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Capa de Sgt. Peppers, um dos discos mais importantes da história.

[Este post foi originalmente publicado em 2012]

Há exatos 45 anos atrás, em 01 de junho de 1967, chegava às lojas da Inglaterra e dos Estados Unidos o disco de maior impacto cultural já lançado no rock em todos os tempos: Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, a obra-prima psicodélica dos The Beatles, a famosa banda britânica.

Em pleno 2012, talvez a simples audição do disco não revele sua importância histórica, mas com certeza, haverá pistas. Primeiro, é preciso entender que Sgt. Peppers nem é o melhor álbum dos Beatles, que lançaram obras melhores antes (Revolver, de 1966) e depois (Abbey Road, de 1969), mas nenhuma foi mais importante do que Sgt. Peppers. Por quê?

Porque Sgt. Peppers representa uma revolução cultural. É uma obra que mudou definitivamente o panorama musical mundial e se impôs como principal referência musical imbatível por pelo menos uma década. Para entender essa revolução, é preciso se atentar a dois aspectos: o contextual e o da obra em si. Vamos lá.

O Verão do Amor

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Cartaz de show do Pink Floyd no Marquee Club, em 1966, antes mesmo da estreia fonográfica da banda.

O principal marco do rock dos anos 1960 – e sua grande distinção do movimento anterior (dos anos 1950, aquele de Elvis Presley e Chuck Berry) – foi balizar de modo nítido duas características fundamentais relacionados ao gênero musical: 1) que ele era uma ruptura da juventude em relação à geração de seus pais; 2) que era não somente uma nova forma de arte, mas uma nova estética, que também se contrapunha àquele em vigor na época.

O primeiro ponto se relaciona ao fato da juventude estar emergindo como um novo ator social no cenário ocidental, passando a ocupar espaços sociais aos quais antes não participava, como a política e a produção (e não somente consumo) de cultura. O segundo ponto, mais profundo, mas inteiramente relacionado ao primeiro, como uma consequência, se relacionava ao fato desse novo ator social, a juventude, trazer consigo novos códigos simbólicos que iriam substituir os antigos. É por isso que o rock dos anos 1960 é revolucionário, porque se insere em um contexto maior que produziu uma nova estética para romper com a anterior, que se materializou não somente nesse rock dos anos 1960, mas também, em vários outros movimentos culturais-artísticos (movimento beatnick, o cinema de autor, tropicalismo, cinema novo…) e políticos (a nova esquerda, os movimentos de maio de 1968, os Panteras Negras, o feminismo, os estudantes secundaristas contra a Ditadura Militar no Brasil etc.).

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Depois dos britânicos, os americanos The Byrds foram dos primeiros a adotar o visual psicodélico cheio de cores.

No campo específico do rock, toda essa “revolução” já estava implícita no movimento inaugural desse movimento: a Invasão Britânica, quando o rock renasceu na Grã-Bretanha no início dos anos 1960 e gerou uma geração fantástica de bandas e artistas, como The Beatles, The Rolling Stones, The Animals, The Yardbirds, The Who e muitos outros. O rock desses grupos não era o mesmo daquele “outro” rock dos Estados Unidos da década anterior: era mais radical, mais próximo (musicalmente) de suas raízes nas culturas marginais; mas ao mesmo tempo, mais elaborado, mais autoconsciente. Inicialmente localizado, a Invasão Britânica fez jus ao seu nome quando esses artistas literalmente invadiram os Estados Unidos, em 1964, e, por meio deste, alçaram seu som ao resto do mundo.

 

Com isso, os EUA, que já haviam deixado de produzir rock de maneira maciça desde o fim da década de 1950, encampou um movimento para trazer o gênero de volta a tona e dar uma “resposta” aos britânicos, nascendo a Reação Americana, que, em 1965, lançou artistas espetaculares, como Bob Dylan, The Byrds, Simon & Garfunkel, The Mamas and the Papas e Beach Boys.

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Cartaz psicodélico do clube Whiskey-A-Go-Go traz shows de The Doors e The Byrds.

