Inicia aqui a série em que o HQRock mostrará a História Recente do Universo Marvel, destacando as grandes transformações que a Marvel Comics sofreu (positivamente) nos anos 2000. Para acessar o índice da série clique aqui.

Nos anos 1990, a indústria de quadrinhos viveu o melhor e o pior de seus momentos. E a Marvel Comics, a maior das editoras do gênero, chegou a pedir concordata. Como isso aconteceu?

No início da década, as revistas vendiam muito e as editoras criaram, sem querer, uma bolha de mercado. Por um lado, lançavam revistas com várias capas alternativas, fazendo com que o mesmo consumidor comprasse a mesma revista várias vezes para ter as capas. Por outro, criou-se um mercado especulativo de fãs que compravam revistas com a intenção de revendê-las mais tarde com preços inflacionados.

"X-Men" 01, de 1991, teve quatro capas diferentes, que unidas, formavam um poster do artista Jim Lee

De imediato, o mercado de quadrinhos se multiplicou. Em médio prazo, a bolha “estourou” e as vendas despencaram.

O auge do “bom momento” foi atingido por duas revistas da Marvel. Em 1990, Spider-Man 01, uma nova revista do Homem-Aranha escrita e desenhada por Todd McFarlane – um dos “artistas-sensação” do período – vendeu a impressionante marca de duas milhões de unidades.

Pouco tempo depois, X-Men 01, nova revista dos heróis mutantes escrita por Chris Claremont e desenhada por Jim Lee, vendeu oito milhões de cópias!

(A título de comparação, nos dias de hoje, a revista mais vendida de todas, geralmente do Batman, dificilmente ultrapassa a barreira das 100 mil unidades).

Captain America by Rob Liefeld
O Capitão América de Rob Liefeld é um dos piores exemplos de "estilo muscular"

O sucesso em torno daqueles desenhistas era tão grande que eles saíram da Marvel e montaram a sua própria editora: a Image Comics, comandada por artistas como os citados, Rob Liefeld e Mark Silvestri, todos oriundos da Marvel.

A Image lançou um novo estilo de quadrinhos, apelidado de “estilo muscular”: os heróis eram representados em formas exageradas e anatomicamente imperfeitas e as histórias careciam de textos de qualidade, porque eram bons desenhistas, mas não escritores. Ainda assim, a Image fez sucesso o suficiente para tornar-se a terceira maior editora de quadrinhos dos EUA, atrás apenas da própria Marvel e da DC Comics.

A Marvel tentou se apoderar do “estilo muscular” e o resultado foi catastrófico: histórias ruins, modificações radicais em personagens famosos e excessos em crossovers (histórias que interligavam várias revistas) e na multiplicação de títulos (o Homem-Aranha chegou a ter cinco revistas mensais lançadas ao mesmo tempo).

O resultado só poderia ser um: as vendas caíram vertiginosamente. Em 1997, surpreendendo o mundo, a Marvel Comics pediu concordata. Comprada por um grupo de investidores, foi preciso uma mudança editorial radical.

Primeiramente, foi desfeito o Conselho Editorial que substituiu o cargo de Editor-Chefe, o responsável maior pela publicação de todas as revistas, coordenador dos editores-assistentes (que cuidam de revistas ou personagens específicos) e de todos os escritores da casa. Porém, em meio à bolha de mercado e do “estilo muscular”, a diretoria da Marvel havia, em 1994, extinto o cargo e substituiu-o pelo Conselho que, em vez de estar vinculado a um editor maior, respondia diretamente ao Departamento de Marketing, que podia até saber vender, mas não entendia nada sobre escrever uma boa história.

Em meio ao processo de recuperação, o Conselho foi extinto e Bob Harras foi conduzido à condição de Editor-Chefe. Harras, que na época escrevia a revista dos Vingadores, teve algumas boas medidas, dentre as quais trazer artistas e escritores renomados para renovar a imagem desgastada da editora. Esse processo levou à criação do selo Marvel Knight, dedicado a histórias mais adultas com os personagens da Marvel. O desenhista Joe Quesada ficou como editor da linha e foi tão bem sucedido que, em 2000, foi promovido ao cargo de Editor-Chefe, que ficou durante 10 anos.

O próximo capítulo tratará justamente desse processo de recuperação da Marvel.