O Homem-Aranha no icônico traço de Gil Kane e John Romita.

O Homem-Aranha está sempre em evidência: suas histórias estão sempre entre as de maior sucesso; e já ganhou uma quantidade de filmes que poucos super-heróis podem igualar. Nos quadrinhos, sua casa original, o “amigão da vizinhança” também sempre foi sucesso e evidência e sua trajetória nesta mídia serve de parâmetro para toda a indústria dos comics. O HQRock traz uma série de posts que irão contar essa história, do ponto de vista editorial e cronológico.

Esta série foi originalmente escrita em 2011, mas foi adaptada e atualizada desde então.

Stan Lee no estilo “jornalista da velha guarda”, em 1965.

Criação Polêmica

Qualquer personagem de vulto ganha holofotes após sua criação e numa mídia coletiva e compartilhada com a dos quadrinhos, é muito comum um grau de disputa sobre quem fez o quê, quem criou o quê; e claro, com o Homem-Aranha não foi diferente. Ainda que Stan Lee seja visto como o “grande criador” de Peter Parker e seu universo, as coisas não são assim tão simples e outros artistas dividem o palco com “o cara” dos quadrinhos, que ficou tão famoso no fim de sua vida ao fazer participações especiais nos filmes que adaptavam os inúmeros personagens da Marvel Comics nas quais teve participação em sua criação.

Ademais, é preciso ressaltar duas coisas: 1) o contexto em que o Homem-Aranha surgiu; 2) o estilo controverso de criação de Stan Lee.

Tocha Humana, Namor e Capitão América numa revista dos anos 1940.

Primeiro, o Homem-Aranha surgiu bem no início da Era Marvel, ou seja, o subperíodo da Era de Prata dos quadrinhos no qual a Marvel Comics – sob a editoria chefe de Stan Lee – emergiu como uma editora diferencial e de sucesso (comercial e de crítica) dentro do então limitado panorama das editoras de HQs. Aí, vale um pequeno parêntese: a Marvel não era uma editora nova, pois fora fundada por Martin Goodman em 1939 sob o nome de Timely Comics, embora sua primeiríssima revista publicada tenha sido Marvel Comics 01 (de modo bem similar à concorrente DC Comics, que surgiu com o nome National Periodicals e seu nome famoso adveio do nome de uma de suas revistas). A Timely fez sucesso na década de 1940 com personagens como Tocha Humana, Namor, o príncipe submarino e o Capitão América; mas como todo o mercado de super-heróis, entrou em declínio ao fim da II Guerra Mundial. Numa tentativa de sobrevivência, a Timely mudou de nome para Atlas Comics nos anos 1950, e quando decidiu investir de novo em super-heróis, a partir de 1961, adotou o nome Marvel Comics. Mesmo com toda essa (pré?)história turbulenta, Goodman se manteve como proprietário e publisher da editora por todo esse tempo e Stan Lee foi seu editor chefe a partir do longínquo 1941, quando tinha apenas 19 anos de idade!

Hulk e Thor foram criados no mesmo ano que o Homem-Aranha: 1962.

A partir de 1961, a “nova” Marvel Comics emplacou uma série de revistas num processo liderado por Stan Lee ao lado de vários desenhistas e colaboradores, por meio das revistas Fantastic Four (Quarteto Fantástico), The Incredible Hulk, Journey Into Mystery (com as histórias de Thor), Tales of Suspense (com histórias do Homem de Ferro), Tales to Astonish (com histórias do Homem-Formiga e Vespa), Strange Tales (com aventuras do Doutor Estranho), Amazing Adult Fantasy (com histórias de fantasia) e várias outras publicadas pela Marvel Comics em 1962. Foi daí que veio o Homem-Aranha, que surgiu nessa última revista no verão daquele ano.

A efervescência da Marvel não se encerrou aí, vindo ainda personagens e revistas como The Avengers (Os Vingadores) e X-Men (1963) e Daredevil (com o Demolidor, 1964), além de trocentos personagens secundários e vilões.

O roteiro de todas essas aventuras eram assinadas por Stan Lee. Mas como isso era possível? Entra aí o ponto 2 que elencamos lá em cima…

A Marvel era uma editora pequena (funcionava em uma única sala no Empire State Building) e ainda não se recuperara da crise mercadológica dos anos 1950, daí que funcionava com criadores contratados sob o regime de free lancer (pagos por serviço). Martin Goodman, o dono, era um famoso “mão de vaca” e viu que era mais barato que o próprio Stan Lee escrevesse os roteiros, negociando um preço menor com ele e algumas compensações, deixando para investir mais nos desenhistas e criar um visual diferenciado à Marvel. Mas tinha uma pegadinha: como era um funcionário, durante o horário comercial, Lee precisava se dedicar à sua função de editor-chefe, e só podia escrever fora do serviço, ou seja, nas noites e nos fins de semana.

Stan Lee e Jack Kirby, dupla de ouro, em 1966.

O tempo limitado para escrever tantas revistas levou Lee a criar o que ele batizou de Método Marvel: Lee criava uma sinopse curta e geral da histórias (duas páginas ou dois parágrafos de texto) e entregava isso ao desenhista para desenvolver a narrativa apenas com imagens. Com a história desenhada entrava em ação o Stan Lee editor – solicitando ajustes, modificações, adequações estéticas etc. – e, com a aprovação, Lee voltava para escrever os diálogos da história. Isso exigia, obviamente, que o desenhista fosse capaz de desenvolver uma narrativa gráfica e tivesse noções de roteiro, de atos etc. Nem sempre dava certo, é verdade, mas mesmo na aurora da Marvel, Lee encontrou alguns artistas que se adaptaram maravilhosamente (perdão) ao estilo, como Jack Kirby e Steve Ditko.

Com o sucesso inaugural do Quarteto Fantástico, Goodman exigiu que Lee criasse uma nova leva de heróis e o escritor-editor precisava estar o tempo todo com ideias na cabeça para novas criações. E veio o Homem-Aranha!

A capa de “Amazing Fantasy 15”, de 1962, com a primeira aparição do Homem-Aranha. Arte de Jack Kirby.

A ideia original para a criação partiu de Lee. Ele concebeu um novo personagem que fosse diferente dos demais: mais humanizado, uma pessoa normal, com problemas comuns como falta de dinheiro, problemas familiares, só que em meio a tudo isso, tivesse superpoderes e combatesse o crime. E também não fosse um cara popular, mas perseguido no colégio, sem sorte com as mulheres, não fosse extremamente bonito nem musculoso. Por fim, o fato de ser um adolescente também era um novidade, afinal, os heróis eram sem exceção pessoas adultas. Os adolescentes eram apenas sidekicks ou “parceiros mirins“, como aqueles da concorrente DC Comics (Robin, Kid Flash, Moça-Maravilha etc.). Pronto, o maior filão do personagem estava estabelecido. Depois, decidiu que o personagem deviase chamar Spider-Man e tivesse os poderes relativos a uma aranha: escalava paredes, poderia levantar dezenas de vezes o próprio peso e teria grande agilidade.

Mas desde o início, o personagem enfrentou problemas para ser lançado. O dono da Marvel, Martin Goodman, não gostou da nova ideia, pois as aranhas são animais terríveis que as pessoas detestam e isso iria influenciar o gosto delas pela personagem. Porém, Lee conseguiu uma chance (afinal tinha emplacado várias revistas de boa vendagem): poderia lançar essa nova criação em uma revista que estava com a data de cancelamento marcada: Amazing Fantasy, que publicava histórias de fantasia e estava com baixas vendas.

Para desenhar e desenvolver o seu novo personagem, Lee contatou o companheiro Jack Kriby, seu parceiro na criação de Quarteto Fantástico, Thor e Hulk, e Kirby começou a desenhar a história, um conto previsto para ter apenas oito páginas.

Steve Ditko também fez uma versão para a capa de “Amazing Fantasy 15”, mas ela não foi publicada.

Existe muita controvérsia sobre quem fez o quê no momento da criação. O certo é que ao examinar as primeiras páginas desenhadas por Kirby, Lee não gostou do que viu: o Homem-Aranha estava musculoso demais e a história escrita pelo desenhista fugia do propósito original. Alguns dizem que tratava-se de uma ficção científica nos moldes do Lanterna Verde da DC. Por sua vez, Kirby se baseou em outros dois personagens que havia criado anos antes, chamados The Silver Spider e The Fly, de onde retirou características como os poderes relacionados a insetos e até a história de um órfão criado por um casal de tios idosos.

Lee queria modificar o material, todavia, naquela altura, Kirby não podia mais voltar atrás, afinal, já desenhava outros títulos e não tinha mais tempo para desenhar a história antes da última edição de Amazing Fantasy. Então, Lee repassou o trabalho para outro desenhista: Steve Ditko.

Autoretrato de Steve Ditko nos anos 1960.

Enquanto Kirby era uma estrela, um veterano dos anos 1940 que já fora um dos cocriadores do Capitão América (em 1941) e fizera sucesso com vários personagens em várias editoras, Ditko era um sujeito mais discreto, pouco sociável e recluso. Ele não compartilhava do estilo espalhafatoso e ávido de atenção de Stan Lee, mas os dois conseguiam trabalhar bem: Ditko também criou o Doutor Estranho e desenhou histórias do Hulk e do Homem de Ferro.

Os fãs disputam quem criou o uniforme do Homem-Aranha, se Ditko ou Kirby. O primeiro afirmou que o uniforme criado por Kirby era uma malha tradicional de super-herói, inclusive com botas de bucaneiro (uma de suas marcas) e capa, além de usar uma pistola. Ditko disse que criou o uniforme expressivo do personagem, mas a dúvida permanece, já que a capa da primeira revista com a aparição do Homem-Aranha foi feita por Kirby, com o herói segurando um bandido nos braços enquanto se balança em sua teia. Além disso, nas poucas vezes em que desenhou o aracnídeo, Kirby fazia o uniforme com algumas distinções: no traço original de Ditko as teias desenhadas no peito deixavam um quadrado em aberto dentro do qual se localizava o símbolo da aranha negra, enquanto na versão de Kirby a aranha está por cima das teias como se desenha até hoje; os olhos da máscara do herói também eram ligeiramente diferentes.

spider-man design by jack kirby
O pretenso visual do Homem-Aranha de Jack Kirby. 

Nos anos 1990, o recluso Steve Ditko veio a público para esclarecer a questão, escrevendo um longo artigo em que detalhava como se deu a criação do Homem-Aranha em sua versão. Segundo Ditko, a versão de Kirby do personagem era uma ficção científica na linha do Lanterna Verde da DC Comics, com o herói usando uma pistola que disparava teias. Inclusive, o artista divulgou uma imagem do que seria o visual do Aranha por Kirby, totalmente distinto daquele pelo qual o herói ficou famoso, que teria sido criado por Ditko.

De fato, o Homem-Aranha parece mais com as criações de Ditko do que as de Kirby, mas o papel deste na criação do mais famoso personagem da Marvel não deve ser ignorado. Além disso, esta nem é a única disputa Kirby-Ditko sobre criação de visuais: há outra menos famosa sobre a armadura clássica do Homem de Ferro (veja mais detalhes aqui no dossiê do HQRock sobre o vingador dourado).

É possível perceber, contudo, que o esboço de Kirby deixou algum legado também no visual do herói, a começar pela combinação das cores vermelho e azul. A ideia da cor vermelha estar na máscara e nos ombros, mas não se estender aos braços, por exemplo, já estão no visual de Kirby; assim como o símbolo da aranha no centro do tórax; e o uso de lentes nos olhos em vez da tradicional máscara com abertura. Ainda que de forma sutil, Ditko reaproveitou essas ideias em seu visual arrojado e inovador do Homem-Aranha.

De qualquer forma, o Homem-Aranha teve a sua primeira história publicada na revista Amazing Fantasy 15, de agosto de 1962, a última edição dessa revista. Ironicamente, essa foi a revista da Marvel que mais vendeu naquele ano. E a criação do personagem é creditada tradicionalmente a Lee e Ditko apenas.

Os Criadores

Não podemos esquecer a contribuição de Jack Kirby, mas realmente, Stan Lee e Steve Ditko foram as vozes que criaram e desenvolveram o Homem-Aranha. Vale à pena conhecê-los rapidamente antes de aprofundarmos no personagem em si.

O jovem Stanley Lieber em sua bicicleta.

Nascido Stanley Lieber em 1922, Lee foi um menino prodígio, demonstrando talento para a escrita, ganhando concursos promovidos pelos jornais, mas vinha de uma família empobrecida de judeus emigrados do Leste Europeu, morando no pobre Brooklyn e trabalhando desde criança para ajudar em casa. A grande sorte do jovem Stanley foi que uma prima sua casou com Martin Goodman, um homem que enriqueceu no contrabando (oops!) da Era da Lei Seca, e precisou lavar dinheiro na empreita de publicação de revistas em papel barato – a chamada literatura pulp. Quando os quadrinhos emergiram como um mercado mais dinâmico e popular no fim da década de 1930, Goodman fundou a Timely Comics para surfar na onda, em 1939, a editora que adotaria o nome Marvel 22 anos depois.

Um Stan Lee bem jovem em começo de carreira.

Lieber foi empregado na Timely aos 17 anos de idade como um “faz tudo”, assistente da equipe de editores formada por Joe Simon (editor-chefe) e Jack Kirby (editor de arte), dupla que criaria depois o Capitão América, em 1941. Após anos atendendo ao telefone, levando recados e apagando excessos da arte em lápis, Simon percebeu que o rapaz gostava de escrever e, num momento generoso, ofereceu a Stanley a oportunidade de escrever um conto em duas páginas estrelados pelo Capitão América para ser publicado em Captain America Comics 03, de 1942 – pois era obrigatório publicar textos. A partir disso, se tornou parte do staff de escritores do Capitão América e outros personagens da editora. Sonhando em ser um “escritor sério”, Lieber decidiu manter seu nome verdadeiro para essa outra empreitada e adotou o pseudônimo Stan Lee.

Meses depois, Simon e Kirby foram demitidos (porque estavam escrevendo para outras editoras em segredo) e, na ausência de um editor-chefe para assumir o comando da redação, Goodman indicou Lee para o cargo quando tinha apenas 19 anos! Era para ser temporário enquanto encontravam alguém mais adequado e experiente, mas Lee ficou no cargo por 30 anos! Na primeira metade de sua carreira, Lee se dedicou mais à edição e não construiu um repertório de criações famosas, embora tenha continuado a escrever anonimamente histórias do Capitão América, por exemplo.

A grande virada de sua vida foi quando viu que iria chegar aos 40 anos e ainda não tinha realizado seus sonhos nem virado um grande escritor, e pensou em se demitir da então Atlas Comics (novo nome da Timely), até que Goodman lhe pediu que criasse uma nova linha de super-heróis para concorrer com a Liga da Justiça da DC Comics, e sob o incentivo da esposa que disse: “faça o quadrinho que sempre sonhou. Se der errado, você já ia pedir demissão mesmo!”. O Quarteto Fantástico foi um enorme sucesso e o resto é história…

Steve Ditko nasceu na Pensilvânia em 1927 e ingressou na carreira dos quadrinhos em 1952 (aos 25 anos) na empresa que Joe Simon e Jack Kirby criaram ao serem demitidos da Timely. Em 1958, ele migrou para a Atlas/Marvel e começou a trabalhar com Stan Lee em quadrinhos de faroeste, policial e de fantasia. Quando Lee e Kirby começaram a lançar a nova linha de quadrinhos (Quarteto Fantástico, Hulk, Thor etc.), Ditko foi entrando aos poucos. Depois de ingressar nesse mundo criando o Homem-Aranha, Lee viu que podia contar com ele para isso e, além de trabalhar como assistente de Kirby nas histórias do Hulk, Ditko propôs o Doutor Estranho para Lee, que o publicou em Strange Tales, e seguiu trabalhando nas suas duas criações, além de também com o Hulk e o Homem de Ferro.

Diferente de Lee, Ditko tinha uma personalidade retraída e discreta e era um outsider à sua maneira. A ambientação colegial de um CDF perseguido pelos colegas e sem sucesso com as mulheres que imprimiu a Peter Parker, muito provavelmente tomaram sua própria experiência como inspiração. Historiadores encontraram uma fotografia de Ditko no anuário de sua escola e ele é a cara de Peter Parker!

Um Herói Diferente

Lee e Ditko criaram Peter Parker como um nerd que sofre bullying na escola. Flash Thompson e Liz Allen à esquerda. A morena é Sally.

Na primeira história do Aranha, em Amazing Fantasy 15, o jovem estudante colegial Peter Parker é mostrado como um órfão, criado pelos amorosos tios Ben e May Parker, enquanto é um aluno brilhante, mas escorraçado pelos colegas “populares”; e é picado por uma aranha que, acidentalmente, foi bombardeada por radioatividade, durante uma exposição de ciências. Com o passar do tempo, o jovem passa a desenvolver as habilidades de uma aranha verdadeira: possui superforça, dá enormes saltos e pode escalar as paredes, além de ter um sexto sentido que lhe alerta dos perigos.

May e Ben com Peter. Arte de Steve Ditko.

Empolgado com as novas habilidades, cria a identidade de Homem-Aranha para ganhar partidas de luta livre e passa a se apresentar em programas de TV como uma sensação. O sucesso é imediato. Num dia, porém, ele deixa escapar da emissora um ladrão que a assaltou, por dizer que o problema não era dele.

Pouco depois, seu tio Ben Parker, que o criou como se fosse um filho, é assassinado em um assalto comum. Um vingativo Peter parte vestido de Homem-Aranha em busca do assassino apenas para descobrir que é o mesmo ladrão que ele havia deixado fugir. Daí, ele se lembra da máxima do tio: “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Então, passa a se dedicar ao combate ao crime, enquanto cuida de manter sua identidade secreta, para poupar a sua Tia May, que é toda a família que lhe resta. Além disso, ela é doente do coração e qualquer choque lhe pode ser fatal. A história curta de oito páginas em que isso ocorre tornou-se um grande sucesso.

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Capa de Amazing Spider-Man 01. Arte de Jack Kirby.

Amazing Fantasy tem data de capa de agosto de 1962, então, demorou alguns meses para Stan Lee perceber o sucesso que ela havia sido. Quando chegaram os relatórios de vendas, ficou evidente que era necessário criar mais histórias do jovem aracnídeo. E Lee decidiu fazer isso em grande estilo: criando uma revista própria para ele. Mas a Marvel era uma editora pequena e não tinha uma distribuidora, tendo, portanto, um limite de alguns títulos mensais que podiam ser lançados. Por isso, a revista The Incredible Hulk (que não vinha vendendo tão bem) foi cancelada em seu sexto número para dar lugar à casa do escalador de paredes. Com isso, The Amazing Spider-Man 01, chegava às bancas com data de capa de março de 1963, sete meses após sua estreia.

Para não ter uma surpresa desagradável, Lee não arriscou e, na capa da nova revista, colocou o Quarteto Fantástico fazendo uma participação especial, para que os leitores deles se interessassem também pela nova e as vendas aumentassem. Na época, o Quarteto era o maior sucesso da editora. Assim como em Amazing Fantasy, a capa de Amazing Spider-Man 01 também foi de Jack Kirby e não de Ditko, porque aquele era o principal capista da Marvel.

Ainda assim, uma análise cuidadosa das primeiras aventuras do aracnídeo dá para perceber que Lee e Ditko produziram mais capítulos do personagem para serem publicados ainda em Amazing Fantasy (ou em outra das revistas que publicavam várias histórias, como Tales of Suspense) caso esta não fosse cancelada. Daí que as edições 01 e 02 de Amazing Spider-Man tinham duas aventuras (uma longa outra curta) justamente por isso.

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O Homem-Aranha na arte de Steve Ditko.

A Fase de Lee e Ditko

A primeira fase do Homem-Aranha foi dedicada a criar seu universo ficcional e um dos períodos mais profícuos do personagem, cheio de momentos clássicos. A influência desse trabalho em outros artistas (contemporâneos e futuros) também foi enorme. A dupla Stan Lee e Steve Ditko escreveu as primeiras 38 edições da revista Amazing Spider-Man, publicadas entre março de 1963 e maio de 1966, mais duas edições anuais (em 1965 e 1966, respectivamente).

Boa parte dessas histórias apresentou as primeiras aparições dos grandes vilões do Homem-Aranha: Camaleão, Consertador, Abutre, Dr. Octopus, Lagarto, Electro (numa aventura que traz de brinde um confronto entre o Aranha e o Tocha Humana), Mysterio, Duende Verde, Kraven e Homem-Areia, sem contar os confrontos com vilões da Marvel que já existiam, como Dr. Destino (o arquiinimigo do Quarteto Fantástico, que fez outra participação especial), Cabeça de Ovo (inimigo do Homem-Formiga) e o Circo do Crime (este em uma aventura conjunta com o recém-criado Demolidor). Tudo isso somente nas 18 primeiras edições de Amazing. Depois, outros vilões clássicos continuariam a surgir, como Escorpião, Magma, Smithy e os Esmaga-Aranha etc.

O Abutre era outro vilão bastante recorrente.

Outros personagens incluídos nessa época foram: o eterno antagonista J. Jonah Jameson, editor-chefe do Clarim Diário, que destila veneno contra o balançador de teias em seus editoriais desde Amazing 01; Betty Brant, a primeira namorada de Peter Parker, mais velha, era a secretária de J.J.J (ASM 04).; Flash Thompson, o galã do colégio Middletown Hugh School onde Peter estuda e é o cara que inferniza a sua vida, ao mesmo tempo em que é o maior fã do herói aracnídeo (AF 15); e Lizz Allen, a musa do colegial, namorada de Thompson e que depois se interessaria por Parker (AF 15).

As primeiras histórias justificavam o fato de Peter manter sua identidade secreta por dois motivos: os editorais explosivos de Jameson, que faziam o Homem-Aranha ser tratado como um criminoso; e o fato de sua Tia May sofrer de uma doença cardíaca séria (revelada já em ASM 01) e poderia morrer com o choque da descoberta. Ao mesmo tempo, a pensão deixada por Ben não é o suficiente para mantê-los, o que é agravado pelo caro tratamento (e remédios) de May. Então, Peter precisa desesperadamente de um trabalho de meio-período que não o atrapalhe na escola. Então, tem a “brilhante” ideia de fotografar a si mesmo (ou seja, o Aranha) quando vê um anúncio no Clarim Diário oferecendo dinheiro por imagens exclusivas da “ameaça mascarada”, como vemos em Amazing 04.

Criando um Universo Particular

Porém, vejamos alguns dos desenvolvimentos iniciais do herói aracnídeo… Amazing Spider-Man 01 traz duas histórias: na primeira, Peter precisa lidar com as consequências da morte do Tio Ben, seus problemas financeiros, a doença da Tia May e os problemas de sua identidade secreta. Além de não conseguir retirar seu dinheiro – porque o banco não aceita pagar uma pessoa mascarada – Parker se desespera ao ver seu nome ser jogado na lama pelos editoriais incendiários de J. Jonah Jameson, ao mesmo tempo em que o editor-chefe do Clarim Diário louva o próprio filho, o astronauta John Jameson. Ironicamente, o módulo espacial do jovem Jameson sofre um problema e ele está prestes a morrer quando é salvo pelo Homem-Aranha. É uma boa oportunidade de vermos o herói explorando as habilidades de sua teia sintética pela primeira vez. Na segunda história, ainda buscando uma forma de ganhar dinheiro, o Homem-Aranha vai em busca do Quarteto Fantástico para se oferecer como membro, mas descobre que eles não ganham salários, ao mesmo tempo em que seu nome é difamado por um vilão capaz de assumir a aparência de outras pessoas, o Camaleão.

