Miles Morales, o novo Homem-Aranha Ultimate.

Após meses de suspense a Marvel Comics revelou que o novo Homem-Aranha do Universo Ultimate é Miles Morales, um jovem negro e latino. Peter Parker, o Homem-Aranha original morreu.

“Como é que é?” Você pergunta. A resposta: em 2000, a Marvel vinha de uma crise tão grave que chegara a pedir concordata três anos antes. Procurando se recuperar, a editora promoveu uma profunda reformulação. O desenhista Joe Quesada assumira, em 1998, a editoria do selo Marvel Knights, destinado a contar histórias adultas e inteligentes de alguns personagens da editora, principalmente os chamados “vigilantes urbanos”. Com isso, Justiceiro, Demolidor e outros tiveram uma fase de muito brilhantismo que ajudou a multiplicar as vendas. Satisfeira com o desempenho, a diretoria da Marvel destituiu o Editor-Chefe Bob Harras e colocou Quesada em seu lugar.

O Homem-Aranha Ultimate de Bendis e Bagley.

Uma das medidas do novo comandante da Marvel foi criar o selo Ultimate para criar novas versões de seus personagens mais famosos. Assim, suas histórias podiam nascer já voltadas ao novo século que se iniciava e sem o peso (por vezes esmagador) de décadas de cronologia. Para a empreitada, Quesada chamou escritores independentes que tivessem reconhecido talento. O pontapé inicial do Universo Ultimate foi justamente o Homem-Aranha, que ganhou uma nova versão nas mãos do escritor Brian Michael Bendis e do desenhista Mark Bagley. Agora, Peter Parker era um adolescente do século XXI: nerd, rejeitado na escola, mas não fotógrafo, e sim, programador de computador. Bendis e Bagley pegaram a história de oito páginas da origem do Homem-Aranha escrita por Stan Lee e Steve Ditko em 1962 e transformaram em uma saga de 100 páginas. Com isso, aprofundaram a personalidade de Peter e de seu elenco auxiliar (Tia May, Tio Ben [vivendo um pouquinho mais desta vez] e Mary Jane Watson, sua namoradinha).

Capa da edição com a morte de Peter Parker por Ed Mcguiness.

A saga de Bendis e Bagley para o novo Homem-Aranha foi um grande sucesso de público e crítica e a dupla escreveu suas histórias ininterruptamente por 120 edições. Não coincidentemente, Bendis se tornou o principal escritor da Marvel na década de 2000, revitalizando a franquia dos Vingadores e transformando-a no maior sucesso da editora, além de uma passagem marcante pelo Demolidor. O Universo Ultimate, por sua vez, foi expandido com os X-Men de Mark Millar e Andy Kubert e atingiu seu ápice com os Supremos, a versão Ultimate dos Vingadores, com o mesmo Millar mais Bryan Hitch, a principal inspiração para o filme da superequipe.

Contudo, o passar dos anos fez o Universo Ultimate perder força e ser sobrepujado pelo Universo Marvel tradicional, que continuou a ser publicado paralelamente esse tempo todo.

Ano passado, a Marvel tentou revitalizar o Universo Ultimate e lançou a saga Ultimatum que prometia uma mudança radical nos rumos das histórias. Uma das consequências foi a morte do Homem-Aranha, quando Peter Parker se sacrifica na frente de Mary Jane e da Tia May.

Desde então, a editora prometeu que um novo Homem-Aranha assumiria o seu lugar e aí está ele: Miles Morales, negro e latino. A iniciativa é um esforço consciente de aumentar “as cotas” de personagens multiétnicos dentro da casa, algo que Bendis sempre promoveu em suas histórias, como transformar o obscuro personagem Luke Cage (um negro do Harlem e ex-presidiário) em protagonista dos Vingadores.

Anuncio do novo Homem-Aranha: só no Universo Ultimate. No Universo Marvel tradicional, Peter Parker continua vivo e bem.

A tendência não é só da Marvel. Em sua alardeada “reformulação cronológica” (ou reboot para os íntimos), a concorrente DC Comics também anunciou que vai aumentar a proporção de personagens de etnias diferentes, o que deu destaque ao Batwing (a versão africana do Batman), ao novo Besouro Azul ser latino, ao novo Nuclear ser negro e ao Cyborg ser um dos membros da Liga da Justiça. Para além das etnias, questões de gênero também vêm à tona: a Batwoman é lésbica.

Tornar o novo Homem-Aranha uma minoria étnica é um grande golpe publicitário da Marvel e vai chamar a atenção para o fato, mas é preciso que a editora (e a DC também) invistam mais na questão, não somente renomeando velhos personagens, mas criando novos personagens de destaque com etnias e gêneros distintos, bem como dando destaque aos que já existem. A Marvel tem alguns personagens negros que podem ter mais destaque, como Falcão e Pantera Negra, que poderiam ingressar seu universo cinematográfico, por exemplo, ou quem sabe, aparecer em filmes como Os Vingadores. O caçador de vampiros Blade, que já teve uma trilogia de sucesso no cinema, também é um personagem da Marvel.

A DC é mais carente neste quesito. Mas ambas precisam mudar. São os novos tempos: diversidade cultural, étnica e de gênero.