A revista Rolling Stone noticiou que o The Cavern Club, o famoso palco que revelou os Beatles à fama, foi vendido na cidade de Liverpool, no norte da Inglaterra. O pub subterrâneo é parte de um pequeno conglomerado de empresas chamado Cavern City Tours Limited, que incluem o Cavern Club, o Cavern Pub (uma variação no nível do solo, estruturado como um pub comum), o Cavern Restaurant (que serve comidas quentes ao lado) e o Magical Mystery Tour, um programa de passeios turísticos realizados em uma réplica do ônibus psicodélico usado pela banda no filme de mesmo nome. O pool de empresas foi vendido á 14 Collective, uma empresa baseada em Londres.

O grupo empresarial do Cavern comanda a empreitada há 35 anos e foi a principal responsável por tornar a cidade de Liverpool uma das mais visitadas do interior da Inglaterra, num grande conjunto de atrações turísticas que têm os Beatles como centro, mas dialogam com a rica produção musical da Grã-Bretanha e, em particular, do norte do país. Além das atrações citadas, o grupo também organiza a International Beatles Week, um evento de grande porte que reúne dezenas de bandas e milhares de fãs todos os anos no mês de agosto em Liverpool.

Segundo as informações apuradas, a venda não se deve a problemas comerciais, mas em especial, à idade avançada dos sócios, que continuam à frente dos negócios desde o início: Bill Heckle, Dave Jones, George Guiness e Julia Baird, que é irmã de John Lennon. Segundo um comunicado assinado por Heckle, os sócios desejam se aposentar e pesquisaram por 5 anos atrás de parceiros ideais para a venda, concretizada agora com a 14 Collective, que tem à frente o londrino Roderik Schlosser e o liverpludiano Keith Blackhurst. Os novos proprietários garantem em um comunicado que a intenção deles é manter viva a memória dos Beatles e continuar a manter o Cavern como um impulso importante à economia de Liverpool.

Julia Baird, irmã de John Lennon, nos portões do Strawberry Fields.

Julia Baird, a irmã de Lennon e uma das sócias, disse que está pessoalmente triste pela venda, mas que acredita que esse movimento é melhor para garantir a continuidade dos trabalhos. Ela também é sócia ou curadora do Strawberry Fields, um espaço cultural dedicado à memória dos Beatles e de John Lennon (inclusive, abrigando o piano em que o músico compôs e gravou a canção Imagine) e que no passado abrigou um orfanato do Exército da Salvação, cujos jardins Lennon brincava quando criança e que lhe inspirou de maneira idílica a escrever a canção Strawberry fields forever, uma das mais incríveis faixas dos Beatles. Aparentemente, o espaço – que estava abandonado até alguns poucos anos atrás e foi revitalizado recentemente – é uma parceria com o Exército da Salvação (também há um museu dedicada à organização no espaço) e não faz parte do pool do Cavern.

O Cavern Club também tem uma filial no Brasil, no Shopping Olímpia em São Paulo, mas não há notícias se o empreendimento será afetado de alguma maneira pelo negócio.

A longa história Cavern atravessa 7 décadas com algumas interrupções e viveu um momento muito difícil na pandemia de Covid-19, em 2020, mas aparentemente se recuperou depois. O HQRock visitou o espaço no último mês de setembro e tudo funcionava muito bem, com os vários locais (o clube original, o pub, o restaurante e os passeios) sempre lotados de fãs do mundo inteiro. Contudo, talvez um desafio ao empreendimento seja a demografia: tal qual os sócios que agora passam adiante o empreendimento para se aposentarem, a base de fã que frequenta os espaços é majoritariamente 60+ e é preciso pensar em investimentos que atraiam uma base de fã mais jovem para manter o negócio viável nos anos que se seguirão.

O The Cavern Cub foi inaugurado em 16 de janeiro de 1957 a partir da iniciativa de Alan Styner, funcionando no número 08 da Matthew Street, no Centro de Liverpool (região que hoje é conhecida como Cavern Quarter), numa ruazinha de paralelepípedos e tráfico apenas de pedestres. Inicialmente um clube de jazz, o Cavern tinha shows de música regulares na hora do almoço todos os dias da semana e nas noites de sexta e sábado, e John Lennon tocou lá ainda naquele mesmo ano com os The Quarry Men, a banda de skiffle que daria origem aos Beatles, ainda antes que Paul McCartney ou George Harrison entrassem no grupo.

