
Hoje se completam 10 anos da morte de George Harrison, guitarrista da banda britânica The Beatles, a mais popular e respeitada de todas as bandas de rock. Harrison sucumbiu a um câncer generalizado aos 59 anos, em 29 de novembro de 2001 e seu falecimento não foi exatamente uma surpresa, tendo em vista que já vinha doente há algum tempo.
Ainda assim, sua morte trouxe a respeitabilidade que nem sempre teve em vida: por anos, o guitarrista ficou à sombra da dupla de compositores John Lennon e Paul McCartney, que lideraram os Beatles. Assim, Harrison ficou conhecido como o “beatle quieto”, porque era o mais tímido e o que menos aparecia nos holofotes, mas ainda assim, sua contribuição para a obra da banda – e para a música popular mundial – é tremenda. Além de ter tocado a maioria daqueles solos simples e singelos, curtos, bonitos e tocantes, da música dos Beatles, Harrison foi compositor de alguns dos maiores clássicos dos Beatles, como Something, Here comes the sun e While my guitar gently weeps, sem contar que seu envolvimento com a cultura oriental – e em particular as religiões – mudou o direcionamento da obra não somente da banda, mas de toda a cultura em torno do rock, o que teve considerável impacto no espectro cultural da década de 1960.

George Harrison nasceu em um bairro operário da cidade de Liverpool, em 1943, filho de uma dona de casa e de um motorista de ônibus. Nasceu em um daqueles conjuntos habitacionais populares construídos pelo Governo Britânico ainda antes da II Guerra Mundial, com casas geminadas, tijolos vermelhos e com o banheiro fora da casa, no quintal. Cresceu em meio aos escombros da guerra e estudou no Liverpool Institute, uma escola pública, mas dotada de prestígio. Foi lá que conheceu Paul McCartney – nove meses mais velho, o que parecia muito há época – e também Neil Aspinal, rapaz que seria de grande importância na carreira da banda: além de fiel amigo até o fim, foi o primeiro motorista do grupo; roadie; gerente de turnê e, por fim, presidente executivo da Apple Corps., a empresa fundada pela banda em 1968.
Harrison ficou fascinado com o rock and roll quando este se tornou um fenômeno mundial em 1956 e logo se envolveu com a guitarra. Seus cadernos da escola ficaram recheados de desenhos de guitarras dos mais variados tipos. Em vista da situação difícil da economia britância do pós-guerra e por sua família de descendentes de irlandeses não ter dinheiro, precisou trabalhar como assistente de eletricista, o que lhe facilitaria, mais tarde, para entender a dinâmica por trás dos instrumentos elétricos.

Em 1958, por meio de sua amizade com Paul McCartney, fez uma audição de teste para tocar no The Quarrymen, uma banda de skiffle (um tipo de blues acústico tipicamente britânico), que gozava de certo prestígio na periferia de Liverpool. Os Querrymen havia sido fundados dois anos antes por John Lennon, que era o líder do grupo. O repertório do grupo envolvia clássicos do skiffle, ritmo muito popular na Inglaterra da época (e pai do rock inglês), além de versões do rock and roll norteamericano de Elvis Presley, Chuck Berry, Little Richard, Buddy Holy etc. McCartney assistira a um show da banda no verão de 1957 e ficou impressionado por garotos tão jovens já fazerem seu som em uma banda e conseguiu ser convidado em seguida para ingressá-la.
Depois de um tempo, McCartney fez lobby para que o amigo George Harrison entrasse no grupo, o que John Lennon não via com bons olhos a princípio, porque o menino era três anos mais novo do que ele. Enquanto Lennon tinha 17 anos, Harrison não tinha sequer 15! Mas a audição de teste, feita no segundo andar de um ônibus em movimento, agradou o líder que permitiu ao menino ingressar no grupo.
Com Lennon, McCartney e Harrison como guitarristas, os Quarrymen fizeram sua primeira gravação, ainda em 1958, num estúdio caseiro que cobrava pelo serviço. Duas faixas preencheram o disquinho, com as faixas There be the day (de Buddy Holly) e In spite of the danger, o primeiro registro de uma canção original da banda, de autoria do trio Lennon-McCartney-Harrison. Ambas foram posteriormente lançadas no Vol. 01 da série de CDs Anthology, e são peças curiosas: amadoras, mas tocantes. No filme Nowhere Boy – O Garoto de Liverpool, que narra a adolescência de John Lennon, os atores aparecem fazendo uma bela performance da canção, no final do filme, o que é uma boa homenagem.

