Sean Connery como James Bond.

James Bond, o agente secreto 007, é um dos grandes nomes do cinema, com a franquia mais longeva e de maior sucesso da história. A série de filmes fez 50 anos em 2012, e segue em frente, com o novo 007 – Sem Tempo para Morrer, o 26º longa da franquia, previsto para estrear em abril de 2021, se a pandemia de Covid-19 permitir. Contudo, o espião a serviço secreto de sua Majestade e com permissão para matar surgiu na literatura, fruto da mente inventiva e inquieta de Ian Fleming, ex-militar e jornalista que decidiu rechear sua idade matura com o sonho de lançar uma série de livros de sucesso sobre espionagem em plena Guerra Fria.

O post de maior sucesso do HQRock é sobre todos os filmes de 007 (você pode conferir aqui), portanto, decidimos dar uma olhada nos livros de Ian Fleming, e apresentarmos o James Bond original: mais humano, mais falho, menos super-heroico.

Ian Fleming era um homem da velha guarda… frequentava a alta sociedade londrina, era veterano de guerra e um jornalista bem sucedido, que decidiu dar vazão à sua imaginação e meio que turbinou a sua própria autobiografia para criar o espião mais famoso e amado da literatura e do cinema. Fleming tinha mesmo sido um espião – embora um homem “de escritório”, da inteligência, e não de campo; mas teve sua cota de aventuras e era ele próprio um amante das cartas, das mulheres e da bebida.

A prática jornalística o fez viajar muito pelo mundo e Fleming simplesmente usou as cidades e locações que visitou para compor o mundo exótico de lugares aos quais 007 precisa cumprir suas missões e escapar da morte.

E deu certo!

Do primeiro livro, Cassino Royale, de 1953, e seu sucesso imediato, surgiu uma série de livros que fez sucesso na Grã-Bretanha, depois na Europa, e por fim, nos Estados Unidos, até terminar por ser adaptada ao cinema pela primeira vez em 1962. Fleming morreu cedo, em 1964, mas viveu o bastante para criar um dos personagens mais emblemáticos do século XX e ainda vê-lo transposto às telas.

Ian Fleming em sua máquina de escrever.

Ian Fleming, o criador

Nascido Ian Lancaster Fleming, em 28 de maio de 1908, no rico distrito de Mayfair, em Londres, na Inglaterra, filho do Major Valentine Fleming e de Evelyn (St. Croix Rose) Fleming, num ambiente aristocrático. Seu pai tinha ascendência escocesa, e seu avô foi o banqueiro Robert Fleming. O pai Valentine morreu em combate na I Guerra Mundial e o comando da casa recaiu à mãe, uma mulher controladora.

Ian era o segundo filho de quatro irmãos: o mais velho, Peter (nascido em 1907) se tornaria um escritor de viagens (publicou o livro Brazilian Adventure, em 1933) e serviu na infantaria na II Guerra Mundial; e havia os dois mais novos, Michael (que morreria em combate na Guerra, em 1940) e Richard; mas sua mãe viúva desenvolveu um longo caso com o músico Augustus John, que renderia a filha Amaryllis Fleming, nascida em 1925 e que se tornaria uma violoncelista.

Fleming estudou no tradicional colégio privado de Eton College, ao qual ingressou em 1921, e se destacou nos esportes, com o prêmio máximo nos anos de 1925 e 26, e editou o jornal da escola; porém, o diretor de sua “casa” (as subdivisões das escolas privadas britânicas, como nos livros de Harry Potter) recomendou à mãe de Fleming que ele fosse tirado de Eton, em represália ao seu comportamento: o jovem Ian era rebelde, possuía um carro e namorava as mulheres. Então, foi para uma escola preparatória para ingressar na Royal Military College de Sandhurst, mas não ficou por lá por muito tempo: seu estilo de vida lhe rendeu uma gonorreia. Fleming terminou indo para a faculdade de Letras nas Universidades de Munique e Genebra, buscando uma carreira diplomática que não chegou a alcançar. Em Genebra, ele conheceu e se apaixonou por Monique Panchaud de Bottens; e os dois chegaram a ficar noivos, mas com a oposição ferrenha da mãe, terminou rompendo o romance.

Fleming não conseguiu ingressar na carreira diplomática, mas galgou sucesso no jornalismo e, em 1933, já liderava a sucursal britânica da Reuters em Moscou, na então União Soviética. Mas tal carreira não agradava à sua mãe, que intercedeu para que ele ingressasse no ramo dos negócios, tal qual ao avô, e Ian cedeu, indo trabalhar na empresa Coll & Co. em 1935, na qual não foi bem sucedido e estava infeliz.

Mas pelo menos, viajando pela empresa, Fleming conheceu Muriel Wright, em Kitzbuhel, na Áustria, que seria um dos grandes amores de sua vida. O romance dos dois duraria até 1944, quando ela morreu em um acidente de avião. O sofrimento pela perda o inspiraria nas cenas da viuvez de James Bond em seus últimos livros.

A depressão pelo emprego também o incentivou a escrever e em 1937 produziu seu primeiro conto, A Poor Man’s Escape, que não chegou a publicar. Outra viagem importante se deu em 1938, quando seu amigo Ivar Bryce se mudou para os Estados Unidos e Fleming foi até lá, chegando em Nova York pela primeira vez.

Ian Flaming: James Bond da vida real?

Para sua sorte, em maio de 1939, Fleming foi convocado pela Inteligência Naval da Marinha, da orgulhosa Marinha Britânica, e passou a servir de verdade no Serviço de Inteligência da Grã-Bretanha, como assistente do Almirante John Godfrey (que serviria de inspiração para M, o líder do MI-6 nos livros de 007), e se deu incrivelmente bem na função, tendo um talento nato para administração e organização de informações. Como parte do corpo de voluntários, Fleming inicialmente foi promovido a tenente e, depois, a tenente-comandante. Quando a II Guerra Mundial fosse declarada, em setembro de 1939, Fleming faria parte do esforço de guerra.

Ao mesmo tempo, também em 1939, Fleming conheceu e começou a ter um caso com Ann Charteris, que tinha se casado com o 3º Barão de O’Neill, no que seria um longevo romance proibido.

Entre seus trabalhos de destaque no início da II Guerra Mundial, em setembro de 1939, esteve na convocação do professor de Geografia de Oxford, Kenneth Manson, para produzir detalhados relatórios dos países envolvidos na guerra. Depois, Fleming trabalhou próximo com o Coronel “Wild Bill” Donovan, dos EUA, responsável por manter a comunicação do alto comando entre Londres e Washington; e em 1941, Fleming foi aos Estados Unidos para auxiliar na estruturação do Escritório de Coordenação de Informação, organização que daria origem à CIA, o serviço secreto dos EUA.

Outra missão junto aos americanos lhe levou à Jamaica, em 1942, e Fleming se encantou pela ilha, pensando em morar ali depois que a guerra terminasse.

Entre 1941 e 1942, Fleming foi encarregado da Operação Goldeneye, que visava criar uma rede de contraespionagem para impedir uma tentativa os alemães de invadirem a Espanha, constituindo uma base de agentes em Gibraltar, no que foram bastante bem sucedidos.

O sucesso da missão levou à criação da 30º Unidade de Assalto (30AU, na sigla original), que se encarregou de missões de inteligência na Espanha e no Mediterrâneo, com o objetivo de capturar documentos e informações importantes no limiar das linhas inimigas. Embora não fosse um agente de campo como sua maior criação, mas um oficial de escritório, Fleming ficou encarregado de comandar a 30AU, formada inicialmente por 30 agentes de campo – agentes secretos de verdade. Ao longo dos dois anos seguintes, a eficácia da 30 AU levou ao seu número de agentes para 150 homens.

Como líder da 30AU, Fleming participou do planejamento da Operação Overlord que realizou a invasão da Normandia em junho de 1944, mas logo depois, ele deixou o cargo para se ocupar de outro, relacionado às ações no Pacífico: foi promovido na Inteligência Naval, assessorando o Diretor de Inteligência e ajudando na criação da T-Force (Target Force), uma força operacional especial para missões no Pacífico contra os Japoneses, especializados na proteção de pessoas e documentos das cidades ocupadas pelos aliados. Para isso, Fleming foi enviado ao oriente em dezembro de 1944. A T-Force foi bastante bem sucedida na invasão do porto de Kiel, na Alemanha, quando descobriram uma série de laboratórios especiais, de pesquisa atômica e da produção do temível míssil V-2 dos nazistas, bem como dos U-Boats (submarinos), numa ação que lhe serviria de inspiração para a trama de Thunderball.

Fleming: sua própria biografia rendeu elementos para compor James Bond como personagem.

Fleming foi desmobilizado da guerra em maio de 1945, e construiu uma casa na Jamaica, que batizou de GoldenEye, na porção norte da ilha, na localidade de Oracabessa em Saint Mary Parish. Recebendo várias honras militares e medalhas por seus serviços na guerra, continuou como membro da Inteligência Naval até 1952, quando ingressou na Reserva. Mas já em 1945, livre de suas atividades de guerra, Fleming voltou ao jornalismo, trabalhando no grupo Kemsley Newspapers, ao qual pertencia o The Sunday Times, como coordenador dos correspondentes estrangeiros, o que lhe permitiu viajar muito. Ele gostava de dizer que nunca escreveu sobre uma locação em seus livros na qual não tenha estado. E 007 viaja muito!

Fleming foi muito bem sucedido na sua função jornalística e permaneceu no cargo até 1958, quando se demitiu para se dedicar apenas à vida literária. A partir de 1952, o escritor também passou a acumular a função de diretor da Queen Anne Press, a editora do grupo, dedicada à publicação de livros de arte e de autores clássicos e contemporâneos. A experiência seria importante para Fleming dominar a arte do design de livros e capas, e ser o mentor das capas originais de todos os seus livros.

Ann Charteris.

O marido de Ann Charteris (agora O’Neill) morreu na guerra e ela esperava que Fleming se casasse com ela, mas o escritor preferiu permanecer solteiro; então, Ann se casou com o 2º Visconde de Rothermere, em junho de 1945, adotando o sobrenome Rothermere. Mas o caso dos dois continuou, inclusive, com Ann viajando à Jamaica algumas vezes, sob a desculpa de visitar o escritor Noel Coward, que era amigo e vizinho de Fleming na ilha. Em consequência, ela chegou a engravidar de Fleming em 1948, mas o bebê nasceu natimorto.

