Versão Madura da Mulher-Maravilha na arte pintada de Alex Ross.

Até agora, houve poucas manifestações, mas depois dos “aniversários” de Arqueiro Verde e Aquaman, é a vez da princesa amazona mais famosa dos quadrinhos: em outubro, a Mulher-Maravilha está comemorando 70 anos de idade, ou melhor, de publicação. Sua estreia se deu em outubro de 1941, na revista All-American Comics 08, com data de capa de dezembro e janeiro (as datas das capas são referentes ao recolhimento das revistas, não aos lançamentos).

Criada para ser uma versão feminina dos vários super-heróis que começavam a ser publicados nos fins dos anos 1930 e inícios de 1940, ao longo das décadas, ela se tornou um ícone do Movimento Feminista e a mais emblemática das personagens femininas dos quadrinhos de super-heróis.

A capa de "All-American Comics 08", que completa 70 anos, não traz nenhuma referência à estreia da nova personagem. Mas ela está lá.

A história da criação da personagem por si só já é bastante emblemática. A Mulher-Maravilha foi criada pelo psicólogo norteamericano William Moulton Marston, que tinha ideias bem radicais e libertárias sobre sexo e gênero. No início dos anos 1940, Marston era um dos psicólogos mais famosos dos Estados Unidos e o inventor do Detector de Mentiras, o polígrafo, aparelho que analisava a frequência cardíaca e a tonalidade da voz para identificar se as pessoas estavam mentido ou não, máquina essa utilizada em massa pelas polícias dos EUA durante o século XX.

Em 1940, Marston também publicou uma entrevista na revista Family Circle entitulada “Don’t laught at he comics” (não ria dos quadrinhos), na qual defende o enorme potencial educativo desse gênero literário. O psicólogo foi contratado como consultor educional das editoras National Periodicals e All-American Comics, as duas subdivisões da DC Comics. Logo, o autor fez uma proposta ao seu editor na All-American, Max Gaines, sobre a perspectiva de criar uma super-heroína que combatesse o mal não apenas com os punhos, mas também com o amor. Assim, nasceu a Mulher-Maravilha.

A primeira capa da personagem foi em "Sensasional Comics 01", de janeiro de 1942.

A inspiração para a personagem foi sua própria esposa, Elizabeth Marston, que seria um protótipo da mulher moderna e não-convencional para a época. Mas também se baseou em sua aluna Olivia Byrne, que era sua amante e vivia com o casal em sua casa em uma relação poligâmica.

Inspirado pelas ideias sexuais liberais e pela mitologia grega, Marston (com o desenhista H.G. Peter) criou a história em que as amazonas, semideusas da Grécia antiga, viviam em uma ilha isolada e secreta chamada Themysciria, também conhecida como Ilha Paraíso, até que um avião pilotado pelo norteamericano Steve Trevor cai no lugar. A rainha das amazonas, Hipólita (figura que na mitologia grega teve um filho com Teseu) decide fazer um torneio para que uma delas leve o homem ao seu país de origem e, ainda, atue como embaixadora das amazonas no “mundo do patriarcado“. A filha de Hipólita, Diana, é proibida de participar do torneio, mas o disputa com uma máscara e ganha. Sem outra opção, Hipólita envia Diana e Trevor aos Estados Unidos para que ela cumpra a sua missão.

A capa de "Wonder-Woman 01", de 1942.

A estreia da heroína foi na revista All-American Comics 08, de dezembro de 1941, uma revista especial, bimestral, que vendia muito por trazer as aventuras da Sociedade da Justiça, que reunia heróis como Flash, Lanterna Verde e Gavião Negro. Era uma maneira de apresentá-la a um público mais amplo. Logo em seguida, a Mulher-Maravilha passou a ser publicada na revista Sensasional Comics 01, de janeiro de 1942, sendo o carro-chefe da publicação e sua primeira capa.