ASM 02 também traz duas aventuras, com o primeiro grande super-vilão da galeria aracnídea: o Abutre. Adrian Toomes é um engenheiro genial que após ser demitido projeta um planador incrivelmente avançado para realizar crimes. A oposição entre a velhice sorumbática de Toomes e a juventude de Parker virou um tipo de emblema e Ditko explorou bastante a silhueta assustadora do vilão como uma criatura de medo e morte. Na segunda história, o Aranha enfrenta o Consertador, um genial criador de aparelhos eletrônicos. A revista ainda tem duas inovações editoriais: nela, foi a primeira vez em que apareceu aquele quadrado no topo do lado esquerdo dando destaque ao dono da revista, uma prática que rapidamente se tornou padrão em todas as HQs. A ideia do quadradinho foi de Steve Ditko e Stan Lee gostou tanto da ideia que mandou Jack Kirby fazer o mesmo, aparecendo em seguida em Fantastic Four 14. A outra questão foi a modernização do logo da revista, criado por Sol Brodsky e Artie Simek a partir da versão anterior.

As coisas começam a ficar mais quentes em ASM 03, com a estreia do Doutor Octopus, se notabilizando como o primeiro a dar uma surra no Homem-Aranha. Abalado, Peter pensa em desistir da carreira heroica, mas assiste a uma palestra motivacional do Tocha Humana (aparecendo pela segunda vez na revista) e decide tentar de novo, dessa vez, planejando sua ação contra Octopus e usando o cérebro para derrotá-lo. Essa história firmaria o velho Otto Octavius como o principal vilão aracnídeo nesses primeiros tempos. A revista trouxe ainda uma outra novidade: nesta edição estreou a seção de cartas Spider’s Web, com duas páginas de mensagens dos leitores.

Outro elemento interessante dessas primeiras edições de Amazing é que Lee e Ditko constantemente premiavam os leitores com posters, pin-ups e diagramas explicativos, mostrando detalhes da máscara ou dos disparadores de teia do Aranha, por exemplo.

Betty Brant será a primeira paixão de Peter.

O Homem-Aranha enfrenta outro inimigo no nível alfa com o Homem-Areia em Amazing 04, uma edição também importante por trazer a estreia de Betty Brant, a jovem secretária de J. Jonah Jameson no Clarim Diário. Um pequena faísca se acende entre ela e Peter, que a acha bonita e altiva, já que ela tem a coragem de peitar Jameson e, inclusive, chega a dizer que o editor está com ciúmes da fama do Homem-Aranha.

Jameson e seus editoriais infernizavam a vida do escalador de paredes desde o número 01 da revista, mas Peter só chega ao Clarim nesta edição 04, quando tem a ideia de tirar fotos de si próprio e vendê-las ao Clarim, atendendo à chamada por imagens exclusivas. A carreira fotográfica de Peter – o que o colocava em um campo profissional bastante familiar aos super-heróis dos quadrinhos (vide o Clark Kent do Superman) se tornou um elemento central da vida cotidiana do personagem. Em ASM 05 aparece o Doutor Destino, o arqui-inimigo do Quarteto Fantástico, o que é mais uma desculpa para o grupo de heróis aparecer de novo na revista e termos mais uma interação explosiva entre o cabeça de teia e o Tocha Humana. Na edição 06 temos a estreia do Lagarto, quando Jameson e Peter viajam para a Flórida em busca de notícias sobre o monstro que aterroriza os Everglades.

O Abutre se torna o primeiro dos vilões do Aranha a aparecer uma segunda vez em ASM 07. Esta é uma edição importante ao desenvolvimento do relacionamento entre Peter e Betty. Primeiro, quando o aracnídeo machuca o braço após uma primeira luta com Adrian Toomes e Betty pergunta preocupada o que houve, o rapaz lhe responde que foi jogando Vôlei, mas ela duvida disso e ele lhe diz em brincadeira: “foi no ar, lutando contra o Abutre”; no que ela se conforma: “Certo, uma pergunta idiota, uma resposta idiota”; e ele pede que ela aceite a versão do Vôlei.

O curioso é que essa “revelação” de algum modo aproximava Peter do Aranha, uma sombra que iria atormentar o futuro relacionamento dos dois, mas dentro de um contexto narrativo fazia algum sentido, já que Parker vivia de tirar fotos do escalador de paredes.

Mas a história termina com o Abutre tentando atacar o Clarim Diário e Betty descobre que tem sentimentos por Peter ao vê-lo em perigo. No fim das contas, Peter e Betty terminam em baixo de uma mesa e vemos um momento de carinho entre os dois, o que pode ser tomado como o início do namoro dos dois (pelo menos pelos padrões dos anos 1960).

Amazing 08 é uma edição curiosa não somente porque trouxe duas histórias como as primeiras, mas por seu conteúdo. Na história principal, o Homem-Aranha tem que lidar com o Cérebro Vivo um robô avançado que se descontrola dentro da Middletown High School, mas o foco principal da trama não é este, e sim, uma partida de boxe entre Peter e o rival Flash Thompson. Embora fosse o maior fã do Aranha, Thompson fazia bullying com a identidade civil do herói e o desafia à luta no ringue. Não seria do feitio do CDF Parker aceitar o desafio, mas irritado e com os nervos a flor da pele com o que vinha acontecendo em sua vida, Peter aceita. No ringue, percebe que um único soco bem dado poderia matar seu colega, por causa de sua super-força, e na primeira tentativa (tentando fazer o soco sair fraco) já quase o derrubou. No fim das contas, quando o Cérebro Vivo invade o ginásio, Flash se distrai com um grito de socorro no meio de um movimento de Peter que termina acertando o rival com alguma força e Flash é nocauteado.

No meio da confusão, os estudantes não perceberam muito bem o que aconteceu e Peter salva Flash discretamente e derrota o robô. Mas é fato que – mesmo inacabada – a partida mudou significativamente o status quo de Parker dentro da turminha do colégio. Flash passa a respeitá-lo um pouco mais e diminui um pouco o bullying, enquanto a namorada (e em breve ex) de Thompson, Lizz Allan, passa a ver Peter sob uma ótica diferente.

A segunda história de ASM 08 é curiosa não somente porque traz um confronto direto entre o Homem-Aranha e o Tocha Humana, mas porque é desenhada por Jack Kirby. Foi a primeira – e única – vez em que Kirby realmente desenhou uma história do Aranha (embora tenha usado o personagem em algumas ocasiões, em histórias do Quarteto Fantástico, dos Vingadores, dos X-Men, do Demolidor etc.). É bem provável que Kirby tenha desenvolvido a história como um tipo de bônus para Fantastic Four ou para a revista especial Annual, ou mesmo, que tenha sido pensada originalmente como uma das aventuras solo de Johnny Storm que era publicadas em Strange Tales. E provavelmente, Lee achou por bem colocá-la em Amazing como mais uma forma de atrair a atenção dos demais leitores da Marvel (o Quarteto era a publicação mais popular da editora) ao espetacular Homem-Aranha.

Na trama, o cabeça de teia termina sem querer em uma festa da namorada do Tocha Humana e logo a rivalidade “quem é o melhor” entre os dois jovens heróis se inflama, levando a uma luta verdadeira entre eles. No fim, a dupla termina em uma praia, em que os demais membros do Quarteto estão descansando e o trio remanescente termina se metendo na disputa para que parem de brigar e tudo termina bem.

Amazing 09 traz outro vilão que – tal qual Octopus e Areia – impõe uma primeira derrota ao Aranha: o Electro. Dotado de poderes de eletricidade, fica difícil ao cabeça de teia de encontrar uma maneira de vencê-lo, só conseguindo depois de descobrir uma forma de se isolar com borracha. Mas a subtrama da edição é ainda mais importante, com Tia May adoecendo mais gravemente trazendo a necessidade de uma cirurgia. Ao ver Peter todo preocupado e cuidadoso com a tia que lhe criou como uma mãe, Betty fica extremamente tocada e se descobre apaixonada por ele.

O namoro Peter e Betty causou algumas reações curiosas desde sempre. Afinal, se era ela a secretária principal do maior jornal de Nova York e Peter um estudante colegial de 16 anos, ficava implícito que ela era mais velha. Após algum tempo, Stan Lee e Steve Ditko parecem ter se apercebido desse detalhe e foram revelando que a mãe dela havia trabalhado no Clarim e morreu, e Jameson lhe ofereceu o emprego, que ela aceitou e abandonou a escola por isso. Talvez isso justifique porque Ditko mudou tão radicalmente o corte de cabelo dela: aparecendo inicialmente com cabelos curtos e cacheados em suas primeiras aparições (parecendo uma mulher), logo ganhou um visual de cabelos lisos e franja, mais jovial. Mas no futuro distante, outros escritores terminariam por aceitar que Betty era pelo menos um pouco mais velha do que Peter.

Um Herói Mais Pé no Chão

O Homem-Aranha representa uma revolução nos quadrinhos, porque foi a primeira vez que um super-herói foi tratado de maneira humana, quase realista (dentro dos limites possíveis), com uma vida cotidiana, problemas pessoais (falta de grana, má sorte com as garotas, doenças corriqueiras como gripe e resfriado e a tia sempre doente), o que levava a grandes doses de profundidade psíquica. Peter Parker tinha até problemas de caráter em alguns momentos! Não é à toa que, apesar das HQs sempre terem sido relacionadas às crianças, as revistas da Marvel, e do cabeça de teia em particular, encontraram seu grande público nas universidades! O que fica claro pela seção de cartas publicadas na própria revista e no impacto cultural do personagem, o que rendeu comentários na imprensa séria da época.

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Tia May: problemas comuns. 

A produção da revista não era um mar de rosas, contudo. Lee e Ditko discordavam demais dos direcionamentos do título. Foi de Stan Lee a ideia da caracterização mundana de Peter Parker, mas o escritor gostava de aventura, além do drama, puxando para que o personagem tivesse histórias mais fantásticas de vez em quando. Um caso célebre foi a pequena história contra o Consertador, mostrada em Amazing Spider-Man 02, na qual no fim o escalador de paredes descobre que o genial cientista do crime era na verdade um alienígena.

Isso corroeu Steve Ditko por dentro, que se tornou muito controlador em cima do personagem que tinha cocriado. O artista ficou obcecado com o realismo em torno do mundo do Homem-Aranha, de modo que não permitiu jamais que outro conto daquele tipo tivesse espaço na revista do herói. Assim, enquanto Lee ia bolando roteiros mirabolantes em torno dos grandes vilões que iam surgindo na revista, Ditko ia puxando para que as aventuras fossem cada vez mais pé no chão e realistas dentro do possível.

Amazing_Spider-Man_Vol_1_10_Variant
Capa da edição 10: bandidos comuns. 

A disputa entre os dois artistas não era exatamente equilibrada: Stan Lee era o editor-chefe da Marvel. Contudo, como grande editor que era, Lee soube reconhecer a perspectiva de seu desenhista. Na medida em que Amazing Spider-Man ia mostrando ser a segunda revista de maior sucesso da editora (atrás apenas do Quarteto Fantástico), Lee foi dando mais espaço para visão de Ditko. Por isso, a partir da edição 10, a dupla mudou o modus operandi de trabalho: a partir de então, era Ditko quem tinha o papel de formular os conceitos básicos da história, discuti-los com Lee (pois este também era o editor) e fazer todo o desenho. Em seguida, Lee avaliava o material, mandava fazer correções ou mudanças que achasse ser necessário e, por fim, escrevia os diálogos e os quadros de narração.

Steve Ditko: principal força motriz do Aranha nos primeiros tempos.

Os leitores provavelmente não notaram a mudança, mas não é coincidência que justamente Amazing Spider-Man 10 é o ponto de partida de um tema que se tornaria cada vez mais comum na publicação: o crime organizado. O Homem-Aranha se lançava contra um vilão chamado O Maioral, que tentava controlar as gangues e sua identidade era revelada como Federick Foswell, um dos jornalistas policiais do Clarim. O bandido ainda usa o trio dos Executores (Enforcers) como auxiliares, grupinho que apareceria com bastante frequência na fase Lee-Ditko: Montana, que usava o laço como arma (sério?); Touro, fortão e burro; e Dan Fancy, baixinho e saltador. De onde esses caras seriam uma ameaça ao crime organizado é algo a se refletir até hoje…

Também nesta edição, Peter é obrigado a realizar uma transfusão de sangue para que May não morra, algo que trará consequências em breve!

ASM 10 deixa um gancho para edição seguinte porque os bandidos estão interessados em Betty Brant, então, Amazing 11 traz o triunfal retorno do Doutor Octopus (o segundo vilão a retornar). Atendendo ao estilo “mundano” tão em gosto por Ditko (e por Lee também, é justo dizer), é revelado que Octavius cumpriu sua sentença (seus crimes na aparição anterior foram bem leves, é verdade). Mas o escalador de paredes sente que Otto irá voltar aos crimes, então, cria um aparelho para rastreá-lo até pegá-lo no flagra. Daí, nascem os ratreadores-aranha, pequenos localizadores que o herói passa a usar dali em diante. Porém, o herói ainda não era hábil para rastreá-los pelo próprio sentido de aranha, mas usa um artefato eletrônico tradicional para captar o sinal.

Todavia, o vilão é apenas uma “desculpa” para movimentar outra trama mais importante: Peter percebe que Betty está agindo estranha e desconfia que ela está envolvida com o crime até descobrir a verdade – a moça tentava proteger o irmão, Bennett Brant, que adquiriu dívidas com o jogo na Philadelphia (terra natal deles) e contrata Octopus para libertar o gangster Blackie Gaxton da cadeia. No fim das contas, Gaxton decide matar Bennett e Betty e o Homem-Aranha interfere para salvá-los. Infelizmente, Bennett é baleado e morre e uma enraivecida Betty culpa o herói por isso, passando a odiá-lo!

A jogada de fazer a namorada do herói odiar seu salvador foi uma tacada genial (provavelmente de Ditko, que cuidava do direcionamento da revista), porque invertia ao oposto do que normalmente ocorria com os personagens dos quadrinhos a partir do paradigma de Clark Kent e Lois Lane: a mocinha apaixonada pelo herói não dá bola à sua identidade civil. Ao gosto de Lee, sem dúvida, tal movimento trouxe mais drama às histórias, pois agora, davam outro motivo para Peter guardar bem sua identidade secreta. Esse recurso da namorada raivosa com o herói seria imitado na própria revista, no futuro, com Gwen Stacy.

Mas Octopus teria sua chance de brilhar. O vilão de oito braços prossegue em ASM 12, retornando a Nova York em busca de vingança contra o Homem-Aranha. Como o herói salvara Betty Brant, Otto vai raptá-la no Clarim Diário e pede a Jameson um anúncio marcando a batalha para o parque vizinho (presumivelmente, o Central Park). Porém, a sorte de Parker está no ar: o herói está resfriado e, por causa disso, seus poderes estão desaparecendo. Ainda assim, pensa que não tem outra alternativa se não salvar a namorada e vai ao encontro do vilão. Ao chegar, Peter está totalmente sem poderes e, obviamente, é um alvo fácil para Octopus, que o vence sem nenhuma dificuldade e tira a sua máscara!

Mas ao ver que é apenas um adolescente e vendo que o venceu sem esforço, Otto pensa que se trata de um embuste e vai embora. Betty, Jameson e a polícia veem a cena, mas todos também presumem o “óbvio”: que Peter se fantasiou de Aranha para tentar salvar Betty. Todos acham que o que ele fez foi estúpido e arriscado. No dia seguinte, o resfriado passou e com seus poderes, Peter confronta Octopus e o entrega à polícia. Todavia, a ação teve uma consequência: ao saber do que houve, Liz Allan ficou encantada e se interessa repentinamente por Peter, convidando-o para sair. Peter recusa, manda ela ficar com Flash Thompson e diz que está namorando Betty.

Ah, e é importante marcar: é em ASM 12 que Betty estreia seu novo corte de cabelo, com fios lisos e franja, dando-lhe um ar mais jovial. E o visual com o qual passaria a ser representada nos quadrinhos pelas próximas cinco décadas.

Amazing 13 traz a estreia de outro vilão que derrota o Homem-Aranha em seu primeiro encontro: Mysterio. Na trama, a imprensa começa a noticiar que o escalador de paredes está roubando bancos e cometendo crimes, o que deixa Peter Parker perplexo e até duvidando de si. Isso o leva a não tirar fotos e as dívidas começam a se acumular, com as despesas médicas da Tia May. Ao pedir um empréstimo a Jameson, este o manda tirar fotos. Então, Mysterio aparece no Clarim e pede ao editor publicar um desafio contra o Homem-Aranha e confrontá-lo na Ponte do Brooklyn. O cabeça de teia vai, mas é derrotado pelos “poderes fantásticos” do cabeça de aquário.

Mysterio volta ao Clarim e Jameson pede a Peter que bata uma foto dele com no novo herói, o que o jovem faz, mas deixa um rastreador-aranha no vilão. Seguindo o sinal, o Aranha confronta Mysterio e descobre que ele era um operador de efeitos especiais de cinema, daí enganar a todos com ilusionismo.

Em paralelo, na trama colegial, Lizz Allan também ganha um novo visual – de novo mais em gosto aos anos 1960 – e continua suas investidas em Peter. A iniciativa não passa despercebida por Betty e Ditko e Lee começam a brincar com o humor em torno do antes azarado Peter agora ser disputado de modo férrico por duas belas mulheres. Nesta ocasião, enquanto Flash Thompson arma a criação de um fã clube do Homem-Aranha, Lizz comenta que Betty ganhou peso e a chama de “senhorita Brant”, trazendo de novo elementos de que a secretária do Clarim era mesmo mais velha do que Peter e sua turma.

Stan Lee dedicava certo espaço para o desenvolvimento da vida pessoal de seus personagens (como o Homem de Ferro ou Thor), mas nada era parecido com o que acontecia com o Homem-Aranha, que tinha sua vida civil explorada em detalhes e de modo profundo nas revistas, o que provavelmente era algo que divertia bastante Ditko e devia lhe lembrar de seu passado ilustrando revistas de romance. Isso era totalmente distinto do que a concorrente DC Comics fazia, nas quais a vida pessoal de seu heróis eram apenas “notas de rodapé” nas histórias e mesmo suas namoradas estavam muito mais envolvidas com os heróis mascarados do que suas identidades secretas.

Um novo capítulo para o Homem-Aranha se inicia em Amazing Spider-Man 14, lançada em julho de 1964. Nela temos a estreia daquele que será o maior vilão do período clássico do herói: o Duende Verde. Infelizmente, o começo é com o pé esquerdo… Lee e Ditko entregam uma aventura absolutamente sem pé nem cabeça, tão inverossímil que chega próxima à vergonha. Na trama, o Duende Verde arma um plano tão complexo que se mostra enlouquecidamente desnecessário: convence um produtor de Hollywood a fazer um filme sobre o Aranha, o que leva Peter à Califórnia para cobrir a história e o Duende usando a pretensa filmagem para encurralar o herói no deserto do Novo México, ainda utilizando os Executores como auxiliares. A batalha os leva a uma caverna onde também está o Hulk escondido. O gigante verde enfurecido desaba tudo e interrompe a luta. O filme é cancelado e Peter volta sem a grana para Nova York.

A participação oportunista – e sem propósito – do Hulk era apenas um ardil de Stan Lee para fazer propaganda do retorno das aventuras solo do gigante esmeralda. Como já vimos, o monstro estreará nos quadrinhos um pouco antes do Aranha em sua própria revista The Incredible Hulk, mas o insucesso nas vendas a fez ser substituída nas bancas pela própria Amazing Spider-Man. O Hulk não ficou fora de órbita, claro, e continuou aparecendo pelo ano seguinte em uma série de revistas, como do Quarteto Fantástico e, principalmente, dos Vingadores, onde foi um dos membros fundadores do grupo e saiu logo em seguida. Tudo isso devolveu a curiosidade do público para o gigante verde e Bruce Banner voltou a ter suas aventuras na revista Tales to Astonish, que já publicava as aventuras do Homem-Formiga/ Gigante e Vespa. Uma curiosidade é que essas novas histórias do Hulk também era produzidas por Lee e Ditko.

O Duende Verde, por sua vez, apenas tem a oportunidade de ser mostrado como alguém astuto e determinado nessa primeira aparição amalucada. Mas o grande trunfo estava no final da história: ao contrário de todos os vilões enfrentados pelo aracnídeo, não terminamos sabendo o nome e a história do vilão. Ditko desenha uma sequência do Duende tirando sua máscara, mas ficando com o rosto oculto aos leitores, dando início a um grande mistério que duraria dois anos! Quem é o Duende Verde?

ASM 15 trouxe a estreia de Kraven, o caçador e o retorno do Camaleão. Na trama, o Camaleão chama seu amigo Kraven para vir aos EUA derrotar o Homem-Aranha. Famoso por ser o maior caçador do mundo – e não um criminoso – há uma grande recepção a ele quando chega em um navio, que é assistida por Jameson, Betty, Flash, Liz e Peter, que tira fotos. Liz continua a dar em cima de Peter, o que leva Betty a dar um “gelo” no rapaz, o que é o primeiro passo para o fim do relacionamento dos dois, que ocorrerá em breve.

Outro ponto interessante da edição 15 foi onde se deu a primeira menção a Mary Jane Watson. Nas tramas, May Parker não gostava de Betty Brant, não achava ela uma boa mulher para Peter (será por que era mais velha?), então, May ficava tentando arranjar uma acompanhante mais adequada, e calhou que uma ótima opção seria a sobrinha de sua amiga Anna Watson, que morava na Flórida. Era o início de uma longuíssima subtrama, pois a garota só apareceria de verdade na edição 41. Aguardem.

Na parte heroica, Kraven se dá melhor no primeiro round, porque envenena o herói, mas depois, no segundo confronto, em um bosque, o Aranha vai mais preparado e, usando o cérebro, consegue vencê-lo, mesmo com o Camaleão atrapalhando. Ambos são entregues à justiça.

Neste ponto, no verão de 1964, as vendas do Homem-Aranha estavam altíssimas e o personagem já era o segundo produto de maior sucesso da Marvel, atrás apenas do Quarteto Fantástico em popularidade. Mas tinha o diferencial de ser lido e discutido nas Universidades, dado ao seu conteúdo. Então, para coroar esse momento, Lee providenciou o lançamento de Amazing Spider-Man Annual 01, uma edição especial de 72 páginas, trazendo uma aventura de 40 páginas e mais um monte de material extra, incluindo pin-ups de páginas inteiras de todos os principais vilões que apareceram na breve carreira do escalador de paredes.

O Sexteto Sinistro surge em “Amazing Spider-Man Annual 01”, de 1964.

O grande atrativo da história em si era a estreia do Sexteto Sinistro, grupo que reuniu os “principais vilões” do Aranha: Dr. Octopus, Homem-Areia, Abutre, Mysterio, Kraven e Electro; reunidos pelo primeiro para derrotar o Aranha de uma vez por todas. Na trama, Octopus utiliza de novo do artifício de sequestrar Betty Brant para atrair o herói e usar os outros bandidos para matarem seu inimigo. É uma desculpa exorbitante para Ditko criar quadros de página inteira do Aranha lutando contra cada um deles, que agem e são derrotados separadamente e não em conjunto, como se poderia intuir.

Foi um bom conceito, mas por alguma razão, apesar de ficar como uma referência importante, não houve uma reunião do Sexteto Sinistro até o distante ano de 1992!!!!

