O espólio dos Beatles anunciou ontem o lançamento da nova versão do álbum Rubber Soul, de 1965, que representou a guinada na carreira da banda britânica que revolucionou o rock. A edição contará com uma nova remixagem usando tecnologia de ponta, a versão original em mono, a versão americana do disco e sobras de estúdio embaladas em várias opções de embalagem em CD e LP, seguindo a linha de relançamento dos álbuns do grupo de anos recentes. O álbum traz sucessos como Nowhere man, Michelle, Girl, In my life, Drive my car e Norwegian wood (This bird had flown), e foi acompanhado pelo histórico single Day tripper/ We can work it out.

A nova edição é produzida por Giles Martin, filho do produtor George Martin, que acompanhou os Beatles em suas gravações, e conta com uma nova mixagem liderada por ele e o engenheiro Sam Okell, que partem das fitas masters originais, mas utilizam a tecnologia de-mixing, criada pela equipe do diretor de cinema Peter Jackson, WinsNut Films, que permite a separação de sons utilizando a Inteligência Artificial. Com isso, eles podem separar instrumentos que estão “colados” nos restritos quatro canais das gravações originais, conseguindo que bateria, baixo e guitarras possam ser ouvidos separadamente e, com isso, remixados para revelar novos sons e timbres das velhas canções.

A coleção contará com a versão super-deluxe, com 4 CDs ou 5 LPs, trazendo as 14 faixas remasterizadas e remixadas, suas versões originais em mono, a edição dos EUA do disco (com faixas trocadas) e material bônus com sobras de estúdio, reunindo 24 faixas, muitas delas inéditas, incluindo, três gravações demo totalmente inéditas de John Lennon. No pacote também será incluído o single Duplo Lado A com Day tripper/ We can work it out lançado na época para promover o álbum. Versões menores do pacote estarão disponíveis, com edições em 2 CDs ou 2 LPs e também como discos simples. As versões mais caras contam com um livro em capa dura de 88 páginas com introdução escrita por Paul McCartney e um prefácio construído a partir de declarações de John Lennon sobre o álbum ao longo dos anos até sua morte, em 1980.

O site oficial da banda informa a distribuição do box set em sua versão em CD:

  • CD1: o novo álbum em sua nova mixagem, com 14 faixas.
  • CD2: Sessões em estúdio, demos e o single, trazendo destaque como os remixes do single Day tripper/We can work it out, as bases instrumentais de faixas como Drive my car e Day tripper, versões diferentes de Nowhere man e Norwegian wood, e demos de McCartney para We can work it out e de Lennon para Litte girl, uma faixa totalmente inédita, jamais ouvida antes. 28 faixas.
  • CD3: o álbum em sua versão original Mono. 14 faixas.
  • CD4: a versão de Rubber Soul lançada nos Estados Unidos em 1965 pela Capitol Records, com algumas faixas trocadas (tiradas do álbum anterior, Help!). 12 faixas.

A versão em vinil segue o mesmo roteiro, mas em 5 LPs, com o single Day tripper/ We can work it out separado no formato tradicional de 7 polegadas.

O álbum Rubber Soul é o ponto de virada na carreira dos Beatles. Após 5 discos de imenso sucesso comercial, varando as paradas de todo o planeta, o quarteto de Liverpool abraçou uma abordagem mais sofisticada, com influências de jazz e R&B, incorporando elementos do (então novo) folk rock americano, investindo nas trucagens de estúdio para explorar todos os limites possíveis da restrita gravação em apenas 4 canais, ao mesmo tempo em que as composições de John Lennon e Paul McCartney se permitiam ir mais longe em termos líricos e sonoros, gerando a síncope de Drive my car, os tons da cítara indiana (tocada por George Harrison) em Norwegian wood, a beleza barroca e minimalista de In my life, ao mesmo tempo em que as letras de Lennon se mostravam mais profundas e provocativas em Nowhere man, Norwegian wood ou Girl.

O disco foi aclamado pela crítica na época de seu lançamento, que reconheceu a virada à maturidade da banda, e foi uma imensa influência a todo o cenário musical contemporâneo, em artistas como Bob Dylan ou Rolling Stones e até no Pink Floyd, que era apenas um grupinhos de amigos da faculdade que estava se reunindo para tocar na época do lançamento.