Após mudar de nome várias vezes – chamando-se até Johnny and the Moondogs – o grupo adotou a nomenclatura de The Beatles em 1960, embora também fossem chamados de The Silver Beatles, às vezes. O grupo conseguiu contratos para tocar nos clubes “inferninhos” de Hamburgo, na Alemanha Ocidental, durante seis semanas, o que garantiu à banda um grande crescimento profissional – afinal, tocar por sete horas durante seis dias na semana é um grande aprendizado. Mas o grupo foi deportado porque as autoridades descobriram que Harrison era menor de idade.
Após o músico fazer 18 anos, em 1961, a banda retornou a Hamburgo mais quatro vezes, criando um vinculo especial com o lugar e uma base de fãs pela primeira. Além disso, a experiência alemã mudou para sempre a sonoridade da banda, que deixou para trás o skiffle e se tornou a mais selvagem banda de rock de Liverpool, o que os tornou muito populares em sua cidade natal. Também foi em Hamburgo que os Beatles fizeram sua primeira gravação profissional: acompanhando o cantor e guitarrista Tony Sheridan. Porém, nas mesmas sessões, a banda registrou dois números “solo”: Ain’t she sweet (cover de Gene Vicent cantado por Lennon) e a instrumental Cry for a shadow, de autoria de Lennon-Harrison. Ambas também estão no Vol. 01 de Anthology.

Em 1962, a popularidade da banda subiu à estratosfera em Liverpool, com seus shows lotados no lendário The Cavern Club, o que os levou a assinarem com o empresário Brian Epstein – dono da maior cadeia de lojas da região norte da Inglaterra – que conseguiu testes com as gravadoras, até fecharem acordo com a poderosíssima EMI, sob a produção do maestro George Martin. O primeiro single da banda, Love me do, foi lançado em outubro daquele ano e chegou ao 17º lugar das paradas nacionais, o que surpreendeu a gravadora. O compacto seguinte, Please, please me, também de Lennon-McCartney, chegou ao número 01, dando início à série quase ininterrupta da banda em relação às paradas de sucesso.

A fama e a popularidade dos Beatles se espalhou violentamente pela Europa em 1963, o que tornou seus quatro membros (Lennon, McCartney, Harrison e o baterista Ringo Starr) famosos em todo canto. Harrison a princípio ficou intimidado com a fama, o que lhe rendeu seu apelido de “o beatle quieto”, ao mesmo tempo em que ele guardava ressentimento por ocopar uma posição secundária em relação à dupla Lennon-McCartney. Ainda assim, além de fazer a maioria dos solos, Harrison cantava duas faixas por álbum, por vezes canções da dupla (como Do you wanto to know a secret ou I’m happy dancing with you), outras vezes, covers de rock and roll (como Roll over Beethoven).
O segundo álbum da banda, With The Beatles, lançado em fins de 1963, trouxe a primeira composição oficial de Harrison, Don’t bother me, mas demoraria quase dois anos para o artista voltar a contribuir autoralmente com as faixas I need you e You like me too much, ambas no álbum Help!, de 1965. Essa “primeira fase” de Harrison como autor se encerra no disco seguinte, Rubber Soul, do mesmo ano, com outras duas canções: If I needed someone e Think for yourself.

Nesse meio tempo, Harrison foi um dos guitarristas mais influentes do mundo, numa era pré-guitar hero (não o jogo, mas o conceito de um guitarrista que é o centro do palco e das atenções, tão caro ao rock). Embora Eric Clapton desse seus primeiros passos rumo ao estrelato nos Yardbirds e nos Bluesbreakers; Keith Richards fosse um bom performer; e Jeff Beck estivesse experimentando os primeiros efeitos especiais nos Yardbirds; Harrison se destacava no contexto, com seus solos melodiosos, que permitem a alguém “cantar junto” com a guitarra. E também popularizou a guitarra de 12 cordas.