Inicialmente, Invasão Britânica e Reação Americana se situaram como movimentos distintos, mas a autoinfluência (em ambos os sentidos) permitiu reuni-los dentro de uma movimentação estética maior que culminou com o psicodelismo já em 1966. Este consistia simplesmente em radicalizar os pressupostos já implícitos desde o início: a amplificação dos instrumentos, a distorção da guitarra, a busca por efeitos sonoros inéditos, letras mais conscientes etc. E um dos principais canais para direcionar toda essa mudança foi justamente o vínculo com as drogas psicodélicas que surgiam ao mesmo tempo. A combinação de álcool, maconha, LSD e outras pílulas mágicas que “alteravam a consciência” levaram a esses artistas a extrapolar uma nova visão estética pautada em cores berrantes e distorção da realidade, que era uma maneira de tentar expressar os efeitos psicológicos daquelas substâncias.

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O guitarrista Brian Jones, dos Rolling Stones, em toda a sua pompa psicodélica.

Com isso, o rock nascente mudou. As letras passaram a trazer mensagens cifradas, os efeitos sonoros levavam os artistas (e os ouvintes à reboque) para novos estados de consciência, as canções começaram a se tornar mais complexas, os arranjos adotaram situações não-ortodoxas, novos instrumentos (cítaras indianas, instrumentos medievais; outros de origem sifônica, como flautas, trompas, violinos e violoncelos; e novas invenções tecnológicas, como os primeiros teclados eletrônicos) se agregaram ao básico do rock (guitarra, baixo, bateria e às vezes pianos).

beatles-rubber-soulAssim, discos como Rubber Soul (1965) dos Beatles, Aftermath (1966) dos Rolling Stones, Pet Sounds (1966) dos Beach Boys e Fresh Cream (1966) do Cream (banda do guitarrista Eric Clapton) vinham carregados dessa nova textura.

O lançamento de Sgt. Peppers em 1967 não somente cristalizou essa tendência, como a radicalizou, mostrando o produto mais bem-acabado do psicodelismo e o seu sucesso esmagador – bateu o recorde de 11 semanas em primeiro lugar das paradas da revista Billboard, a mais importante dos EUA – expandiu o movimento para um público muito maior do que seus antecessores. Além disso, justamente a partir de Sgt. Peppers, os Beatles e o rock começaram a deixar de ser vistos como “coisa de criança” para serem percebidos como uma nova movimentação estética, uma contracultura.

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Entretanto, Peppers era parte de um contexto e não é coincidência que o ano de 1967 viu nascer alguns dos não apenas melhores produtos do psicodelismo, como também de toda a produção do rock clássico, como Are You Experienced? o disco de estreia do The Jimi Hendrix Experience; The Piper at the Gates of Down também a estreia do Pink Floyd; o álbum de estreia homônimo do The Doors; e outras produções de bandas como The Spencer Davis Group, Traffic, Jefferson Airplane, Cream, Rolling Stones, The Byrds etc.

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O guitarrista Jimi Hendrix foi um dos maiores marcos do psicodelismo.

Com suas características fortes, o movimento psicodélico já perdeu suas forças a partir de 1968, mas sua essência se manteve ao longo de todo o período restante do rock clássico, levando àquela sonoridade típica do Festival de Woodstock (de 1969) e ao surgimento de novos subgêneros do rock, como o blues rock, o hard rock e o rock progressivo, seu filho mais fiel. Mesmo assim, o experimentalismo típico do psicodelismo continuou a ser a espinha dorsal do rock clássico até mais ou menos 1977, quando a popularização do movimento punk – explicitamente contra esse pensamento psicodélico – resultou não somente no fim do rock clássico, como também na popularização de um outro espírito no rock, agora mais ligado à simplicidade e à integridade (moral, estética, política etc.).

O Impacto do Álbum

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Os Beatles gravando o álbum Sgt. Peppers.

Porque Peppers é tão cultuado? Por que apesar de todos os álbuns citados acima serem geniais, Peppers trazia um senso estético e uma abordagem inovadora muito forte, além de uma busca por novas texturas, efeitos e arranjos impressionante. A gravação tomou seis meses, quando o normal era durar apenas dois. Os Beatles mergulharam de cabeça na produção de novas canções e passavam semanas inteiras para gravar cada uma delas, criando uma série de efeitos especiais e arranjos não-ortodoxos.

As composições da dupla John Lennon-Paul McCartney também procuraram explorar novos caminhos e temas, saindo do esquema “canções de amor” para letras mais reflexivas, intimistas e até existencialistas.

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George Harrison e Paul McCartney discutem detalhes de um arranjo nas gravações do disco.