Os Beatles no clipe de We can work it out.

Os fãs aguardavam ansiosos o lançamento de Rubber Soul no novo tratamento sonoro de Giles Martin, pois parte da comunidade beatlemaníaca ficou decepcionada pelo o álbum não ter sido relançado em 2023, quando o espólio da banda optou pelo bombástico relançamento das coletâneas Beatles 1962-1966 e 1967-1970, incluindo a nova canção Now and then, que fez bastante sucesso. A primeira dessas coleções trouxe 7 faixas de Rubber Soul, ou seja, metade do disco. Em 2025, os Beatles relançaram a coleção Anrhology com sobras de estúdio da banda (mais um documentário autobiográfico e um livro da mesma natureza) e os fãs ficaram incomodados pela perda da oportunidade de celebrar os 60 anos de lançamento do álbum com sua versão remixada.

A chegada do remix de Rubber Soul agora em 2026 ainda pode guardar alguma polêmica entre os fãs mais ardorosos, afinal, é bem provável que a Apple Corps., a empresa da banda, simplesmente repita os remixes de 2023 às 7 faixas presentes em 1962-1966, adicionadas de remixes de 2026 às restantes. Sem dúvidas, uma nova remixagem às 14 faixas é o que os fãs hardcore desejam. A questão é que a tecnologia avança a cada ano e em vista da precária tecnologia de 1965, em apenas 4 canais, isso pode fazer bastante diferença no resultado para audiófilos.

Os Beatles iniciaram os relançamentos com remixagens de sua obra em 2017, seguindo a celebração de aniversário de seus álbuns mais célebres, com Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (1967), The White Album (1968), Abbey Road (1969), Let it Be (1970 – esse lançado apenas em 2021, atrasado pela pandemia), e então, começaram a voltar aos discos anteriores, começando com Revolver (1966) em 2022, que é o sucessor de Rubber Soul. Como se vê, o fluxo foi interrompido pelos relançamentos das coletâneas e Anthology, mas agora, são retomados.

Daqui em diante, o espólio da banda irá (provavelmente) relançar a faixa dos primeiros álbuns da banda, justamente, aqueles que mais se beneficiariam do novo tratamento tecnológico, por terem sido gravados em condições mais precárias, inclusive, com os dois primeiros, que foram gravados não em 4 canais, mas apenas em 2 canais, em 1963.

O lançamento do remix da coletânea 1962-1966 foi a primeira oportunidade de ouvir essas canções mais antigas no tratamento do de-mixing, e a audição das faixas de Rubber Soul daquele disco demonstram um aumento de qualidade brutal na sonoridade, o melhoramento do timbre de alguns instrumentos, a melhor separação dos sons (inclusive, das duas guitarras) nos canais, e a nitidez dos instrumentos em geral, em especial da bateria, muitas vezes, soterrada pela junção no mesmo canal de guitarras ou baixo ou vocais.

Os relançamentos dos Beatles têm sido muito bem recebidos por público e crítica, e vários deles voltaram aos primeiros lugares das paradas britânicas com esses retornos. Irá Rubber Soul traçar caminho semelhante?

A nova versão de Rubber Soul será lançada no dia 02 de outubro próximo, mas a pré-venda já está disponível no site oficial da banda (beatles.com) e no site da Universal Music Group (UMG), conglomerado que adquiriu a gravadora EMI na qual a banda realizou suas gravações originalmente.

Os Beatles se formaram na cidade de Liverpool na Inglaterra, chegando às gravações com a formação com John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, estreando em 1962, e virando um fenômeno cultural em sucesso e aclamação com as composições de Lennon & McCartney e a capacidade de se comunicar com a geração jovem e refletir as grandes mudanças da sociedade dos anos 1960. Conjunto musical de maior sucesso e influência da história, eles gravaram 13 álbuns e duas dúzias de compactos antes de se separarem em 1970, a partir de que todos seus membros seguiram em carreiras solo de sucesso. Lennon terminaria assassinado por um fã com distúrbios mentais em 1980, encerrando a possibilidade de uma reunião, enquanto Harrison faleceu vítima de câncer em 2001. McCartney e Starr seguem ativos e ambos lançaram álbuns novos este ano.

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