No fim das contas, Rothermere descobriu o caso da esposa e se divorciou dela em 1951, ocasião em que Fleming se sentiu obrigado a casar com ela até porque ela estava grávida de novo. Fleming e Ann se casaram na Jamaica, em 24 de março de 1952, na mesma época em que o escritor produzia Cassino Royale, a primeira aventura de James Bond. O filho Caspar nasceu em agosto.

Mas Ian e Ann se relacionavam há 13 anos quando casaram e o casamento não foi exatamente feliz. Ambos continuaram a ter casos extraconjugais. Ela namorou Hugh Gaitskell, um economista, também veterano de guerra, que foi eleito para o Parlamento britânico em 1945 e que se tornaria o líder do Partido Trabalhista entre 1955 e 1963, quando morreu. E Fleming teve um longo caso com Blanche Blackwell, sua vizinha na Jamaica, e mãe de Chris Blackwell, o fundador da gravadora Island Records, que lançou Bob Marley (da Jamaica) ao mundo e gravou nomes como U2, Elton John, The Cranberries, Keane, The Killers.

Fleming tinha um período de quase três meses de férias no inverno do Hemisfério Norte, quando ia para a Jamaica. Foi lá que decidiu começar a escrever a série de novelas de James Bond, nome que tirou de um autor de um livro sobre pássaros que tinha em casa: Birds of the West Indies (Pássaros das Índias Ocidentais), um guia sobre as aves do caribe. 

A escolha do nome se deu porque Fleming queria um que fosse simples, mundano, comum, ao contrário da tradição britânica de nomes espalhafatosos para os grandes personagens.

O nome [James Bond] ia de encontro à minha decisão de tornar Bond verossímilSe repararem bem, é um nome insípido. Poderia ter-lhe dado, um nome pomposo, como Peregrine Carruthers, mas então estaria traindo meu propósito de torná-lo digno de crédito. Quis apenas criar uma personalidade interessante, a quem aconteciam coisas extraordinárias, mas nunca pretendi transformá-lo em um exemplo ou em um monstro.

Baseado em suas próprias aventuras, dos relatos que leu ou viu acontecer, temperadas com sua movimentada vida amorosa, e adicionadas dos muitos lugares em que visitou, Fleming usou sua incrível capacidade de descrição e sua ótima memória, para estruturar o mundo em que James Bond vivia.

Golden Eye, a casa na Jamaica onde Fleming escrevia seus livros.

Em GoldenEye, na Jamaica, Fleming criou uma curiosa rotina que afirmou manter para todos os seus livros:

Levanto-me com os pássaros, o que significa às 07:30, e vamos, eu e minha mulher, dar um mergulho no mar, antes do café. Não usamos trajes de banho, já que estamos completamente isolados. Depois, tomamos um café da manhã reforçado, geralmente com ovos mexidos, e em seguida sento-me ao sol por alguns instantes. Das 09h30 às 12h horas escrevo, sem que nada interfira meu trabalho. Sento-me em minha sala e datilografo mil e quinhentas palavras seguidas, sem ler o que escrevi na véspera. Sou da opinião de que não se deve interromper a redação de uma narrativa rápida com muita introspecção e autocrítica. O essencial é escrever continuamente para não perder o ritmo da narrativa, deixando as correções para quando o livro estiver terminado. Ao concluir meu trabalho matinal, saio com meus óculos de mergulho e arpão pelos recifes e volto para um bom almoço; seguido de um cochilo de uma ou duas horas. A seguir, outro mergulho e uma hora final de trabalho, das 16 às 17 horas, para completar duas mil palavras por dia. Após o jantar, jogo um pouco de baralho com minha mulher e vou cedo para a cama, adormecendo quase instantaneamente. A rotina prossegue por umas seis semanas e só quando o manuscrito está completo começo a fazer a revisão, reescrevendo certos trechos. Já nessa fase preocupo-me com palavras e frases, verificando a ortografia e os fatos.

Jornalista famoso e influente, não foi difícil para Fleming conseguir uma editora, na figura da Jonathan Cape, uma das mais prestigiadas do Reino Unido. Porém, o caminho até lá foi um pouco árduo para o próprio escritor: após terminar o manuscrito de Cassino Royale, no início do ano de 1952, Fleming relutou em apresentá-lo a alguma editora, mas alguns amigos leram o copião e o incentivaram a tentar. Alguém inclusive lhe deu um conselho valioso: o de que escrevesse logo um segundo romance antes que o primeiro fosse publicado, para o caso de que se o primeiro fosse um fracasso, ele não desistisse da prática.

E foi o que Fleming fez, enquanto preparava a publicação de Cassino Royale com a Jonathan Cape para o primeiro trimestre de 1953, Fleming já estruturou sua segunda novela, que escreveu, como se tornaria habitual, nas suas férias de janeiro a março na Jamaica, naquele mesmo ano, ficando com Live and Let Die pronto antes que o primeiro chegasse às livrarias.

Mas nem todos os amigos foram positivos com o manuscrito do primeiro livro: ao mostrar a uma ex-namorada, Clare Blanchard, ela teria afirmado que ele não publicasse o livro, ou então, se o fizesse, pelo menos usasse um pseudônimo.

O conflito interno de Fleming era mesmo intenso, pois tinha insegurança de seu passo rumo ao mundo artístico. Por isso, considerou usar um pseudônimo para não vincular seu nome de jornalista sério àquele “folhetim adolescente”, como ele próprio descrevia.

Sentia-me envergonhado. Tinha certeza de que, mesmo utilizando um pseudônimo qualquer, a horrível verdade de que eu escrevera aquele enredo adolescente se tornaria pública… apareceriam um ou dois tópicos nas colunas de fofocas, e depois: desonra, desgraça, expulsão do país!

A preocupação de Fleming nem era descabida: vivendo no ambiente rígido, formal e conservador da aristocracia britânica, sua aventura artística não foi bem recebida e gerava algum desconforto. Mesmo sua esposa não aprovava aquela “distração” nas artes, o que deve ter contribuído para que o casamento não fosse feliz em seus últimos anos.

Foi um amigo, Tom Plomer, quem leu o manuscrito e o levou à editora Jonathan Cape, uma das mais prestigiadas do Reino Unido. Os editores nem ficaram muito empolgados com a obra, mas o irmão dele, Peter Fleming, publicava seus livros pela editora e deu uma forcinha para que a trama de espionagem fosse publicada. Michael Howard era o editor de Fleming na Jonathan Cape.

No momento em que começou a editoração da obra pela Jonathan Cape, Fleming fundou a editora Glidrose Productions para administrar sua carreira literária, seus royalties e também ser uma forma de abater o imposto de renda. Tom Plomer seria o editor.

Ian Fleming reading a copy of Casino Royale

Cassino Royale, o primeiro livro, saiu em 1953 e foi um sucesso imediato de público, mesmo que parte da crítica esnobasse sua qualidade. Mas a crítica em geral gostava das obras de Fleming, elogiando seu mundo fantástico, seu herói improvável, suas aventuras inverossímeis, os vilões megalomaníacos, e a narrativa fluída e ricamente descritiva de seu autor. Tanto que o escritor Raymond Chandler, um dos grandes nomes da literatura de crime e suspense, teceu rasgados elogios a Fleming:

A narrativa de Fleming é vigorosa, rica, direta e viva. É uma forma de escrever que adapta-se maravilhosamente às histórias em quadrinhos. Muitas vezes, desejei possuir os méritos de Ian (…). Fleming tinha a capacidade de ir a uma cidade em busca de ambientes para um livro e, em três dias, dominar todos os pormenores da cidade. Gravava tudo na memória e, ao escrever sobre o assunto, não cometia um erro sequer. (…) Ian possuía um cérebro jornalístico. Também fui jornalista, mas despediram-me. Raciocinava muito devagar. Fleming aprendia tudo com rapidez e precisão.

Fleming continuou escrevendo novos livros anualmente, que foram se tornando cada vez mais fantasiosos, embora seja impressionante como Fleming procurava embasar na realidade seus enredos. Além disso, tinha um talento incomum para organizar dados, que usava para rechear os livros de informações críveis.

O escritor continuou ligado ao jornal até 1959, quando decidiu se dedicar integralmente à sua obra literária, embora tenha permanecido com uma coluna semanal no The Sunday Times por mais dois anos.

E Fleming nem apenas escreveu os livros de 007, após uma intensa pesquisa sobre o contrabando de diamantes para compor a trama de Diamonds are Forever (de 1956), ele decidiu lançar uma obra jornalística sobre o tema, saindo The Diamonds Smugglers, em 1957.

O sucesso de seus livros rendeu outros convites: em 1956, ele começou a desenvolver uma série de TV para a BBC que seria chamada Comando Jamaica, sobre um agente secreto estacionado na ilha. O projeto não foi adiante, mas Fleming adaptou as tramas ao livro Dr. No, que lançou em 1958.

Em 1958, a emissora americana CBS procurou Fleming, interessada na criação de uma série de TV baseada em 007, ainda impressionados com o bom resultado da adaptação de Cassino Royale. Em meio à negociação, o escritor criou o plot para os 4 primeiros episódios da série, mas no fim, a série terminou não sendo feita. Fleming adaptaria os episódios como contos do livro For You Eyes Only, de 1960.

Kevin McClory e Ian Fleming.

Os problemas começaram em 1958, quando Fleming se envolveu na produção do que deveria ser o primeiro filme de James Bond, junto ao diretor Kevin McClory e o produtor/roteirista  Jack Whittingham. A negociação do filme se arrastou por dois anos e Fleming foi convencido por Whittingham a transformar o roteiro que o trio produzira em um livro de 007. O livro Thunderball (A Chantagem Atômica, no Brasil) foi escrito. É nesse livro em que aparece a SPECTRE, organização terrorista que seria a principal oponente de Bond nos últimos livros, em substituição à SMERSH, que era a contrainteligência da União Soviética, nos livros iniciais. Mas McClory soube e entrou num processo judicial contra o autor por plágio, pois era baseado no roteiro. Fumante inveterado e bom de copo, o estresse do processo judicial minou a saúde de Fleming completamente.