O álbum foi precedido por um compacto com as faixas Penny Lane/ Strawberry Fields forever, lançado em fevereiro de 1967, que causou grande impacto no mundo por causa da diferença em relação à sonoridade típica dos Beatles. Se por um lado foi um erro lançá-las em single – porque a banda era caxias demais e, portanto, não repetia canções lançadas em singles dentro de seus álbuns, de modo que estas ficaram de fora de Peppers – por outro lançou duas canções muito fortes para mostrar o que estavam fazendo e o que vinha a seguir.

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A belíssima capa do compacto Penny Lane/ Strawberry Fields Forever.

Particularmente Strawberry Fields forever, é uma das melhores faixas dos Beatles. Composta por John Lennon é, na verdade, uma canção folk de temática onírica e existencialista sobre algum momento de uma infância perdida, mas terminou se transformando, por conta de seu arranjo, em uma canção cheia de instrumentos estranhos e sonoridades fascinantes, emoldurada por uma das mais belas melodias já escritas. Ter sido lançada em single a excluiu automaticamente de Sgt. Peppers (os Beatles tinham por costume não repetir o lançamento de faixas), o que chega a ser uma pena, pois é uma grande canção.

Penny Lane também é uma canção fantástica, com sua narrativa surrealista e irônica sobre a vida nos subúrbios das grandes cidades.

A imprensa sabia que os Beatles estavam gravando um disco “especial” e a expectativa por seu lançamento era enorme. A própria banda distribuiu uma cópia demo entre seus amigos – que incluíam gente como Jimi Hendrix, Eric Clapton, Mick Jagger, Bob Dylan… – e o disco já era um fenômeno sem mesmo ter sido lançado. Quando saiu oficialmente, foi um impacto cultural jamais sentido no mercado fonográfico.

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A contracapa de Peppers traz as letras das canções pela primeira vez na história.

Além de seu conteúdo musical, Sgt. Peppers também é um marco plástico, por causa da embalagem do disco. A famosa capa ainda é uma imagem poderosa, com a banda ladeada de algumas das figuras mais influentes da modernidade (e alguns ídolos pop). Não bastasse isso, o álbum vinha com o conceito de encarte: a capa era dupla (se abria em duas) e mostrava uma bela imagem da banda (veja abaixo) e havia um painel de papelão com imagens para ser recortada.

Outra grande inovação do disco foi ser o primeiro a trazer as letras das canções impressas! Algo tão usual nos dias de hoje nasceu também em Peppers.

As Faixas

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Buscando novas sonoridades.

Apesar de algumas canções realmente clássicas, Sgt. Peppers é um disco que se destaca mais no conjunto da obra do que em canções separadas. Mas vamos analisar aqui o álbum faixa a faixa.

Sgt. Peppers Lonely Heart Club Band

(John Lennon, Paul McCartney)

  • Lennon: vocais de apoio, guitarra;
  • McCartney: vocais principais, baixo, guitarra solo;
  • Harrison: vocais de apoio, guitarra complementar;
  • Starr: bateria;
  • Músicos convidados:
  • George Martin: órgão
  • Quarteto de Cornetas Francesas

O álbum inicia-se com um som ambiente, um acordeon e uma plateia, parece um circo, então entra a forte faixa-título, um rockão cheio de guitarras distorcidas que apresenta uma nova “identidade ” para os Beatles, a banda do Sargento Pimenta. Os Beatles eram uma banda de rock desde o início, mas a sonoridade da guitarra – distorcida e alta – explodindo nos altos-falantes era uma novidade e estava sintonizada com as novidades da época, como o Cream de Eric Clapton, The Jimi Hendrix Experience e Jeff Beck à frente dos The Yardbirds.

A canção foi composta principalmente por McCartney que tinha essa ideia de dar aos Beatles uma “nova identidade” e com isso se sentirem livres para fazer o que quiserem no disco. Lennon contribuiu na parte do meio e na letra, inclusive, é ele quem faz a voz principal da terceira parte, antes da canção repetir a estrutura do primeiro estrofe. Peppers (a canção) foi gravada no dia 03 de março de 1967, em nove takes, embora apenas o primeiro e o último tenham sido completos. A versão master é o 9º take, que recebeu os overdubs, incluindo, as Cornetas, no dia 06 do mesmo mês.

