Mulher-Maravilha: sem sexo nas HQ's? Pintura de Alex Ross.

O escritor Grant Morrison é um nome sempre em evidência. Desde que despontou na DC Comics no fim dos anos 1980, escrevendo as histórias cheias de metalinguagem do Homem-Animal, passando pelo sucesso absoluto (de público e crítica) à frente da Liga da Justiça nos anos 1990, pela polêmica fase nos X-Men da Marvel no início dos anos 2000, na aclamação unânime da maxissérie All-Star Superman, na erudição quase sensacionalista da Crise Final e no sucesso de sua extensa (e ainda corrente) fase no Batman.

Grant Morrison: polêmico e genial.

Conhecido por adjetivos como “louco”, Morrison há anos tenta liderar um projeto na DC Comics – onde produziu a maior parte de sua obra – com a Mulher-Maravilha. O boato corrente seria que o escritor escocês faria o volume da Princesa Amazona da nova coleção Earth One, que já teve um volume do Superman (por J.M. Straczynski e Shane Davis), em 2010, e terá outro do Batman (por Geoff Johns e Gary Frank) para o ano que vem. O objetivo da série é apresentar histórias adultas e contemporâneas sobre esses personagens e suas origens.

Para os especialistas, a obra original de Marston é repleta de referências sexuais. Ele adorava cenas de mulheres acorrentadas, uma constante na série.

Entretanto, parece que a DC está com medo da proposta do escritor para o volume. Em recente entrevista, sem confirmar que fala expecificamente de Wonder-Woman Earth One, Morrison disse que sua intenção com a personagem é trazer o sexo de volta ao conceito da Mulher-Maravilha. A heroína foi criada por William Moulton Marston, um psicólogo (o inventor do detector de mentiras) que tinha ideias muito liberais sobre sexo, tanto que vivia com a esposa e a amante na mesma casa. Embora de maneira meio disfarçada, muitos pesquisadores de quadrinhos apontam que as histórias originais da Mulher-Maravilha criadas por ele, a partir de 1941, estavam repletas de referências sexuais não-ortodoxas para a época, como sadomasoquismo e lesbianismo.

Embora o caso do Batman seja mais famoso, foram as histórias da Mulher-Maravilha de Marston as mais criticadas e difamadas pelo psiquiatra norteamericano Fredric Wertham em seu livro A Sedução do Inocente, de 1955, em que culpa as histórias em quadrinho pela deliquência juvenil nos Estados Unidos e todos os outros males relacionados à juventude.

Morrison quer trazer de volta algo desse conteúdo sexual original em sua versão da Mulher-Maravilha. O escritor disse:

Dá pra tirar vários conceitos originais do Batman e do Superman, mas não se tem como tirar o sexo da Mulher-Maravilha. Aquela versão da personagem morreu com Marston e não recuperou sua popularidade desde então. O Superman é a expressão definitiva da masculinidade e ainda consegue ser sexual. A Mulher-Maravilha devia ser a expressão máxima da feminilidade , mas não deixam que ela faça nada relacionada a sexo.

Nos anos 1970, a heroína virou um ícone do movimento feminista.

Ele completou que deseja tratar do assunto sem querer parecer oportunista e que, se a DC se decidisse a liberar o material, ele sairia no ano que vem. Contudo, o autor também vislumbra a possibilidade da editora não saber lidar com isso e essa abordagem jamais ver a luz do dia.

Baseada nas duas mulheres de Marston, a Mulher-Maravilha fez sucesso desde o início, sendo uma das atrações da revista All-American Comics, publicada pela DC, e fez parte da Sociedade da Justiça, o primeiro grupo de super-heróis. Curiosamente, a Princesa Amazona usava um “laço da verdade“, que era uma versão mágica do próprio detector de mentiras criado pelo escritor. Com a morte do psicólogo, em 1947, a heroína passou às mãos de escritores tradicionais de quadrinhos, como Gardner Fox, e sua popularidade caiu. Ela foi ligeiramente reformulada no fim dos anos 1950, em meio à firmação da Era de Prata, no trabalho do mesmo Fox com o desenhista Ross Andru, e mais tarde, em 1969, novamente modernizada por Dennis O’Neil. Nos anos 1970, a figura dessa super-heroína se transformou em um símbolo do movimento feminista.

Tradicionalmente desnuda, as novas versões do uniforme da Mulher-Maravilha tentam cobrir mais seu corpo: polêmica entre os fãs.

Seu período de maior popularidade foi justamente naquela época, quando teve uma série de TV. Nos anos 1980 e 90, apesar de boas fases nos quadrinhos, como as de George Perez e John Byrne, além daquela desenhada pelo brasileiro Mike Deodato Jr., a personagem nunca recuperou o sucesso de outrora. Uma nova série de TV prevista para este ano foi cancelada por sua emissora, mas a Warner Bros. guarda esperanças de produzir um longametragem nos próximos anos.

Quanto à nova abordagem de Morrison, resta esperar para ver se a DC vai ousar ou não.