O juiz permitiu que Thunderball fosse publicado antes do julgamento, em 1961, mas o processo continuou. Duas semanas antes da segunda audiência, em abril daquele ano, Fleming sofreu um ataque cardíaco durante uma reunião no The Sunday Times, e ficou à beira da morte. Enquanto convalescia no hospital, por sugestão de um amigo, escreveu no papel a história que contava para ninar seu filho Caspian, como um livro Chity Chity Bang Bang, seu único livro infantil.

Broccoli, Connery, Fleming e Saltzman discutem sobre um monte de papeis, mapas e arquivos.

Mas o ano de 1961 ainda renderia dois grandes feitos positivos para Fleming. Primeiro, em março, uma edição da revista Life com um perfil do presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, listou From Russia With Love (o terceiro livro de 007) como seu favorito, o que levou a uma explosão de vendas deste e de todos os outros livros de James Bond. Isso deve ter chamado à atenção da dupla de produtores Harry Saltzman e Albert “Cubby” Broccoli, que compraram os direitos cinematográficos de 007 em junho e formaram a empresa EON Productions para realizar um filme do espião.

Salzman, Broccoli e Fleming decidiram que filmariam Dr. No (o sexto livro de 007, publicado em 1958), tanto porque era muito popular quanto porque sua trama se passava inteiramente na Jamaica, o que barateava os custos. A dupla conseguiu negociar a distribuição com dois grandes estúdios – MGM nos EUA e United Artists no Reino Unido – e empreenderam uma vasta seleção de atores para escolher o protagonista, que caiu no escocês Sean Connery.

Criador e criatura: Sean Connery e Ian Fleming nos sets de Dr. No, em 1962.

007 Contra o Satânico Dr. No foi um sucesso imediato na Inglaterra, mas demorou um pouco para conquistar os EUA. Foi o terceiro filme, 007 Contra Goldfinger, de 1964, lançado logo após a morte de Fleming, que conquistou as plateias norteamericanas e, automaticamente, transformou 007 em uma mania mundial. As histórias de espionagem não eram novidade, mas os filmes de 007 as levaram a outro patamar.

A caracterização de Bond no cinema por Sean Connery e os filmes chegaram a influenciar os últimos livros de Fleming, que adotou o humor irônico do ator para Bond em You Only Lives Twice, e também incorporou a origem escocesa de Connery para 007, incrementada pela própria biografia de Fleming (cujo o avô era escocês. A mãe de Fleming era suíça e assim também a Bond).

O processo contra Kevin McClory se encerrou em 1963: Fleming conseguiu um acordo fora dos tribunais após duas sessões, que consistia em McClory ter os direitos de um filme sobre a obra; enquanto o escritor mantinha os direitos do livro. Além disso, McClory ganhou coautoria no romance que ganhou a inscrição “baseado no roteiro de Kevin McClory, Jack Whittingham e do autor”.

Sempre fumando, Fleming teve uma morte precoce, aos 56 anos.

Fleming morreu na manhã do dia 12 de agosto de 1964, vítima de seu segundo ataque cardíaco, ocorrido na noite anterior. O dia da sua morte também era o 12º aniversário de seu filho, Caspian.

Fleming deixou 14 livros de 007, dos quais 12 são romances (todos já adaptados ao cinema) e dois são de contos (Somente para seus olhos, de 1960, e o póstumo Octopussy, de 1966). O romance O Homem da pistola de ouro também foi publicado postumamente, em 1965, e teve que ser finalizado por Kingsley Amis, já que Flaming não o terminou.

Com sua morte, a Glidrose Productions se tornaria a Ian Fleming’s Editions, responsável pelas reedições da obra do autor. O sucesso dos filmes da EON transformaram 007 numa das maiores propriedades da cultura pop, de modo que a visão do James Bond dos filmes suplantou a dos livros. Isso se tornou simbolicamente real quando a EON adquiriu a editora e se tornou a proprietária de 007 em todas as instâncias.

Isso ocorreu em parte pelo fato de Fleming não ter herdeiros: seu filho Caspian cometeu suicídio por overdose de drogas aos 23 anos, em 1973, e sua viúva, Ann Fleming, morreu em 1981, aos 68 anos.

O James Bond dos Livros

A maneira como Ian Fleming imaginava Bond, num desenho de autor desconhecido.

Nos livros, James Bond não é a figura indestrutível que vemos nos filmes. Sua abordagem é mais humanizada e falha. Ele é um comandante da Marinha recrutado para o Serviço Secreto do MI-6 e um dos poucos agentes Duplo-Zero, ou seja, com permissão para matar no cumprimento do dever. Sua idade é de cerca de 37 anos.

Capa original de Moscou contra 007: para muitos o melhor livro da série.

Os livros contam uma história mais ou menos continuada e que se passa no tempo real: cada livro era lançado anualmente contando uma história daquele ano e há referências às aventuras passadas e suas marcações por datas. O inimigo maior de Bond nos primeiros livros é a SMERSH, a agência de contra-inteligência da União Soviética, mas a partir de A Chantagem Atômica, de 1961, surgiu a SPECTRE, uma organização terrorista independente, comandada pelo maléfico Ernst Blofeld.

Dois estudiosos da obra de Fleming, John Grisworld e Henry Chancellor, produziram, cada qual, cronologias do 007 literário a partir da análise das referências deixadas nas obras, e embora, ambos concordem na maior parte dos casos, cada um também adotou algumas especificidades; ainda que ambos definam que as aventuras do James Bond dos livros se passem entre 1961 e 1963 ou 1964 (há uma discordância nessa última).

A história de Bond, claro, ficou inacabada com a morte de Fleming em 1964, mas outros autores escreveram suas aventuras. Conforme abordaremos abaixo.

007 no Brasil

Embora tenha demorado um pouquinho, os livros de Ian Fleming chegaram ao Brasil nos anos 1960, exatamente quando o autor virou um fenômeno de vendagens ainda antes do lançamento dos filmes. O primeiro deles a sair no país foi From Russia With Love em 1960 (apenas três anos depois do lançamento original na Inglaterra), com o título de Espionagem, pela editora Bestseller.

Ao contrário dos EUA, no Brasil, várias editoras diferentes adquiriram os direitos de tradução dos livros de Ian Fleming ao mesmo tempo, o que denota que as negociações eram feitas obra a obra, em vez de um pacote. Por isso, em 1961, o segundo livro do autor chegou ao país, agora, pela editora Civilização Brasileira, com Thunderball, aqui chamado de Operação Relâmpago; enquanto a Edibolso publicou o terceiro, Dr. No com o título de Terror no Caribe.

Mas foi após a morte de Ian Fleming que os livros de 007 realmente invadiram o Brasil, de novo na esteira dos filmes, quando a Bestseller publicou A Serviço Secreto de Sua Majestade, em 1964; e a Civilização Brasileira relançou From Russia With Love com o título Moscou Contra 007, acompanhando o filme do ano anterior.

No ano de 1965, praticamente todos os livros de James Bond no mercado ficaram disponíveis nas livrarias do país, com a Civilização Brasileira publicando Goldfinger; Cassino Royale; Os Outros que se Danem (Live and Let Die); O Foguete da Morte (Moonraker); Os Diamantes são Eternos (Diamonds are Forever); e ainda republicou Thunderball agora com o título A Chantagem Atômica, igual ao filme; e a Bestseller publicou Para Você Somente (For Your Eyes Only); Espião e Amante (The Spy Who Loved Me); Morte no Japão (You Only Live Twice); e a editora Globo publicou O Homem do Revólver de Ouro (The Man With the Gold Gun).

O póstumo Octopussy & The Living Daylights ainda foi publicado em 1966, com o título de Encontro em Berlim pela editora Bloch.

Cada uma dessas editoras saiu relançando os livros de acordo com a demanda de mercado e, de tempos em tempos, alguns deles voltam a ganhar novas edições. Em 1999, por exemplo, a L&PM relançou em formato de bolso os primeiros livros, como Cassino Royale, Viva e Deixe Morrer (agora, com seu título original), O Foguete da Morte e Os Diamantes são Eternos.

Em 2003, a Record lançou novas edições de Moscou Contra 007 e Dr. No; enquanto a Bestseller lançou uma nova edição de Cassino Royale em 2012; enquanto em 2013, a Alfaguara lançou novas (e belas) edições de Viva e Deixe Morrer, Da Rússia, com Amor (adotando o título original), Os Diamantes são Eternos e Goldfinger.

Os livros de Ian Fleming

  • Cassino Royale, 1953
  • Live and Let Die, 1954
  • Diamonds are Forever, 1955
  • From Russia, with Love, 1957
  • Dr. No, 1958
  • Goldfinger, 1959
  • For your Eyes Only, 1960 (contos)
  • Thunderball, 1961
  • The Spy Who Loved Me, 1962
  • On Her Majesty’s Secret Service, 1963
  • You Only Live Twice, 1964
  • The Man with the Golden Gun, 1965 [póstumo]
  • Octopussy & The Living Daylights, 1966 (contos) [póstumo]

Vamos descrever detalhadamente cada um dos livros de James Bond escritos por Ian Fleming, na ordem em que foram publicados, com notas complementares sobre como foram adaptados ao cinema.

Cassino Royale, 1953

Por sua habilidade no carteado, o agente secreto James Bond, do serviço de espionagem britânico, MI-6, é contratado para derrotar Le Chiffre, líder de um sindicato francês, mas que é um agente secreto soviético e usa os jogos para financiar atividades de espionagem. A ideia é fazer Le Chiffre perder uma grande aposta e, com isso, o dinheiro de seus clientes, que iriam matá-lo por isso. Para a missão é escolhido o agente 007 (o duplo zero significa que tem permissão para matar em missão), por suas habilidades nas cartas, e Bond vai para Montenegro jogar no Cassino Royale, enquanto é assistido pela agente Vesper Lynd (que cuida das finanças), Felix Leitter da CIA e René Mathis do francês Deuxiéme Bureau. Em seu caminho, tensões nas mesas de carteado, uma assustadora cena de tortura (quando Bond é capturado por Le Chifrre), o embate no jogo de Bacará, e uma terrível traição. O coração partido de Bond, com certeza, o ajudará a se tornar o espião frio e mulherengo que todos conhecem.

