Continuando a saga moderna da Marvel Comics, que já teve publicada as Partes Introdução, 01, 02, 03 e 04.

Civil War Poster
O poster de divulgação de "Guerra Civil", desenhado por Michael Turner: "de que lado você está?".

Os dois arcos comentados no post anterior da série resultaram no divisor de águas da história moderna da Marvel. Um divisor literalmente: em Guerra Civil quem entra em conflito são os heróis, entre si, por meio de uma discordância política. Vamos aos detalhes.

Na cidadezinha dos Estados Unidos, Stamford, um grupo de heróis do quinto escalão chamado Novos Guerreiros estão gravando um reallity show na qual perseguem criminosos e terminam encontrando uns meliantes escondidos. Sem planejamento, o grupo ataca os vilões, mas para o azar deles, há um cara poderoso chamado Nitro, cujo o poder consiste em gerar explosões. Ele o faz perto de uma escola e BUM morrem 600 crianças!

O evento choca o país e a opinião pública rapidamente se volta contra os “super-heróis”. O Governo dos EUA reage rápido e o Congresso põe em votação o Superhuman Registration Act (o Ato de Registro de Superhumanos), uma lei que determina que todos os superseres devem se registrar junto ao Governo, informando nomes e endereços, de modo que possam ser monitorados e, em última instância, treinados para agir quando necessário.

Apesar de todos condenarem a ação irresponsável dos Novos Guerreiros, o Ato de Registro divide opiniões entre os heróis.

Nick Fury, o Diretor da Shield (a agência máxima de segurança global a serviço da ONU, nos quadrinhos da Marvel), uma figura favorável aos vigilantes uniformizados, encontrava-se foragido na época, porque atacou o líder de um país sem autorização das Nações Unidas – no caso, o Dr. Destino, arquiinimigo do Quarteto Fantástico, rei da Latvéria (fictício país do Leste Europeu). Sem Fury para impedir, a Shield, comandada pela Agente Maria Hill, acata o Ato e passa a obrigar os superseres a se registrarem.

Captain America x Iron Man
Ex-amigos: Capitão América e Homem de Ferro batalham ferozmente, o primeiro vence, mas se detém no final e termina preso. Textos de Mark Millar e desenhos de Steve McNiven.

Na época, o Homem de Ferro já havia revelado ao mundo que era Tony Stark e tinha se tornado o Secretário de Defesa do Governo dos EUA. Obviamente, ele apoia o Ato de Registro e isso o coloca em choque com o Capitão América, o outro líder dos Novos Vingadores.

Sempre ligado ao espírito da liberdade, o Capitão América nega seu registro e se torna um foragido. Stark se une a outros apoiadores do Registro – como Reed Richards, líder do Quarteto Fantástico, e Hank Pym, o Gigante, membro fundador dos Vingadores – e montam uma equipe para caçar àqueles que não aceitam se registrar e constroem uma prisão especial para aprisioná-los. O Capitão América é o principal alvo deles.

Paralelamente, o Governo mobiliza os Thunderbolts de Norman Osborn (o Duende Verde) como encarregados de caçar superseres não-registrados. Osborn agora é a lei.

Os Novos Vingadores – ponto central da trama – se dividem. O Homem-Aranha apoia o Ato e une-se ao Homem de Ferro, enquanto Wolverine e Luke Cage se opõem. Este último, por ser afrodescendente, confronta Stark e o acusa de estar trazendo a escravidão de volta.

O Capitão América, por achar que o Registro fere os Direitos Civis, organiza uma milícia para se opor ao grupo de Stark.

As tensões aumentam e há a caça desenfreada pelo grupo dissidente do Capitão América, tanto por parte dos Vingadores liderados pelo Homem de Ferro quanto os Thunderbolts de Osborn, o que termina acirrando os ânimos e levando a um confronto que resulta na morte de um vingador-reserva opositor ao Registro chamado Golias Negro, outro afrodescendente.

New Avengers by Frank Cho
Os Novos Vingadores pós-Guerra Civil: Punho de Ferro, Dr. Estranho, Eco, Luke Cage, Ronin, Wolverine e Homem Aranha. Foras da Lei.