A partir de 1966, o experimentalismo começa a dominar o espectro do rock e Harrison contribuiu com isso. Desde o uso de pedais com sons muito agudos em faixas como I need you (de sua autoria) e Yes it is (de Lennon-McCartney) até o uso da cítara indiana em Norwegian wood, de Rubber Soul, um passo decisivo rumo à psicodelia e à influência da cultura oriental no Ocidente. O primeiro álbum dos Beatles dentro do psicodelismo foi Revolver, que trouxe nada menos do que três composições de Harrison, incluindo o seu primeiro superclássico, Taxman, que abre o disco e que faz uma severa e irônica crítica à política de impostos do Reino Unido.
Em seguida, os Beatles deixaram de fazer shows – um grande alívio para o guitarrista que nunca se sentiu 100% à vontade nos palcos – e passaram a se dedicar integralmente ao trabalho nos estúdios. O resultado imediato foi Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, de 1967, álbum que revolucionou a cultural pop e que é considerado o grande marco dos Beatles, além do disco mais importante daquela década. No álbum, a composição Within you, without you faz uma refinada reflexão existencialista na letra e tem sua sonoridade inteiramente formada por instrumentação no estilo indiano: uma peça bela e estranha. Por outro lado, na medida em que aumentava seu envolvimento com a filosofia oriental, Harrison começava a se desencantar dos Beatles e da fama, de modo que sua contribuição no disco, inclusive como guitarrista é menor, cabendo a Lennon e McCartney o papel de guitarrista solo em várias faixas.

Em 1968, os Beatles decidiram aprofundar mesmo seu envolvimento com a filosofia oriental, especialmente a hindu, e foram fazer um curso de Meditação Transcendental na Índia. Starr e McCartney não seguraram a onda e voltaram logo, mas Harrison e Lennon ficaram mais de um mês na Índia, estudando, meditando e compondo toneladas de canções. Este último ponto terminou se transformando em um problema: antes, Harrison tinha pouco para contribuir, mas agora, atingia o seu ápice como compositor e estava cheio de músicas, mas a dupla Lennon-McCartney não estava muito disposta a ceder espaço, principalmente este último.

Por isso, as gravações do álbum The Beatles (mais conhecido como White Album ou Álbum Branco, no Brasil) foram muito tensas. O baterista Ringo Starr chegou até a pedir demissão no meio, mas terminou voltando. Harrison, por sua vez, ficou irado ao perceber o descaso com relação às suas composições. Como vingança, convidou o amigo Eric Clapton para tocar em uma delas. A essa altura, Clapton era o mais famoso e prestigiado guitarrista do mundo e sua presença obrigou aos Beatles se esforçarem um pouco mais. O resultado: While my guitar gently weeps é um dos maiores clássicos da banda, com um solo matador de Clapton.
Além disso, o álbum, lançado naquele mesmo ano, tinha outras três composições de Harrison, com destaque ainda para a ácida Piggies, uma crítica à burguesia.

No início de 1969, os Beatles decidiram fazer algo novo: ensaiar um álbum inédito inteiro e apresentá-lo ao vivo em um show, filmando tudo e lançando como filme e disco. Mas o clima interno da banda era infernal: a Apple Corps., fundada no ano anterior, era um pesadelo financeiro e as diferenças musicais estavam exarcebadas. Para piorar, o problema de Harrison conseguir emplacar suas composições com a banda continuavam e elas iam acumulando. Durante as filmagens, Harrison chegou a pedir demissão e só voltou duas semanas depois, mediante um acordo. No fim das contas, o grupo abandonou o projeto e tentou fazer um disco e um filme com o que sobrou.

Para afastar a má fase, a banda voltou aos estúdios poucos meses depois para trabalhar em um projeto inteiramente novo, que seria o álbum Abbey Road. Harrison gravou duas canções absolutamente clássicas: Something e Here comes the sun. As gravações também presenciaram o desenvolvimento de um companheirismo musical entre Harrison e Lennon que continuaria pelos anos seguintes, enquanto havia uma ruptura de ambos com McCartney.
Abbey Road foi lançado em setembro daquele ano e foi o maior sucesso dos Beatles, ao mesmo tempo em que Something foi escolhida como a carrochefe do disco e seu único compacto de promoção. Refletindo as relações internas, o Lado B foi Come together de Lennon.

Ao iniciar 1970, os Beatles decidiram lançar aquele projeto inacabado, agora chamado Let it Be, mas apenas uma canção de Harrison havia sido finalizada: For you blue, que tem um bom arranjo de guitarra slide tocado por Lennon. O grupo decidiu voltar ao estúdio e refazer outra obra de Harrison que tinha ficado inacabada: I me mine. Embora Lennon não tenha participado da sessão – pois já havia anunciado ao grupo a sua saída dos Beatles – aquela canção foi a última gravada pela banda. Let it Be, o álbum e o filme, foram lançados em maio e fizeram sucesso, na esteira do anúncio do fim do grupo.