Amazing 16 – tal qual a edição de dois meses antes – também teve como mote a “propaganda” de outro personagem da Marvel, no caso, o Demolidor. O homem sem medo havia estreado a meros dois meses, então, era uma forma de Stan Lee apresentá-lo ao grande público que lia o cabeça de teia. A trama é simplória: Peter Parker sai de casa, chateado pela insistência de Tia May para ter um encontro às cegas com Mary Jane Watson (sim, é a segunda vez que ela é mencionada), e se veste de Homem-Aranha e impede um roubo, que é testemunhado coincidentemente por Matt Murdock, o advogado cego que secretamente é o Demolidor. Em seguida, em outra coincidência, o sócio de Murdock e sua secretária (e interesse amoroso), Foggy Nelson e Karen Page, insistem em levá-lo para um circo para se distrair. Mas o circo é uma fachada do Circo do Crime, que divulga um anúncio falso de que o Homem-Aranha fará uma apresentação especial para a caridade como forma de atrair mais público. Peter vê o anúncio e decide ir mesmo sem ter sido convidado, por causa da caridade, então, após uma bela apresentação para entreter a plateia (como em seus tempos de TV), o Mestre do Picadeiro usa seu chapéu hipnotizador (sim, isso mesmo… eram os anos 1960, fazer o quê?) e hipnotiza a todos para roubá-los, inclusive, o escalador de paredes. O único a salvo é Murdock, que por ser cego não foi afetado. Então, ele vira o Demolidor, luta contra o Aranha hipnotizado, destrói o tal chapéu e a dupla de herói põe todo mundo na cadeia.

Essa história dá início à longa vinculação que haverá entre o amigão da vizinhança e o homem sem medo, da qual falaremos algumas vezes neste Dossiê. Outro ponto é que, por causa de seus poderes. Murdock percebe que o Homem-Aranha deve ter apenas uns 17 anos de idade.

Em ASM 17 o Duende Verde faz sua segunda aparição, quebrando o recorde de retorno mais rápido dentro da revista. (Ele perde a posição dentro do cânone como um todo por causa do intervalo de apenas um mês entre a estreia de Kraven na revista e sua participação no Sexteto Sinistro no Annual). Apesar de sua aparição amalucada anterior, parece que Ditko e Lee perceberam o enorme potencial do vilão e o fato de que mexer com o leitor sobre sua identidade secreta era uma ótima estratégia. De fato, na história, Peter cruza do caminho na rua com um sujeito na rua, de terno e chapéu, e seu sentido de aranha dispara, mas ele não sabe quem é ou por que, mas aquele homem é o Duende!

Na trama, repetindo mais ou menos o mesmo artifício da edição anterior, vemos Flash Thompson inaugurando o fã clube do Homem-Aranha e realizando a festa num clube de propriedade do pai de Liz Allan, Wilson Allan. Flash conta que o Aranha não irá decepcionar seus fãs e Peter se sente na obrigação de aparecer. Enquanto isso, May arranja outro encontro de Peter com Mary Jane Watson, mas ela fica doente e desmarca. O rapaz fica aliviado, pois imagina que a garota deve ser muito feia e chata. Mas as coisas não vão bem no campo amoroso: cansada das investidas de Liz em cima de Peter – e achando que Peter corresponde – Betty põe um fim ao namoro dos dois. O namoro termina mesmo, mas haverá ainda um “lengalenga” entre os ex-pombinhos por pelo menos mais 10 edições.

No fim das contas, atendendo ao chamado que Liz colocou no Clarim, o cabeça de teia aparece para fazer uma demonstração na festa, mas é subitamente atacado pelo Duende Verde, que também “atendeu” ao chamado. Johnny Storm, o Tocha Humana, também está na festa e observa atento, enquanto o público pensa que tudo faz parte do show. Quando fica claro que não, o Tocha se junta à batalha e ajuda no confronto contra o Duende, que se mostra um oponente espetacular, neutralizando todos os ataques e usando com habilidade o seu novo jato em formato de morcego e uma série de armas ardilosas, como bombas no formato de abóboras de Halloween.

Contudo, em meio à luta, alguém liga à procura de Peter para informar que a Tia May sofreu um ataque cardíaco. O escalador de paredes ouve o recado e, sem pensar, sai correndo em busca de sua tia, deixando o Tocha Humana sozinho para lutar contra o Duende, que não tem interesse nisso e vai embora. O público fica pensando que o Aranha “amarelou” e fugiu.

Amazing 18 continua tripudiando em cima do pobre aracnídeo, inaugurando um tema que se tornará bastante comum na revista: Peter pensando em desistir de ser o Homem-Aranha. Na trama, a “fuga” do cabeça de teia da luta contra o Duende Verde repercute bastante e vemos vários vilões (inclusive, o próprio Duende) e heróis (como os Vingadores) lamentando o evento. Peter está mais chateado é com a saúde de May, que precisa de uma série de medicamentos caros e ele não tem dinheiro. Como Aranha, ele encontra o Homem-Areia (em sua terceira aparição!), mas Peter fica preocupado com May ficando sozinha e vai embora de novo. Novamente, a fama de covarde se espalha e o Tocha Humana percebe que tem algo de errado e procura marcar uma conversa deixando um recado de fogo nos céus – uma tática que inaugurou em Strange Tales Annual 02 (em uma das aventuras solo de Johnny Storm) – mas o herói não aparece.

Peter tenta desistir de ser o Aranha e até tenta vender seu equipamento, sem sucesso. No fim, uma conversa com May lhe serve de incentivo e decide se manter em sua carreira heroica. May fica bem e volta para casa. E Betty encontra um novo amor: um sujeito que será revelado na edição seguinte como sendo o repórter Ned Leeds, do Clarim Diário. A edição 19 também trouxe Peter voltando à toda como Homem-Aranha e dando uma lição no Homem-Areia e nos Executores, de novo com uma participação do Tocha Humana.

Esta edição terminava com Peter sendo perseguindo por um sujeito misterioso até em casa e este se comunicando com um chefe sobre o que tinha vista. Amazing 20 revela que o sujeito é um detetive particular chamado MacDonald “Mac” Gargan contratado por J.J. Jameson para descobrir como Peter consegue as fotos exclusivas do Aranha. Sem descobrir nada de relevante – Peter é protegido pelo sentido de aranha – Jameson toma outro caminho: contrata o Dr. Farley Stillwell para submeter Gargan a um procedimento científico e lhe dar força equivalente ao do escalador de paredes para detê-lo. O processo dá certo, mas com um problema: Gargan fica louco. Armado com uma armadura especial, ele adota o nome de Escorpião e abraça o crime, enquanto também tenta matar o Aranha. A batalha entre os dois é uma das mais esganiçadas das desenhadas por Steve Ditko, dando ao Escorpião uma glória que ele jamais recuperaria depois.

O leitor irá perceber que essas 20 primeiras edições de Amazing Spider-Man firmaram quase exatamente os 10 maiores vilões do Homem-Aranha, figuras que permaneceriam nas décadas seguintes como as figuras proeminentes da vilania dos quadrinhos.

A Reta Final de Steve Ditko

Quando visto em retrospecto, após as explosivas 20 primeiras edições, parece que Amazing Spider-Man entrou em uma pequena estagnação por alguns meses, com duas edições “tapa buraco” nos números 21 e 22. Talvez Ditko estivesse de férias e trabalhou mais rápido para ter um tempo de descanso, ou porque estava ocupado fazendo histórias do Hulk e do Homem de Ferro; mas é fato que ficaram muito abaixo da média. ASM 21 traz mais outra união do escalador de paredes e do Tocha Humana agora contra o Besouro, um vilão de quinta categoria que o flamejante herói havia enfrentado em suas aventuras solo; e na edição 22 temos o retorno do Circo do Crime (alguém sentiu falta deles?) para mais um round sem graça.

O declínio parece ter sido percebido pelos autores que decidiram dar uma sacudida na revista a partir de então, mudando uma série de coisas. Assim, Amazing Spider-Man 23 dá início a um dos melhores arcos de Ditko na revista: a guerra do crime do Duende Verde. Ditko parece ter encontrado no Duende a forma de expressar sua veia policialesca, que tanto gostava, e colocou o crime organizado de novo na linha de frente das aventuras, com uma disputa aberta entre o vilão mascarado em seu jato em forma de morcego contra uma quadrilha da Máfia liderada por Lucky Lobo. Outro personagem que dá um passo para frente como coadjuvante é o ex-criminoso Federick Foswell, que como repórter do Clarim passa a investigar essa movimentação e se infiltra no submundo sob o disfarce de Caolho (Patch).

Após um retorno de Mysterio (ASM 24), a edição 25 traz a estreia dos Esmaga-Aranhas, robôs criados especificamente para caçar o Homem-Aranha pelo Dr. Spencer Smythe a mando de J.J. Jameson. À princípio, Smythe não era um criminoso, mas foi descendo à vilania com o passar dos anos. No quesito pessoal, as três últimas edições também mostram que o repórter Ned Leeds está trabalhando como correspondente do Clarim na Europa e vem trocando cartas com Betty Brant. E embora o namoro entre ela e Peter tenha sido oficialmente terminado (na edição 17), a novela de sua turbulenta relação de ciúmes com Lizz Allan continuava. Mas as duas garotas sofreram um grande golpe em ASM 25, na qual ao irem visitar May encontram lá a misteriosa Mary Jane Watson, que está pagando uma visita na esperança de encontrar com Peter e os dois saírem. Não vemos o rosto de MJ, mas Betty e Lizz ficam aturdidas com a beleza da garota, que lhes parece uma estrela de cinema!

E edição 25 tem ainda outro elemento importante: é a primeira vez que Steve Ditko é creditado como roteirista de Amazing, mesmo promovendo a trama das aventuras por pelo menos nas 15 edições anteriores, mascarado pelo Método Marvel de Lee. As rusgas entre Lee e Ditko só faziam crescer – com Ditko emergindo como um conservador de direita com opiniões cada vez mais extremadas e entrando em choque com o liberal Lee – e dar mais créditos a Ditko foi parte de uma negociação de compensação por parte de Lee “versão editor-chefe”. A partir dali, os créditos de Amazing informavam mais ou menos assim: “Stan Lee – roteiro e edição; Steve Ditko – trama e desenhos”.

O Duende Verde combate o Mestre do Crime na arte de Steve Ditko: disputas pela identidade do vilão.

A subtrama do crime organizado atinge seu ápice em Amazing Spider-Man 26 e 27, no verão de 1965, na qual um novo gangster misterioso e mascarado chamado Mestre do Crime aparece para disputar com o Duende Verde a liderança do submundo, criando um suspense em torno dos dois vilões cujas identidades secretas são desconhecidas. O Homem-Aranha chega a suspeitar que Federick Foswell seja o Mestre do Crime e a disputa acirrada leva até mesmo ao Duende Verde derrotar o herói em uma luta, mostrando as incríveis habilidades do vilão.

No fim, o Duende exibe o herói desmaiado para uma assembleia de gangsters como forma de mostrar que é o mais adequado a comandar o submundo, apesar da oposição do Mestre do Crime, mas a tola disputa dá tempo ao cabeça de teia se recuperar e virar o jogo. No fim, o Duende mata o Mestre do Crime e vários líderes são presos, frustrando os planos do Duende. Quando o herói tira a máscara do Mestre do Crime percebe que não tem a mínima ideia de quem ele é, o que dá uma alta dose de “mundo real” à cena (já que teria que haver uma grande coincidência cósmica para que um vilão fantasiado fosse alguém a quem Peter conhecesse, quando se vive numa cidade com 8 milhões de pessoas).

Esta medida diz muito de como vinha se moldando o caráter de Steve Ditko, que cada vez mais puxava para que as histórias do Homem-Aranha fossem realistas na medida do possível. E isso parece ter tido um impacto no desenvolvimento do Duende Verde. ASM 27 foi a última aparição do vilão na gestão de Ditko (e vamos adiantar, ele sairia 11 números depois), o que é estranho, pois deixa todo o plot sobre o mistério do vilão inacabado. Iremos falar mais sobre isso mais adiante, mas parece que Ditko passou a defender que o Duende também fosse revelado como um “zé ninguém”, algo ao qual Lee discordava totalmente, pois queria explorar o drama do vilão ser alguém próximo de Peter. Talvez – e isso é apenas uma suposição dos historiadores dos quadrinhos – isso tenha motivado Ditko a simplesmente não tocar mais no assunto e não trazer de volta seu grande vilão pelo ano final de sua produção aracnídea.

Em paralelo, o espírito da mudança estava a todo vapor: Amazing 28 trouxe o fim do colegial e a formatura do Ensino Médio de Peter, Liz, Flash e companhia. Como de costume, Peter quase perde a própria cerimônia ao ter que lutar contra o novo vilão Magma (The Molten Man), mas consegue aparecer, embora para seu desgosto, o discurso seja concedido a um tedioso J.J. Jameson. Peter nota que Betty não apareceu para sua formatura – apesar dele a ter convidado (a história explica como Betty se sentiu muito mal ao ver Peter terminando o colégio, enquanto ela abandonou a escola para trabalhar por causa da morte da mãe) – e ao se despedir de Liz Allan, vê a garota ter um surto de maturidade, chorando por sempre ter sido vista como bonita e fútil e que se sentira humilhada pela desatenção de Peter, recolhendo os escombros de sua vida para tomar novos rumos. Apesar de aparecer ainda rapidamente uma última vez nos meses seguintes, Lizz encerrava sua participação como coadjuvante da revista e demoraria mais de 10 anos para regressar, antes de voltar a ser um membro importante do elenco da vida pessoal de Peter Parker.

Enquanto essas edições decisivas eram publicadas, também chegava às bancas, no verão de 1965, Amazing Spider-Man Annual 02, uma edição especial de 72 páginas trazendo uma aventura conjunta entre o Homem-Aranha e o Doutor Estranho, as duas grandes criações de Ditko para a Marvel. A edição também trouxe algumas republicações de aventuras dos números 01, 02 e 05 da revista para novos leitores.

Após o retorno breve do Escorpião (ASM 29), outro dos mais célebres arcos de Steve Ditko tem início em Amazing 30, com a trama do misterioso Planejador Mestre, um criminoso que organiza uma série de roubos audaciosos. Neste número, o Aranha é distraído da ação do vilão principal pela atuação de outro ladrão habilidoso (Cat Burglar), mas os pontos principais de início estão no campo pessoal: Ned Leeds volta da Europa e pede Betty Brant em noivado; ela fica tão aturdida pela proposta (pois ainda ama Peter), que adoece. Peter depois tem uma conversa com ela, na qual ela revela o pedido. O jovem fica desesperado e está prestes a revelar que é o Homem-Aranha, quando Betty confessa que quer uma vida tranquila e sem aventuras e que considera Peter um aventureiro (por causa de sua carreira tirando fotos do Aranha e de algum tipo de associação com aracnídeo), o que pensa que lhe dará um destino similar ao do seu irmão Bennett. É o fim definitivo do romance dos dois.

Ao mesmo tempo em que May sente uma fraqueza quando está em casa e desmaia. Levada ao hospital, é comunicado a Peter que o estado de saúde dela é muito frágil e que ela pode não sobreviver. Além do coração fraco, May está sofrendo do que parece um envenenamento radioativo, o que Peter percebe ser consequência da transfusão de sangue que ele doou a ela na edição 10. Como ganhou seus poderes na picada de uma aranha bombardeada por radiação, as histórias sempre exploraram que o sangue de Peter é radioativo e fonte de suas habilidades.

Isso deixa o rapaz arrasado, com a sensação de culpa pela morte do Tio Ben aumentada agora pela possibilidade de morte de May. Daí que Amazing 31 traz a bombástica entrada de Peter na (fictícia) Universidade Empire State, em Nova York, tem todo o seu momento prejudicado pela total depressão em que o rapaz se encontra. A localização da UES é posicionada onde está a Universidade de Columbia, no Upper West Side, entre Manhattan e o Harlem.

Harry Osborn e Gwen Stacy unem-se a Flash Thompson: mudanças no elenco por Steve Ditko e Stan Lee.

Por tudo isso, ASM 31 é uma das mais importantes edições da cronologia “pessoal” de Peter Parker, não somente pela entrada na UES, mas também por ser a estreia de dois dos principais personagens coadjuvantes que irão acompanhar a revista e o herói dali em diante: Harry Osborn e Gwen Stacy. Na trama, vemos uma apresentação aos alunos da universidade e a nova dupla se encontra com Flash Thompson e fazem amizade. Não é especificado os cursos que eles estudam – sabemos que Peter vai estudar Ciências e que Harry e Gwen pretensamente são seus colegas de classe, mas Flash aparentemente não. Harry diz que acompanhou a carreira de Flash no Futebol Americano Colegial e lhe apresenta a bela Gwen, com quem estudou na escola. Depois, o trio encontra Peter e Flash (se colocando mais simpático do que nos tempos de escola) os apresenta, mas Parker está tão depressivo pelo estado de sua tia que não lhes dá muita atenção, o que é interpretado pelos outros como descaso do rapaz por causa de seu excelente currículo em Ciências.

Em ASM 32, o Planejador Mestre rouba um isótopo radioativo especial ao mesmo tempo em que Peter, desesperado para salvar sua tia, vai atrás da única pessoa que parece poder salvá-la: o Dr. Curt Connors (sim, o Lagarto, mas que é amigo do Aranha quando não sofre sua terrível transformação). Connors analisa o caso de May e vê que o isótopo 36 pode salvá-la, mas ele é único e foi roubado. Caçando o Planejador Mestre, o cabeça de teia termina por descobrir que o vilão é ninguém menos do que o Doutor Octopus! Invadindo o covil de Octavius, um furioso Aranha tenta febrilmente reaver o produto, mas o vilão termina conseguindo com que o herói termine soterrado sob toneladas de aço e um compartimento que está sendo inundado. Peter se vê em um túmulo subaquático, sem escapatória e percebe que sua morte resultará na morte de May também, encerrando de modo dramático a edição.

Então, vem Amazing Spider-Man 33, de fevereiro de 1966, considerada unanimemente como a mais fantástica das revistas ilustradas por Steve Ditko! Sob toneladas de metal e água, o herói reúne todas as suas forças para erguê-las e tentar salvar sua tia. A dramacidade dos diálogos de Lee e dos desenhos de Ditko criaram um grande momento. Conta a lenda que, quando Lee viu os desenhos de Ditko pela primeira vez, teria lhe dito: “você acaba de criar a mais famosa sequência de quadrinhos da história”.

A capa de “Amazing Spider-Man 33” e a primeira parte da sequência…
… que muitos consideram o melhor momento de Ditko na revista.

Vencido Octopus e com May curada, Peter respira aliviado e tenta se enturmar ao novo ambiente da UES, mas é tarde demais: seu comportamento anterior lhe deu fama de antissocial e as pessoas são antipáticas com ele. Peter tenta travar amizade com Harry Osborn e Gwen Stacy, mas os dois devolvem a frieza da primeira vez, em ASM 34, antes do herói ter que sair de cena e enfrentar outro retorno de Kraven, o Caçador. A edição também mostra que, ainda atordoada pelo pedido de noivado de Ned Leeds, Betty Brant pede demissão do Clarim.

ASM 35 traz o retorno do Magma e a edição 36 traz a estreia de um novo vilão chamado Saqueador, mas o grande destaque é que Peter visita encantado uma exposição de ciências, na qual Gwen Stacy coincidentemente também está. Apesar dela ficar chateada que o avoado Peter – tão absorto nas maravilhas científicas – mal dá conta dela, quando alguém fala mal dele, a garota se dá conta de que o está defendendo, mesmo achando-o um covarde ao desaparecer quando do ataque do Saqueador ao local.

Norman Osborn (à frente) e seu filho Harry na arte original de Steve Ditko.

Em Amazing Spider-Man 37, Steve Ditko apresenta o seu último grande personagem, ainda que involuntariamente: Norman Osborn. Sim, o pai de Harry. Para dizer a verdade, leitores superatentos perceberam que Norman já havia aparecido em Amazing 23, como um dos homens “respeitáveis” que frequentavam o Clube de Negócios da qual Jameson era sócio. Depois, dali, a mesma figura, com seu penteado muito típico, apareceu outras vezes, mas sempre como um mero figurante de composição de fundo de cena, sem nome. Na edição 37 ele ganha destaque: a trama mostra que ele é um grande empresário de uma indústria química e um homem de gênio difícil, como vemos em sua relação nervosa com Harry, algo ao qual o jovem se queixa a um subitamente interessado Peter, marcando a primeira aproximação real entre os dois.

Mas a trama mostra que Osborn era ainda pior do que isso: sabemos que o Dr. Mendel Stromm está saindo da cadeia após alguns anos e que fora acusado falsamente de fraude por Norman Osborn, seu ex-sócio, como forma de tirá-lo das Indústrias Osborn (nome com o qual aparece nas histórias antigas e que depois seria atualizado como OsCorp.). Stromm é um gênio da robótica e arma uma série de robôs para matar Norman, no que o Homem-Aranha interfere para salvá-lo. No fim, Stromm é morto por um tiro de rifle disparado pelo lado de fora da janela do prédio.

O Aranha não consegue descobrir quem disparou e fica impressionado que o assassino tenha conseguido escapar sem deixar rastro. Mas nos vemos ao fim, Norman Osborn limpando seu rifle!

Em ASM 38, a trama e a capa anunciam um desafortunado oponente, bem homem comum ao gosto de Ditko, mas o mais importante são outras duas coisas: primeiro, Peter fica sabendo que Betty Brant sumiu e ninguém, nem Ned Leeds, sabem do seu paradeiro. Isso é curioso, porque após a jovem se demitir do Clarim (na edição 34), vimos que Ned fora para a Costa Oeste (no número 35), o que deixou a impressão de que ela fora com ele. Mas agora, sabemos que a moça está desaparecida. Isso atormenta Peter, que percebe que Ned não apenas pode ter Betty como talvez à mereça, enquanto ele não.

Mas pelo menos a amizade dele com Gwen Stacy começa a andar, quando ela começa a vê-lo com uma ótica mais positiva.

Outra coisa que a edição mostra é que Norman Osborn paga a um grupo de criminosos para que eles ataquem o Homem-Aranha. Mas por quê?

Esta foi a última história do Homem-Aranha produzida por Steve Ditko.

A saída de Ditko foi trão brusca que ele sequer fez a capa de Amazing Spider-Man 38. Os artistas assistentes da editora montaram uma capa a partir de quatro imagens da própria história para poder compor a capa.

A Saída de Steve Ditko

A delicada relação entre Stan Lee e Steve Ditko deteriorou completamente no último ano da dupla em Amazing Spider-Man. Os motivos exatos da discordância nunca ficaram claros, tanto porque Lee sempre foi um pouco evasivo na questão, tanto porque o recluso e arredio à popularidade Ditko jamais se pronunciou sobre o fato. O que se sabe é que, a partir de algum ponto, Ditko deixou de falar com Lee e deixou de ir à redação da Marvel na Madison Avenue, trocando memorandos e enviando a arte pelo correio.

Talvez o dinheiro tenha tido algum elemento nisso, e provavelmente, Ditko queria mais créditos para si por tocar o personagem mais popular da editora. Provavelmente, o desenhista não estava desatento à atenção que o aracnídeo (e o Doutor Estranho também) ganhavam no circuito universitário americano e entre a juventude pós-adolescente, mas também devia ver o ávido de atenção Lee à frente, indo a entrevistas no rádio e na TV e aos jornais, de algum modo, assumindo para si todo o destaque. Ainda que Ditko não quisesse os holofotes, ele provavelmente gostaria de ter mais reconhecimento.

