Para aqueles fãs de biografias, “Vida” de Keith Richards é uma excelente pedida!

Escrito a oito mãos com o escritor James Fox, o livro relata a infância pobre do guitarrista em Dartford, nos arredores de Londres; as surras diárias do valentão da escola; o interesse crescente pela música, em particular blues, rythm and blues e rock and roll; a formação dos Rolling Stones; o sucesso; o sexo; as drogas; as polêmicas; as drogas; as prisões; o exílio da Inglaterra; as drogas; as loucas turnês dos anos 70; as drogas; as brigas com Mick Jagger; a luta para se livrar das drogas (vejam só!); as megaturnês dos anos 90 e 2000 etc.
Em meio a isso, o motor musical dos Stones faz verdadeiros workshops explicando em detalhes sua técnica de guitarra e o tipo de afinação não-ortodoxa que usa, esmiuça o processo de composição de algumas canções e conta histórias curiosas sobre os bastidores da banda, o ciclo de pessoas que se formou em torno deles e de outras celebridades do rock, com destaque para John Lennon (dos Beatles) e Gram Parsons (do Flying Burrito Brothers, nome fundamental do country rock).
Também são ótimos os relatos das prisões de Richards por posse de drogas (na Inglaterra, na França, nos Estados Unidos e no Canadá) e, principalmente, como se safou de todas elas. Neste ponto, o tom irônico do guitarrista chega a ser hilário, mostrando como um conhecido usuário de drogas consegue se livrar de porte de entorpecentes e até tráfico, às vezes das formas mais estapafúrdias possíveis.
O terço final da obra é dedicado, em grande parte, à sua luta contra a dependência das drogas, especialmente a heroina, chamada carinhosamente de “veneno” pelo músico. Entretanto, talvez para preservar sua imagem de “bad boy do rock and roll”, embora Richards afirme se livrar da heroína em 1979, deixa subentendido que poderia ter usado cocaína depois disso e que fuma maconha de vez em quando.
Para aqueles que querem conhecer os bastidores dos tempos áureos do rock, “Vida” é uma iniciação excelente.
Dicas para ouvir:
Como trilha sonora da leitura, se recomenda:

BEGGARS BANQUETT – 1968 – Obra na qual os Rolling Stones dão a virada em sua carreira. Depois de terem sido os heróis dos covers de r&b, dos primeiros hits autorais e de uma maufaldada experiência psicodélica, a banda reencontra suas raízes de blues, adicionando um pouco de folk e country. O álbum é uma obra praticamente acústica e foi o último disco gravado com o fundador e multi-instrumentista Brian Jones (que morreu em circunstâncias misteriosas, afogado na própria piscina em 1969). Traz: Sympathy for the devil, No expectations, Street fightin’ man.

LET IT BLEED – 1969 – Disco de natureza desigual porque foi gravado em três circunstâncias distintas: sessões esparsas com Brian Jones, outras testando o guitarrista Ry Cooder (que não ficou na banda) e, por fim, com o novo membro Mick Taylor. Ainda assim, aqui se esboça a sonoridade pela qual os Rolling Stones são conhecidos até hoje, em faixas como Gimmie Shelter, You can’t always get what you want, Love in vain, Midnight rambler, You got the silver (esta, cantada por Keith Richards).

STICKY FINGERS – 1971 – Se tiver que ouvir apenas um disco dos Rolling Stones em sua vida, escute este! Melhor obra da banda, foi o primeiro gravado com Mick Taylor como membro integral e com uma esperta equipe de apoio com o fantástico pianista Nicky Hopkins, Bob Keys no sax, Jim Prince no trompete e Billy Preston no órgão. Bem gravado e com a banda afiada em uma sequência matadora de canções: Brown sugar, Sway, Wild horses, Can’t you heard me knocking, Sister morphine, I got the blues, Dead flowers, Moonlight mile.

EXILE ON MAIN STREET – 1972 – Exilada na França para fugir dos altos impostos da Inglaterra, a banda se trancou no porão de uma mansão alugada por Keith Richards para gravações permeadas pelo alto consumo de drogas. O resultado é um som embaralhado, cheio de ruídos, mas que serviu a favor da banda em um “som sujo”. Por isso, parte da crítica e do público afirmam ser seu melhor trabalho. Mal recebido na época do lançamento, é uma compilação notável de faixas: Rock off, Sweet Virginia, Tumbling Dice, Rip this joint, All down the line, Shine a light, Let it loose, Happy (esta, cantada por Richards).