O curioso de Peppers (a canção) é que combina de modo sensacional essa pegada mais hard rock com o clima circense que a mini-abertura e a capa do disco sugerem, com as Cornetas e o órgão “explodindo” também no meio da faixa. A letra passa a imagem do “conceito” que abraça o disco, com o narrador convidando a todos a chegar perto do palco para a apresentação da Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta, que teria 20 anos de estrada e era adorada por todos, e cujo o grande destaque era o vocalista, o “primeiro e único” Billy Shears.

 

With a Little Help from My Friends

(John Lennon, Paul McCartney)

  • Lennon: vocais de apoio, guitarra base e cowbell;
  • McCartney: vocais de apoio, piano, baixo;
  • Harrison: vocais de apoio, guitarra complementar;
  • Starr: vocais principais, bateria e pandeiro;

A primeira faixa não tem fim, pois se emenda praticamente sem cortes com esta canção cheia de referências às drogas e à união entre colegas, a camaradagem dos “iniciados”, cantada pelo baterista Ringo Starr. O efeito da emenda com a anterior cria a ideia de que é Ringo quem “interpreta” Billy Shears, o que casou como uma luva no pretenso conceito do álbum.

A faixa foi iniciada por McCartney, que criou a estrutura principal, enquanto Lennon criou a ponte na qual entram os backing vocals. Uma curiosidade é que essa faixa inicialmente não tinha título e era chamada de Bad Finger Boogie nas sessões de gravação, porque Lennon estava com um dos dedos machucados, o que o obrigou a usar uma montagem mais simples na estrutura de acordes para fazer a base.

With a little help… é uma canção simples, com poucos acordes, mas possui charme e belíssimos vocais de apoio de Lennon e McCartney, com a voz do primeiro em primeiro plano. Porém, a faixa ficaria muito mais famosa três anos mais tarde quando regravada por Joe Cocker e usada no Festival de Woodstock, virando símbolo do festival e da própria Woodstock Nation, com sua mensagem de união hippie.lucy_in_the_sky_with_diamonds_by_motorhead15-d7frlon-768x590

Lucy in the Sky with Diamonds

(John Lennon, Paul McCartney)

  • Lennon: vocais principal, piano, guitarra principal;
  • McCartney: vocais de apoio, órgão, baixo;
  • Harrison: vocais de apoio, violão, guitarra complementar, tamboura;
  • Starr: bateria e bongôs;

Em seguida, vem outro petardo clássico, com Lucy in the sky with diamonds, com sua letra onírica que fala de uma misteriosa garota que está no céu com diamantes, tem olhos de caleidoscópio e parece um sonho, que causou sensação por suas iniciais formarem LSD, embora o próprio John Lennon, autor da canção, tenha afirmado ser coincidência. Embora nunca tenha negado o uso de drogas e LSD e sua influência, Lennon sempre insistiu que esse  não foi o caso em relação a Lucy, que teria sido inspirada no desenho feito por seu filho Julian, de apenas três anos na época, retratando uma mulher voando em meio a um cenário colorido. Realmente, o menino usou uma Lucy de verdade, sua colega de classe Lucy O’Donnell, e o desenho existe. Então, deve ser verdade. Segundo o próprio Lennon (que fez faculdade de Belas Artes e era um habilidoso desenhista), ele ficou maravilhado com a arte do filho e perguntou o que era, com Julian respondendo: “É Lucy, no céu, com diamantes!”.

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O desenho original de Julian aos 3 anos de idade, em 1967.

Mas a canção pronta, com sua letra cheia de referências surreais com “árvores de tangerina, céus de geleia”, “flores de celefone em amarelo e verde, crescendo além de sua cabeça”, “a garota com olhos de caleidescópio”, “o táxi feito de jornal que aparece na praia”, “as gravatas espelhadas” e tudo mais, combinaram mesmo com o clima psicodélico da época e do disco.

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Essas famosas fotos dos Beatles gravando Peppers são justamente da gravação de Lucy in the Sky with Diamonds.