Outro ponto que deve ter contado é que Ditko se tornava cada vez mais um fervoroso militante do objetivismo, a doutrina criada pela pensadora Ayn Rand, cuja obra mais famosa é A Revolta de Atlas, de 1957, que defendia o absoluto direito individual e a propriedade, ou seja, uma ideologia de direita baseada no individualismo. Isso deve ter contribuído para ele azedar a relação com o liberal Lee e com o ambiente normalmente mais tolerante do mundo dos quadrinhos.

Do ponto de vista estritamente editorial, alguns historiadores supõem que a identidade secreta do Duende Verde também foi um estopim para sua saída da Marvel no início de 1966.

Quando ainda se falavam, Lee e Ditko há tempos discutiam quem seria o Duende Verde. Isso mesmo: os próprios autores não tinham definido a identidade do vilão quando começaram, jogando para o leitor inúmeros suspeitos. O principal deles, inicialmente, era Frederick Foswel, que já havia agido como o Chefão do Crime ou Maioral (de acordo com a tradução do original The Big One) e que, supostamente, havia se regenerado e trabalhava como repórter policial no Clarim Diário. Outro suspeito, pelo menos na cabeça da dupla produtora, era o também repórter do Clarim Ned Leeds, “rival” de Peter pela mão de Betty Brant e que surgiu pouco depois da estreia do vilão. Alguns historiadores afirmam que o desenhista preferia Leeds, enquanto outros dizem que o artista defendia que o vilão fosse uma pessoa desconhecida, pois assim era o “mundo real”, como ele já tinha feito com o Mestre do Crime. Não deve ser coincidência, portanto, que o Duende Verde não apareça no ano final de Ditko, ainda mais depois que se iniciou um iniciativa de tomada do crime organizado que não se concluiu.

Tendo isso em vista, é curioso que as últimas edições Ditko desenvolveu o pai de Harry, Norman Osborn como um criminoso cujo os objetivos não ficam claros, mas ele incrimina seu sócio; depois que esse sai da cadeia, ele o mata com um tiro de rifle; e depois, ainda contrata um bando de bandidos para (meio gratuitamente) atacarem o Homem-Aranha. Para quê? Nunca vamos saber, porque Ditko abandonou a história.

Todos sabem que, logo em seguida, Lee escreveu uma história revelando que Norman Osborn era o Duende Verde, mas é quase certo que esse não era o objetivo de Ditko – porque se assim o fosse, ele não precisaria de um rifle para matar Mendel Stromm. E nem teria medo dele, como ASM 37 revela. Mas uma vez que Ditko caiu fora, Lee pegou literalmente a primeira oportunidade que teve e colocou Osborn debaixo da máscara do Duende Verde, como uma maneira de “fechar a questão”, e trazendo o elemento de dramaticidade que Lee queria desenvolver com tal mistério que durou dois anos.

Mas o fato é que, no início de 1966, Ditko terminou a arte de Amazing Spider-Man 38, e enviou à Marvel junto com uma carta de demissão. Lee afirma que tentou conversar com ele e até ofereceu mais dinheiro para que ficasse, mas o artista permaneceu irredutível. Os depoimentos posteriores de Lee mostravam certo ressentimento do modo brusco com o qual Ditko partiu. O desenhista ficaria mais de 10 anos longe da Casa das Ideias e só voltou – para trabalhos pontuais – quando Lee estava bem longe da redação.

Ao mesmo tempo, a editora Charlton Comics fez a Ditko uma oferta irrecusável, de criar seus próprios personagens e desenvolvê-los. Ele aceitou a proposta e ainda naquele ano estreou as novas versões do Besouro Azul e do Capitão Átomo (heróis criados nos anos 1940) e um herói novo: o Questão, um vigilante que expressava de modo bastante preciso os ideais do objetivismo. Apesar do sucesso inicial, depois houve uma queda nas vendas. A Charlton, por sua vez, seria comprada pela DC Comics nos anos 1970 e seus personagens (Besouro Azul, Capitão Átomo, Starman, Questão etc.) incorporados ao seu universo. O Besouro Azul, por exemplo, entre as décadas de 1980 e 90 ficaria mais ou menos conhecido por atuar na Liga da Justiça, durante várias fases seguidas.

Além disso, os personagens da Charlton inspiraram a obra Watchmen de Alan Moore, de modo que o Coruja é o Besouro Azul, Dr. Manhattan é o Capitão Átomo e Rorschach é o Questão.

Ditko também passaria pela DC Comics, em 1968, onde criaria novos heróis, como o Rastejante e a dupla Rapina e Columba (que estrelaram a série de TV Titans) e regressaria à Marvel no fim dos anos 1970, fazendo histórias do Homem-Máquina. Ele continuou um outsider dos quadrinhos, mas trabalhou com a Marvel esporadicamente, desenhando histórias dos Vingadores e criando personagens como Speedball e a Garota-Esquilo. Ditko morreu em 2018.

A Chegada de John Romita

A icônica primeira capa de John Romita: o Duende Verde descobre a identidade do Homem-Aranha em “Amazing Spider-Man 39”, de 1966.

A edição Amazing Spider-Man 39 chegou às bancas em agosto de 1966 e trouxe um grande estardalhaço por dois motivos: em primeiro lugar, uma icônica capa em que o Duende Verde aparece em seu jato carregando um Peter Parker amarrado, com as roupas civis rasgadas revelando seu uniforme; em segundo, pela mudança do desenhista da revista e o crédito ocupado por John Romita, uma futura lenda, mas no momento, um mero desconhecido.

A primeira conversa franca entre Peter e Harry, com Gwen como testemunha.

ASM 39 começa pelo lado pessoal, mostrando uma aproximação entre Peter e Harry Osborn. O herói vê o pai dele, Norman, deixando-o na faculdade e a chateação do colega. Em vista dos contratempos que melaram a aproximação de Peter dos seus amigos de universidade, ele procura conversar e os dois terminam tendo uma conversa séria pela primeira vez. Isso é importante, porque é o marco zero do relacionamento entre Peter e Harry que serão retratados por décadas a fio nos quadrinhos como os melhores amigos um do outro. E terá grande implicações dramáticas, como já veremos! Ademais, Gwen Stacy presencia o momento e fica feliz ao ver Peter finalmente se aproximando e começa a questionar a primeira impressão que teve dele, como egoísta e esnobe.

Mas a trama da revista era tão bombástica como a capa: o Duende Verde contrata uma série de bandidos para emboscar o Homem-Aranha, jogando uma bomba nele; o explosivo gera fumaça e nenhum efeito; bandidos presos, o herói sai e vai a um beco trocar de roupas; o leitor fica sabendo que o composto neutralizou o famoso “sentido de aranha” que alerta Peter Parker quando há um perigo eminente, e por isso, do alto de seu jato, o bandido acompanha o herói tirar a máscara e entrar no prédio do Clarim Diário; por meio de microfones de alta precisão, descobre que o nome do garoto é Peter Parker; pronto, temos o primeiro entre todos os vilões a descobrir a identidade secreta do Homem-Aranha.

Peter Parker e Norman Osborn frente a frente pela primeira vez. Arte de John Romita.

E não termina aí. O Duende o segue até sua casa e, chegando lá, se revela e o derrota facilmente. Levando-o a um esconderijo e prestes a matá-lo o Duende é contaminado por um sentimento de autoconfiança exagerada e termina revelando a sua própria identidade: Norman Osborn. O problema é que Parker o conhece: ele é o pai de seu colega de faculdade, Harry Osborn. Uma tragédia se anuncia e a edição termina.

No número seguinte, conhecemos a origem de Osborn, como ele descobriu uma fórmula de Stromm e, ao tentar produzi-la, explodiu em seu rosto, tornando-o mais inteligente, mais forte e mais louco. Um selvagem confronto entre os dois se estabelece e Osborn termina eletrocutado, de maneira que sofre de amnésia e esquece que foi o Duende Verde.

As duas edições compõem não somente a estreia da nova dupla, Stan Lee e John Romita, como é um dos marcos mais importantes da cronologia do Homem-Aranha. Mas nem tudo eram flores.

Os leitores da Marvel reagiram furiosamente à saída de Ditko e demorou algum tempo para Romita ser aceito, embora seu traço clássico, charmoso e bonito já destacasse desde o início.

Auto retrato de John Romita: um dos maiores nomes da Marvel.

Descendente de italianos, John Romita tinha 36 anos quando assumiu a revista do Homem-Aranha. Apesar de jovem, já era um experiente desenhista no mercado de quadrinhos. Iniciou a carreira nos anos 1950, fazendo cartuns de publicidade e a estreia nas HQ se deu em 1953, quando desenhou o retorno mal-sucedido do Capitão América, numa série de histórias escritas por Stan Lee. Romita, no entanto, continuou trabalhando para várias editoras, particularmente em romances adolescentes na DC Comics. (Veja um velho post do HQRock sobre a carreira do artista).

Quando, em 1964, Stan Lee soube que o artista estava infeliz em sua carreira e pensando em desistir, o convidou para trabalhar na Marvel. Zangado com o mercado das HQs, Romita concordou, desde que fizesse apenas a arte final, ou seja, cobrir com nanquim o lápis do desenhista principal. Lee concordou, claro, e lá veio Romita embelezando o traço de Jack Kirby na revista dos Vingadores!

Edição de estreia de John Romita traz arte de Jack Kirby.

Mas desde o início Lee queria o desenho de Romita e quando a revista do Demolidor ficou sem um desenhista fixo, convenceu Romita a assumir o título. O artista não desenhava super-heróis há dez anos e se achava enferrujado para a função, então, Lee providenciou para que o rápido Kirby elaborasse os layouts das cenas para Romita desenvolver enquanto “pegava a manha”. Foram necessárias apenas duas edições e, logo, Romita abrilhantava o mundo com sua arte dinâmica e bonita em Daredevil, a partir do número 12.

Aquilo não passou desapercebido de Lee. Kriby tinha uma arte dinâmica, expressiva, impactante, mas sua representação não era exatamente “bonita”. Ditko também ia pela mesma linha. Outros artistas da Marvel, como Don Heck (que desenhava o Homem de Ferro e os Vingadores) tinham o traço mais clássico, mas nem mesmo ele tinha a graça, o volume e a beleza do traço de Romita. Parece que Lee anotou em sua caderneta.

Capa de Daredevil 16 por John Romita.

Não parece ser coincidência que Lee providenciou que o Homem-Aranha aparecesse como convidado na revista do Demolidor em Daredevil 16 no início de 1966. Visto em retrospecto, parece que à revelia do artista, Lee o submeteu a um teste. O resultado foi maravilhoso! Logo em seguida, quando Steve Ditko deixou de súbito a revista Amazing Spider-Man, Romita era a escolha única para substituir Ditko.

A fantástica arte de John Romita na revista do Demolidor.

Romita tremeu na base. O Aranha não era um personagem de segundo escalão como o homem sem medo. E o traço de Romita era totalmente diferente do de Ditko. Mas Lee o convenceu e Romita assumiu, fazendo seu trabalho maravilhosamente e se tornando o mais clássico, o mais lendário e o mais representativo dentre todos os artistas que ilustraram o cabeça de teia.

A beleza de Gwen Stacy na arte inicial de John Romita.

Não que tudo tenha sido rosas: no início, os fãs da revista reclamaram veementemente, pedindo que Ditko voltasse e reclamando do substituto. O próprio Romita já declarou várias vezes que esse movimento lhe deixou desconfortável e com uma sensação de estar em um lugar que não era o dele por muito tempo. Entretanto, a arte dinâmica e precisa, junto com o carisma que impregnava aos personagens logo o tornaria o maior de todos os desenhistas pelos quais o Homem-Aranha foi desenhado. E o público lhe abraçou fortemente: se na época de Ditko, Amazing Spider-Man era a segunda revista de maior sucesso da Marvel, atrás do Quarteto Fantástico, sob Romita, ela se tornou o número 01 e um fenômeno não apenas dos quadrinhos, mas da arte e da sociedade em geral.

A fase de John Romita mudou bastante coisa dentro do universo do aracnídeo. Se por um lado Stan Lee estava de volta ao comando prioritário da revista, encontrou em Romita um fiel depositário do Método Marvel, encontrando bastante facilidade em trabalhar dessa forma, sendo bom em desenvolver tramas. Ademais, muito mais do que Ditko (ou Kirby), Romita fora o “rei das revistas de romance” dos anos 1950 e passou dez anos desenhando homens garbosos e mulheres bonitas e sabia como ninguém desenvolver uma novela amorosa, algo do qual Peter Parker se beneficiaria bastante.

Alguns críticos irão dizer que Romita embelezou Peter Parker e isso é verdade. O Peter de Romita também é um pouco mais autoconfiante, sendo um desenvolvimento da trama de seu ingresso na Universidade. Sua vida também ganhou ares mais adultos – incluindo sair de casa – o que também era condizente com a idade de um jovem universitário. Como a novela em torno do triângulo amoroso Peter-Betty-Liz fizera sucesso entre os leitores, Lee e Romita decidiram reciclar a ideia, mas agora, com Peter-Gwen-MJ, ganhando ainda um quarto apêndice em Harry Osborn. E até um quinto em Flash Thompson! Apesar disso, as referências ao sexo propriamente dito permaneceram muito sublimares, simplesmente porque o Comic Code Authority (CCA, o órgão de autocensura que regulava os quadrinhos dos EUA) não permitia.

Outro aspecto interessante é que Romita – longe da inflamação direitista de Ditko – teve mais preocupação em contextualizar Peter e seu universo às turbulências dos anos 1960. Assim, não apenas a UES aparece mais, como também questões sobre a política, a guerra, os direitos civis, protestos, o rock e o vestuário. Menos “quadrado”, Romita estava o tempo todo pesquisando em revistas de modo o outfit de seus personagens, dando-lhe ares mais joviais e informais de um modo que Ditko ou mesmo Kirby não podiam. Isso incluiu, inclusive, criar um núcleo afroamericano para a revista na figura do editor de cidades do Clarim, Joe “Robbie” Robertson – muito mais humano e bondoso do que o irascível J.J. Jameson, e seu filho Randy, que é um dos colegas de Peter na UES.

Ampliando o Universo do Aranha

Após a introdução bombástica de Romita em ASM 39 e 40 – de certo modo encerrando o ciclo de histórias de Ditko – o mundo do Aranha entra em nova fase a partir de Amazing 41, quando o desenhista cria seu primeiro vilão: Rino. Na trama, vemos o retorno de John Jameson, o astronauta filho de Jameson, que revela que sua última caminhada espacial lhe contaminou com esporos misteriosos que estão sendo caçados pelos inimigos – leia-se os soviéticos, pois eram tempos de Guerra Fria – e Rino é enviado para sequestrá-lo. Cabe ao Homem-Aranha salvar sua pele e enfrentar o inimigo que, como o Hulk, é muito forte e pouco inteligente. No campo pessoal, Betty Brant regressou de seu longo sumiço (desde ASM 34) na edição 40, e nesta 41 finalmente vemos o reencontro dela com Peter. Os dois conversam encabulados e meio que percebem que o amor que os uniu não existe mais. Seria Lee e Romita liberando Peter para outras aventuras, pois Betty estava muito relacionada a Ditko e aos “velhos tempos”. Agora, era preciso “sangue novo”, como já veremos.

Ilustração disso é que logo no começo da história, como um tipo de rito de passagem à nova fase, vemos Peter usando o dinheiro das fotos do Clarim para comprar uma pequena motoneta. Ao chegar na UES, Gwen Stacy o vê na motinha e gosta disso, pois transpassa atitude. Essa é a primeira interação positiva entre Peter e Gwen depois dos desencontros das edições anteriores, marcando o início de uma faísca.

ASM 42 traz uma virada com John Jameson descobrindo que os esporos espaciais – que os cientistas da Stark Enterprises descobrem vir de Júpiter – lhes estão conferindo poderes especiais, como força e resistência. Armado com uma roupa especial para conter os efeitos dos esporos, Jameson sai em busca do Aranha que, como sempre, está sendo acusado de algum crime. O detalhe é que a edição anterior tinha deixado claro que o astronauta gosta do herói – afinal, ele salvou sua vida lá atrás em ASM 01 – e, então, descobrimos que os esporos estão deixando John fora de si.

Mas de novo, o mais importante está no campo pessoal. Na edição anterior, Tia May já tinha lhe lembrado do jantar de domingo com Anna Watson para que Peter finalmente conhecesse a sobrinha dela. Como toda “desgraça” é pouco, nesta edição, Gwen convida Peter para um festa em sua casa; e ele precisa negar por causa do compromisso com a tia. Então, em uma das cenas mais queridas dos quadrinhos, quando na casa de May, Peter atende à porta para finalmente ver a tal sobrinha que já é mencionada desde a longínqua ASM 15. A porta abre e Peter (e os leitores) vê a mulher mais bonita que já testemunhara: Mary Jane Watson. E como se não bastasse, ela lhe diz a célebre frase: “você tem que admitir, gatão, você tirou a sorte grande!”.

Era a introdução daquela que estava destinada a lhe roubar o coração para sempre e se tornar uma das mais longevas e mais queridas personagens coadjuvantes dos quadrinhos.

Logo no início de ASM 43, MJ mostra que é uma mulher bem diferente das outras que Peter (e os leitores) conheceu: alegre, pra cima, independente, pronta a qualquer agito. Por isso, quando veem que Rino escapou, ela mesma propôs que fossem à cidade assistir à luta dele com o Homem-Aranha, o que cai bem ao segredo de Peter. Outro elemento que a edição traz é que Flash Thompson é convocado para o Exército, outro tópico muito conectado à época e à Guerra do Vietnã.

Enquanto essas cinco últimas edições eram publicadas, John Romita e Stan Lee também entregavam outro presente aos fãs na forma de Amazing Spider-Man Annual 03. No fiapo de trama, desculpa para entreter, os Vingadores refletem sobre se devem convidar o Homem-Aranha para seu time. O grupo então formado por Capitão américa, Thor, Homem de Ferro, Golias, Vespa e Gavião Arqueiro – nas aventuras também escritas por Stan Lee e desenhadas por Don Heck (que participa na arte também) – e consultam o Demolidor para saber o que ele acha (afinal, ele parece ser um herói mais confiável do que aracnídeo), e o homem sem medo endossa a escolha. O grupo convida o Aranha e lhe põe um desafio: encontrar e capturar o Hulk. Puxa, que tarefa inglória, não?

O Aranha se esforça, encontra e luta contra o Hulk, mas usando seus conhecimentos de ciências termina conseguindo fazê-lo se transformar de volta em Bruce Banner, o que faz Peter se sentir muito mal, ao ver um homem tão frágil e doente, e desiste do plano, deixando passar a oportunidade. É só uma desculpa maravilhosa para ver Romita desenhando todos esses personagens fantásticos, com sua bela arte.

O Lagarto retorna pela primeira vez.

Em ASM 44, de janeiro de 1967, trazia o retorno do Lagarto, a primeira vez que o vilão retornava desde sua primeira aparição na edição 06. Na trama, sofrendo de estresse, o Dr. Curt Connors termina se transformando de novo no monstro réptil e quer dominar um exército de répteis. Enquanto isso, May decide tirar umas férias e vai para Flórida com Anna Watson, e Peter vai ao Grão de Café (o cafezinho onde se reúne sua turma da faculdade) e apresenta Mary Jane Watson aos colegas.

Peter apresenta Mary Jane aos amigos enciumados.

A cena mostra Flash dando em cima dela, Harry impressionado por sua beleza e Gwen com ciúmes de Peter, embora o rapaz ainda tenha dúvidas se isso é fato. MJ, por sua vez, vivia o apogeu de sua personalidade autocentrada e pronta para festa, ainda que mostrasse o que parecia um genuíno interesse no rapaz. Uma curiosidade é que MJ diz a Peter que está gostando dele estar deixando o cabelo crescer, o que era uma maneira de Lee e Romita explicarem a ligeira mudança de visual do personagem, saindo do estilo mais quadrado “Ivy League” de Ditko para o mais moderninho de Romita, refletindo os anos 1960 nos quais os jovens deixavam seus cabelos mais longos como as estrelas de rock.

O confronto com o Lagarto continua na edição 45, com o Aranha o vencendo prendendo o monstro em um vagão de frigorífico, e dando-lhe uma dose do antídoto, enquanto ao ouvir dos problemas financeiros de Peter, Harry Osborn lhe faz a primeira de suas duas ofertas: um emprego de meio-período nas Indústrias Osborn. O jovem diz que vai falar com seu pai e Peter fica animado. Mas ao mesmo tempo, o azarado do Parker tem que abrir mão de confraternizar com os amigos porque a luta com bichano machucou seu braço e ele não quer que as pessoas vejam que ele o Aranha estão ambos com o braço enfaixado.

Em ASM 46 uma série de mudanças acontecem! O aracnídeo encontra um novo vilão: Shocker, que é capaz de gerar ondas de choque, enquanto que Federick Foswell continua investigando qual a ligação entre Peter e o escalador de paredes. (Ele já tinha seguido o jovem na edição anterior). Nesta, numa distração de Peter, quase flagra o rapaz trocando de roupa em um beco, então, Peter na hora cria um diálogo falso entre ele mesmo e o Aranha, deixando claro que os dois têm um “acordo” de dividir a grana das fotos e enche seu uniforme de teia para que Foswell (disfarçado de Caolho) acredite em tudo.

Ao mesmo tempo, Harry faz sua segunda proposta para Peter: que tal dividir um apartamento com ele? Peter gosta da ideia, mas não tem condições de pagar pelo aluguel, mas Harry o tranquiliza dizendo que o imóvel pertence ao seu pai e que herói poderia “pagar” ajudando Harry nos estudos. O acordo é feito e Peter se impressiona com o tamanho do apartamento, que fica no Upper East Side, uma área chique de Manhattan. Mas fica preocupado com May até que uma surpresa acontece: a tia lhe diz que irá se mudar e passar a morar com Anna Watson, o que sai mais barato para as duas, e deixa Peter livre para sair do subúrbio de Forrest Hills, no Queens, e ir para Manhattan – a área principal de atuação do Homem-Aranha – e ficar mais perto da Universidade.

Harry e Peter passam a dividir um apartamento em Manhattan: passo definitivo rumo à vida adulta.

Também nessa edição há uma festa de despedida para Flash Thompson, que foi convocado pelo Exército. Há uma grande interação entre os jovens, dançando, e Gwen Stacy deixa mais ou menos claro seu interesse em Peter, apesar do jovem estar “oficialmente” com MJ, embora os dois não estavam namorando. À esta altura, a vinculação de Flash com a guerra ainda é vista com romantismo e sob uma ótica positiva, ainda que isso iria mudar ao longo dos anos.

ASM 47 vem capilarizar a revelação de que Norman Osborn era o Duende Verde, afinal, como vimos, a decisão de vincular esses dois personagens foi tardia e de última hora, então, Lee e Romita decidiram mostrar alguns eventos prévios para reforçar esse desenvolvimento. Assim, na trama, descobrimos que o ataque de Kraven, o Caçador, visto na edição 34 na verdade foi uma artimanha de Osborn. Kraven não foi pago pelo serviço, porque (como todo mundo) ele não sabe a identidade secreta do vilão e acredita que o Duende Verde morreu no incêndio de ASM 40; contudo, o caçador decide ir atrás do “intermediário” que fez a negociata: Osborn.

Por azar, Peter e Harry decidem inaugurar seu apartamento com outra festa de despedida para Flash Thompson, e quando Kraven não encontra Osborn em sua mansão ou em seu escritório, vai à festa para sequestrar Harry e pressionar o pagamento. Peter se transforma em Homem-Aranha para impedir, mas quando Norman chega é amarrado pelo caçador e levado a um prédio em construção. Mas por causa da amnésia que lhe fez esquecer seus atos como Duende, Osborn não tem a mínima ideia do que o vilão está falando. Os instintos de Kraven percebem que Norman fala a verdade (embora não entenda como – um truque do Duende talvez? – e vai embora. Mas enquanto tenta se soltar, aturdido, Osborn cai de cima do prédio o Homem-Aranha consegue salvá-lo. Peter precisa voltar à festa para que ninguém perceba que ele sumiu e não pode ir atrás do fugitivo Kraven.