A estreia de Ian Fleming na literatura fez sucesso imediato na Inglaterra e foi agraciada pela crítica e traz uma aventura interessante, com algumas reviravoltas e de uma dureza impressionante. O autor escreveu o livro durante seus dois meses de férias em sua casa na Jamaica, Goldeneye, seguindo uma fórmula que ele tornaria famosa em uma declaração a revista Books and Booksmen:

Eu escrevo por três horas pela manhã… e faço mais outra hora de trabalho entre as seis e sete horas da noite. Eu nunca corrijo nada e nunca volto atrás para ver o que escrevi. Seguindo essa fórmula, você escreve 2 mil palavras por dia.

Parece mais uma história de pescador, ainda mais levando em consideração as descrições minuciosas de lugares, máquinas e carros que Fleming utiliza em seus livros, que parecem requerer consultas e reescritas. Mas de qualquer modo, sendo um jornalista veterano, Fleming tinha bastante facilidade em escrever e manteve o ritmo de um romance anual até o fim da vida.

A tiragem inicial da editora Jonathan Cape era de apenas 4.700 cópias em capa dura (hardcover), o que foi vendido em apenas um mês, o que fez surgir uma segunda tiragem com o mesmo número e, de novo, esgotar antes do fim do ano. A terceira tiragem dobrou para 8 mil cópias em 1954 e garantiu a Fleming um contrato de três livros com a editora. Em 1955, em parceria com a Pan Books, foi lançada a versão paperback (capa de papel) e as vendas chegaram a mais de 40 mil em um ano!

Curiosamente, Cassino Royale não impressionou os Estados Unidos. Apesar do livro ser adaptado como um filme para a TV, vendeu apenas 4 mil cópias no gigantesco mercado americano no ano de 1954. Isso levou a editora McMilliam Publishing a mudar o título da obra para You Ask For it, mas o estratagema não funcionou. Seriam os filmes e mais alguns anos que fariam o 007 literário ganhar notoriedade nos EUA. No Brasil, o livro só chegou em 1965, pela Civilização Brasileira.

A adaptação de Cassino Royale como filme na TV dos EUA terminou fazendo com que a Columbia Pictures se torna-se a detentora dos direitos cinematográfico da obra, o que a fez não poder ser usada pela EON e ainda rendeu o filme apócrifo (fora da franquia oficial) em 1967. Demoraria décadas para que a EON adquirisse os direitos e o usasse para o reboot estrelado por Daniel Craig, em 2006. Apesar de algumas fantasias Hollywoodianas para incrementar a ação, e a troca dos soviéticos por terroristas mais genéricos, o filme é até bastante fiel à obra original.

Live and Let it Die, 1954

A primeira sequência das aventuras de James Bond mostra 007 saindo em uma missão nos EUA para investigar as tramoias de um criminoso afroamericano do Harlem (em Nova York) chamado Buonaparte Igancia Gallia ou Mr. Big, que usa suas conexões com o Caribe (e a Jamaica) para vender moedas de ouro do velho tesouro escondido do Capitão Henry Morgan e, com isso, financiar as ações de agentes da SMERSH, a organização de contraespionagem da União Soviética. Ao lado do agente da CIA Felix Leitter, Bond consegue a ajuda de uma associada de Mr. Big, a cartomante Solitaire, precisando também ir à Florida, onde estão suas conexões criminosas. Bond e Solitaire também vão à Jamaica para desbaratar o apoio dado pelo misterioso líder de um culto vodu e contam com a ajuda de Quarrel, um pescador local.

Na trama, Bond é mais humanizado do que na estreia, e o personagem Leiter também ganha mais profundidade, embora aja como um tipo de subordinado a 007. Em uma sequência dramática, Leiter é capturado pelos comparsas de Mr. Big e jogado em um tanque de tubarões que o vilão mantém na Flórida. O agente da CIA sobrevive, mas perde uma perna e um braço no episódio.

É dito que Fleming pretendia matar Leiter, mas seu agente literário nos EUA protestou contra o ato e o escritor mudou o final, deixando o personagem vivo.

Ian Fleming sempre se aproveitava de suas experiências pessoais para escrever seus livros, e desta vez, aproveitou uma viagem EUA-Jamaica para compor parte da trama. Ele escreveu Live and Let it Die ainda antes da publicação de Cassino Royale, e novamente o livro foi acolhido com graça pela crítica literária britânica. Infelizmente, com o passar do tempo, este se tornou um dos mais problemáticos livros de Fleming, porque não consegue disfarçar um certo racismo latente à época em que foi escrito.

Live and Let it Die teve uma tiragem maior, com 7.500 unidades (em capa dura/ hardcover), adicionadas de mais 2 mil antes do fim do primeiro ano. Quando do lançamento em capa de papel (paperback), 50 mil cópias foram vendidas. Assim como o primeiro livro, não fez sucesso nos EUA, onde vendeu apenas 4 mil exemplares de início.

No Brasil, Live and Let Die foi lançado com o título de Os Outros que se Danem, em 1965, pela Civilização Brasileira, mas depois, foi convertido para Viva e Deixe Morrer na edição da L&PM, em 1999.

Mas o sucesso britânico de Viva e Deixe morrer começou a fazer Bond dar seus primeiros grandes passos.

O livro também impressionou alguns produtores de cinema e a Warner Bros. ofereceu um acordo com Fleming após o relativo sucesso da adaptação de Cassino Royale à TV dos EUA, porém, o escritor considerou a oferta muito baixa e recusou.

Dentro da franquia de 007 no cinema, Viva e Deixe Morrer seria adaptada em 1973, com Roger Moore, sendo o oitavo filme da série e o primeiro do ator. Curiosamente, a cena de Leiter no tanque de tubarões só seria usada em Permissão para Matar, de 1989.

Moonraker, 1955

A terceira obra de Fleming nasceu como um roteiro para um filme que planejou durante muito tempo, porém, nunca realizara. Como o tratamento do filme era muito curto para uma novela, Fleming precisou acrescentar muito do que hoje é a primeira metade do livro. Neste caso, criou uma trama que remetia a um evento verdadeiro: o Escândalo do Baccarat Real, em 1890, na qual um tenente coronel do exército britânico teria roubado em uma mesa de carteado na qual o Príncipe de Gales (o futuro rei Eduardo VI) estava presente. Na tradicional sociedade vitoriana, tal feito foi um escândalo e o tal militar foi a julgamento, obrigando o futuro monarca a depor no julgamento como testemunha, e o coronel foi condenado, expulso do exército e viveu exilado da alta sociedade pelo resto de seus dias.

Fleming usou uma premissa similar para criar a primeira metade da trama, na qual o vilão Hugo Drax, apesar de rico, famoso e apreciado, rouba no jogo.

Na trama, o superior de Bond, M, leva o espião ao seu clube de carteado, o Blades, para que conheça o multimilionário Hugo Drax, que M suspeita estar roubando no jogo de Bridge, o que é estranho para alguém de sua posição. 007 ganha o jogo e Drax fica no seu radar, quando descobre que ele é o industrial responsável pelo Projeto Moonraker, que irá produzir o primeiro míssil atômico do Reino Unido. A investigação de Bond mostra que Drax é, na verdade, um alemão nazista que quer lançar a bomba nuclear em Londres em vingança pela derrota na Guerra. 007 consegue sabotar o lançamento e fazer a bomba explodir na ilha do Mar do Norte em que Drax está escondido.

Moonraker teve algumas peculiaridades dentro do trabalho de Fleming, sendo a primeira (e única) aventura de Bond que se passa apenas na Inglaterra. Por outro lado, a trama relativamente enxuta (pensada como um filme expandido) deixou bastante margem para que aprofundasse os personagens e se tornasse o mais “sério” dos livros de 007 até então. O famoso escritor Noel Coeward – que era amigo de Fleming e seu vizinho na Jamaica – declarou em uma resenha que esse era o melhor trabalho do autor até então. Por outro lado, os leitores reclamaram bastante porque não havia nenhuma locação exótica como em Cassino Royale ou Live and Let Die, apenas a Inglaterra, com Londres, o condado de Kent e a praia de Dover e seus rochedos.

Seguindo o esquema anterior da editora Jonathan Cape, Moonraker foi lançado em capa dura com uma tiragem maior do que os anteriores, com 9.900 cópias que esgotaram rapidamente, e em seguida, a Pan Books lançou a versão em capa de papel, que vendeu 43 mil cópias naquele ano. Nos EUA, o livro também ganhou um título diferente, Too Hot to Handle, e chegou a ter partes reescritas para diminuir o acento britânico da escrita original, o que não ajudou a fazer sucesso. Foi o único livro de Bond em que isso ocorreu, e o título original foi adotado nos EUA a partir de 1960. No Brasil, ganhou o mais genérico O Foguete da Morte – o que dá uma “cara” bem anos 1960, pois nos dias de hoje, se usa mais a palavra “míssil” do que “foguete” – lançado em 1965 pela Civilização Brasileira.

O Foguete da Morte foi adaptado aos cinemas em 1979, como o quarto longa com Roger Moore como Bond e foi considerado o pior de todos os filmes da franquia de 007, adulterando completamente a história para que Bond fosse ao espaço (e fizesse com isso um aceno ao sucesso incrível de Guerra nas Estrelas na época). Ao contrário do livro, a história atravessa vários países no filme, incluindo o Brasil.

Diamonds are Forever, 1956

Assim como Moonraker, Os Diamantes são Eternos também partiu de um evento da vida real para se transformar em uma aventura de 007. Na época, Ian Fleming ainda era o coordenador dos correspondentes estrangeiros do The Sunday Times, e um membro de sua equipe escreveu ao longo do ano de 1954 uma bombástica reportagem sobre o contrabando de diamantes, numa rede criminosa começando em Serra Leoa (na África e então colônia do Império Britânico) e partindo à Inglaterra e aos Estados Unidos.

Como era típico de Fleming, o autor realizou uma extensa pesquisa e reuniu tanto material sobre o tema que um ano após Os Diamantes são Eternos, publicou um livro-reportagem chamado The Diamonds Smugglers.