A gravação de Lucy trouxe uma peculiaridade às sessões dos Beatles. Segundo Mark Lewisohn, maior especialista nas gravações da banda, o quarteto de Liverpool raramente ensaiava para fazer suas gravações. As canções eram distribuídas dias antes em versões demo (tocadas no violão ou no piano) para os demais aprenderem suas partes, e já no estúdio de gravação faziam algumas passagens rápidas para ver se estava tudo “ok”, começando as sessões imediatamente para aproveitar a espontaneidade dos músicos. Mas Lucy tinha uma estrutura diferente, inclusive, com uma mudança grande de compasso: os versos em 3/4 e o refrão em 4/4; e o grupo decidiu gastar toda a noite de 28 de fevereiro para ensaiá-la. As gravações propriamente ditas começaram no dia seguinte, 01 de março, na qual fizeram a base (Lennon/ piano, McCartney/ órgão lowrey [com efeito para ter aquele som distorcido da introdução], Harrison/ violão, Starr/ bongós) e, no dia 02, registraram os overdubs, com Lennon acrescentando a guitarra principal; McCartney o baixo; Starr, a bateria completa; e Harrison outra guitarra complementar,e a tamboura, um instrumento de cordas indiano parecido com a cítara, que cria aquele belo ruído de fundo na segunda metade dos estrofes.

Lucy se tornou uma importante canção dos Beatles e muito apreciada pelo público ao longo dos anos. Também ganhou uma versão de Elton John em 1974, inclusive, com participação especial de Lennon, nos vocais e na guitarra havaiana.

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Lucy (ex-O’Donnell) Vooden, a verdadeira Lucy no céu com os diamantes.

Voltando ao tema da inspiração há uma história curiosa, mas triste: em 2009, Julian Lennon (que foi um cantor de sucesso nos anos 1980 e hoje é fotógrafo) descobriu que sua antiga amiga Lucy O’Donnell (agora) Vodden sofria de Lupus e estava morrendo em um hospital. O filho do beatle gravou um EP especial com uma gravação da canção e a lançou para arrecadar fundos para uma fundação que ajuda portadores da doença. Na ocasião, ficou público que ele havia perdido o desenho original, que só foi achado décadas depois e comprado pelo guitarrista do Pink Floyd, David Gilmour, em um leilão. Lucy Vodden morreu naquele mesmo ano.

Getting Better

(John Lennon, Paul McCartney)

  • Lennon: vocais de apoio, guitarra base;
  • McCartney: vocais principais, baixo, piano, guitarra complementar;
  • Harrison: vocais de apoio, violão, guitarra, tamboura;
  • Starr: bateria e bongôs.
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John Lennon tira sons psicodélicos de sua guitarra Epiphone.

Após Lucy…, o disco dá origem a um novo bloco de canções menos conhecidas, com Getting better à frente. A canção merecia ser mais famosa, pois é um rock excelente com uma letra impressionante: um rapaz faz uma autocrítica sobre ter sido violento no passado, mas agora quer ser um ser humano melhor. Tudo isso embalado por um arranjo de ritmo marcado e um par de guitarras (uma bem aguda outra bem grave) martelando os acordes. No fim, um piano se junta à dupla fazendo um trio e (por causa da modificação do som) demora algum tempo para perceber que é um piano e não outra guitarra.

A composição de Getting better é um bom exemplo de como a dupla Lennon e McCartney funcionava: o segundo iniciou a canção, com frases como “está melhorando o tempo todo”; mas Lennon criou a parte do meio com a menção de que “eu havia sido violento na época da escola” e dando outra dimensão à faixa.

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McCartney usa uma Fender Telecaster no lugar da tradicional Epiphone.

Apesar da canção parecer simples, na verdade exigiu um grande trabalho de mixagem, afinal, a banda trabalha apenas com uma mesa de 4 canais. A gravação começou no dia 09 de março, com a base (guitarras, bateria e o piano de McCartney), cada músico registrado em um canal; mas no dia seguinte, todos esses sons foram comprimidos em um único canal, para dar espaço para as regravações. No dia 10, McCartney gravou o baixo e Starr refez a bateria, com ambos ocupando o canal 2, mas em seguida “dobrados” para o canal 3 também. O último canal foi preenchido com uma tamboura de Harrison. Mas a banda precisa de espaço na fita para gravar os vocais, então, os canais 2 e 3 (baixo e bateria dobrados) foram reduzidos para apenas o canal 2; e a tamboura foi mixada junto com o canal 1 (que já tinha a base do primeiro dia).