Diana dá umas "palmadas" em uma colega.

O sucesso foi imediato e seguindo a tradição da DC, a personagem estreou um novo título com seu próprio nome, no verão de 1942, uma revista trimestral especial com mais páginas. Wonder-Woman seria publicada sem interrupções até 1986, fato raríssimo nos quadrinhos.

As primeiras histórias da Mulher-Maravilha eram permeadas do que os historiadores de hoje percebem como fantasias sexuais do próprio Marston, particularmente relacionadas ao lesbianismo e ao sadomasoquismo. A quantidade de personagens femininas amarradas e amordaçadas nas histórias é impressionante, além de haver centenas de pequenas referências lésbicas nas histórias, envolvendo Diana e suas “amigas”. Inclusive, havia algo nos poderes da Mulher-Maravilha que estava relacionado ao poder da mente e do treinamento das amazonas na Ilha Paraíso, mas se ela fosse amarrada por um homem, os perderia.

Personagens amarradas eram constantes.

Além disso, o “laço da verdade“, a principal arma da Mulher-Maravilha, uma corda mágica, obrigava qualquer pessoa a ser envolvida nele a contar a verdade, o que os historiadores percebem como uma referência ao próprio polígrafo de Marston.

Gravura de Michael Turner, em 2007, dá destaque ao laço da verdade.

William M. Marston escreveu as aventuras da Mulher-Maravilha até sua morte, em 1947, aos 53 anos. Na sua ausência, a personagem continuou sendo publicada, por outros autores, mas sem a mesma força.

Com o advento da Era de Prata, no fim dos anos 1950, a DC Comics reformulou a maioria dos seus velhos heróis e a Mulher-Maravilha também sofreu algumas mudanças, nas mãos de Robert Kannigher e do desenhista Ross Andru, tornando-se ainda mais forte e mais ligada à mitologia grega do que antes. E em 1960, ela foi uma das fundadoras da Liga da Justiça, criada pelo escritor Gardner Fox  junto ao desenhista Mike Sekowski.

O início da fase mod-psicodélica em 1968.

Mas ainda assim, a personagem não conseguiu uma identificação expressiva com os leitores no concorrido mercado dos anos 1960, o que levou a uma grande reformulação em 1968, quando o escritor Dennis O’Neil e o desenhista Mike Sekowski criaram uma nova fase da heroína, mais ligada aos anos 1960 (a moda, o rock, o psicodelismo etc.), onde Diana Prince perde os seus poderes e passa a agir como uma humana comum, treinada por um mestre chinês chamado I Ching e com aventuras repletas de espionagem, como os livros (e os filmes) de James Bond.

Capa da revista "Ms." de 1972: "Mulher-Maravlha para presidente".

Essa nova fase até fez sucesso, mas gerou muitas reclamações do Movimento Feminista, que no início dos anos 1970 elegeu a Mulher-Maravilha como um dos seus maiores símbolos. Inclusive, a heroína, em seu visual clássico, estampou a capa da conceituada revista Ms., comandada por Gloria Steinem, em julho de 1972. A chamada era “Wonder-Woman for President”. Tendo em vista a esse tipo de apelo, a DC resolveu volver a personagem ao seu visual padrão e o restituiu.

Lynda Carter: sucesso na TV.

A fase de maior sucesso e popularidade da Mulher-Maravilha depois de sua era inicial foi justamente na segunda metade dos anos 1970, quando o desenho animado Super-Amigos começou a ser exibido e mais ainda com a série de TV da ABC, estrelada por Lynda Carter entre 1975 e 1979.

O sucesso diminuiu nos anos 1980, quando foi escrita por Gerry Conway, embora fossem boas histórias. Em 1982, o escritor Roy Thomas e o desenhista Gene Colan criam modificações no uniforme da personagem, basicamente colocando um duplo “w” em seu decote no lugar da águia, o que se converteu na “trade mark” da personagem para o mercado publicitário e transformou-se na versão padrão de seu uniforme desde então.