Gwen deslumbrante dança na festa.

Na festa, duas coisinhas interessantes acontecem. Uma é uma peça de diálogo que mostra muito bem o espírito bem desenvolvido da novelinha criada por Lee e Romita:

  • Harry (para Gwen): Por que você não admite que eu sou o amor secreto de suas vida?
  • Gwen: Porque não seria mais um segredo se eu admitisse.
  • Peter: Touché, seta. Stacy! Diga, alguém já lhe disse que você fica mais bonita a cada dia que passa?
  • Gwen: Só o meu espelho, sr. Parker. Ops… desculpe, eu tenho ouvido Mary Jane falar por tempo demais.

A outra coisa, num outro passo de maturidade, é que Peter e Flash têm uma conversa franca e decidem deixar a animosidade colegial de lado. A partir daí, embora uma ou outra rusga possa ter surgido entre os dois, nunca mais Flash assumiria a postura bullyier que tinha na escola e os dois passam a ser grandes amigos.

Em ASM 48 vemos que Adrian Toomes está morrendo na prisão após um acidente e conta ao seu colega de cela, Blackie Drago onde está seu equipamento de Abutre, sem saber que foi o próprio Drago quem armou tudo. De posse da roupa de Abutre, Drago sai cometendo crimes e o Homem-Aranha vai atrás dele, embora Peter esteja gripado e enfraquecido, o que o leva a ser derrotado. Na edição 49, Peter decide ficar de cama para se recuperar – e é visitado por May, Gwen e MJ; enquanto Kraven lê nos jornais a vitória do Abutre e fica furioso, indo atrás dele em vingança por lhe tomar a vitória. Ao ver que os dois estão lutando na cidade, o Aranha vai impedir e os dois se voltam contra ele, mas cabeça de teia consegue vencê-los e deixá-los para a polícia.

A Fase Áurea de John Romita

Uma das edições mais importantes da fase clássica do Homem-Aranha veio em seguida, com Amazing Spider-Man 50, de julho de 1967. Na trama, o escalador de paredes percebe o sucesso da campanha de difamação de J.J. Jameson contra ele ao enfrentar bandidos roubando um banco e ver como eles têm medo de si. Isso dá um estalo em Peter, ainda mais quando chega em casa e é comunicado por Harry que sua tia passou mal. Ao chegar na casa dela com Anna Watson, é comunicado por esta que May está sedada e chamou por ele. Peter fica ruminando por não ter dado a suficiente atenção à tia, agora que mora fora com Harry. De volta para casa, não consegue estudar para a importante prova que tem no dia seguinte e não se dá bem no exame. Logo depois, é chamado à atenção por um professor sobre a queda nas suas notas e a responsabilidade que tem como o beneficiado da Bolsa de Ciências.

Lamentoso, Peter sai vagando e toma uma decisão desesperada: tira seu uniforme e o joga numa lata de lixo, criando uma das cenas mais emblemáticas criadas por John Romita. (Ainda que o tema do abandono já tivesse sido usado por Ditko tempos antes, lembram?).

Na manhã seguinte, uma criança leva o uniforme do Aranha para Jameson, que fica radiante e o expõe como um troféu em sua sala, enquanto lança uma edição especial do Clarim com a notícia, que tem um enorme impacto, com a população dividida sobre o fato, enquanto o crime reage também. Conhecemos então o misterioso Rei do Crime que aproveita o desaparecimento do cabeça de teia para dar o golpe final de sua tomada completa do submundo do crime organizado. Ao saber dos planos do Rei, Frederick Foswell não resiste à tentação e toma ele próprio a iniciativa de também retomar o controle do crime, mas levado ao Rei é subjugado.

Em sua nova rotina sem a obrigação de ser vigilante, Peter tenta se dedicar às outras coisas de sua vida: aos estudos, à tia e aos amigos. Contudo, ironicamente, percebe que eles não precisam dele: May está ocupada com Anna e ele não consegue ver MJ ou Gwen. Quanto a Gwen é importante notar que Peter efetivamente a convida para sair (pela primeira vez! – ainda que para tomar um refrigerante!!!), e segue-se o diálogo:

  • Gwen: Eu adoraria, cara, mas tenho um encontro com Harry hoje.
  • Peter: Vocês dois não estão namorando ou algo assim, estão?
  • Gwen: Primeiro Flash, agora Harry… Você está sempre tentando me arrumar um par. / Como é que você não se perguntou ainda que eu tenho uma queda louca por um bonitão de cabelos pretos e motoqueiro?
  • Peter: Ah, qual é? Nós dois sabemos que os bonzinhos se ferram primeiro. Esqueça disso, dama.
  • Gwen: Você disse, Peter. Não eu.

Se ainda não para o avoado do Peter, a conversa deixa bem clara que Gwen está mesmo interessada em Peter.

Então, voltando para casa em sua motocicleta, testemunha o ataque e, sem ninguém para ajudar, decide ir mesmo sem sua roupa ou equipamento, e ao ver o rosto do segurança que salvou, o acha muito parecido com seu Tio Ben e se lembra de todo o aprendizado de poder e responsabilidade que aprendeu com ele e o fato do tio ter morrido em consequência de usa inação. Peter decide voltar a ser o Homem-Aranha e vai ao escritório de Jameson reaver sua roupa.

O leitor deve ter percebido que essa trama geral do abandono foi adaptada de modo bastante fiel no filme Homem-Aranha 2, dirigido por Sam Raimi.

Mas a trama do Rei do Crime prossegue em ASM 51, quando sem saber que o Homem-Aranha regressou, Wilson Fisk movimenta para dominar as quadrilhas, mas a notícia do retorno corre e há algumas resistências. Uma das ideias de Fisk é calar a imprensa e decide fazer de J.J. Jameson um exemplo, aproveitando que Frederick Foswell agora “aceitou” trabalhar para ele e sequestrar o editor. O Homem-Aranha descobre o plano e parte para o resgate, mas ao enfrentar o Rei no mano a mano, o aracnídeo é nocauteado por um gás. Essa edição também traz a estreia de Joe “Robbie” Robertson, o editor de cidades do Clarim Diário, primeiro nome afrodescendente de peso no elenco fixo da revista, e emerge como o braço direito de Jameson no jornal e, não poucas vezes, a voz da razão para o comportamento raivoso e transloucado de J.J.

Tudo continua em ASM 52, em que Fisk prende o Aranha e Jameson amarrados em um poço para morrerem afogados, mas o herói consegue acordar e se libertar no último instante; enquanto Foswell se arrepende de seu comportamento e se volta contra o Rei, no que termina sendo baleado e morto. Enquanto isso, Harry e Gwen reencontram Flash Thompson no Silver Spoon e o jovem lhes conta as novidades de sua atuação militar. Surpresos de que Peter e MJ não aparecem há algum tempo, Flash não entende como os dois ainda estão saindo, mas MJ aparece e se junta eles. Em outra frente, Robbie Robertson descobre que Jameson foi sequestrado e designa Ned Leeds para cobrir a história. Betty Brant fica receosa de que o noivo saia em perigo e percebe que o medo do perigo que rondava sua vida com Peter irá permanecer com Ned.

O passo a seguir dá início a uma bombástica aventura com o Doutor Octopus. Até agora, o vilão havia aparecido de modo pontual quase sempre como uma grande ameaça, especialmente nas edições 01 e 32, mas é esta sequência que realmente firma Octavius como o maior ou segundo maior dos inimigos do Aranha. Em Amazing 53, temos o primeiro round, na qual Otto invade uma exposição de ciências em busca de um artefato científico especial, o Nullificador, que pode ser uma grande arma. Mas o escalador de paredes dispara teia nos óculos dele e deixa o vilão cego, que precisa fugir. Peter deixa um rastreador aranha nele, e no seu esconderijo descobre o artefato e cria uma armadilha para pegá-lo: deixando um boneco cheio de explosivos com o rastreador. Mas o herói percebe a armadilha e lança uma bola de teia no boneco que explode, fazendo o vilão – que observa tudo à distância – achar que o aracnídeo se foi.

Ao mesmo tempo, temos um elemento importante – inclusive pelas implicações que isso teria para o futuro – com a aparição mais destacada do Professor Miles Warren. Esse personagem surgira ainda nas histórias de Ditko com Peter no colégio, mas quando ele entrou na Universidade, estranhamente, Warren migrou para a universidade também. Assim, já tinha aparecido várias vezes como fundo de cena. Mas aqui, o professor convida Peter e um outro colega para ir à Exposição de Ciências, e percebendo que Harry anda zangado com ele, Peter decide convidar Gwen para ir consigo. Eles vão e após o ataque de Octopus, ela se mostra muito preocupada com o bem estar dele. Essa interação com Warren terá grandes implicações no futuro distante.

Isso cria mais uma ligação entre Peter e Gwen, que são deixados por Warren no Grão de Café, onde encontram Harry e Flash, que tem uma pequena discussão com Peter por não se conformar com Gwen saindo com um “civil” como ele. Apesar disso, os jovens pretendem fazer uma festa de volta para Flash, mas May e Anna aparecem para falar com Peter e ele decide levá-las para casa, como uma desculpa para ir atrás de Octopus.

May e Anna contam a Peter que decidiram alugar o quarto extra da casa para um inquilino e isso ajudar nas despesas, e ele acha uma boa ideia, embora as alerta para terem cuidado com quem irão aceitar. Em ASM 54, surpreendentemente, quem aparece como inquilino é ninguém menos do que Otto Octavius. May lembra dele – os dois se encontraram no Annual 01 – e pensa que ele é um bom homem. Quando Peter chega para visitá-la e encontra o vilão, fica sem acreditar e Otto o lembra que a vida de sua tia está nas mãos dele. Mas ainda assim, ele dá um jeito de se transformar no Homem-Aranha e os dois lutam, causando alguns danos à casa. May passa mal ao ver o Aranha atacar Octopus, e o herói tenta ajudá-la enquanto o vilão foge.

Na edição 55, Peter está ensandecido de raiva de Octopus e preocupado com os custos de conserto da casa, que deve exceder ao Seguro. Gwen e MJ aparecem para dar uma força e ambas ficam disputando a atenção de Peter, mas ele dá a desculpa de que precisa ir atrás de tirar fotos do vilão.

Vemos que John Jameson está responsável pela proteção do Nullificador e Octopus está com um plano de roubá-lo. O Aranha sai enraivecido atrás do vilão, buscando em seus antigos esconderijos, até saber do ataque ao comboio do Nullificador. Mas percebe que o vilão deverá usar a arma contra as Indústrias Stark e vai até lá, encontrando o vilão e lutando contra ele. (A história ainda revela que o Homem de Ferro não interfere no ataque porque os eventos se passam ao mesmo tempo que Tales of Suspense 96, quando o vingador dourado está incapacitado pelo vilão Gárgula Cinzento).

Octopus usa o Nullificador no Homem-Aranha e ele perde a memória, ficando sem saber quem é. Octavius usa isso ao seu favor e o convence que eles trabalham juntos. Daí, vem a explosiva capa de ASM 56, na qual Octopus e o Homem-Aranha saem realizando crimes para a festa das manchetes do Clarim Diário. Mas o militares sabem que há algo errado e continuam a busca aos dois, Peter sente que há algo errado e não se sente bem ajudando Octavius e quando este lhe pede para tirar a máscara, percebe que, se os dois fossem mesmo amigos ou parceiros, ele saberia sua identidade.

Temos a estreia do Capitão George Stacy.

Enquanto isso, somos apresentados ao Capitão da polícia George Stacy, o pai de Gwen, que – tal qual Robbie Robertson e John Jameson – acredita na inocência do cabeça de teia. Quando os militares e John Jameson os encontram, Jameson consegue imobilizar o vilão com o próprio Nullificador. Ele se oferece para ajudar o Aranha, mas o escalador não aceita e sai sozinho, ainda sem saber quem é.

Os militares, John Jameson e George Stacy continuam em busca do Homem-Aranha em ASM 57, mas J.J. Jameson contrata Ka-Zar e o trigre dentes de sabre Zabur para caçarem o aracnídeo, enquanto os amigos de Peter estão desesperados para ter notícias do paradeiro dele. Harry entra no quarto de Peter em busca de alguma pista e encontra um rastreador aranha, pensando que o escalador tem algo a ver com seu sumiço, o que chega às notícias. O Aranha vai até a polícia e confessa que está com amnésia e não sabe se tem algo a ver com o desaparecimento de Parker. Depois, ele é atacado por Ka-Zar e a luta termina no Central Park, com o herói derrotado.

Em ASM 58, Ka-Zar leva o Aranha para o topo de um prédio e quando o herói acorda, descobre que sua memória voltou. Ele explica ao mestre da Terra Selvagem porque Jameson quer pegá-lo e ele aceita. O herói corre para casa para tentar falar com a Tia May, mas é atacado por um novo Esmaga-Aranha do Doutor Smythe, que foi ao Clarim oferecê-lo a Jameson. Mas Jameson não consegue vencer usando o robô, no que Smythe assume o controle e o editor percebe que o cientista quer matar o Aranha e não capturá-lo, mas ainda assim, o cabeça de teia destrói a máquina e, em ASM 59, segue para o hospital onde May está internada. Lá a polícia informa a Peter que ele é uma pessoa desaparecida.

O primeiro beijo entre Gwen e Peter em ASM 59.

Então, ele vai à delegacia e se apresenta para o Capitão George Stacy, dizendo que foi tomado como refém pelo Homem-Aranha quando este perdeu a memória, e ele acredita na história. Gwen entra e fica tão feliz em rever Peter que não se segura e lhe dá um beijo, sendo o primeiro que trocam! O casal se une aos amigos no Grão de Café e decidem comemorar o retorno de Peter no Gloom Room A Go-Go, onde Mary Jane trabalha como dançarina. Este é um curioso aceno à juventude dos anos 1960: os leitores de hoje podem não ter noção, mas naquele tempo, as dançarinas de A Go-Go – que apareciam em programas pautados na música na TV dos EUA (mais ou menos como as dançarinas do Domingão do Faustão) eram atrações muito populares naquele país. Essas dançarinas (e dançarinos) tinham seu próprio séquito de fãs e fã-clubes.

Mas eles não sabem que o bar é uma fachada do Brainwasher para controlar pessoas influentes da cidade. Quando o Capitão Stacy é afetado, Peter e Gwen suspeitam e o Homem-Aranha interfere, mas é surpreendido ao descobrir que o Brainwasher é apenas um capanga do Rei do Crime!

Na edição seguinte, ASM 60, o Homem-Aranha é derrotado pelo Rei do Crime em luta e a lavagem cerebral em George Stacy é completa. Peter vai à casa dos Stacy na manhã seguinte, mas é agredido pelo Capitão e Gwen só vê parte da cena, expulsando o jovem de sua casa. O herói decide seguir o possível sogro e o flagra roubando documentos secretos da Delegacia. Em grande dúvida se deve ou não publicar as fotos, decide por fazê-lo para ajudar a salvar George e pegar o Rei do Crime, e Gwen fica estarrecida quando vê o Clarim e que as fotos foram tiradas por Peter.

Vale destacar também que, desde a edição 53, Don Heck vinha atuando como arte finalista dos desenhos de John Romita, mas a partir de ASM 60, Heck passa a dividir os desenhos em si. O motivo disso – além de Heck deixar a revista dos Vingadores – foi para diminuir a carga de trabalho de Romita (com Heck trabalhando em detalhes de figurino e cenários, por exemplo), para que o desenhista pudesse se dedicar a outro projeto especial sobre o qual já já falaremos.

Na edição 61, Gwen confronta seu pai dos acontecimentos e George Stacy retoma a consciência e lhe informa toda a verdade. Sabendo que estão em perigo, decidem deixar a cidade e correm para o Aeroporto JFK, enquanto os capangas do Rei do Crime invadem sua casa e são detidos pelo Homem-Aranha. Mas os bandidos conseguem pegar os Stacy e os leva ao laboratório do Dr. Winkler (o Brainwasher), que fica nas Indústrias Osborn. Norman Osborn não tem nenhum envolvimento nisso, mas ao ver o anúncio de um documentário na TV sobre o Duende Verde, começa a lentamente se lembrar de seu passado.

Quando o Homem-Aranha chega para ajudar, Gwen e seu pai estão prestes a morrer sob um banho de produtos químicos corrosivos, mas o herói recebe a ajuda de Osborn e consegue salvar a situação. Com a corroboração de Osborn, o nome de George Stacy é limpo e toda a situação é esclarecida. Em paralelo a isso, vemos uma aproximação entre Harry Osborn e Mary Jane, com o jovem levando-a ao seu emprego no clube, que descobrem estar fechado por causa das ações do Rei.

John Romita.

O motivo de John Romita precisar de ajuda para tocar Amazing Spider-Man é porque ele e Stan Lee embarcaram em uma nova empreitada paralela para promover o herói: o lançamento de uma segunda revista aracnídea, com The Spectacular Spider-Man 01 chegando às bancas em julho de 1968. E não era só isso: Lee havia espertamente percebido o apelo das histórias da Marvel em um público universitário, ao ponto em que começaram a sair resenhas críticas na imprensa séria. Isso é interessante, porque os editores da DC Comics nos anos 1960 ainda pensavam que o seu público leitor tinha 10 anos de idade, enquanto a Marvel sabia que os universitários, os hippies e os roqueiros psicodélicos estavam lendo e pirando nas histórias de Homem-Aranha, Doutor Estranho, Nick Fury, Thor e mais.

Nunca é demais lembrar, por exemplo, que a banda britânica (de rock psicodélico) Pink Floyd inclusive colocou uma imagem da revista do Doutor Estranho na capa de seu disco de 1968, A Saucerfull of Secrets. E ainda cita o mago supremo na canção Cymbeline, do álbum More, de 1969.

… o Stan Lee superstar de 1968.

Essa atenção causou um grande efeito em Stan Lee, que até então, era um editor careca e de óculos, vestindo ternos tradicionais e chapéu de jornalista dos anos 1930; e de repente, como num passe de mágica, se reinventou como um escritor jovial, liberal e antenado aos novos tempos, com uma vasta cabeleira, uma barba (depois reduzida ao indefectível bigode) e o sorriso largo perene no rosto. Lee virou um mini-super-star dos quadrinhos em meados dos anos 1960, aparecendo na TV, dando palestras em universidades e negociando os direitos dos heróis da Marvel para outras mídias. Isso também desequilibrou suas relações pessoais e profissionais dentro da Marvel, como já vimos no caso de Steve Ditko, que caiu fora em 1966, e a partir de 1968, também começou a afetar Jack Kirby, seu parceiro em Quarteto Fantástico, Thor e Capitão América; uma parceria que azedaria do mesmo modo como a de Ditko e também resultaria no “Rei dos Quadrinhos” a deixar a editora em 1970.

Curiosamente, John Romita fez parte do grupo de artistas – ao lado do escritor Roy Thomas – que continuaram fieis ao lado de Lee por todo o tempo.

Em 1968, a Marvel já não era a editora pequena de seis anos antes, e agora crescia a passos largos, inclusive, sendo vendida por Martin Goodman ao conglomerado de negócios Candice Inc., o que teria implicações grandes para a redação, como veremos adiante. E naqueles tempos, embora os quadrinhos coloridos vendessem como água, existia um mercado de revistas chamadas de Magazine – em oposição aos comics, que são as HQs tradicionais – que tinham um formato maior, tinham o miolo preto e branco e miravam o público alvo adulto e tinham mais prestígio.

Marcando o novo momento da Marvel, o editor-chefe Stan Lee viu que era uma boa estratégia explorar esse nicho. E que lugar melhor para começar do que com o velho amigão da vizinhança? De bônus, Lee tinha um desenhista bom e confiável ao seu lado, que não iria lhe criar problemas como um Kirby talvez fizesse. Então, veio The Spectacular Spider-Man 01, no formato magazine e miolo em preto e branco, periodicidade trimestral e com roteiro de Lee e arte de Romita. Na trama, Lee e Romita elaboraram um plot também mais voltado ao público adulto, com um candidato a prefeito (Richard Raleigh), que em paralelo trama uma tomada do crime organizado e usa um monstro como capanga. De bônus, a revista trazia uma segunda história com Lee e Larry Lieber recontando com mais detalhes a origem de Peter Parker para o novo público.

Contudo, apesar do esmero do texto e da arte, Spectacular não foi bem. Talvez a capa sem graça e a falta de informações sobre a trama tenham contribuído, mas o fato é que não colou. Mas ainda haveria uma segunda tentativa em breve.

A primeira – e quase única – aparição dos pais de Peter Parker nos quadrinhos, em 1968.

Paralelamente, no verão de 1968, saiu o polêmico Amazing Spider-Man Annual 05, na qual Stan Lee (roteiro) e seu irmão Larry Lieber (nos desenhos) entregam a história de origem dos pais de Peter Parker. Enquanto ajuda May a arrumar a casa, Peter encontra fotos e documentos de seus pais e um documento de que eles seriam traidores de seu país, no que May lhe dá algumas informações sobre Richard e Mary Parker, que teriam morrido em um acidente de avião. Disposto a investigar isso, o Homem-Aranha pede ajuda ao Quarteto Fantástico para viajar à Algéria, local da morte de seus pais. Chegando lá, descobre que o Caveira Vermelha (o clássico vilão do Capitão América) está armando um plano de dominação mundial e que os seus pais teriam trabalhado para ele. Mas ao longo do confronto, o aracnídeo descobre que seus pais eram agentes governamentais infiltrados na organização do vilão. Carregado de provas, ele volta para casa.

Essa estranha aventura criou uma série de problemas. Primeiro, por envolver os pais de Peter em um ambiente superhumano que quebra a ideia de vida normal que o jovem tinha antes de se transformar no Homem-Aranha. Em segundo, também havia o problema de que embora o Caveira Vermelha tivesse aparecido em algumas edições de Tales of Suspense (revista que trazia as aventuras do Capitão América), eram histórias – escritas pelo próprio Lee – se passavam no passado, nos tempos da II Guerra Mundial, e o Caveira não havia ainda estreado no tempo presente, algo que só aconteceria no ano seguinte. (Isso cria um problema cronológico, que teria que ser resolvido mais tarde, com uma segunda versão do Caveira que estaria atuante nos anos 1950). De qualquer modo, a maioria dos escritores posteriores preferiu ignorar os eventos dessa história nas décadas seguintes. Mas histórias dos anos 1990 trouxeram de volta e o leitor já pode ter notado que esses elementos foram ligeiramente usados no filme O Espetacular Homem-Aranha, de Marc Webb, em 2012.

Após um breve interlúdio em ASM 62 – na qual há um mal entendido entre o Aranha e Medusa, dos Inumanos; enquanto Peter tenta se reconciliar com Gwen e ela nega; e Norman Osborn continua a lembrar que foi o Duende Verde – ASM 63 traz a reunião dos dois Abutres, quando Adrian Toomes revela que falseou a própria morte e liberta Blackie Drago para que os dois duelem para saber quem é o melhor. Enquanto Peter tenta se acertar com Gwen (sem sucesso) e tem uma boa conversa com George Stacy, ele descobre do duelo dos Abutres e vai interferir. O Aranha derrota Drago, mas Toomes sobra para a luta, que continua em ASM 64, com o escalador de paredes machucado tendo dificuldade em vencer até conseguir danificar o jato do vilão e desmaiar de exaustão, enquanto George Stacy tem todas as memórias reestabelecidas e esclarece tudo o que ocorreu para sua filha, Gwen, que pode então perdoar Peter pelo mal entendido. Esta edição também traz Mary Jane estreando um novo penteado, com cabelos curtos e cacheados.