No dia 21 de março, o grupo usou os dois canais livres para gravar o vocal principal de McCartney e os backings de Lennon e Harrison, mas após a maior parte do trabalho ter sido completada ocorreu um pequeno (e famoso) incidente: Lennon estava com dor de cabeça e tomou um comprimido, mas não percebeu que era LSD! O músico era um usuário voraz da droga, mas nunca a tomava no estúdio, pois era impossível trabalhar chapado. Quando começou a passar mal, o produtor George Martin (que não estava entendendo nada), se dispôs a levar Lennon para “tomar um ar fresco”, enquanto McCartney e Harrison permaneceram trabalhando nos backings vocals ao lado do engenheiro de som Ken Townshend. Após alguns instantes, Martin voltou e a os outros dois beatles perguntaram onde Lennon estava, e Martin disse que o tinha deixado no telhado, pegando uma brisa. Horrorizados, McCartney e Harrison largaram os microfones e saíram correndo, com medo de que o amigo chapado simplesmente decidisse voar do telhado. Lennon estava apreciando as estrelas e dizendo: “Elas não estão fantááááááásticas hoje?”. Nesse mesmo dia, os Beatles conheceram o Pink Floyd – ainda liderados por Syd Barrett, que estava gravando seu primeiro álbum, The Piper at the Gates of Dawn também em Abbey Road. Anos mais tarde, o baixista Roger Waters teria dito em uma entrevista que Lennon não havia sido muito simpático naquele dia, mas agora sabemos por quê. Ah, mas o trabalho em Getting better não tinha terminado, não: a banda ainda voltou ao estúdio no dia 23 e mixou todos os vocais no canal 3, deixando o 4 para mais uma sessão de regravações de guitarra (Lennon), bongôs (Starr), palmas (Harrison) e outro piano (McCartney).

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O Pink Floyd em seu início, com Barrett, Mason, Wright e Waters também assistiu as sessões de Peppers.

Fixing a Hole

(John Lennon, Paul McCartney)

  • Lennon: vocais de apoio, baixo;
  • McCartney: vocais principais, cravo (harpchord), baixo complementar, guitarra solo;
  • Harrison: vocais de apoio, guitarra;
  • Starr: bateria e marracas;
  • Músico convidado: George Martin, cravo (harpchord).

Esta é uma faixa algo banal sobre consertar um buraco no telhado em meio à chuva. A letra, contudo, foi (erroneamente) interpretada como uma referência às drogas ejetáveis e causou algum frisson. O arranjo é comandado por um cravo (tocado por McCartney), um baixo incrível (Lennon) e um solo de guitarra carregado de efeitos de saturação bem interessante (de novo McCartney) que parece saltar para fora da faixa.

A gravação, como de costume, não foi simples: a banda começou usando outro estúdio, o Regent Sound Studio, porque Abbey Road não estava disponível na noite de 09 de fevereiro, quando gravaram a base da faixa em apenas dois takes. Eles voltaram à canção apenas no dia 21 daquele mês, já em Abbey Road, mas além de uma nova guitarra solo (tocada por McCartney), a banda terminou regravando os mesmos instrumentos da base, mas com o produtor George Martin fazendo o cravo e McCartney no baixo. Na mixagem, as duas bases (dos dias 09 e 21) foram combinadas, cada uma em um canal e tocando paralelamente, de modo que, se ouvinte prestar atenção, notará que há dois cravos e dois baixos.

Imagem do encarte do disco.
Imagem do encarte do disco.

 

 

 

 

 

She’s Leaving Home

(John Lennon, Paul McCartney)

  • Lennon: vocais de apoio;
  • McCartney: vocais principais;
  • Músicos convidados: quatro violinos, duas violas, dois violoncelos, baixo e harpa.

A canção seguinte é a bela e desconhecida She’s leaving home, o hino de todos aqueles jovens que saíram de suas casas para viver uma vida mais livre (e hippie) no fim dos anos 1960. A letra fantástica narra a história de uma garota que deixa uma carta para os pais e sai de casa de fininho de madrugada para viver longe com um cara que trabalha na loja de carros. (Notaram o aspecto operário do tema? Típico dos Beatles…). O narrador toma o ponto de vista da garota (entoado na voz principal por McCartney), mas a letra também dá espaço para a opinião dos pais (no contracanto do refrão, cantado por Lennon), que não conseguem entender a miopia de seus valores morais. Um efeito incrível! O instrumental – de maneira inusual – não traz a banda em seus instrumentos, mas apenas uma orquestra em ritmo de valsa.