Sem os Beatles, Harrison tocou em Instant Karma!, single da carreira solo de Lennon que foi sucesso no mundo inteiro. Em seguida, Harrison se cercou de amigos, como Eric Clapton, e gravou um álbum com as canções que apresentara para os Beatles e não gravara. All Things Must Pass foi lançado como um álbum triplo em dezembro de 1970 e foi um sucesso enorme, rendendo hits como My sweet Lord, What’s life e a faixa título. Para os críticos é o melhor álbum solo de um ex-beatle.

Em 1971, Harrison organizou o Concert For Bangladesh, o primeiro concerto beneficente em larga escala, para ajudar aquele país, arrasado por uma tragédia natural. O concerto virou outro álbum triplo – com participações de Eric Clapton, Bob Dylan, Ringo Starr e Leon Russel – e foi um grande sucesso. O single Bangladesh também foi bem nas paradas. Segundo historiadores, a intenção de Harrison era reunir os Beatles no evento, mas Lennon e McCartney não toparam.
Ainda assim, em 1971, Harrison tocou guitarra no álbum Imagine de John Lennon, que também foi um grande sucesso.

A sequência ininterrupta de sucessos continuou, em 1973, com o álbum Living in the Material World, que além da faixa-título rendeu a balada Give me love.
Mas, um grande revés ocorreu em 1974, quando após o lançamento do álbum Dark Horse, Harrison saiu numa desastrosa turnê pelos Estados Unidos. Apesar do alto calibre de seus músicos e de seu repertório, ele foi atingido por um crise aguda de rouquidão que prejudicou demais sua performance. O trauma da pressão e do estresse da turnê terminaram por tirar Harrison dos holofotes totalmente, ajudado, ainda, pelo processo judicial de plágio movido por seu ex-empresário.

Harrison saiu da gravadora EMI e abriu seu próprio selo, o Dark Horse, e embora tenha continuado a lançar discos de qualidade razoável, deixou de frequentar as paradas de sucesso e o mundo do showbiss. Nos anos 1980, viu sua homenagem ao companheiro de Beatles, John Lennon (assassinado em 1980), All those years ago fazer sucesso no mundo todo, mas o fracasso retumbante do álbum seguinte o afastou da carreira musical por cinco anos.
A volta triunfal se deu com Cloud Nine, de 1987, que faz bastante sucesso de público e crítica, mas Harrison se recusou a ocupar o papel de “rock star” e permaneceu isolado em sua casa. Nem mesmo o sucesso estrondoso de seu novo grupo, o Travelling Wilburys (com Bob Dylan, Roy Orbison, Tom Pretty e Jeff Lyne), que lançou dois discos em 1988 e 1990, o fez voltar à ativa. Em 1991, acompanhado do amigo Eric Clapton, Harrison fez sua segunda (e última) turnê solo, agora no Japão, e muito mais bem sucedido, gerando até um álbum ao vivo.

O sucesso que os Beatles atingiram com o projeto multimídia Anthology (discos, filmes, livros), em meados da década de 1990, criou a expectativa de que Harrison retomasse a carreira, mas isso não aconteceu. Em 1999, ele anunciou uma batalha contra o câncer e ainda sofreu um atentado, quando um fã maluco invadiu sua casa e o esfaqueou. O músico sobreviveu, mas seu estado de saúde piorou.

A proximidade da morte o fez voltar a trabalhar em novas canções, mas Harrison morreu aos 59 anos, em novembro de 2001. Seu último álbum, Brainwash, foi lançado no ano seguinte e foi bem recebido, ganhando inclusive um Grammy.
O legado de George Harrison continua vivo e crescendo na medida em que novos fãs conhecem sua obra – seja com os Beatles, seja solo – com projetos como os álbuns remasterizados da banda ou o jogo guitar hero.
Nestes dias, o aclamadíssimo diretor Martin Scorsese (Taxi Driver, Os Infiltrados) dirigiu um documentário sobre o ex-beatleque foi exibido na HBO e deve ser retransmitido pelo mundo a partir de agora.
05 Canções de George Harrison com os Beatles
01 – While my guitar gently weeps – 1968;
02 – Something – 1969;
03 – Here comes the sun – 1969;
04 – Taxman – 1966;
05 – I need you – 1965.
10 Canções da Carreira Solo de George Harrison
01 – What’s life – 1970;
02 – Give me love – 1973;
03 – Living in the material world – 1973;
04 – Isn’t it a pitty – 1970;
05 – Beware of darkness – 1970;
06 – All things must pass – 1970;
07 – Bangladesh – 1971 (ao vivo do Concerto para Bangladesh);
08 – Cheer down – 1990;
09 – When we was fab – 1989;
10 – Heading for the light – 1991 (com o Travelling Wildburys).