Quanto a 007, ciente das críticas ao livro anterior, que teve apenas o Reino Unido como cenário, Fleming retomou de imediato o apelo às locações exóticas, fazendo a história iniciar em Serra Leoa, descrevendo o cenário da extração de diamantes e o modo como uma rede de mineiros usavam subterfúgios (escondiam as pedras na boca, e iam a um dentista que fazia a fachada da transação). A primeira cena, focada em um mineiro e um escorpião foi elogiada pela crítica como um exemplo dos momentos de “literatura séria” a qual Fleming podia atingir.

Na trama, Bond é designado pelo MI-6 a investigar a rede de contrabando de diamantes, que vai lhe levar a confrontar uma organização criminosa dos Estados Unidos, baseada em Las Vegas, liderada pelos irmãos Jack e Saraffimo Spang. No caminho, conhece Tiffany Case, membro da gangue, mas uma mulher de bom coração, que deixou de confiar nos homens depois que foi estuprada quando jovem. Bond se apaixona por ela. De verdade! A primeira vez que isso ocorre desde Vesper Lynd em Cassino Royale.

Daí, a aventura se torna labiríntica em termos espaciais: Bond e Tiffany vão aos EUA, onde a quadrilha está sabotando uma famosa corrida de cavalos no estado de Nova York, e lá reencontra o ex-agente da CIA (e agora, detetive particular), Felix Leiter, e dois capangas homossexuais, Witt e Kidd; aliado ao também membro da gangue, Shaddy Tree, Bond vai para Las Vegas, onde Seraffino Spang comanda um hotel; e vai a uma cidade fantasma de faroeste, Spectreville, que também pertence ao criminoso; Saraffino possuí um trem ao velho estilo e a confrontação com Bond se dá nele, e 007 dá um tiro nele antes do trem se espatifar num beco sem saída; dali, Bond e Tiffany vão para a cidade de Nova York e embarcam no famoso navio Queen Elizabeth II para voltar a Londres, mas Witt e Kidd vão atrás; no navio, a relação entre o casal amadurece, mas a dupla de criminosos tenta matá-los; Bond os elimina e faz parecer um caso de homicídio-suicídio; em Londres, 007 desvenda o restante do esquema da rede de contrabando; e dali vai para Serra Leoa, onde confronta o outro irmão Spang, Jack, que é morto por Bond ao derrubar seu helicóptero.

Diferentemente de Moonraker e seu tom fantasioso de hecatombe nuclear, a trama básica de Diamonds are Forever era bastante realística e mundana (os feitos de Bond em si não contam) e foi a primeira obra de James Bond a não estar relacionada à Guerra Fria em nenhum aspecto.

A sequência ininterrupta de ação, as inúmeras locações com descrições precisas de Ian Fleming fizeram parte da crítica achar Diamonds are Forever um livro sem foco, mas isso não impediu de ser um sucesso tanto quanto seus antecessores: lançada em março de 1956, a primeira edição em capa dura da Jonathan Cape teve suas 12.500 cópias vendidas rapidamente. O ritmo da venda foi um pouco mais lenta, mantendo-se restrita inicialmente à edição em capa dura. Em outubro de 1956, o livro foi lançado nos EUA, e em novembro, ganhou um impulso nas vendas quando a imprensa noticiou que o Primeiro Ministro britânico, sir Anthony Eden, tirou um período de férias em Goldeneye, a casa de Fleming na Jamaica, para se recuperar da tensão da Crise do Canal de Suez. A edição em capa de papel (paperback) só saiu em fevereiro de 1958, mas vendeu 68 mil cópias naquele ano, o que era muito para o mercado britânico.

Apenas um mês depois do lançamento do livro, em março de 1956, o jornal The Daily Express licenciou uma tira de quadrinhos adaptando o romance, com roteiros de Henry Cammidge e desenhos de John McLusky, que incrivelmente, criou um rosto de 007 muito parecido com o ator Sean Connery, que interpretaria o personagem seis anos depois! Encerrada a trama da tira, o jornal continuou adaptando os livros anteriores como HQ, começando com Moonraker e depois Live and Let Die.

No Brasil, Os Diamantes são Eternos chegou às livrarias apenas em 1965, pela editora Civilização Brasileira.

Os Diamantes são Eternos foi adaptado ao cinema em 1971, como o último filme de 007 estrelado por Sean Connery dentro da franquia oficial da EON Productions. O filme manteve a premissa do contrabando de diamantes e da parada em Las Vegas, mas trocou a quadrilha ítalo-americana original pela SPECTRE e seu líder, Ernst Blofeld, na última vez em que o vilão apareceu na série clássica. O filme eliminou o clímax na África e o transferiu para o oceano, mas para atender aos elementos mais fantásticos do cinema, trocou o QEII por uma plataforma petrolífera, além de relacionar os diamantes ao uso para um laser disparado por satélite.

From Russia, with Love – Moscou Contra 007, 1957

Após quatro livros de 007, Ian Fleming começava a ficar cansado de sua própria criação. Desanimado com a própria escrita, decidiu produzir o capítulo final da série de James Bond. A inspiração para a história veio em junho de 1955, quando viajou a Istambul representando o The Sunday Times em uma conferência da Interpol. Voltando à Inglaterra no Expresso Oriente, a linha de trem que liga a capital da Turquia a Paris, na França, Fleming teve a ideia de ambientar nele sua próxima aventura.

Mas o desânimo o tomou ao longo da escrita e Fleming não conseguiu a autossatisfação na obra. Após terminar o primeiro manuscrito, ao fim de suas férias na Jamaica, ele reescreveu muitas partes do livro, especialmente, o final, deixando Bond à beira da morte no final. Esperto como era, deixou o final em aberto, o que lhe daria uma oportunidade de continuar a série se sentisse necessidade. Se não, Bond estaria morto.

Apesar da depressão, From Russia, With Love tem uma trama bastante imaginativa. A SMERSH, agência de contraespionagem da União Soviética transformou James Bond em seu inimigo número 1, depois dele destroçar os planos deles com Le Chiffe, Mr Big e Hugo Drax, e quer vingança. Aproveitando-se do lado mulherengo de 007, criaram um plano ardiloso para matar o espião, expor uma filmagem de sexo dele com uma espiã russa, matar uma parte do MI-6 por meio de uma bomba disfarçada e humilhar o serviço secreto e o Império Britânico.

Para isso, a chefe de operações da SMERSH, Rosa Klebb, instruiu a decifradora Tatiana Romanova a fingir desertar da URSS e comunicar ao MI-6 que, em troca do asilo político, entregaria uma máquina Spektor, que envia mensagens soviéticas criptografas e seria uma grande vitória do Ocidente contra os comunistas. Ela apenas coloca como condição que James Bond seja o interceptor da negociação, porque se apaixonou por ele ao vê-lo numa fotografia. Precavidos contra tramoias, o MI-6 e M aceitam a proposta cautelosamente e enviam Bond para Istambul, onde deve pegar Romanova e levá-la até Paris, de lá partindo para Londres.

Bond gosta de Romanova e acredita nela. A moça se encanta com 007 e não conhece a integridade do plano da SMERSH, sendo um tipo meio ingênua. O novo casal embarca no Expresso Oriente, mas Rosa Klebb vai atrás, assim como seu braço direito, Donovan “Red” Grant, um britânico desertor que age com os russos e é um psicopata. Ladeado por Darko Kerim, o chefe da célula espiã britânica na Turquia, Bond enfrenta alguns perigos no trem, percebendo que existem agentes russos infiltrados, mas Kerim é morto em sua cabine. Na Itália, o agente britânico Capitão Nash vem ao auxílio de 007, mas ele é Grant disfarçado. Os dois lutam na cabine de Bond, mas ele consegue matar o traidor. E Bond descobre o plano da SMERSH, inclusive, que o Spektor está adulterado com uma bomba para explodir quando for aberto.

Bond e Romanova chegam a Paris, mas Rosa Klebb ainda confronta 007 e lhe fere com uma lâmina envenenada escondida em seu sapato. O livro termina com Bond envenenado, caindo ao chão e perdendo a consciência.

James Bond (Daniel Craig) com a Walther PPK, sua pistola-símbolo.

Para além da depressão, outra curiosidade de Moscou Contra 007 (como também ficou conhecido) é que durante sua escrita, Fleming recebeu uma carta de um fã de 31 anos de idade e especialista em armas, chamado Geoffrey Boothroyd, que criticou o uso de uma .25 Beretta, que considerou uma arma para “damas”; recomendando que usasse um revólver .38 ou uma pistola 9mm alemã Walther PPK. Fleming era um bom conhecedor de armas e acatou a sugestão. E incorporou a troca do armamento à trama, com M recomendando a troca e o .38 adulterado aparecendo na premiada capa do llivro e a Walther PPK se tornando a principal arma de 007 nas aventuras seguintes, sendo imortalizada no cinema. Como prêmio, Fleming incluiria o nome de Boothroyd como o armeiro do MI-6, o personagem que nos cinemas ficará mais conhecido como Q.

Os críticos consideram que, ao contrário de Diamonds are Forever, e retomando a característica de Moonraker, From Russia, With Love retoma uma forte caracterização dos personagens, particularmente de Bond e Kerim, embora os autores reconheçam elementos racistas quanto à retratação de Kerim (filho de pai turco e mãe britânica) e o modo como Fleming descreve os orientais, num sentido muito típico de sua época.

Porém, apesar disso, a crítica de uma maneira geral gostou bastante do livro e, a despeito da depressão na feitura, Fleming terminou declarando depois que Moscou Contra 007 se tornou seu livro favorito. O lançamento em abril de 1957 veio ainda na onda da grande divulgação da estada do Primeiro Ministro na casa de Fleming, o que serviu para incrementar as vendas. O lançamento nos EUA também ocorreu logo após na Inglaterra e esse livro – talvez por sua temática mais diretamente relacionada à União Soviética – fez com que as vendas fossem muito boas no país, ao contrário dos episódios anteriores.

