Ainda que o novo material não traga Byrne no auge de sua força, é uma leitura divertida e nostálgica, em vista ao velho estilo de fazer as coisas, sem os maneirismos dos quadrinhos atuais.

X-Men: Elsewhen (01 de 03), com texto e arte de John Byrne, chega às comic shops dos EUA agora no mês de junho de 2026 e também está disponível em pré-venda na Amazon, ao preço de US$ 39,99. Não há previsão de lançamento do material no Brasil, mas a Panini Comics, que republica o material da Marvel em nosso país, lançou Quarteto Fantástico: Ciclos em 2022, pouco depois do lançamento original, portanto, há esperança de que o material chegue às comic shops em versão brasileira.

Quer saber mais sobre a passagem de John Byrne nos X-Men? Veja aqui no supercompleto Dossiê do HQRock sobre os X-Men nos Quadrinhos!