Os supercriminosos se aproveitam da situação e ampliam suas ações, levando o país ao caos. O grupo de Stark e Richards, no afã de cumprir a lei terminam utilizando uma série de recursos antiéticos e amorais, o que só aumenta a oposição do grupo de Capitão América, Luke Cage e Wolverine. Essas ações questionáveis levam o Homem-Aranha a mudar de lado no meio do conflito.

Porém, no fim das contas, o grupo dissidente não tem forças suficientes para combater o lado legalista, além do fato de que o Capitão América não queria declarar uma guerra dentro do próprio país e ter que lutar (e talvez até matar) velhos amigos.

Sem parar de ser caçado, o Capitão América termina lutando contra o Homem de Ferro – que antes era o seu melhor amigo – e ganha a luta, mas o que pode fazer? Matar Stark? Sem saída e não querendo prolongar os danos, o Capitão América se rende e é preso.

Esses eventos foram narrados na minissérie em sete partes Guerra Civil, publicada entre 2006 e 2007, escrita pelo escocês Mark Millar (de Os Supremos) e desenhada por Steve McNiven.

Os eventos reverberaram por todas as revistas da Marvel. Em New Avengers, escrita por Brian Michael Bendis e desenhada por Frank Cho e Leinil Francis Yu, eram mostrados detalhes internos do grupo. Os Novos Vingadores restantes (Cage, Wolverine e o Homem-Aranha) tornam-se foragidos da Justiça e ganham novos membros, como Punho de Ferro e Dr. Estranho. A revista continuou sendo publicada, mostrando como os heróis continuaram fazendo o seu “trabalho”, mas agora sem apoio da ONU e perseguidos pelo Governo.

The Captain America Death
O Capitão América é morto a tiros quando levado a julgamento: texto de Ed Brubaker e traço de Steve Epting.

O Capitão América vinha sendo publicado em uma fase muito elogiada escrita por Ed Brubaker e desenhada por Steve Epting. A revista, claro, se interligou à Guerra Civil e a consequência é que o herói mais respeitado do Universo Marvel (a inspiração para todos os demais, por ter sido um dos pioneiros) foi preso. Como que para reforçar o impacto de que o lado defensor dos Direitos Civis perdeu o conflito – numa analogia direta às limitações desses direitos na Era Bush – o Capitão América é baleado e morto nas escadarias do tribunal.

A trama de Brubaker era tão bem escrita – constantemente é considerada a melhor revista da Marvel na década e um dos maiores sucessos, também – que a revista Captain America continuou sendo publicada mesmo sem a presença de seu protagonista, mostrando as consequências de sua morte e uma história na qual seus aliados e amigos se unem para deter as ações do grupo terrorista que o matou. Por fim, um velho amigo do herói toma o seu lugar e se torna o Novo Capitão América.

O grupo vitorioso, de Tony Stark, ganhou uma nova revista chamada The Mighty Avengers, na qual o Homem de Ferro organiza um projeto chamado Iniciativa dos 50 Estados, destinado a treinar os superseres registrados. Agora há duas equipes de Vingadores paralelas, uma legalizada, outra não.

New Captain America by Alex Ross
Buck Barnes se torna o Novo Capitão América: visual criado pelo artista Alex Ross.

Os impactos no Homem de Ferro também foram profundos: teve que lidar com a dor e a responsabilidade pela morte do Capitão América, o que transformou-se numa vitória vazia. Além disso, Stark deixou o cargo de Secretário de Defesa e é promovido a Diretor da Shield.

Com a Guerra Civil a Marvel Comics teve a ousadia de mudar totalmente o seu status quo de maneira permanente. Não foi uma simples aventura, mas uma transformação corajosa de seu próprio Universo fictício, ao mesmo tempo em que promoveu uma esperta crítica social.

Os super-heróis não viram a situação melhorar com o tempo. Pelo contrário, em seguida, uma ameaça ainda maior pairou sobre eles, na Invasão Secreta, nosso próximo capítulo.