Por ter desmaiado, o Homem-Aranha é preso em Amazing 65, embora o capitão Stacy garanta que sua máscara não seja tirada para assegurar seus direitos civis. Mas a chegada do herói na cadeia desperta uma rebelião dos presos, e o herói controla a situação. Stacy tenta convencer o aracnídeo a ficar, revelar sua identidade secreta e provar que não é um criminoso, mas ele recusa e vai embora. E Norman Osborn continua a lembrar sua memória, o que deixa Harry preocupado com ele obcecado pelo Duende Verde.

ASM 66 e 67 trazem o maior dos confrontos do Homem-Aranha com Mysterio, no qual ele faz o herói pensar que foi encolhido de tamanho, enquanto Peter e Gwen vão refazendo sua relação e Peter e Harry se preocupam com o desaparecimento de Norman Osborn e nós sabemos que ele ganhou todas as suas memórias de volta, inclusive, da identidade secreta de Peter.

É o gancho esperado para a chegada de The Spectacular Spider-Man 02, de novembro de 1968, a segunda edição da versão magazine do Homem-Aranha, com roteiro de Stan Lee e arte de John Romita. Com a recepção fria da primeira edição, este segundo número veio com uma única história em tamanho gigante e em cores e não no miolo preto e branco da primeira tentativa. Como se isso não bastasse, a edição 02 trouxe o bombástico retorno do Duende Verde após dois anos! Não podia dar errado, não é? Mas deu.

Do ponto de vista artístico, Spectacular (magazine) 02 é uma das melhores histórias do Homem-Aranha, com um roteiro bacana de Lee e a arte esplendorosa de Romita em seu auge. Na trama, Norman Osborn lembra que é o Duende Verde e que Peter é o escalador de paredes (como já vimos na mensal Amazing) e decide se vingar de seu inimigo humilhando-o diante de seus amigos. Assim, Osborn promove uma festa em sua mansão e convida Harry, Peter e seus amigos. Enquanto vemos Peter mais ou menos namorando Gwen e Harry mais ou menos namorando Mary Jane, vamos acompanhando a tensão crescente entre Peter e Norman, com o herói percebendo o que está acontecendo e procurando uma maneira de se safar dessa situação impossível.

Esta tensão no jantar seria adaptada ao cinema em Homem-Aranha, do diretor Sam Raimi, em 2002, embora sem o mesmo efeito dramático pelo pouco tempo para desenvolver a rivalidade entre Peter e Norman.

Na HQ, em meio ao jantar, por fim, Peter bola um plano de melar a intenção de seu algoz, jogando uma bola de teia na lareira, o que cria uma discreta bomba de fumaça, levando a todos evacuarem a casa, e com isso, abrindo abertamente uma batalha grandiosa entre o Homem-Aranha e o Duende Verde próxima à casa da Tia May. O Duende quase vence ao usar uma bomba psicodélica no escalador de paredes, algo que quase o deixa louco, e no fim, o herói percebe que esta é a saída e usa a mesma bomba em Norman, o que o faz alucinar e perder a memória de novo. Peter deixa Norman no hospital e é encontrado lá por Harry, MJ e Gwen.

Apesar da maravilha da história, a revista não vendeu o esperado. Spectacular 02 trouxe até uma chamada na quarta capa para a próxima edição que nunca chegou. O vilão que Romita criou para a mal fadada edição 03 seria em breve reutilizado para o vilão Gatuno. The Goblin Lives terminou ficando por um tempo como a grande história perdida do Homem-Aranha, pois sua publicação fora de Amazing Spider-Man a tornou uma peça relativamente rara dentro das republicações posteriores.

E o episódio ensinou uma lição para o editor Stan Lee. Ele percebeu que o caráter mais adulto e profundo que poderia desenvolver numa revista como Spectacular, poderiam ser usados, com algum cuidado, na mensal e tradicional Amazing. Contra ele estava o controle e censura do Comic Code Authority – algo do qual Spectacular estava livre – mas Lee começou a pensar que haveria formas de contornar o controle rígido do CCA. Dali em diante, as histórias do Aranha em Amazing iriam ganhando uma conotação cada vez mais adulta, com Lee direcionando ao público que sabia que lia suas histórias e percebendo que não precisava de outra revista para isso.

Anos mais tarde haveria outra revista chamada Spectacular Spider-Man, mas para fins de codificação editorial, esta primeira tentativa seria chamada de Spectacular (magazine) para diferenciar.

Mais ou Menos Romita

Vamos repetir: quando John Romita estreou como desenhista em Amazing Spider-Man no verão de 1966, a revista era segunda mais vendida da Marvel. Um ano depois, ela já era o número 01! Curiosamente, o sucesso do desenhista entre os fãs e à imprensa terminou tendo o efeito contrário de afastá-lo de Amazing a partir de 1969; porque num efeito de um cálculo mal feito, Stan Lee terminou por ocupá-lo com outras coisas.

O “trio maravilha”, MJ, Peter e Gwen: anos 1960 na pauta.

Ao contrário de Jack Kirby ou Steve Ditko, Romita não tinha a disciplina para trabalhar em casa, então, ia para a Marvel todos os dias, trabalhar na sala dos desenhistas. Essa aproximação da redação terminou por motivar Lee a procurar Romita para corrigir os erros ou elementos não aprovados nos desenhos de outros artistas da Marvel. Assim, no período, os historiadores são capazes de identificar uma série de edições de Romita nas artes de revistas como Avengers (Vingadores) ou outras. Assim, Romita assumiu informalmente o cargo de Diretor de Arte da Marvel, que oficialmente era ocupado por Lee junto com a editoria-chefe.

Provavelmente, Lee também viu que a habilidade de Romita era tamanha que ele poderia trabalhar sobre a arte de outro artista e embelezar o resultado final – tal qual ele fizera lá atrás nos layouts de Kirby para Daredevil ou na própria Amazing trabalhando junto com Don Heck. Por isso, a partir de Amazing Spider-Man 68, a estrutura de trabalho mudou totalmente: Romita criava a trama geral da história, fazendo os layouts (desenhos em forma de esboço mostrando a história quadro a quadro) e passava para outro desenhista desenvolvê-los; para depois pegar a arte pronta e fazer retoques dando o seu “toque” especial – principalmente nos rostos dos personagens – e, por fim, o trabalho seguia para Lee, que talvez solicitasse alguma mudança e, satisfeito, redigia os diálogos e recordatórios (os quadros de falas).

Esse regime, obviamente, terminava por ser mais demorado do que o anterior, exigindo maior planejamento e prazos mais apertados, ao mesmo tempo em que aumentava a carga de trabalho de Romita, que mexia duas vezes na história e ainda ficava corrigindo a arte dos outros desenhistas da casa. A compensação que encontrou foi o aumento substancial em seu pagamento, mas Romita ficou algo traumatizado por esse período – que se estendeu principalmente entre 1969 e 1971 – por causa da grande carga de trabalho e dos prazos matadores. E, independente de quem fazia a arte interna, Romita assinou todas as capas de Amazing até a edição 105, conforme veremos.

Jim Mooney, o primeiro “substituto” de John Romita.

Como resultado, a partir de ASM 73, a arte principal passou por um período para o veterano Jim Mooney, artista da Era de Ouro que fez trabalhos marcantes nas histórias do Batman e da Supergirl na DC Comics, mas tinha trabalhado também na Timely-Atlas. A arte clássica e bonita de Mooney casou muito bem com o estilo de Romita e o Aranha e ele teria um longo futuro no personagem. Romita fazia a arte final, ou seja, cobria o lápis com tinta nanquim. A dupla ficou até a edição 82, quando a posição de artista backup de Romita passou a John Buscema, artista que emergia como um dos principais artistas da Marvel pós-1968, e então, o responsável pela revista dos Vingadores. Buscema, Mooney e Don Heck trabalharam também nesse esquema até a edição 88.

A partir de Amazing 89, a função passaria a Gil Kane, mas falaremos mais disso adiante.

Tramas Mais Adultas

A fase de John Romita já tinha inserido Peter Parker e seu elenco dentro dos anos 1960 desde o início, com as festas, os cabelos compridos, as garotas mais firmes (tanto Gwen quanto MJ) e alusões à Guerra do Vietnã. Mas a partir de Amazing Spider-Man 68 temos um marco simbólico disso tudo, não apenas pela feliz coincidência do numeral em relação ao ano mais explosivo da década de 1960, mas porque o trio Lee-Romita-Mooney entrega uma tema muito caro aqueles tempos: os protestos juvenis. E ainda encontraram uma forma de integrar isso à história de um modo interessante.

Na verdade, uma pequena cena de ASM 67 trouxe a estreia de Randy Robertson, o filho de Robbie Robertson, do Clarim, e que também estuda na Universidade Empire State, dizendo que as coisas estão “quentes” na faculdade. E na ASM 68, de janeiro de 1969, vemos porquê: a UES está exibindo uma valiosíssima tabla de argila antiquíssima, que resulta no fato dos dormitórios destinados para estudantes de baixa renda serem ocupados para outras finalidades. Os estudantes fazem um grande protesto no campus, com a tensão cada vez mais crescente. E, claro, o Rei do Crime aproveita a oportunidade para invadir o campus e roubar as tabletas.

O Rei do Crime na arte de John Romita.

Em ASM 69, vemos os universitários na delegacia e Gwen Stacy vai visitá-los, mas termina se desentendendo com um deles que chama Peter Parker de covarde e lhe dá um tapa na cara; porém, em conversa com seu pai, o Capitão Stacy, ela percebe que tem medo que aquilo fosse verdade. Enquanto isso, o Homem-Aranha sai em busca do Rei do Crime e encontra seu esconderijo, saindo em uma batalha corporal com ele. Após ter sido subjugado pelo vilão por duas vezes (nas edições 51 e 60), esta é a primeira vez que o herói consegue vencer Wilson Fisk no mano a mano, ao cobrir de teia a bengala do vilão, que explode, deixando-o inconsciente. A polícia chega e leva Fisk preso, mas o criminoso faz a polícia entender que o escalador de paredes estava mancomunado com ele, e os tiras disparam contra o herói, que estava com a tabuleta de argila nas mãos e, por isso, não tem a oportunidade de devolvê-la. Ele sai furioso jurando que vai se comportar como uma ameaça, já que é tratado como uma.

Amazing 70 mostra o aracnídeo sendo perseguido implacavelmente pela polícia, enquanto pensa em como devolver o tablete de argila à polícia. Peter e Gwen conversam e ela lhe diz que acha que ele é um covarde por não ter se envolvido no protesto, ao mesmo tempo em que vemos que os universitários são libertados (pois foi esclarecido que o Rei do Crime e o Homem-Aranha “roubaram” o artefato antigo, e o Reitor da UES lhes garante que os dormitórios serão reestabelecidos. Por fim, Wilson Fisk consegue fugir da cadeia e tem um novo confronto com cabeça de teia, mas o herói é atrapalhado por um carro dirigido por Ned Leeds e J.J. Jameson, que estão cobrindo o evento e isso dá a oportunidade do Rei escapar em outro carro, dirigido por uma mulher, que descobriremos no futuro é sua esposa Vanessa Fisk.

O escalador de paredes fica furioso e grita contra Jameson, que fica tão assustado que desmaia, o que faz Peter cair em si e imaginar que, se o editor morresse de um ataque cardíaco, ele se tornaria aquilo que o Clarim sempre disse que ele era.

A ASM 71 é uma daquelas edições de transição, servindo mais como desculpa de colocar o Aranha contra outro herói da Marvel, como ocorrera com Medusa há não muito tempo. Agora, é a vez do aracnídeo se desentender momentaneamente com o vingador Mercúrio, enquanto Joe Robertson está à frente do Clarim e coloca as fotos de Peter na primeira página e lhe dá um grande pagamento por isso. Na edição 72 temos o retorno de Shocker, que rouba o tablete de argila que o Aranha devolveu ao Capitão Stacy na edição anterior, e quer promover um leilão por ele. O escalador não consegue vencer o vilão na primeira tentativa, mas sim, na segunda. Entre elas, Peter e Gwen estão juntos e encontram Flash Thompson, que dá uma ligeira cantada nela, o que deixa Peter furioso e se excede, o que faz Gwen ficar chateada e ir embora. Esta edição marca a chegada de John Buscema como o novo artista backup de Romita – prosseguindo a estratégia do primeiro fazer a arte principal e o segundo revisar e modificar para o resultado final. Mas Buscema é um verdadeiro artista, um dos mestres da Marvel e se sai muito bem em seu papel.

ASM 73 dá prosseguimento à saga do tablete de argila introduzindo outro vilão em busca dela: a família mafiosa Manfredi, da qual o líder é chamado de Cabelo de Prata (por causa de seus cabelos grisalhos). A partir de uma informação do Capitão Stacy, o Homem-Aranha encontra a peça no apartamento da ex-namorada de Shocker, mas o Montanha Marko (capanga da máfia) já está lá, na luta, ele joga a menina pela janela e o herói precisa salvá-la da queda, o que o faz usando a teia em múltiplos locais para que a parada não seja brusca e a machuque. Este é um detalhe importantíssimo, pois uma situação semelhante ocorrerá com Gwen Stacy no futuro…

No fim, o Cabelo de Prata consegue decifrar o misterioso texto do tablete de argila e sequestra o Dr. Curt Connors para realizar um procedimento, o que nos leva à ASM 74, na qual Connors descobre que o artefato esconde a fórmula de uma poção capaz de rejuvenescer as pessoas. Quando o idoso Cabelo de Prata a ingere termina se transformando em um adulto no auge de sua forma; para confrontar o Homem-Aranha em ASM 75. Mas há uma pegadinha: o criminoso continua rejuvenescendo sem parar e passa para um jovem de 20 anos, um adolescente e uma criança em minutos. No fim, o aracnídeo vê seu inimigo virar um bebê e evanescer. Um destino horrível! Essas duas últimas edições trouxeram Jim Mooney de volta ao lugar de John Buscema, enquanto Romita continua fazendo as finalizações e as belíssimas capas.

A reação do Homem-Aranha ao ver o Cabelo de Prata evanescer. Arte de John Romita.

Sem o Aranha saber, Connors não aguentou a pressão de estar sob custódia dos bandidos e se transforma no Lagarto, o que nos leva a ASM 76, prosseguindo com o trio Lee, Mooney, Romita, na qual o herói sai à caça de seu amigo. Antes de encontrá-lo, contudo, Peter tem interações importantes com Harry (que se frustra com seu colega de quarto, que nunca tem tempo para conversarem), com May (que está de férias na Flórida) e com Gwen Stacy, que pede que ele revele o segredo que esconde, porque seus sumiços e mistérios já não são mais suportáveis. Peter promete que vai lhe dizer em breve e os pombinhos são interrompidos por George Stacy e Robbie Robertson, que lhe pedem informações sobre o Homem-Aranha, já que ele tira tantas fotos dele.

Outro exemplo da arte icônica de John Romita: capa de “Amazing Spider-Man 75”, com a volta do Lagarto.

Quando enfim o escalador de paredes encontra o Lagarto, mas com medo de machucá-lo está prestes a ser derrotado quando o Tocha Humana interfere na batalha para ajudar ao colega – trazendo o velho “amigo” de volta, que era tão comum na revista nos tempos de Steve Ditko. A batalha conclui na edição 76 – agora com Lee, John Buscema e Romita – com o Aranha engabelando o Tocha Humana para ir embora (com medo de que machuque Connors) e derrotando-o com um pó desidratador.

Na edição 78, a novela pessoal de Peter Parker se desenvolve, com o herói percebendo (por meio da escuta de um telefonema) que Harry Osborn e Mary Jane Watson estão bastante próximos; enquanto ele tenta falar com Gwen, que se esquiva ao telefone. Sem conseguir estudar, Peter decide ir à casa dela, mas no caminho a vê conversando com Flash Thompson no Caffe Pot, o que lhe enche de ciúmes; embora a jovem esteja justamente pedindo conselhos ao amigo para lidar com os segredos de Peter. Ademais, a edição traz apenas Lee, Buscema e Mooney, sem créditos oficiais a Romita (que assina apenas a capa) e temos a estreia do Gatuno (The Prowler) – com o visual que Romita reutilizou do vilão que criara para a não lançada Spectacular (magazine) 03 – uma pequeno vilão que teria alguma carreira nas histórias futuras do cabeça de teia. Na trama, Hobie Brown é um limpador de janelas afroamericano com uma mente genial, mas por causa de sua raça e da falta de dinheiro nunca tem oportunidades. Por isso, decide usar suas invenções para se tornar um ladrão e vai roubar o Clarim Diário para ganhar publicidade.

Peter vê a cena e, como não há tempo para se trocar, decide interferir em seus trajes civis, mas a aparição de Jameson o impede de usar sua força, criando o gancho para ASM 79 (ainda com Lee, Buscema e Mooney – e Romita por trás dos panos e na capa), na qual Peter dá um jeito de o Gatuno sem querer “jogá-lo” pela janela. Querendo apenas o dinheiro, Hobie Brown fica aterrorizado pelo ocorrido e foge, mas o Homem-Aranha o confronta, levando vantagem, embora o Gatuno consiga fugir ao jogar gás no rosto do herói. Peter vai para a faculdade pela manhã e Gwen o enfrenta, enquanto Peter diz que a viu com Flash e sai sem ouvir a explicação. Depois, o Homem-Aranha encontra o Gatuno tentando roubar uma joalheria e está preparado (com uma máscara de gás) e filme para a câmera. Ele vence facilmente, mas ao ver que o ladrão é apenas um jovem da mesma idade dele, o cabeça de teia pensa que Hobie não roubou nada nem machucou ninguém e lhe permite ir embora, desde que se comprometa a não cometer mais nenhum crime e fazer uma vida melhor, no que o jovem aceita de bom grado e vai feliz. É uma saída bastante madura.

Hobie Brown e o Gatuno permaneceriam como coadjuvantes ocasionais das histórias do Aranha, quase sempre numa visão positiva e como aliado.

Em Amazing 80 (de novo com Lee, Buscema e Mooney), de janeiro de 1970, temos o retorno do Camaleão, como uma forma de comemorar o octogésimo número da revista (pois o vilão estreou no número 01) e vemos Peter ruminando o ciúmes por Gwen em casa quando Harry chega acompanhado justamente com Flash Thompson. Peter perde a calma e quer agredir o colega, mas ele esclarece tudo. Então, o jovem fala com Gwen e ela o convida a ir ao museu, onde seu pai estará responsável pela segurança de pinturas caras. O casal se reencontra e faz as pazes, mas o Camaleão se disfarça de George Stacy e rouba as pinturas. Isso deixa Peter desconfiado e supõe ser o mestre dos disfarces, então, arma com Robbie Robertson a publicidade de uma transferência de valores, o que atrai o vilão. Como Peter Parker estava fotografando ao lado de Jameson, o Homem-Aranha descobre facilmente o Camaleão quando ele se disfarça justamente de Parker.

ASM 81 traz pela primeira vez o crédito de criação da trama para John Romita (algo que ele já fazia desde sempre), junto a Stan Lee (roteiro), John Buscema (arte) e Jim Mooney (pincel): o Homem-Aranha precisa lidar com o Canguru, um vilão de origem australiana que rouba uma bactéria mortal. O problema é que Peter espirrou na casa de May e ela o pôs na cama para cuidar dele, mas quando tem que sair atrás do bandido, o rapaz tem a péssima ideia de fazer um boneco de teia e deixá-lo em seu lugar: quando May vai vê-lo sob a desculpa de dar-lhe um remédio, encontra o boneco e fica tão aterrada que desmaia. Quando Peter volta, cuida da tia, mas May começa a achar que está ficando senil e o jovem não pode desmenti-la sob o risco de expor sua identidade secreta.

Passamos à ASM 82, onde Peter fica bastante nervoso e triste com o episódio de May, e recebe visitas de Mary Jane e Anna Watson, antes de sair com Gwen para outra festa de despedida de Flash Thompson, que mais uma vez reassume suas funções na Guerra do Vietnã, mas ele tem outra discussão com o militar após outro galanteio em Gwen e cai fora. Mas dessa vez, Gwen vai atrás dele e conversam sobre seus problemas pessoais. Depois, Peter tem uma ideia para ganhar algum dinheiro: aparecer em um talk show como o Homem-Aranha, mas Max Dillon (o Electro) foi libertado sob condicional e foi trabalhar justamente no estúdio da TV e vê uma oportunidade de se vingar do herói, indo até J.J. Jameson solicitando um pagamento de mil dólares para derrotar o aracnídeo ao vivo na TV. Animado, Jameson convida Robbie Robertson e George Stacy para ir ao estúdio com ele; enquanto Peter promove a primeira aparição do uniforme com saco na cabeça para poder lavar seu uniforme. À noite, mal o programa começa, Electro ataca o escalador de paredes e leva a melhor, embora precise fugir. Peter também vai embora sem seu pagamento e chega em casa exausto e frustrado, com as mãos queimadas e o uniforme também.

Esta edição trouxe a volta do time Lee-Romita-Mooney, com o último de volta ao posto de tinteiro e Romita assumindo os desenhos de maneira “verdadeira” pela primeira vez em um longo tempo. Na edição seguinte, volta Mike Esposito ao papel de tinteiro.

Flash Thompson ganha uma boa despedida. E demoraria a voltar.

Amazing 83 traz o início de um importante arco novamente focado no Rei do Crime. A trama apresenta um novo vilão: o Planejador (The Schemer), que mobiliza uma iniciativa criminosa para tirar o poder de Wilson Fisk no submundo. Enquanto as quadrilhas estão em guerra, Peter anda preocupado com a saúde de May e vai à despedida de Flash, onde tudo ocorre bem (e ele recebe beijos na boca tanto de MJ quanto de Gwen numa “disputa” em quem dá a melhor despedida). Após idas e vindas inexplicáveis à guerra, Thompson ficaria afastado da revista por algum tempo. Na volta para casa, Peter considera contar a Gwen que é o Homem-Aranha, mas num ataque da quadrilha do Planejador a do Rei, um caminhão desgovernado parte para cima do casal. Peter consegue segurar o caminhão com o próprio corpo, mas o impacto deixa Gwen desacordada.

Wilson e Vanessa Fisk.

Após deixar Gwen no hospital, Peter vai atrás do caminhão que marcou com rastreador aranha, mas isso faz com que quando a jovem acorde ele não esteja lá. Quando Peter volta, ela não quer vê-lo, porque se sente abandonada, mas o Capitão Stacy lhe conforta dizendo que ela se sentiria melhor no dia seguinte, e o herói tão perturbado quase entrega sua identidade secreta. Ah, e íamos esquecendo: essa edição traz a estreia de Vanessa Fisk, a esposa do Rei.

Peter regressa casa dos Stacy em ASM 84, mas a garota continua a tratá-lo com frieza, mas o pai dela começa a questionar o rapaz como ele conseguiu sair ileso, quando a garota se machucou o suficiente para entrar em um breve coma, Peter percebe que o Capitão Stacy está chegando perto demais de seu segredo e que sua identidade secreta está em risco e vai embora, indo atrás de localizar o Planejador, que retomou a iniciativa contra as forças do Rei, terminando por ir à mansão do chefão e enfrentá-lo, mas o Homem-Aranha os localiza e se intromete na batalha, outra vez tendo uma grande dificuldade de vencer Wilson Fisk no mano a mano. Porém, quando o Rei percebe que o Planejador sumiu e “sequestrou” sua esposa Vanessa, interrompe a luta e vai atrás dela, e o aracnídeo vai embora também. Esta edição contou com a volta de John Buscema, agora, com ele e John Romita dividindo os créditos dos desenhos – fabulosos, incríveis – e com Stan Lee assumindo o roteiro. Mooney ficou no pincel.