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Being for the Benefit of Mr. Kite

(John Lennon, Paul McCartney)

  • Lennon: vocais principais, órgãos;
  • McCartney: baixo, guitarra;
  • Harrison: pandeiro, harmônica;
  • Starr: bateria, pandeiro, harmônica;
  • Músicos convidados: George Martin (harmonium, órgão Lowrey, mellotron, glockenspiel), Neil Aspinal e Mal Evans (harmônicas).

Após essa beleza lírica, vem a estranha Being for the Benefit of Mr. Kite, que narra de modo jocoso um típico espetáculo circense do início do século XX. O ritmo é de marcha e o arranjo replica a fanfarra que acompanha esse tipo de evento, com sopros e muitos pratos. Para completar o solo é inteiramente construído a partir da colagem aleatória de trechos de frases de teclados, criando um efeito perturbador e caleidoscópico. Um ponto psicodélico a mais. E o tema do circo dialoga diretamente com a faixa título, também. A canção foi composta por John Lennon, que se inspirou num velho cartaz de circo do século XIX, que comprou em uma loja de antiguidades enquanto os Beatles gravavam o clipe de Strawberry fields forever poucos dias antes.

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Lennon e o cartaz que inspirou a canção.

A faixa foi gravada em sete takes no dia 17 de fevereiro, com a base, e no dia 20, Lennon e George Martin trabalharam em cima dos efeitos de órgão do solo (várias seções tocadas separadamente por Martin). Depois, nos dias 28, 29 e 31 de março, a banda retomou os trabalhos na faixa, na qual Lennon gravou o vocal principal usando um ADT (que cria um efeito artificial de eco) e a banda trabalhou em sons para a introdução, solo e finalização. Harrison, Starr e os assistentes Mal Evans (roadie) e Neil Aspinal (ex-gerente de turnês e futuro Presidente da Apple Corps.) tocaram, cada um, uma harmônica (gaita de maio dimensão) de tons bem graves, enquanto o produtor Martin registrava tudo com a fita rodando na metade do tempo. Ainda com o tempo mais lento da fita, ele próprio e Lennon adicionaram mais órgãos e McCartney adicionou uma guitarra dedilhada. Quando combinaram todos esses sons e o trouxeram de volta para o tempo normal, criou-se uma atmosfera forte e aquela cara de órgão de circo que queriam.

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George Harrison toca sua cítara.

Within’ You, Without You

(George Harrison)

  • Harrison: vocais, cítara, tamboura;
  • Músicos convidados: instrumentos indianos (dilruba, swaramandala, tabla) e ocidentais (oito violinos e três violoncelos).

Como que para dar um alívio à cabeça do ouvinte, vem em seguida a suave (mas não menos estranha) Within’ you, without you de George Harrison, gravada quase que somente com instrumentos indianos, tendo a cítara como o instrumento principal e estrutura da música hindu, tocada praticamente em um único acorde. Se você tem a mente aberta, o efeito é muito bonito. Outro grande destaque é a letra sensacional, de teor espiritual, uma as melhores criadas pelo músico.

When I’m Sixty-Four

(John Lennon, Paul McCartney)

  • Lennon: vocais de apoio, guitarra;
  • McCartney: vocais principais, piano, baixo;
  • Harrison: vocais de apoio;
  • Starr: bateria e sinos;
  • Músicos convidados: dois clarinetes, dois clarinetes-baixos.

Depois, vem o ponto mais baixo do álbum: a bobinha When I’m Sixty-Four, que narra um casal apaixonado imaginando como será sua vida na velhice. O arranjo é novamente construído no estilo fanfarra, mais para o vaudeville, levando em um piano marcado e num baixo melódico.

As gravações foram rápidas, começando durante um intervalo nas sessões de Strawberry fields forever, em 08 de dezembro, em poucos takes. A faixa foi retomada no dia 20, quando gravaram os vocais e no dia seguinte, quando foram adicionados os músicos eruditos. Na mixagem, a gravação foi ligeiramente acelerada, para lhe dar mais “cara” de jazz, o que a fez crescer em um semitom.

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John Lennon grava uma peça de guitarra.