From Russia, With Love ainda gozou de outros dois grandes momentos de popularidade pouco tempo depois. Primeiro, em março de 1961 (quatro anos após o lançamento), a revista Life produziu uma reportagem sobre o presidente dos EUA, John Kennedy, no qual listava seus 10 livros favoritos, e entre eles estava o quinto episódio de 007, o que levou a um grande impulso nas vendas nos Estados Unidos, de modo que nos anos seguintes, Fleming se tornou o autor mais vendido no país no gênero crime. O outro momento foi quando o filme adaptando o livro foi lançado, em 1963. Por isso, a venda da edição paperback saltou de 145 mil cópias em 1962 para 642 mil em 1963, o que eram números muito altos para a Inglaterra.

O livro também foi o primeiro de Ian Fleming a ser lançado no Brasil, pela editora Bestseller em 1960 com o título de Espionagem. Depois, quando a editora Civilização Brasileira adquiriu os direitos das obras de Fleming, em 1964, mudaram para o título Moscou Contra 007, seguindo o mesmo da dublagem brasileira do filme. A partir desse ano, as obras anteriores começaram a sair pela mesma editora. No mercado brasileiro atual existem duas edições disponíveis nas livrarias, uma da editora Record com o título Moscou Contra 007; e outra da Afaguara com o título de Da Rússia, Com Amor.

Moscou Contra 007 foi adaptada como HQ no Daily Express, em 1960, e virou o segundo filme da franquia cinematográfica de Bond, em 1963. No filme, apesar dos vilões migrarem da SMERSH para a fictícia SPECTRE (uma organização terrorista sem associação nacional) – ainda que manipulando os agentes russos – , o filme é bastante fiel à obra original de Fleming, sendo a mais próxima adaptação de um livro do autor na série original.

Dr. No, 1958

Embora tenha ficado imortalizado como o criador de 007, esse não foi o único trabalho literário de Fleming. E sua fama como jornalista e escritor o levou a desenvolver uma série de outros projetos. Em junho de 1956, ele se envolveu na produção de uma série de TV que se chamaria Commando Jamaica, focado num operativo da marinha britânica alocado na na ilha que então era colônia do Império Britânico e a casa de veraneio do escritor. Como o projeto não foi adiante, Fleming decidiu adaptar sua trama para uma aventura de 007.

Dr. No é uma sequência direta de With Russia, With Love, pois este terminara com Bond caindo ao chão envenenado, e a trama parte de sua recuperação para embarcar em uma nova missão: ir à Jamaica investigar a morte de dois operativos do MI-6 na região, e lá descobre que a fictícia ilha de Cab Crey vive aterrorizada com um “dragão” existente sob o comando do misterioso Dr. No, que mantém uma usina de processamento de guano. No é um chinês-alemão que morou em uma comunidade de emigrantes nos EUA e após roubar dinheiro terminou tendo as mãos decepadas para servir e exemplo, de modo que usa próteses metálicas no lugar delas. Sua base é uma fachada para a sabotagem de lançamento de foguetes de Cabo Canaveral, nos EUA.

Bond conta com a ajuda do jamaicano Quarrel e a coletora de conchas Honeychile Rider, e descobre que o tal dragão é um buggy blindado armado com um lança chamas, que mata Quarrel e leva o espião e sua companheira a serem capturados. Sob a custódia de No, Bond é submetido a um tipo de desafio para que o vilão estude as reações à dor, ao qual 007 é submetido a choques elétricos e a lutar contra uma lula gigante. No fim, Bond consegue escapar das armadilhas e mata No ao soterrá-lo com guano.

Dr. No foi o primeiro livro de Fleming que recebeu duras críticas na época de seu lançamento por causa da abordagem de temas sado-masoquistas por parte do vilão, embora, nos Estados Unidos o livro foi bem recebido. O livro aprofunda a relação entre Bond e M, já que este se recente de que o agente quase morreu em sua aventura anterior, obrigando-o a trocar de arma (usando a sugestão do especialista em armas, Geoffrey Boothroyd), e enviando 007 ao que considerava uma missão fácil e simples, o que fez Bond se sentir rebaixado. A obra introduz o personagem major Boothroyd ou Q, descrito como o maior especialista em armas pequenas do mundo. No cinema, Q virou um cientista que cria armas mirabolantes disfarçadas como gadgets que fizeram a fama de 007 nos filmes.

O livro fez sucesso e a versão paperback, lançada em 1960, vendeu 115 mil cópias naquele ano, mas o lançamento do filme, em 1962, fez a obra atingir impressionantes 1,5 milhões de cópias na Inglaterra.

No Brasil, foi originalmente publicado pela editora Edibolso em 1961 com o título Terror no Caribe, mas depois, republicado com o título 007 Contra o Satânico Dr. No, tal qual o filme.

Dr. No foi adaptado como o primeiro filme de 007, em 1962, dando início à franquia cinematográfica de James Bond, trazendo Sean Connery no papel que o imortalizou. O filme não é tão fiel à obra, mudando a afiliação de No para a SPECTRE e amenizando o conteúdo geral da obra, além de dar ares mais fantásticos à base do vilão e sendo um tipo de usina nuclear.

Goldfinger, 1959

Alguns críticos acham que o livro anterior, Dr. No, foi o ponto de partida para Ian Fleming passar a adotar tramas cada vez mais fantasiosas, e embora Goldfinger seja em certo sentido uma trama bem mais “pé no chão” – afinal, trata-se do combate a um contrabandista internacional de ouro – o escritor criou uma série de situações se não fantasiosas, pelo menos, improváveis, e isso não passou desapercebidos pelos críticos. Ademais, Fleming declarou que Goldfinger foi um livro muito fácil de escrever e foi sua obra mais extensa até então, entregando o manuscrito com 270 páginas, que editado se converteu em mais de 300 páginas na edição em capa dura da Jonathan Cape.

Fleming era fascinado por ouro e tinha uma máquina de escrever banhada a ouro em sua casa (embora fosse apenas decorativa), o que serviu como ideia inicial de um riquíssimo contrabandista que banhava todos os seus bens em ouro. A trágica ideia do Rei Midas, que a tudo que toca transforma em ouro, da mitologia grega, também lhe veio à mente. Ele encontrou o nome de seu vilão, Auric Goldfinger, no arquiteto húngaro Ernõ Goldfinger, usando sua biografia como um espelho para o personagem: um homem vindo de família judaica do Leste Europeu, que imigrou para a Inglaterra e lá fez fortuna. O Goldfinger real era mesmo marxista e Fleming não gostava dele porque era adepto do movimento modernista e, com isso, destruía antigos e tradicionais sobrados ingleses para substituí-los por prédios de aparência moderna, com concreto e vidro. A aparência do vilão, contudo, foi tomada de empréstimo de Charles W. Englehard Jr., um magnata do ouro dos Estados Unidos, a quem Fleming havia conhecido em 1949. Quando soube do livro, ainda antes de seu lançamento, o arquiteto Ernõ Goldfinger ameaçou processar Fleming e a Jonathan Cape pelo uso de seu nome, mas Fleming conseguiu um acordo fora dos tribunais ao ameaçar mudar o nome do personagem para Goldpick e colocar nota explicativa na capa explicando o por quê da mudança.

Após uma história mais contida com um vilão mais fantasioso em Dr. No, em Goldfinger, Fleming retoma a ambientação labiríntica de lugares exóticos aliada a uma trama mais remetida ao mundo real, como em Diamonds are Forever; mas dessa vez, trocando os diamantes pelo ouro. Embora de um modo geral, fosse a repetição de uma fórmula em alguma medida (e também a repetição menos do que necessária de algumas situações), o escritor terminou realizando um dos mais apreciados livros da série e um exemplo contundente das aventuras de James Bond quando vista em si mesma.

A cena da garota dourada na versão cinematográfica de Goldfinger.

Na trama, James Bond está voltando o México, onde desarticulou uma operação de drogas e passa pelos Estados Unidos, quando reencontra o industrialista Junius Du Pont, um dos jogadores de cartas que conhecera em Cassino Royale, que lhe pede uma ajuda para verificar se um outro rico negociante está roubando em uma mesa de carteado: Auric Goldfinger. Bond atende ao pedido e descobre que Goldfinger está usando sua assistente, Jill Masterton, para espionar as cartas de Du Pont, e obriga o empresário a perder e pagar o dinheiro ao velho conhecido. Mas aproveitando que Bond teve um rápido affair com Jill, Goldfinger a mata pintando seu corpo de ouro e matando-a asfixiada.

Bond chega a Londres e M coloca 007 numa investigação sobre Goldfinger e o contrabando de ouro, já que suspeita de seu envolvimento com a SMERSH. Bond encontra Goldfinger em uma partida de golfe e o vilão tenta ganhar de novo roubando, mas 007 se dá melhor. Ele é convidado para a mansão do industrial e conhece o capanga dele, o coreano fortão Oddjob. Uma disputa velada se dá entre os dois homens, com Bond “armado” com seu Aston Martin DB Mark III e Goldfinger com seu Rolls-Royce Silver Ghost. Bond segue Goldfinger até a Suíça, onde descobre como funciona o esquema de contrabando do vilão. Bond vê uma mulher tentar matar Goldfinger e descobre que ela é Tilly Masterton, que quer vingar a irmã Jill. Bond a impede para poder entender o plano do vilão, mas os dois terminam sendo capturados.

Na base de Goldfinger em Nova York, Bond é torturado por Oddjob que o ameaça partir em dois com uma serra circular, mas 007 o convence de que irá trabalhar para ele. O vilão terminou aceitando e levou Bond e Tilly para participarem de uma reunião com uma série de grupos criminosos, quando a dupla conhece Pussy Galore, a líder de um grupo de ladras lésbicas a serviço de Goldfinger. Mas como Tilly também é lésbica, se cria uma afinidade entre as duas. O plano de Goldfinger é roubar todo o ouro do Fort Knox, o principal depósito dos EUA. Mas Bond conseguiu enviar uma mensagem para seu amigo Felix Leiter, e sua equipe de detetives particulares, que avisam as autoridades e entram em confronto contra o exército criminoso do vilão. Mas Goldfinger droga Bond e sequestra um avião para fugir, porém, 007 quebra uma janela e causa uma descompressão que suga Oddjob para fora, e estrangula Goldfinger, forçando a tripulação do vilão a pousar o avião na costa do Canadá.