A fase de George Perez: mais cultuada.

O sucesso comercial voltou após o megaevento Crise nas Infinitas Terras. Numa série iniciada em 1987Wonder-Woman (vol.02) – comandada pelo desenhista George Perez e realizada com ajuda dos escritores Len Wein e Greg Potter, a princesa amazona teve sua origem modificada, ganhando mais coesão e vinculação com a mitologia grega. Essa nova temporada de mais de 60 edições é considerada por muitos como a melhor entre todas as fases da personagem nos quadrinhos.

Capa de "Wonder-Woman" por Brian Bolland. A arte interna é de Mike Deodato Jr.

Em seguida, a revista foi assumida pelo escritor William Messner-Loebs e o desenhista brasileiro Mike Deodato Jr., numa fase em que a personagem chegou a mudar de uniforme, utilizando uma roupa completamente distinta, com uma jaqueta.

O visual dos anos 1990 por Mike Deodato Jr.

Seguiu-se uma outra fase, com o desenhista e escritor John Byrne, que promoveu várias mudanças, como a ascenção ao Monte Olímpio e a tranformação de Diana na Deusa da Verdade e a “revelação” de que a Mulehr-Maravilha da Era de Ouro – aquela que agiu nos anos 1940, lutou na II Guerra Mundial e ingressou a Sociedade da Justiça – era na verdade sua mãe Hipólita, que viajou no tempo para o passado, cumprir tal missão. Essas mudanças desagradaram os leitores.

Assim, Walt Simonson escreveu uma curta fase que prestou homenagens à fase de I Ching, entre os números de Wonder-Woman (vol. 2) 189 e 194.

Fase de John Byrne: mudanças não bem aceitas.

Nos últimos anos, a Mulher-Maravilha passou por muitas mudanças e cancelamentos de revistas e retornos. Durante o arco Contagem Regressiva para a Crise Infinita, ela se tornou ainda mais violenta e durona e matou o vilão Maxwell Lord, que estava tentando dominar a mente do Superman e havia matado o ex-membro da Liga da Justiça, Besouro Azul.

Guerreira violenta em "Contagem Regressiva para a Crise Infinita".

Em 2010, a personagem ganhou um novo uniforme, uma mistura da versão de Deodato com o tradicional, o que deixou os leitores confusos. Além disso, ela também ganhou uma nova versão para a TV, por meio da CBS, mas o episódio piloto da nova série não foi aprovado e o projeto foi cancelado. Adrianne Palick faria a Mulher-Maravilha.

O Uniforme de 2010.
A primeira imagem do reboot: com calças.
A capa lançada em setembro de 2011: sem calças.
Trecho da nova "Wonder-Woman 01", de 2011.

Em 2011, em meio ao reboot da DC Comics, chamado oficialmente de The New 52, a Mulher-Maravilha foi reformulada por Brian Azzarello e Cliff Chiang. Seu uniforme foi novamente modificado, mantendo as calças, mas aparentemente houve uma grande reação dos fãs e, na última hora, a editora modificou a peça. Nas ilustrações reveladas previamente, a heroína aparece de calças, mas na publicação da revista, ela já aparece com o tradicional short. A heroína também faz parte da nova Liga da Justiça e nas imagens promocionais aparece com calças, mas como a heroína ainda não apareceu nos dois números publicados da revista – espera-se que surja no terceiro – não se sabe ainda qual visual usará.

Parece que a mesma polêmica shorts/calças atingiu a cancelada série de TV, porque imagens divulgadas registram os dois visuais nas gravações.

Atualmente, fala-se na produção de um longametragem da heroína, que poderia ser dirigido por Nicolas Winding Refn e estrelado por Christina Hendricks . Se bem feito, poderia ser uma bela homenagem a essa senhor septuagenária que é um ícone da beleza, sensualidade e força da mulher moderna.