No ano de 1960, com a baixa do público de jazz e uma crescente cena de rock’n’roll se desenvolvendo em Liverpool, Styner foi convencido pelo DJ do Cavern, Bob Wooler, a abrir as portas para bandas de rock, o que trouxe de volta os agora sim chamados The Beatles ao clube (e com Lennon, McCartney e Harrison em suas guitarras), além da banda Rory Storm and the Hurricanes, na qual Ringo Starr tocava bateria.

Após suas primeiras passagens por Hamburgo, na Alemanha, os Beatles faziam tanto sucesso em suas apresentações no Cavern que foram convidados para ser a banda residente da casa, tocando lá todos os dias na hora do almoço e algumas vezes nas noites de sexta e sábado. Entre 1961 e 1963, a banda fez nada menos do que 292 apresentações na casa. Foi lá que foram filmados pela primeira vez, tocando Some other guy pela Granada TV para um especial sobre o forte movimento musical do norte da Inglaterra, e foi lá que o empresário Brian Epstein os viu tocando pela primeira vez e decidiu agenciá-los rumo à fama. O grupo fez seu último show na casa em 03 de agosto de 1963, quando She loves you já fazia parte de seu repertórios de shows e estavam há apenas um mês dessa faixa chegar ao primeiro lugar das paradas do Reino Unido e de toda a Europa e apenas seis meses antes da turnê nos EUA torná-los um fenômeno cultural no mundo inteiro.

O Cavern Club seguiu funcionando nos anos seguintes, continuando como um dos principais espaços de shows de bandas locais e das emergentes bandas do cenário nacional que visitavam Liverpool em turnê. Por causa disso, grupos como os Rolling Stones, The Who, os Yardbirds (que tinham Eric Clapton na guitarra) tocaram no Cavern entre 1963 e 1965, e o Pink Floyd tocou lá em 1966. Naquele ano, porém, passando por dificuldades financeiras, o dono original decidiu fechar o estabelecimento, mas outro empreendedor local tomou a iniciativa de reabri-lo, atendendo aos pedidos dos fãs da cidade.

O Cavern continuou funcionando muito bem até o ano de 1973 quando foi obrigado a fechar não por problemas financeiros, mas por uma imposição da Prefeitura de Liverpool, que queria demolir o clube para construir um tubo de ventilação à rede ferroviária subterrânea do norte. E foi feito. Para não perder aquele espaço tão importante, os donos abriram uma nova sede do Cavern do outro lado da rua, no que hoje é o The Cavern Pub, tentando recriar a mesma atmosfera original.

Com o fim dos Beatles, a morte de John Lennon e o contínuo desenvolvimento da cena musical do norte, que continuou rendendo bandas importantes, como Echo & the Bunnyman ou Joy Division, investidores decidiram reconstruir o Cavern original, movendo sua entrada para o número 10 de Mathew Street e usando os tijolos originais da casa deixados em um canteiro de obras subterrâneo, reaproveitando 75% do material original. O “novo” Cavern abriu as portas em 1984 e começou a atrair fãs dos Beatles do mundo todo às suas dependências. Ainda assim, o empreendimento terminou fechado outra vez em 1989, por problemas financeiros.

Em 1991, o grupo de sócios que o liderava até agora tomou as rédeas, incluindo a irmã de Lennon, Julia Baird, e o Cavern reabriu as portas, mantendo sua missão de manter viva a memória dos Beatles, mas sem fechar as portas para novos artistas, e por causa disso, bandas emergentes do cenário musical tocaram lá, como o Oasis nos anos 1990 e o Arctic Monkeys nos anos 2000. A Beatles Week e o Magical Mystery Tour apenas ajudaram a tornar essa história mais efervescente. E Paul McCartney fez um show especial no Cavern em 1999, tendo o guitarrista do Pink Floyd, David Gilmour, na banda de apoio, e repetiu a empreitada em 2018.

Agora, 35 anos depois da reabertura, um novo capítulo se iniciará. Que suas paredes úmidas de tijolo há um andar abaixo da terra continuem a embalar os corações das gerações musicais que ainda virão!