Vindo da grande exposição midiática que teve em Dr. No, Fleming fez toda uma programação de lançamento de Goldfinger, o que incluiu até uma aparição na TV e uma seção de autógrafos na Harrods, a tradicionalíssima megaloja de Knightbridge, em Londres. A venda como sempre foi altíssima, e a versão em paperback (mais popular) foi lançada em 1961 e atingiu incríveis 161 mil cópias só naquele ano. A crítica foi bem mais favorável a este do que ao anterior, elogiando a fluidez do texto e a capacidade descritiva do autor.

Mais tarde, se tornaram públicas declarações de Fleming a amigos de que, apesar de Goldfinger ter sido um livro “fácil de escrever”, o autor se viu meio esgotado ao seu final, sem ideias ou disposição para escrever uma trama tão longa, entrando em um novo ciclo de altos e baixos em relação ao seu personagem, como na época de From Russia With Love.

No Brasil, o livro foi lançado em 1965, pela editora Bestseller com o título de Goldfinger, mostrando como esta e a Civilização Brasileira disputavam os direitos de Ian Fleming em nosso país e publicavam cada qual alguns livros em disputa no mercado, com grande parte deles chegando às livrarias brasileiras entre 1964 e 65.

Goldfinger foi adaptado como o terceiro filme da série cinematográfica de 007 e é quase unanimidade entre críticos e fãs como o melhor filme da franquia. O filme mantém a essência da história geral do livro, apenas tornando-a mais fantasiosa, mas com algumas mudanças. Por exemplo, além da tradicional troca da SMERSH pela SPECTRE do cinema, na cena da tortura, no filme, em vez da serra circular, é usado um raio laser; e no filme há o impagável diálogo entre Bond e Goldfinger nesse momento (com 007 dizendo: “você quer que eu fale?”, com o laser chegando próximo à sua virilha para parti-lo em dois; e Goldfinger apenas ri, cínico: “não, Sr. Bond, eu quero que você morra!”, e sai. Nada de vilão explicar história para o mocinho ou querer negociar). No filme, o plano de Goldfinger é inutilizar o ouro com uma explosão nuclear e torná-lo radioativo; Pussy Galore comanda uma frota de aviadoras; Oddjob é morto ainda no Forte Knox; e é Goldfinger quem é sugado pela janela para fora do avião.

For your Eyes Only (contos), 1960

Em vista das sucessivas crises criativas dos últimos anos, Ian Fleming decidiu experimentar novos formatos, ao mesmo tempo em que podia reciclar velhos trabalhos para se manter ativo. For Your Eyes Only foi a primeira coletânea de contos de James Bond e foi criada essencialmente a partir de uma série de episódios de uma série de TV que Fleming desenvolveu para a CBS, depois que a emissora dos EUA gostou bastante do filme-teatro de Cassino Royale exibido em 1954. Começou-se uma negociação no verão de 1958 e o escritor desenvolveu quatro episódios para a série de TV baseada em Bond, mas no fim das contas, a CBS desistiu do projeto. Então, em 1959, decidiu adaptar os roteiros como histórias curtas.

Somente para seus Olhos tinha 5 contos: From a View to Kill, For your Eyes Only, Quantum of Solace, Risico e The Hildenbrand Rarity, nas quais Fleming se permitiu experimentar novas formas de narrativa e explorar elementos mais humanos de Bond.

  • From a View to Kill: Um despachante de motocicleta carregando documentos secretos é morto enquanto levava os planos da sede da contraespionagem europeia em Versalhes, na França, até um posto avançado em Saint-Germane. Como Bond já estava em Paris em outra missão, M o encarrega de investigar, com 007 repetindo o trajeto numa moto, encontrando, confrontando e matando o assassino. A história do assassino na motocicleta havia sido criada por Fleming como uma subtrama para o vilão Hugo Drax em Moonraker, mas como não foi utilizada, terminou reciclada para a série de TV e reciclada de novo para o conto.
  • For your Eyes Only: Os Haverlocks, um velho casal amigo de M, são assassinados na Jamaica, simplesmente porque se recusaram a vender sua mansão a Herr Von Hammerstein, que secretamente é um ex-oficial da Gestapo que agora atua como chefe de contraespionagem do regime cubano. M havia sido padrinho de casamento dos Haverlocks, e faz um pedido não-usual a James Bond, seu agente de maior confiança: ser temporariamente licenciado do MI-6 para sair em uma missão “pessoal” à Jamaica e vingar o casal. 007 aceita e vai, descobrindo que o casal foi assassinado por uma dupla de matadores cubanos, liderados pelo Major Gonzales, a mando de Hammerstein, que possui uma propriedade em Vermont, nos Estados Unidos. Lá, Bond conhece a filha dos Havelocks, Judy, que quer se vingar armada com uma besta. Em meio a um confronto, Judy mata Hammerstein com uma flechada nas costas e Bond elimina Gonzales e seus homens em um tiroteio, deixando claro que o assassinato de cidadãos britânicos não ficará impune. A trama foi escrita por Fleming como o terceiro episódio da série de TV que não foi realizada.
  • Quantum of Solace: Este conto é um dos primeiros experimentos de Fleming, ao tratar não de uma aventura de espionagem, mas simplesmente uma reflexão sobre as relações humanas, e mais especificamente, sobre o casamento. Após completar uma missão nas Bahamas, 007 é premiado com um jantar na Casa do Governador, onde se sente incomodado com um casal chato. Ao fim da refeição, conversa com o Governador, mencionando que seria legal casar com uma aeromoça (nos anos 1960, a figura da aeromoça era uma forte representação da mulher de espírito livre), e o homem lhe conta a história de um funcionário do governo que casou com uma aeromoça, mas depois que ela começou a ter um caso com um industrial rico, teve um colapso nervoso e dividiu sua casa ao meio, vivendo separado na prática, mas mantendo a fachada do casamento; até que se cansou da situação e voltou para a Grã-Bretanha, deixando a mulher desamparada em casa. O governador explica o título do conto “quantum of solace” como o equilíbrio ao qual a ausência pode resultar em crueldade que antes se pensava impossível. E revela que a mulher da história é aquela com o qual jantaram antes. Quantum of Solace foi uma homenagem de Fleming ao escritor W. Sommerset Maugham, que admirava, e escreveu o conto no seu estilo. Ao contrário dos demais, este conto não era inédito, pois fora publicado na revista Comosmopolitan nos EUA e na Modern Women na Inglaterra, em 1959.
  • Risico: M despacha 007 para a Itália numa missão para desmontar um esquema de tráfico de drogas para o Reino Unido. Bond se encontra com um informante da CIA, Kristatos, que lhe diz que o homem por trás do esquema é Enrico Colombo. Ao investigar este, 007 é capturado e levado para seu barco, o Columbina, na qual Colombo lhe informa que Kristatos é o verdadeiro chefe do tráfico e lhe oferece ajuda para derrubá-lo, desde que não volte mais à Itália. A inspiração de Risico foi uma viagem de Fleming e a esposa para Veneza, usando ainda Morte em Veneza de Thomas Mann como inspiração.
  • The Hildenbrand Rarity: Este conto também sai um pouco do lugar comum, embora termine numa história de assassinato. Após cumprir uma missão nas ilhas Seicheles, no Oceano Índico, 007 e seu aliado Fidele Barbey, são convidados pelo multimilionário americano Milton Krest a embarcarem numa aventura em busca do peixe raro do título. Na jornada, Bond percebe como Krest é uma figura desagradável, que abusa verbalmente de todos ao redor e bate na esposa com um ferrão de arraia que usa como bastão. Após a pescaria e a captura do tal peixe, Krest promove uma grande festa no barco e fica bêbado e agressivo. Após irem dormir, um barulho alerta Bond e ele descobre que Krest foi assassinado com o tal peixe entalado na garganta. Indisposto a uma investigação criminal de homicídio, e como uma lição ao abusador, Bond arma uma cena para fazer parecer que Krest caiu ao mar e se afogou. Ele não tem certeza se quem o matou foi Barbey ou a sra. Krest, mas esta o convida a continuar navegando até Mombasa. The Hildenbrand Rarity também foi publicado na revista Playboy, em 1960.

For Your Eyes Only foi bem recebido pela crítica, que achou o formato de contos bastante adequado a 007 e a versão em capa dura vendeu 21.700 cópias imediatamente. No Brasil, o livro foi lançado pela editora Bestseller em 1965, com o título de Para Você, Somente.

Melinda e Bond no filme.

Assim como os livros, os contos de Fleming também terminariam sendo adaptados ao cinema. For Your Eyes Only (Somente para Seus Olhos) terminou batizando um filme de 007 estrelado por Roger Moore, com sua trama usada como plot principal, apenas trocando a personagem Judy pelo nome de Melinda; mas adicionando a trama de Risico como um subplot. Parte do título From a View to a Kill foi usado para o filme Na Mira dos Assassinos, de 1985 e o último com Roger Moore; mas nada da história original foi utilizado nem nesse filme nem em nenhum outro. Já o personagem Milton Krest e sua caracterização em The Hildenbrand Rarity foram usados para compor o terrível vilão de Permissão para Matar, o filme de 1989 com Timothy Dalton, embora desassociado da trama da pescaria.

Por fim, o título Quantum of Solace foi usado como o título do segundo filme estrelado por Daniel Craig e servindo, portanto, como uma sequência direta de Cassino Royale, contudo, absolutamente nada da trama foi aproveitado no filme.

Thunderball, 1961

Thunderball tem a mais espinhosa história dentre os livros de Ian Fleming, mas fora das páginas, não no seu interior. O fato é que, após o telefilme da CBS sobre Cassino Royale, em 1954 e o interesse em transformar 007 em uma série de TV, em 1958; Fleming ainda ambicionava levar James Bond para o cinema e estimulado pelo amigo Ivar Bryce começaram a discutir um modo de fazer isso, encontrando um realizador na figura do diretor e escritor irlandês Kevin McClory e no advogado Ernst Cuneo, que idealizaram não apenas um filme, mas uma produtora, a Xanadu Productions, que nunca chegou a ser efetivada na prática. McCory era o diretor do filme The Boy and the Bridge que representou o Reino Unido no Festival de Cinema de Veneza, em 1959.