Lovely Rita

(John Lennon, Paul McCartney)

  • Lennon: vocais de apoio, violão, combo de papel;
  • McCartney: vocais principais, piano, baixo e combo de papel;
  • Harrison: vocais de apoio, violão, combo de papel;
  • Starr: bateria e combo de papel;
  • Músicos convidados: dois clarinetes, dois clarinetes-baixos.

A canção que vem à seguir é muito melhor, com seu ritmo animado e a história de um rapaz apaixonado pela moça que é guarda de trânsito. Os vocais são alterados (especialmente os backings) e carregados de efeitos, enquanto um solo de piano em estilo honky tonky (ou seja, dos velhos blues) é tocado pelo produtor George Martin. Ao longo da canção um curioso som de serra é ouvido em vários momentos e é, na verdade, produto de um pente de metal cortando papel higiênico captado por um microfone e, depois, acelerado e amplificado. O típico efeito sonoro que só o experimentalismo dos anos 1960 poderia produzir!

As bases foram feitas nos dias 23 e 24 de fevereiro e completadas nos dias 07 e 21 de março.

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A banda discute arranjos.

Good Morning, Good Morning

(John Lennon, Paul McCartney)

  • Lennon: vocais principais, guitarra;
  • McCartney: vocais de apoio, baixo, bateria, guitarra solo;
  • Harrison: vocais de apoio, guitarra;
  • Starr: bateria e pandeiro;
  • Músicos convidados: três saxofones, dois trombones e um corneta francesa.

Se a anterior ainda soa (disfarçadamente) como uma faixa normal, Good morning, good morning vem para tirar qualquer senso de banalidade. Originalmente um rockão com letra sobre a saudade da inocência juvenil, a canção tenta simular o efeito de uma criança assistindo TV, com toneladas de sons de animais correndo para todos os lados. Como muitas das canções anteriores, há um clima de fanfarra conduzido por um naipe de metais, mas um solo de guitarra furioso no meio de tudo. No fim, os sons dos animais vão crescendo cada vez mais até virar uma bagunça completa no qual não se entende mais nada.

Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (Reprise)

(John Lennon, Paul McCartney)

  • Lennon: vocais de apoio, guitarra;
  • McCartney: vocais principais, baixo, órgão;
  • Harrison: vocais de apoio, guitarra solo;
  • Starr: vocais de apoio, bateria, pandeiro e marracas.

A banda aproveita o barulho e acrescenta o som de uma plateia, e uma contagem (1-2-3-4) traz a Sgt. Peppers lonely hearts club band (reprise), uma releitura da faixa-título ainda mais rápida e mais rock. Diferente do restante do disco, contudo, esta canção (à exceção do som da plateia) é uma faixa direta sem efeitos e apenas a formação básica da banda: Lennon e Harrison nas guitarras, McCartney no baixo e Starr na bateria. A faixa serve como entrada do bis, anunciando o número final.

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Lennon ao piano.

A Day in the Life

(John Lennon, Paul McCartney)

  • Lennon: vocais principais, violão, piano;
  • McCartney: vocais de apoio, piano, baixo;
  • Harrison: marracas;
  • Starr: bateria e bongôs;
  • Músicos convidados: orquestra completa de 40 peças.

O disco termina com a poderosa A day in the life outra das melhores canções já gravadas pelos Beatles, marcada pela voz doce de John Lennon, uma melodia triste belíssima, uma letra surrealista fantástica e sua estrutura totalmente não usual, terminando com um orgasmo sonoro de uma orquestra de 40 peças tocando de maneira atonal num crescendo até parar e ser substituída por uma forte nota de piano para encerrar, que simplesmente fica ressoando no ambiente por cerca de dois minutos!

Talvez tantas inovações para época fiquem descontextualizadas para quem ouve o disco nos dias de hoje, mas ainda assim, Sgt. Peppers é um dos grandes clássicos do rock em todos os tempos.

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Os Beatles surgiram em 1962, advindos da cidade britânica de Liverpool, e alçaram sucesso imediato na Inglaterra, que rapidamente se espalhou para a Europa, para os Estados Unidos e daí para o resto do mundo. Formado por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, foram a banda pioneira do movimento da Invasão Britânica que fundou o rock clássico e criou as bases modernas do gênero. Lançaram 13 álbuns e são recordistas até hoje em canções de sucesso. Encerraram as atividades em 1970, quando cada um dos membros saiu em carreira individual, todos com sucesso em níveis variados.