A mesma equipe volta para ASM 85, no qual o Rei fica possesso ao descobrir que uma das fotos que Peter bateu mostra Vanessa ajudando o Planejador a fugir, enquanto Peter tenta estudar ao lembrar que não comprou nenhum presente para Gwen, cujo aniversário se aproxima; então, ela própria e seu pai aparecem para uma visita que se mostra inquisidora: Stacy quer saber como Peter consegue as fotos do Homem-Aranha, bastante desconfiado de todas as pistas que veio coletando nas últimas edições. Peter dá uma desculpa de que tem fotos na câmera escura que precisam ser tratadas e sai pela janela e volta à sala do apartamento vestido de Homem-Aranha e fingindo ser outra pessoa, perguntando por Parker e querendo a grana do acordo entre eles. O capitão decide ir embora para que o escalador de paredes não “suspeite” que Peter está lá. Mas depois de um tempo eles voltam e Peter não está lá, lhes dando medo de que o jovem tenha sido “sequestrado” pelo vigilante.

Mas ele está atrás do Planejador e consegue prendê-lo e entregar para a polícia até descobrir que a polícia está sob as ordens do Rei do Crime e levam o rival à sua presença. Outro embate se dá e Fisk quer saber quem é o Planejador, que tira sua máscara e revela ser ninguém menos do que seu filho, Richard Fisk, que era tido como morto. O jovem explica que só descobriu que o pai era um criminoso quando estudava na Suíça e que ficou com tanto desgosto que pensou em morrer até que teve a ideia de acabar com as atividades criminosas do pai. O choque de ver o filho vivo e odiá-lo fazem o Rei ficar em um estado catatônico e sem ter o que fazer, o Homem-Aranha vai embora.

O Planejador é Richard Fisk.

Essa aventura encerra o ciclo clássico do Rei do Crime. Se o leitor prestar atenção, verá que Romita e Lee produziram uma trilogia focada no vilão, com sua estreia e tomada do submundo a partir de Amazing 50; seu segundo ato envolvendo o Tablete do Tempo, a partir da edição 69; e essa trama final se encerrando no número 85. Nunca mais depois disso o Rei do Crime teria o brilho que encontrou nessas histórias – em particular nas partes 1 e 3 dessa trilogia – e, ainda assim, demoraria muitos anos para regressar nas aventuras aracnídeas. Fisk apareceria após um tempo nas histórias do Capitão América (tendo Romita à frente), mas encontraria seu lugar mesmo como oponente do Demolidor na aclamada fase de Frank Miller a partir de 1981. O Rei voltaria a ter uma importância nas histórias do Aranha nos anos 1980, mas nunca da mesma forma como nos anos Romita.

Essas tramas dos anos 1980 também trariam Richard Fisk, mas isso é tema para a Parte 3 desse Dossiê. Aguarde um pouco…

A primeira aparição do novo visual criado por John Romita, em 1970.

ASM 86 é outra daquelas “pausas” criadas de tempos em tempos para vincular o Homem-Aranha ao restante do universo Marvel ou para apresentar outros personagens que se beneficiariam da popularidade da revista aracnídea. Neste caso, a edição traz o relançamento da Viúva Negra (ela mesma, Natasha Romanoff), que tem seu visual completamente modificado por John Romita (que assume os desenhos de novo de modo integral), que cria todos os elementos de design que passam a ser a essência da personagem dali em diante: o uniforme preto colante; os braceletes com sua “picada”; os longos cabelos ruivos. A Viúva tinha surgido nas histórias do Homem de Ferro, e depois, como namorada do Gavião Arqueiro, terminou como um tipo de membro reserva dos Vingadores por um tempo. Mas Stan Lee queria dar um novo direcionamento mais independente e interessante à heroína, então, armou esse relançamento na revista do Aranha, para apresentá-la ao grande público e servir de plataforma para a primeira série de histórias solo dela.

Na trama, depois que Natasha constrói seu novo uniforme e equipamento decide ir atrás do Homem-Aranha que é visto como um criminoso pelas autoridades. Eles lutam e ela percebe seu equívoco, fugindo, mas percebendo que é dotada de habilidades muito próprias. Antes disso, quando Peter volta para casa, vê que Harry, Gwen e Capitão Stacy estão esperando por ele. Após invadir seu quarto para pegar umas roupas e entrar de novo pela porta, é recebido com alívio e alegria, mas Gwen nota que o rosto de Peter está machucado – ainda pela luta com o Rei – e vai embora aos prantos pedindo que ele não a procure até não se envolver mais com o Homem-Aranha. Peter começa a se sentir doente e vai dar uma olhada em May, mas ela termina vendo-o na janela e fica aterrorizada, outra vez pensando que está ficando senil. Por fim, após o encontro com Romanoff, Peter percebe que está muito mal e que seus poderes estão sumindo completamente. Terá ele a chance de uma vida normal?

Claro que não! Mas ASM 87 traz uma interessante trama sem nenhum vilão ou ameaça, mostrando que apenas a vida doméstica de Parker, suas atrapalhadas e problemas com a vida secreta de herói são o suficiente para sustentar uma história. Lee e Romita (mais Mooney no pincel) fazem Peter se sentir mal e não pensar direito. Sabendo que é a noite do aniversário de Gwen, ele chega a pensar em roubar uma joalheria para lhe dar um presente, mas se detém no último instante. Mas vendo seus poderes sumirem, um delirante Peter aparece na festa e, na frente de Gwen, Capitão Stacy, Harry Osborn e Mary Jane Watson, mostra a máscara do Homem-Aranha nas mãos e diz que é o cabeça de teia. Stacy nota que ele está febril, mas Gwen fica quase histérica, enquanto MJ faz pouco caso.

Percebendo a confusão, Peter decide ir embora e, achando que está muito doente, decide visitar um médico vestido em seu uniforme. O médico aceita analisá-lo e conclui que ele está apenas com uma gripe muito forte. Então, ele pensa numa maneira de desfazer a besteira que causou e volta à casa dos Stacy, onde a trupe espera por ele para explicações. Harry não acredita na revelação, lembrando que Peter já se passara pelo Homem-Aranha antes, quando quis salvar Betty Brant do Dr. Octopus (lá atrás em ASM 11), mas Gwen não está convencida. Peter entra e diz que estava delirando, com febre alta e sem saber o que fazia, então, (algo que foi combinado antes) Hobie Brown (ele mesmo, o Gatuno) entra pela janela, vestido de Homem-Aranha, falando algo sobre o pacto das fotos. Hobie vai embora e deixa o uniforme no telhado, como combinado, e Peter acha que conseguiu convencer os amigos.

A Era Gil Kane

Estamos em 1970 e o crescimento e sucesso da Marvel continuam a escalonar ao ponto de ameaçar seriamente a Distinta Concorrente (desde sempre a maior editora de quadrinhos) e Stan Lee, em seu papel de editor chefe continua a demandar de seu mais confiável desenhista, John Romita, correções e outros trabalhos artísticos na redação. Contudo, outros problemas se avolumavam…

A saída de Jack Kirby da Marvel, em 1970, resultou na saída de John Romita do Homem-Aranha.

O maior deles foi a partida de Jack Kirby. O “rei dos quadrinhos” havia sido o maior parceiro de Lee na criação do Universo Marvel, cocriando Quarteto Fantástico, Hulk, Thor, Homem de Ferro, Homem-Formiga, Vespa, os Vingadores, X-Men, Demolidor, Pantera Negra, Inumanos, Surfista Prateado e muito, muito mais. Porém, na medida em que Lee se tornava o maior superstar dos quadrinhos (mobilizado por sua personalidade expansiva, carisma, disposição para aparecer – e alguns poderiam dizer – disposição de receber mais créditos do que merecia), Kirby se ressentia disso, achando que recebia menos reconhecimento e crédito do que merecia. E menos dinheiro também. A partida de Kirby foi ainda mais abrupta do que a Ditko: ele deixou Fantastic Four 103 inacabada pelo meio.

Sem Kirby, de repente, duas das revistas mais vendidas da Marvel perderam seu criador e era preciso encontrar substitutos de calibre. Neal Adams ficou em Thor; e coube a John Romita o Quarteto Fantástico, a segunda revista mais vendida da editora. Romita faria as edições 103 a 108 de Fantastic Four, em 1970, antes de passar a bola para Buscema, e em seguida, mudaria para a revista do Capitão América, para dar uma elevada nas vendas do sentinela da liberdade, nos números 138 a 148, ao longo dos anos de 1971 e 72.

Como não era um artista rápido, Romita teve que deixar Amazing Spider-Man de vez. Provavelmente, Stan Lee mediu que o escalador de paredes ia muito bem e que a experiência com Jim Mooney, John Buscema e Larry Lieber mostrara ser possível mimetizar o “efeito Romita” para manter as vendas altas. Mas o escolhido para tocar Amazing dali em diante seria Gil Kane, artista que vinha da DC Comics, onde havia sido o cocriador do Lanterna Verde Hal Jordan e desenhara também as histórias de Adam Strange e do Batman. Na Marvel, a partir de 1967, Kane já havia sido testado com sucesso em aventuras do Hulk e do Capitão América, mas principalmente, do Capitão Marvel.

Gil Kane desenhou o Homem-Aranha entre 1970 e 1973, com alguns intervalos.

Kane trabalharia ao lado de Romita até a edição 95, e em seguida, assumiria a arte principal “solo” de Amazing por 10 edições seguidas até o número 105, já em 1971.

A escolha de Kane se deu provavelmente pela habilidade do artista em criar cenas de ação dinâmicas e constantemente usava enquadramentos de cima para baixo ou de baixo para cima, o que casava muito bem com a agilidade e as acrobacias dos poderes do Homem-Aranha.

Então, a edição final de John Romita nessa fase foi Amazing Spider-Man 88, de setembro de 1970, que talvez na tentativa de “mirar no que dá certo”, traz o retorno do Doutor Octopus. Na trama, enquanto Peter leva uma chamada do Professor Warren, dizendo que suas notas estão ficando perigosamente baixas e que, se seguirem nesse ritmo, ele irá perder sua bolsa de estudos; os tentáculos de Octopus são expostos no Museu de História Natural de Nova York. Mas Otto Octavius, que está preso a meio país de distância, encontrou uma maneira de se comunicar telepaticamente com seus braços metálicos mesmo a esta distância e os faz escapar. O Homem-Aranha tenta impedir, mas precisa ficar para trás para impedir o desabamento de um prédio.

Os braços vão até seu dono e o libertam da cadeia, com o vilão chegando a NY e sequestrando um avião, que tragicamente traz o General Su, o comandante de uma nação estrangeira inimiga. Sob a desculpa de cobrir para o Clarim, o Aranha consegue chegar ao aeroporto e luta contra Octopus, que ativa o avião para decolar, mas desgovernado, a aeronave – um 747 – se espatifa no fim da pista. As autoridades consideram que Octopus pode ter morrido, mas o aracnídeo tem certeza que não.

O Homem-Aranha de Gil Kane com o pincel de John Romita.

ASM 89 então vem com roteiros de Stan Lee, arte de Gil Kane e John Romita apenas no pincel, mostrando Randy Robertson convidando Peter Parker para participar de um protesto – trazendo de volta a temática das turbulências sociais do fim da década de 1970 – mas ele recusa, porque precisa ir atrás de Octopus; o que dá ao colega a impressão de que ele é um egoísta alienado. Após procurar bastante, o Homem-Aranha encontra o vilão na estação de energia e, pensando que irá causar um blackout, luta, mas o vilão consegue derrubar uma caixa d’água justamente sobre os protestantes abaixo, o que obriga ao cabeça de teia usar seu corpo como escudo, ficando vulnerável ao ataque e sendo derrotado e ficando desacordado.

A típica arte composta de Gil Kane explorando o movimento acrobático do Homem-Aranha.

Octopus então simplesmente lança o corpo inerte do herói para a morte certa por uma queda a dezenas de metros de altura. Gil Kane realmente mostrou a que veio nessa edição, criando quadros compostos com várias figuras do herói para demonstrar as idas e vindas de sua busca, trazendo angulações novas e terminando com um arrebatador quadro do escalador de paredes caindo para a morte numa página inteira.

O quadro final da edição 89 na arte de Gil Kane.

Ainda que sua arte recebesse o polimento típico de Romita para garantir uma transição segura (as figuras do novo artista eram mais esguias e mundanas), Stan Lee podia dormir tranquilo: Gil Kane daria conta maravilhosamente bem do recado. Aliás, a combinação da dinâmica e expressão de Kane com o embelezamento e refinação de Romita resultariam talvez na melhor expressão gráfica do Homem-Aranha como veremos daqui em diante.

Mortes e Drogas

Stan Lee sempre gostou de drama e as histórias aracnídeas estavam repletas disso. Mas ao longo do avanço da década de 1960, as tramas de Lee e Romita foram ficando cada vez mais adultas, cada vez mais sérias. Na passagem de 1970 para 1971, temáticas mais duras e realistas começaram a pulular em todas as edições: morte, corrupção, drogas. Embora Peter Parker continuasse lidando com um mundo fantástico, esse mundo era cada vez mais preenchido por elementos da vida real. E um ponto de virada nesse sentido ocorre com Amazing Spider-Man 90, de novembro de 1970, com a morte do capitão Stacy, pai de Gwen. Personagens já haviam morrido na revista, mas Stacy era um membro forte do elenco coadjuvante do herói e pai de sua namorada. Um homem bondoso e justo com um potencial grande de ser um aliado do escalador de paredes. Mas em vez disso, ele morre tragicamente!

Luta com o Dr. Octopus na estreia de Gil Kane como desenhista do herói.

É preciso ressaltar que naquele tempo não era comum que personagens coadjuvantes morressem. Menos ainda de forma definitiva. Então, a partida do capitão foi um grande golpe aos leitores. E chegou de surpresa. Sem avisos!

Na trama de ASM 90, após ser jogado do telhado pelo Doutor Octopus, o herói acorda e usa sua teia para entrar numa janela, perseguido pelos tentáculos, mas ficando parado e em silêncio, os tentáculos não conseguem mais localizá-lo e recuam, ainda que levem um rastreador consigo. Após dar um tempo, o Aranha sai e Octavius já sumiu. Exausto, Peter volta à identidade civil e é encontrado na rua pelo capitão Stacy, mas o rapaz não está bem e termina desmaiando. Quando acorda, está na casa dos Stacy, e George lhe diz que seu poder de recuperação é espetacular. Aquilo acende um alerta para Peter, que pensa que o policial pode saber sua identidade secreta, ainda que não o tenha exposto nem posto contra a parede.

Depois de se recuperar, Peter vai pra casa e trabalha numa teia modificada que possa afetar os tentáculos do vilão e parte para uma nova ronda, encontrando o sinal do rastreador, mas é uma armadilha: Octopus esperava por ele. Uma nova batalha se dá nos telhados (com a polícia e transeuntes acompanhando o evento), mas ao usar a nova teia, Otto realmente perde o controle dos tentáculos que saem se movendo sem controle e destroem um chaminé de alvenaria que cai para a rua. O Aranha percebe que há uma criança no caminho, mas está longe demais. Então, no último instante, George Stacy se lança para salvá-la e é atingido pelos destroços.

Desesperado, o escalador de paredes tenta salvar o policial e levá-lo para um hospital, porém, Stacy está à beira da morte e pede que ele pare e lhe escute. Em um telhado, George pede que Peter cuide de Gwen agora que ele se vai, revelando que ele realmente havia descoberto sua identidade secreta. Peter fica triste e em choque de que seu amigo morreu.

Em consequência dessa morte, as edições 91 e 92 são bem mundanas, mostrando mais uma vez que ações têm consequências e trazendo o tema da corrupção: na primeira, durante o funeral de George Stacy, Peter está muito preocupado, pois Gwen culpa o aracnídeo pela morte do pai e se oferece para ajudar na campanha de Sam Bullit ao cargo de Procurador Geral, a quem estava concorrendo justamente com Stacy. E embora Robbie Robertson suspeite do passado de Bullit, J.J. Jameson garante o apoio à campanha quando ele diz que irá fazer o Homem-Aranha pagar pela morte de Stacy. Então, Bullit usa sua campanha como uma plataforma para dar origem a uma cruzada contra o escalador de paredes, de modo que a opinião pública se volta totalmente contra ele, e as ruas da cidade ficam desertas à noite, com medo.

Mas Robbie estava certo e os capangas de Bullit pegam Peter na rua e o pressionam por informações sobre o Homem-Aranha e, com a negativa, lhe dão uma surra. Furioso, Peter não revida, mas veste seu uniforme e vai para casa, pensar numa maneira de expor o quase promotor. Só que ao entrar no apartamento, as luzes se acendem e ele vê Gwen e Bullit em sua sala, virando para a ASM 92, na qual, numa atitude desesperada para salvaguardar sua identidade, o Aranha “sequestra” Gwen na tentativa de lhe explicar o que realmente aconteceu, mas ela fica desesperada e seus gritos são ouvidos por Bobby Drake, o Homem de Gelo, membro dos X-Men (numa daquelas participações especiais gratuitas que Lee promovia de tempos em tempos – lembram da Medusa, do Mercúrio e da Viúva Negra, não? Embora, verdade seja dita, dessa vez, pelo menos a dobradinha se acertou com a trama geral).

Com medo de que Gwen se machuque, o Aranha foge e o Bullit convida o Homem de Gelo a ajudá-lo a pegar o aracnídeo, no que ele aceita. Mas Robbie descobriu uma série de informações comprometedoras de Bullit (inclusive, apoio a grupos racistas – outro tema muito delicado) e Jameson tira o apoio da campanha à Promotoria, no que Bullit revida com o sequestro de Joe. Em meio à luta com o Homem de Gelo, o cabeça de teia percebe a movimentação suspeita e convence o X-Man a ajudá-lo, com a dupla expondo Bullit, que é preso.

Essa trama se mostra bem mais pé no chão, trazendo elementos da vida real e temas fortes. Ademais, novamente toca no tema de voltar a namorada do herói contra suas identidade uniformizada, algo que Ditko havia usado brevemente com Betty Brant 7 anos antes, mas o trio Lee, Kane e Romita realiza de forma mais dura, convincente e dramática.

Ademais, vale ressaltar que a cada edição que avançava, Romita deixava a arte de Gil Kane mais natural, de modo que os traços típicos do artista iam gradativamente aparecendo e se tornando reconhecíveis, como modo de uma transição estudada – algo do qual Stan Lee era um grande defensor em vista da traumática mudança Ditko-Romita anos antes. O traço de Kane é menos bonito do que o de Romita e é mais arredondado, o que fica patente na forma como retrata os olhos da máscara do Homem-Aranha; e ele continua a explorar suas angulações não convencionais e a expressividade das figuras humanas, em particular no olhar, ao qual Kane sabia imprimir atenção, perplexidade, alegria e fúria de modo impressionante.

Apesar disso, John Romita retorna como o desenhista oficial de Amazing Spider-Man na edição 93, de fevereiro de 1971. A trama mostra Gwen Stacy recebendo uma ligação de seu tio Arthur, convidando-a a morar com a família em Londres, na Inglaterra. Ela precisa pensar e vai conversar com Peter, questionando se ele quer que ela fique. Mas a hesitação do herói, temendo por seu ódio à sua identidade heroica, faz com que ela saia muito chateada e Peter fique descontrolado, amaldiçoando sua vida dupla que destrói seus relacionamentos. Enquanto isso, a campanha contra o Homem-Aranha pós-morte do capitão Stacy continua muito forte, então, Hobie Brown, o Gatuno, se sente mal de ter ajudado ao herói algumas edições antes e decide entregar o aracnídeo às autoridades. Os dois lutam, mas Brown termina se machucando e o Aranha o leva a um hospital. Quando assiste Mindy, a namorada de Hobie, dizer que fará tudo para ficar com ele, Peter percebe que deveria fazer o mesmo com Gwen e vai atrás dela. Mas é tarde, a garota já foi embora para Londres.

As vendas de Amazing Spider-Man estavam altas como nunca, nesse momento, o que significava que existia toda nova geração do público que havia chegado há pouco tempo à revista. E já fazia muito tempo desde Amazing Fantasy 15, em agosto de 1962, ou de Amazing Spider-Man 01, de março de 1963; e mesmo a recapitulação mais detalhada da origem aracnídea do Annual 04, desenhada por Larry Lieber, já estava quatro anos no passado. Então, Lee e Romita decidiram recontá-la outra vez em ASM 94, como uma desculpa para a aflição e depressão de Peter à notícia de que Gwen o deixou e voou para Londres. É uma oportunidade fantástica de ver em alguma sorte de detalhes não apenas a origem, mas alguns dos principais eventos da carreira do Homem-Aranha – que já somava 9 anos! – pelas mãos habilidosas e a arte bonita de Romita. Um deleite. Ah, para não deixar de ter ação, temos a volta do Besouro (sim, aquele inimigo do Tocha Humana), que sequestra a tia May aleatoriamente e leva uma surra do cabeça de teia.

Outra edição prosaica foi a ASM 95, na qual quando Joe Robertson pergunta qual o problema com Peter, ele lhe conta a fuga de Gwen e, bondoso como sempre, arranja uma viagem do fotógrafo a Londres, desde que ele traga material para o Clarim. Peter vai feliz, porém, termina se envolvendo na ação de um grupo terrorista que sequestra seu avião, ameaça uma bomba e captura um delegado americano em uma importante missão, obrigando o Homem-Aranha a combatê-los. É uma desculpa maravilhosa para Romita ilustrar a capital da Inglaterra e todos os seus pontos turísticos, enquanto tocam num tema recorrente de seu tempo: os sequestros de aviões por grupos terroristas e ameaças de bombas (que então nunca terminavam em explosões ou em grande quantidade de mortes). Mas quando Peter percebe que o escalador de paredes está em todas as manchetes, nota que Gwen será capaz de deduzir sua identidade secreta e volta para casa, triste, abatido e sem vê-la. Esta edição ainda teve o pequeno diferencial de trazer o artista Sal Buscema (irmão caçula de John) fazendo o pincel sobre o lápis de Romita. Então, Sal já era um grande desenhista da Marvel, tendo tido um trabalho de destaque com os Vingadores e teria um futuro importantíssimo com o cabeça de teia, mas esta era a primeira vez que trabalhava com o personagem.

Os problemas de sua era estavam na pauta constante de Amazing Spider-Man e um grande tema ainda não havia sido abordado: as drogas! E não tinha por um motivo simples: o Comic Code Authority, órgão de autocensura das editoras (criado para evitar os problemas gerados pela campanha anti-quadrinhos dos anos 1950 que acusava as revistinhas de gerarem a delinquência juvenil nos EUA), proibia qualquer menção a entorpecentes. Nem traficantes de drogas podiam ser mencionados, para se ter uma ideia. Bandido tinha que ser tradicional: roubar bancos e essas coisas.

Jimi Hendrix morreu de uma overdose de calmantes e álcool.

