Levon Helm: um dos destaques da The Band.

Ontem, definitivamente, foi um dia triste para o rock de um modo geral. Além da morte do multiinstrumentista australiano Greg Ham, da banda Men at Work, também faleceu outro multiinstrumentista, Levon Helm, famoso membro do The Band, uma das mais importantes bandas norteamericanas do rock clássico.

O músico, de 71 anos, morreu após uma longa batalha contra um câncer na garganta.

Nascido em Elaine, no Estado de Arkansas, nos Estados Unidos, Levon Helm era o único norteamericano da formação original da The Band. Os outros membros eram os canadenses Robbie Robertson (vocais, guitarras, piano), Richard Manuel (piano, órgão, gaita, saxofone, bateria), Rick Danko (baixo, trombone, violino) e Garth Hudson (piano, órgão, saxofone, teclados em geral). Helm tocava bateria, guitarra, baixo e bandolim. Todos cantavam.

A banda se formou em 1958 para acompanhar o cantor de rockabilly Ronnie Hawkins e, por isso, foi batizada de The Hawks. Em 1964, após se separaram de Hawkins, passaram a usar nomes como The Levon Helms Sextet e Levon Helm and the Hawks até encurtarem para The Hawks mesmo.

The Band em 1968: de volta à sonoridade simples.

A grande virada começou em 1965, quando começaram a tocar com outro cantor famoso: Bob Dylan. Dylan era a maior estrela do nascente rock norteamericano dos anos 1960 e o grupo excursionou com o ídolo pelos EUA e pela Inglaterra em 1966, também ajudando a gravar o aclamadíssimo álbum Blonde on Blonde daquele mesmo ano.

O grupo também deu bastante apoio a Dylan após este sofrer um acidente de moto em 1966 e se afastar temporariamente da carreira – e dos palcos mais ainda. O grupo auxiliou Dylan na elaboração de um grande número de canções, em uma série de gravações caseiras realizadas na casa do artista em Woodstock, no Estado de Nova York. Várias dessas canções foram gravadas por artistas da época e viraram também um famoso álbum pirata chamado The Basement Tapes (as gravações do porão).

Levon Helm (segundo à esq.) junto ao The Band: a imagem "velha" da banda era um contraponto às cores do Psicodelismo (e acabou com ele!).

Em 1968, o grupo mudou de nome para The Band – porque sempre eram os acompanhantes de alguém – e, paradoxalmente, investiram em seu próprio trabalho. Seu primeiro álbum, Music From the Big Pink, lançado naquele mesmo ano, é voltado ao country rock e é um clássico absoluto dos anos 1960. A sonoridade simples e despojada do disco, juntamente com as composições fortes (de Robertson e Helm principalmente) e o vocal emocional deste último serviram para transformar o grupo em um fenômeno dentro do circuito musical.

O The Band sempre foi mais famoso entre os próprios músicos de rock de que para o público em geral, mas isso não impediu sua influência de ser fortíssima. Muitos críticos consideram que o primeiro álbum da banda foi o marco decisivo para o fim do Psicodelismo – a música experimental, cheia de efeitos sonoros – que marcou os meados dos anos 1960. Ouvindo a força, a simplicidade e a emoção das gravações do The Band, artistas eminentemente psicodélicos na época, como os guitarristas Jimi Hendrix (à frente do The Jimi Hendrix Experience) e Eric Clapton (à frente do Cream), consideraram seriamente se voltar para sonoridades mais simples e pujentes.

The Band ao vivo: diversidade instrumental no palco. Levon Helm (dir.) está ao bandolim.

Coincidência ou não, bandas como The Beatles e The Rolling Stones, que tinham sido líderes do Psicodelismo, também se voltaram às sonoridades mais simples (quase acústicas), em seus trabalhos de 1968: The White Album e Beggars Banquet, respectivamente.

O segundo disco do grupo, chamado apenas The Band, lançado em 1969, continuou os efeitos do anterior, reforçado ainda mais pela apresentação deles no mitológico Festival de Woodstock, que ocorreu bem perto de onde moravam.

O The Band continuou lançado discos nos anos seguintes, mas agora, sem a mesma força de antes e chamando ainda menos a atenção da mídia. Houve um pequeno retorno triunfal em 1974, quando voltaram a gravar com Bob Dylan no álbum Planet Waves e também a excurcionar com ele em uma grande turnê, que fez bastante sucesso e rendeu um álbum ao vivo chamado Before the Flood. Ambos os álbuns chegaram ao 1º lugar das paradas.

The Band junto a Bob Dylan (centro) em "The Last Waltz": mais influência do que sucesso.

A comoção foi tanta que motivou finalmente o lançamento oficial de The Basement Tapes no ano seguinte, que também fez sucesso e chegou ao 7º lugar das paradas.

Curiosamente, o The Band aproveitou o momento de grande exposição midiática para encerrar a carreira. O grupo promoveu um concerto de despedida em 1976 que reuniu muitos artistas da cena folk, como Bob Dylan e Neil Young. O concerto foi filmado por Martin Scorsese e virou o filme The Last Waltz, um clássico da filmografia do rock.

Para muitos, Levon Helm era a força-motriz do The Band.

Contudo, o The Band ainda voltou a se reunir em 1983, porém, sem a presença de Robbie Robertson, que quis se manter fiel ao encerramento anterior. O grupo fez turnês e lançou álbuns nessa nova encarnação até 1999.

Com o fim, Levon Helm se dedicou a uma carreira solo bastante elogiada pela crítica. Mesmo com a batalha contra o câncer desde o fim dos anos 1990, seus discos foram premiados em eventos como o Grammy 2007. Infelizmente, uma das cirurgias para tratar da garganta afetou suas cordas vocais, de modo que sua voz ficou diferente e fraca.

Há poucos dias, a filha de Levon Helm havia anunciado à imprensa que o seu estado de saúde tinha entrado em estágio final.