Mas então, em 1971, as drogas eram uma epidemia nos Estados Unidos. Da euforia do LSD em 1967, passando pelo discurso do uso dos entorpecentes para a ampliação da mente, o fato é que o final dos anos 1960 via uma quantidade imensa de jovens viciados em substâncias perigosas como a heroína e muitas mortes por overdose. Não à toa – nosso blog também cobre o rock, não é mesmo? – grandes nomes da música tinham morrido disso: Brian Jones, guitarrista dos Rolling Stones, em 1969; o guitarrista Jimi Hendrix e a cantora Janis Joplin, com três semanas de diferença em 1970; Jim Morrison, vocalista do The Doors, naquele mesmo verão de 1971. E muitos mais viriam nos anos seguintes. E o mundo não sabia, mas grandes nomes como Eric Clapton, John Lennon e Keith Richards sofriam barbaramente pelos efeitos do vício em uma ou outra substância. As drogas podiam – e ainda podem – ser usadas para a recreação (e são usadas, goste-se ou não, em grandíssima quantidade pela sociedade – se assim não o fosse, não teríamos o problema do tráfico de drogas e da guerra contra eles), mas já tinham se transformado em um caso de saúde pública ao fim da década de 1960.

Stan Lee celebridade no início dos anos 1970.

Então, a Comissão Governamental sobre Drogas procurou a Marvel e Stan Lee – uma figura pública do mundo dos quadrinhos, famoso na mídia e palestrante de sucesso – para que os ajudasse com o tema, abordando a questão em seus quadrinhos. Isso quer dizer, fazer uma história contra as drogas. Lee topou e que lugar melhor para trazê-la do que na revista do Homem-Aranha, não somente porque era a mais vendida da Marvel, mas também, porque estava totalmente de acordo com a realidade mundana das histórias fantásticas de Peter Parker. Contudo, o CCA se opôs à ideia, afirmando seus princípios. Em vista da demanda, da importância e por sentir que aquilo era certo, então, Stan Lee deu de ombros e decidiu desafiar o Comitê e publicar Amazing Spider-Man 96 sem a aprovação do selo do CCA.

Capa da edição 96, por Gil Kane. Repare a ausência do selo do CCA no canto superior direito.

Uma editora não era tecnicamente falando obrigada a ter a aprovação do selo para chegar às bancas. O que acontecia era que o sistema de controle era tão grande que uma revista sem o selo era rejeitada pelas bancas de revistas, pelas distribuidores e, em última instância, pelo próprio público (especialmente, os pais das crianças). Por causa disso, desde o surgimento do CCA 17 anos antes, jamais uma revista de super-heróis havia saído sem sua aprovação. ASM 96 foi a primeira delas! Isso criou um furor enorme na época, uma grande polêmica, mas ao mesmo tempo, além de ser uma história contra às drogas, não deixou de ser um sucesso enorme e deu visibilidade à causa. Escolas adotaram a revista para abordar o tema com crianças e adolescentes.

Outro marco mais restrito é que ASM 96 é a primeira capa da revista desenhada por Gil Kane e a primeira vez desde a edição 39 em que não é Romita quem a faz, independente de quem fosse o artista da história em si.

O sucesso foi tanto que, logo em seguida, no mesmo ano, a DC Comics fez o mesmo, publicando uma edição de Green Lantern & Green Arrow, revista com as aventuras conjuntas de Lanterna Verde e Arqueiro Verde, escrita pelos jovens Dennis O’Neil e Neal Adams (ambos com passagens marcantes na Marvel) na qual também se abordava o uso de drogas pelo herói adolescente Ricardito (Speedy).

Harry Osborn sofre em uma viagem de drogas em um painel “viajante” de Gil Kane. Abalando os quadrinhos.

Esta revista foi, portanto, obviamente uma escrita mais ativa de Stan Lee, enquanto Gil Kane voltava à arte principal, ainda que Romita estivesse lá no pincel fazendo algumas notáveis intervenções na arte e no embelezamento. Na trama de ASM 96, primeiro, o Homem-Aranha encontra um jovem alucinado pelos efeitos de uma droga alucinógena (o nome LSD não é citado ainda, pelos últimos pruridos do CCA), que se joga do topo de um prédio achando que pode voar. E isso leva Peter Parker a fazer uma reflexão sobre as drogas (ainda que com um discurso ligeiramente moralista demais – mas tudo bem, ainda era 1971 e Stan Lee tinha 49 anos de idade).

O que o jovem não sabia, mas o leitor descobre logo, é que seu amigo, seu roomate Harry Osborn, está envolvido com “más companhias” que vêm lhe dando pílulas milagrosas para ficar bem. A abordagem não é nada fantasiosa, mas bem realista, com entregas cercadas de segredo e discursos de bem estar tal qual na vida real. Neste ponto é impressionante.

A trama de Lee cria um cenário para isso: Peter e Harry vão à estreia da nova peça de Mary Jane Watson num teatro no Greenwish Village; mas com Gwen longe, MJ, que estava namorando Harry já há um tempo, volta a dar em cima de Peter descaradamente (adiante, a trama justifica que ela fazia isso não apenas por safadeza – bom, talvez, só um pouco – mas porque queria dar um choque de realidade em Harry, que não acompanhava a “animação” dela e vivia para baixo, o que é um adendo interessante), o que enche Harry de ressentimento, o que se soma ao seu comportamento com tendências depressivas, que já é abordado de modo muito direto desde a edição 39 (a primeira de Romita) e aquela conversa primeira dele com Peter.

Assim, ASM 96 não tem nenhum vilão propriamente dito e se desenvolve (quase) inteiramente no ambiente civil da vida de Peter e os dilemas de seus amigos (e da juventude da época). Mas havia sim um elemento fantástico: era preparado gradualmente o retorno do Duende Verde. Afinal, se você vai chamar a atenção do grande público com uma história sobre as drogas, que maneira melhor de fazer isso do que com o bombástico Norman Osborn, o único vilão que sabe a identidade secreta do Homem-Aranha?

Na trama, Osborn está recuperado da “síncope” que teve anteriormente (o retorno breve do Duende Verde – falamos já sobre isso) e está de novo sem as memórias de seu passado criminoso; porém, para azar de todos, o teatro em que MJ irá se apresentar é um prédio que pertenceu a Norman no passado, e ele reconhece o lugar e a existência de uma base secreta no porão vai lhe fazendo lembrar de tudo. No fim, ele encontra a tal sala e volta a ser o Duende, em outro daqueles belíssimos quadros de página inteira com a arte dinâmica de Gil Kane e o embelezamento discreto de John Romita.

Homem-Aranha versus Duende Verde na arte clássica de John Romita.

O evento também é importante porque era a primeira vez que o Duende Verde realmente regressava à Amazing Spider-Man desde a edição 40, em 1966, já que apesar da revista preparar terreno para a volta do vilão lá pelas edições da casa dos 60, o primeiro retorno pós-amnésia de Osborn se deu fora da revista, na edição especial Spectacular Spider-Man (magazine) 02, 1968. E mesmo para aqueles (não tão numerosos assim) que leram essa edição extra, já fazia 3 anos!

A trama segue para as edições 97 e 98, que prosseguem com o trio Lee-Kane-Romita, embora, tal qual naquelas edições de Octopus meses antes, Romita diminuiu a intervenção na arte de Kane, que exibe suas particulares com mais naturalidade, adotando traços mais redondos para o Aranha (e os olhos da máscara), para o rosto do Duende, usando suas angulações e as expressões fortes dos olhos do personagens. Na história, Peter e Norman retomam sua batalha, mas não somente o herói tem dificuldade em vencer seu inimigo, como fica aflito sem saber como fazê-lo sem expor sua identidade secreta.

Enquanto os inimigos batalham logo no início da edição 97, vemos também o desenvolvimento da trama de Harry: os amigos discutem por causa de Mary Jane e Peter percebe que o companheiro de quarto está tomando uma grande quantidade de pílulas e fica preocupado; enquanto na faculdade, de novo, MJ dá em cima de Peter, deixando Harry raivoso. Peter dá uma bronca na garota, mas ela tenta se justificar. Contudo, ao voltar ao apartamento, Peter encontra Harry desacordado, vítima de uma overdose de drogas! E, claro, se culpa, porque deixou o amigo sozinho sabendo que ele não estava bem e que estava tomando estranhas pílulas.

Capa de “Amazing Spider-Man 98”, sem o Código de Conduta dos Quadrinhos.

Mas Peter nem tem chance de chamar uma ambulância, já que o Duende Verde – que sabe sua identidade secreta – veio até o apartamento para confrontá-lo. Passamos a ASM 98, e Peter é esperto e mostra Harry caído a seu pai… o Duende fica confuso, quase como se não o reconhecesse ou não o quisesse, e sai assustado. Peter chama uma ambulância e mais tarde, na UES é abordado pelos traficantes que forneciam as pílulas a Harry, lhes dando uma surra e avisando que não tolerará vê-los fazendo aquilo de novo. O tema das drogas também é abordado sob uma perspectiva interessante na cena em que J.J. Jameson recebe a notícia da overdose de Harry, já que é amigo de Norman e que as Indústrias Osborn eram anunciantes fortes do Clarim. Robbie Robertson conversa com ele, dizendo que o Clarim pode abordar o tema, mostrando que o problema das drogas não é exclusivo do gueto (ou seja, dos negros|), mas um problema da sociedade inteira, deixando bem claro no subtexto que os ricos (como é o caso de Harry) podem (e são constantemente) vítimas do abuso de drogas.

Peter Parker sofre por Gwen tê-lo deixado. Os fãs estranharam a arte exuberante de Gil Kane.

A batalha com o Duende Verde é retomada e Lee e Kane mostram de novo como o vilão é astuto: desenvolvendo uma nova bomba que anula o poder de grudar nas paredes do Homem-Aranha. O que se torna pior quando o estoque de teia se acaba. O aracnídeo apenas dá a volta por cima quando novamente obriga ao vilão a ver seu filho, agora, no leito de um hospital. A visão tem um efeito forte em Norman, que termina entrando em colapso e, novamente, esquecendo sua persona do Duende e “voltando ao normal”. Mas apesar da vitória, Peter ainda fica lamuriando a perda de Gwen. Contudo, Stan Lee estava disposto a dar um final feliz (ao menos temporário) ao rapaz: chegando em casa, Peter reencontra Gwen, que voltou da Inglaterra para os seus braços!

ASM 99 é outra daquelas edições mais mundanas, focando no redirecionamento da vida de Peter Parker e na busca de uma posição mais adulta em suas coisas. O que inclui até o sexo, ainda que de modo quase subliminar. Agora, que Gwen voltou, Peter quer colocar sua vida doméstica em ordem, então, vai ao Clarim exigir que seja contratado como um empregado de meio-período, ao mesmo tempo em que há uma rebelião em uma cadeia próxima – um aceno a esse problema social da qual os EUA vivenciaram na época de modo muito contundente na rebelião na prisão de Attica State – e que só vai se conseguir seu emprego. Jameson aceita, mas Peter descobre, então, que só passará a receber os pagamentos nas sextas-feiras e não pode pagar um jantar fora com Gwen.

Capa da edição 99. Arte de Gil Kane.

Ele decide ir ao talk show de Johnny Carson, achando que pode receber um bom pagamento e as coisas até vão bem, mas a polícia aparece ao fim do programa, já que há um mandado de prisão contra o escalador de paredes (pela morte do Capitão Stacy), e ele precisa fugir sem o pagamento. Arrasado, ele vai ao apartamento de Gwen, dizendo que não tem dinheiro para levá-la para jantar, no que ela diz que não tem problema e eles podem jantar e se divertir em casa. A arte e os diálogos deixam claro que o casal passa a noite juntos, o que é a primeira vez que a revista aborda – ainda que de modo silencioso – o sexo, pois esta era outra das proibições do CCA que Stan Lee decidiu desafiar. Ainda assim, apesar disso e por causa do enorme sucesso das edições sobre as drogas, a edição 99 saiu com o selo normalmente.

Bela capa da 100ª edição por John Romita.

Então, a revista atingiu seu grandíssimo marco: após 8 anos, Amazing Spider-Man chegou à 100ª edição! E Stan Lee decidiu marcar o momento com um tipo de história celebrativa da herança do personagem. Na trama, Peter decide se casar com Gwen e pensa que nunca poderá ter uma vida normal por causa do Homem-Aranha e decide acabar seus poderes, criando uma fórmula para isso, mas ao tomá-la passa mal e tem um pesadelo que vai mostrando todos os seus vilões e seu elenco, terminando com o capitão Stacy dizendo que ele jurou combater o crime e não pode deixar. Ao acordar, Peter descobre aterrorizado que a fórmula não tirou seus poderes de aranha, e sim, lhe adicionou mais quatro membros! Ele virou uma aranha-humana!

Foi uma das ideias mais malucas e ousadas de Stan Lee naquela que era para ser sua última história do Homem-Aranha (mas não foi, falaremos adiante). Isso porque era chegado o momento de The Man deixar a revista aracnídea para trás e partir rumo a outra aventura.

Mudanças na Marvel

Já escrevemos antes que a Marvel fora vendida ao grupo Candice em 1968, o que ocasionou uma série de mudanças. A maior delas é que o fundador Martin Goodman deixou de ser o publisher da editora. Uma nova diretoria (formada por executivos) assumiu o controle da empresa e, como uma forma de transição, deixou o filho do ex-dono, Chip Goodman, no cargo de publisher e manteve Stan Lee na editoria chefe. Mas isso não iria durar para sempre e nem a empresa estava muito satisfeita com o Goodman-filho.

Stan Lee ascendia na carreira.

Então, a Marvel começou a se preparar para que Stan Lee assumisse o cargo de publisher da editora, o que equivale a mais ou menos o CEO, o administrador e face pública da empresa. Isso aumentaria bastante o lado corporativo e administrativo das funções de Lee e diminuía seu tempo para se dedicar a coisas estritamente editoriais. Assim, Lee precisava preparar substitutos. Promoveu seu braço direito, o escritor Roy Thomas (que cuidava dos Vingadores, X-Men, Demolidor e outras) a editor assistente e continuou a empregar extraoficialmente John Romita como um tipo de diretor de arte, revisando a arte dos demais desenhistas e corrigindo o que fosse necessário. Somadas às atividades de palestras e viagens à Hollywood para negociar contratos e licenciamentos, Lee não tinha mais como ser o escritor principal da Marvel e começou a criar transições para sua saída.

No início da Era Marvel, Lee escrevia – ainda que com a ajuda de outros escritores, como Larry Lieber, Don Rico, Arnold Drake etc. – todas as revistas da editora, e ainda usava o Método Marvel (colocando a tarefa de desenvolver as tramas para os desenhistas, como Jack Kirby, Steve Ditko e Don Heck) para conseguir dar conta. Com o sucesso dos novos heróis Marvel, Lee foi gradativamente deixando algumas revistas (como Vingadores, X-Men, Demolidor, Doutor Estranho, Homem de Ferro) nas mãos de roteiristas mais jovens, como Roy Thomas e Dennis O’Neil e se concentrou (na segunda metade da década de 1960) apenas nos títulos mais fortes da Marvel: Homem-Aranha, Quarteto Fantástico, Thor e Capitão América, o primeiro com Romita, os três outros com Kirby. Mas com aquelas mudanças de 1971, isso não era mais possível.

Assim, em 1971, Lee também deixou o comando das revistas do Quarteto Fantástico, Thor, Capitão América e Homem-Aranha, passando-as para roteiristas como Roy Thomas, Archie Goodwin e Gary Friedrich; cada qual com um desenhista de absoluta confiança: John Buscema em Thor, John Romita no Quarteto Fantástico e no Capitão América; e Gil Kane no Homem-Aranha.

Roy Thomas foi o sucessor de Lee, como escritor e como editor.

Para escrever o Homem-Aranha, Lee colocou Roy Thomas, o seu braço direito na redação.

Thomas nascera em Jackson, no Missouri, em 1940, e fizera faculdade de Educação, habilitado em História e Ciências Sociais, tornando-se professor de inglês em escolas de St. Louis, ao mesmo tempo em que era um grande fã de quadrinhos e parte ativa do fandoom, o movimento organizado de fãs. Daí, fez parte da fundação da Alter-Ego, o maior fanzine de super-heróis, em 1960, trabalhando ao lado do fundador Jerry Bails até assumir a editoria da revista, em 1964. Por causa disso, Thomas virou um nome conhecido dos editores de HQs, o que valeu um convite de Mort Wessinger para trabalhar com ele. Wessinger era o editor dos títulos do Superman, no verão de 1965. Porém, Wessinger era famoso por sua truculência e sadismo em humilhar quem trabalhava para ele, e Thomas ficou no posto por apenas 8 dias, antes de ir conversar com Stan Lee, que lhe deu um teste de roteiro e lhe contratou como escritor.

Inicialmente, o “treinamento” de Thomas como escritor se deu nas revistas secundárias da Marvel, de romance, como Millie, a Modelo e Patsy e Hardy, mas no início de 1966, ele começou a cobrir as férias de alguns artistas, ganhando créditos de coescrita em histórias casuais do Homem de Ferro e do Doutor Estranho, antes de por fim assumir Sgt. Fury and the Howling Commandos (um título de guerra) e X-Men e Vingadores, que se tornou seu título de assinatura, criando a mais clássica das temporadas da equipe. Em seguida, ainda escreveu Capitão Marvel, Doutor Estranho e lançou a versão em quadrinhos de Conan, o Bárbaro, inspirado nos contos de espada e feitiçaria de Robert E. Howard.

Alguns historiadores dizem que Thomas não queria assumir Amazing Spider-Man, porque o escritor não conseguia se envolver com o personagem, mas naquele momento, Stan Lee não tinha ninguém mais digno de confiança a tocar o principal título da Marvel e foi feito um arranjo de “faça enquanto arranjamos alguém”.

A capa de “Amazing Spider-Man 101”: Morbius e o Aranha de seis braços.

Como Thomas era fã de histórias de terror, criou um arco de histórias bizarro (mas de boa qualidade), publicado entre Amazing Spider-Man 101 a 105, na qual Peter Parker termina dotando de mais quatro braços, ficando como um aracnídeo com oito patas. Em seguida, ele encontra um vampiro-humano chamado Morbius, o Vampiro Vivo e vai atrás do Dr. Curt Connors para curá-lo, mas este se transforma de novo no Lagarto. Enfim curado, Peter embarca para a Terra Selvagem e tem um confronto com Kraven em meio a dinossauros e a Kazar. No fim da história, uma homenagem a King Kong (que há época era apenas o livro ou o filme de 1933), quando um monstro enorme se apaixona pela “mocinha” e termina morrendo.

Uma curiosidade: o lançamento de Morbius era outro desafio ao Código, porque este proibia o uso de criatura místicas como os Vampiros, porque se pensava que os quadrinhos de horror eram prejudiciais às crianças e jovens. Assim, Thomas elaborou que Morbius é um vampiro, mas não no sentido literal da palavra: seus poderes provem da combinação de uma doença rara com um experimento científico malsucedido, ou seja, não há nada de místico e por isso poderia ser publicado. Outro drible no CCA.

Enquanto essas revistas eram publicadas, a mudança na Marvel se efetivou e Stan Lee foi realmente promovido a Publisher e o cargo de Editor-Chefe passa a ser ocupado por Roy Thomas. Como escrevia várias revista e precisava diminuir seu volume de trabalho para se dedicar à nova atividade, Thomas pensou que não poderia mais seguir com o Homem-Aranha. Mas Stan Lee não tinha encontrado ainda ninguém que achasse apto a ocupar o posto, então, ele mesmo volta a escrever o Homem-Aranha por mais algumas edições, no que seria sua última temporada em seu maior personagem.

Capa da edição 106, por John Romita, que também volta à arte interna.

Stan Lee resolver se ater ao básico enquanto ganhava tempo e produziu um arco de histórias com o Dr. Spencer Smythe e seus Esmaga Aranhas em Amazing Spider-Man 105 a 107, a partir de fevereiro de 1972. Talvez, porque queria garantir que as coisas funcionassem, após Gil Kane desenhar a edição 105, Lee trouxe de volta também John Romita para a revista a partir do número 106, também dando início a última temporada regular do artista no título. Na trama, Smythe flagra Peter Parker tirando sua máscara, por meio de uma câmera de vigilância – algo muito familiar a nós do século XXI – mas o herói da um jeito de fazer o vilão pensar que é uma farsa. Ao mesmo tempo, quase como um movimento simbólico, a edição 105 traz dois retornos: os de Harry Osborn e Flash Thompson.

Harry Osborn retorna da reabilitação.

Harry (acompanhado por seu pai, Norman) aparece em uma festa que os amigos prepararam para ele após sua temporada em uma clínica de reabilitação, enquanto Flash regressa de sua missão no Vietnã. A história mostra que Flash e Gwen são grandes amigos e que MJ aproveita isso para dar em cima de Peter de novo, algo que ele rejeita em respeito a Harry.

Na edição 106, Peter e Gwen saem com Flash e o acham muito estranho – a trama explora o estresse pós-traumático dos combatentes de guerra – e Flash fica muito irritado com a preocupação do casal e vai embora nervoso, deixando-os para aproveitar uma noite romântica. Por fim, na edição 107, enquanto Peter fica vigilante em torno de Flash ele e Gwen o veem sendo levado por militares para prestar esclarecimentos.

Esse arco também mostra mais uma série de protestos liderados por Randy Robertson, o filho de Robbie. Era o gancho para aquele que Romita sempre achou o seu arco favorito em Amazing Spider-Man.

Capa de “Amazing Spider-Man 108”: Stan Lee e John Romita de volta, contando histórias sobre a Guerra do Vietnã.

Com Romita de volta, Stan Lee – ocupadíssimo agora como publisher – podia relaxar mais e deixar que o desenhista tomasse à frente e o protagonismo do desenvolvimento das histórias e Romita faz isso belamente em Amazing Spider-Man 108 e 109. Fã desde sempre da tirinha Os Sobrinhos do Capitão, Romita achou que uma história de um soldado traumatizado que volta da guerra e é perseguido literalmente por esse passado seria uma ótima maneira de homenagear seus ídolos das HQs. Na trama, descobrimos que algo de estranho aconteceu com Flash no Vietnã. Após ser machucado e deixado para trás em uma batalha, ele conheceu a camponesa vietnamita Sha Shan, cuja família lhe acolheu e cuidou dele. Eles mantinham um templo sagrado, mas estavam em uma área de bombardeio. Thompson tentou avisar ao Alto Comando que não fizesse o ataque, mas falhou: a vila e o templo foram destruídos.

Apesar de seu amor por Sha Shan, Flash passa a ser visto como um traidor e, de volta aos EUA, é perseguido por seguidores do templo que querem vingança. Não há um grande vilão, pois fica claro que são apenas pessoas ressentidas. No fim, com a intervenção do Homem-Aranha e uma ajudinha do Doutor Estranho, tudo é esclarecido e Thompson e Sha Shan podem ficar juntos. Além de uma ótima aventura, foram duas edições importantes por abordarem a Guerra do Vietnã sob uma perspectiva negativa e crítica. E mostrar que, ao contrário da animação das histórias pretéritas que mostravam Thompson prestes a embarcar para o conflito, não há nada de glamoroso na guerra.

A última edição regular do Homem-Aranha escrita por Stan Lee foi Amazing Spider-Man 110, de julho de 1972. infelizmente, uma aventura para lá de ordinária, que serve apenas para mostrar Peter Parker continuando a ter ciúmes de Gwen e Flash e o surgimento do inacreditável Gibão.

Encerrava-se, assim, a Era Stan Lee, na qual o escritor comandou diretamente não apenas o Homem-Aranha, mas todo o Universo Marvel. Na verdade, embora Lee como Publisher tenha continuado muito envolvido nas aventuras do “cabeça de teia”, o comando criativo caiu nas mãos de uma nova geração.

A partir de Amazing Spider-Man 111, os roteiros passaram às mãos de Gerry Conway, um jovem de 19 anos.

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