Em maio de 1959, pouco depois do lançamento de Goldfinger, Fleming, Bryce, Cuneo e McClory se reuniram para planejar uma trama geral para o filme. Em novembro, Fleming precisou embarcar em uma longa viagem pelo mundo a mando do The Sunday Times (passando por Japão, Macau, Hong Kong e EUA – e que resultaria em um livro-reportagem de Fleming, chamado Thrilling Cities, lançado em 1963), então, McClory trouxe o roteirista profissional Jack Whittingham. Em dezembro, o grupo se reuniu em Londres e decidiram que o roteiro estava pronto para ser filmado, com o título de Longitude 78 West, que Fleming sugeriu ser mudado para Thunderball.

Em janeiro de 1960, Fleming e McClory se encontraram em Goldeneye e acertaram um plano do escritor submeter o projeto do filme ao estúdio MCA com a recomendação de que o cineasta o realizasse. As negociações começaram e se arrastaram por mais de um ano – e resultariam no acordo que Fleming faria com Albert Broccoli e a EON Productions que deu origem à franquia de 007 no cinema (e os produtores optaram por não filmar a história original do roteiro, e sim, adaptar um dos livros pretéritos). Mas antes disso, Fleming aproveitou as férias daquele ano para transformar Thunderball no novo livro de James Bond, seguindo a rotina usual de escrever em um ano e publicar no seguinte.

Então, em março de 1961, McClory descobriu que Fleming iria publicar Thunderball como livro e imediatamente iniciou um processo judicial contra o escritor. A Justiça aceitou o caso, mas permitiu que a obra fosse publicada. O após uma primeira rodada em abril de 1961, o julgamento ocorreu na Suprema Corte em novembro de 1963 e Fleming teve um ataque cardíaco. Intermediado por Ivar Bryce, Fleming e McClory fizeram um acordo fora dos tribunais na qual o escritor garantia os direitos do livro e o diretor de sua adaptação ao cinema – que de fato ocorreria em 1965. A sentença da Corte exigiu que o livro ganhasse a indicação de que fora “baseado no roteiro produzido por Ian Fleming, Kevin McClory e Jack Wittingham”. Fleming morreria 9 meses depois do julgamento, de um segundo ataque cardíaco, em 24 de agosto de 1964.

Enquanto livro, Thunderball inicia uma nova fase nas obras de James Bond, dando início à Trilogia da SPECTRE ou Trilogia Blofeld, uma nova organização terrorista sem filiação ideológica ou nacional, cujo objetivo é acirrar a Guerra Fria e ganhar dinheiro e poder com isso. Na trama, M recebe os exames médicos de James Bond que atestam que sua saúde não está boa, por causa de excesso de álcool e cigarros, e o manda para uma clínica de recuperação; e depois, o MI-6 recebe um comunicado de Ernst Blofeld, o líder da SPECTRE, de que a organização sequestrou um caça da OTAN com duas ogivas nucleares e irá destruir duas grandes cidades do mundo ocidental se não receber um pagamento de US$ 100 milhões não for pago. O caça é levado para as Bahamas e escondido dentro do iate Disco Volante de Emilio Largo, o segundo em comando da SPECTRE, que o levará até uma base submarina.

O vilão Emilio Largo faz a tradicional sala à James Bond no filme.

O risco é tão alto que o Reino Unido, EUA e OTAN desencadeiam a Operação Thunderball para reaver as bombas e, por causa da emergência, o ex-agente da CIA, Felix Leiter, é retirado de sua agência de detetives e trazido de volta à espionagem para auxiliar a operação. 007 é enviado às Bahamas como parte do esforço e suas investigações o levam a Largo. Bond conhece Dominó Vitali, que trabalha no Disco Volante e a seduz e informa que Largo matou o irmão dela (Giuseppe Pettachi, o traidor da OTAN que roubou as bombas) e ela passa ao seu lado, ingressando no iate com um contador Geiser para encontrar as bombas, e ela termina sendo descoberta por Largo e torturada, mas não revela o plano.

Enquanto isso, Bond, Leiter e um exército de operativos está à bordo de um submarino americano em perseguição ao iate e localizam a base do grupo, iniciando uma missão submarina com mergulhadores para deter os homens da SPECTRE. No fim, Bond e Largo terminam em um duelo numa caverna submarina, mas o vilão é morto por Dominó, que usa o disparo de um arpão de pesca contra seu torturador.

Uma das polêmicas sobre o livro e o caso judicial é sobre quem teria criado a SPECTRE, Fleming ou McClory. O escritor Raymond Benson, que deu continuidade à série de livros de 007 anos depois, acreditava que era uma criação de McClory, porém, o biógrafo de Fleming, Andrew Lyccet publicou em seu livro um memorando de Fleming para McClory em que o escritor recomenda trocar a SMERSH (a organização de contraespionagem da União Soviética que fora a grande oponente de Bond até então) pela SPECTRE, porque esta seria mais poderosa e influente, reunindo ex-membros da Gestapo, SMERSH, Máfia, Black Tong e outras organizações. O escritor John Cork também notou que Fleming já tinha usado a palavra “spectre” antes, na Spectreville de Seraffino Spang em Os Diamantes são Eternos e no aparelho Spektor de Moscou Contra 007.

Independente de tudo, o livro fez um grande sucesso, com a primeira edição em capa dura da Jonathan Cape com tiragem de 50.900 cópias vendidas rapidamente e o lançamento concomitante nos EUA, sendo o livro de 007 de maior sucesso naquele país até então.

Isso deve ter ajudado ao fato de que Thunderball foi o primeiro livro de Ian Fleming a ser lançado no Brasil logo após seu lançamento: o país viu sua primeira edição publicada ainda em 1961 com o título de Operação Relâmpago, pela editora Civilização Brasileira; mas em 1965, com o relançamento da obra de Fleming de modo mais organizado no país (ainda que dividido com a editora Bestseller), finalmente ganhou o título A Chantagem Atômica, em acordo com a dublagem do filme no Brasil.

A Chantagem Atômica – como ficou conhecido no Brasil – terminou virando o quarto filme de 007, em 1965, o primeiro a ser lançado após a morte de Ian Fleming, e mediante um acordo com Kevin McClory, que ganhou o crédito de produtor e concordou em não produzir uma nova versão do filme (ao qual tinha direito na Justiça) no prazo de 10 anos. Quando o prazo encerrou, McClory negociou os direitos da história com a Warner Bros. e terminou lançando-o com o título de 007 – Nunca Mais Outra Vez, em 1983, trazendo Sean Connery de volta ao papel após 12 anos. Anos depois, a EON comprou de McClory os direitos do filme e, apesar de ser considerado como fora da franquia oficial, pelo menos pertence à empresa atualmente.

The Spy Who Loved Me, 1962

Enquanto dava os toques finais no roteiro de Thunderball com Kevin McClory e Jack Whittingham, Ian Fleming resolveu fazer um ousado experimento com seu livro seguinte e produziu The Spy Who Loved Me, uma obra narrada em primeira pessoa por uma garota que se envolve quase acidentalmente com James Bond. Por isso mesmo, o grande parte do livro é focado na biografia da jovem Vivienne Michel e 007 só aparece no terço final da história.

O livro é dividido em três partes. Em Me, conhecemos a história de Vivienne, nascida no Canadá, morando na Inglaterra, e conhecendo seus amores e seus percalços, que envolvem ter que fazer um aborto na Suíça após ter engravidado de seu chefe alemão, que a abandonou. De volta ao Canadá, ela decide viajar pela América do Norte e termina parando para trabalhar em um Hotel de beira de estrada no interior do estado de Nova York durante a alta estação. Em Them, Vivienne é orientada a fechar o caixa do estabelecimento que vai fechar para a temporada do inverno e deixar tudo pronto para a inspeção do dono, o Sr. Sanguinetti, que na verdade, é um mafioso com planos de incendiar o hotel e ganhar o dinheiro do seguro, matando Michel e fazendo-a parecer a culpada pelo acidente. Para isso, envia uma dupla de capangas, Sluggsy Morant e Sol “Horror” Horowitz, que decidem se aproveitar de Vivienne e tentar estuprá-la.

Por fim, em Him, quando Michel está prestes a ser violentada, um hóspede desavisado chega ao hotel… É James Bond, que está de passagem pela região enquanto investiga o caso Thunderball. 007 logo desconfia do que está acontecendo ali, mas termina na cama com Vivienne, mas Sluggsy e Horror põem o plano em ação e tentam matá-los. Após um confronto e uma fuga, o carro dos vilões cai em um lago. Bond e Vivienne voltam para a cama, mas Sluggsy sobreviveu e ataca de novo, sendo morto por Bond. Na manhã seguinte, Michel acorda com uma nota escrita pelo agente, dizendo que toda a ajuda estaria à caminho, e uma força policial chega para auxílio. Depois, ela parte para continuar sua viagem pelo continente, guardando com carinho a lembrança de Bond.

Quando lançado em abril de 1962, The Spy Who Loved Me foi simplesmente massacrado pela crítica, que não foi cativada pela história mundana de Vivienne Michel e nem com a subversão do estilo de 007. Também incomodou o fato desse ser o livro com maior presença de sexo explícito e violência gráfica, o que lhe deu um caráter muito adulto. Por outro lado, parte da crítica pensou que a protagonista era a mais completa e bem resolvida personagem feminina criada por Fleming.

Mais tarde, Fleming explicou que escreveu o livro pensando no público juvenil de 007, que crescia a cada ano, porém, a recepção fria, o deixou amargurado e decepcionado. Tanto que impediu que uma versão em paperback fosse publicada (só sairia depois de sua morte) e quando vendeu os direitos de adaptação ao cinema do livro, solicitou expressamente que apenas o título do livro fosse usado, mas nada de sua trama.

De fato, O Espião que Me Amava foi levado ao cinema em 1977, como o terceiro filme estrelado por Roger Moore dentro da franquia de 007, com uma trama que não devia absolutamente nada ao livro original, e mostrava Bond se apaixonando por uma espiã soviética, enquanto se aliava aos russos para deter uma ameaça maior, e terminou rendendo um dos melhores filmes da franquia e o melhor de Moore em sua longa temporada no papel.

O livro, por sua vez, foi lançado no Brasil em 1965, pela editora Bestseller com o título de Espião e Amante.

On Her Majesty’s Secret Service, 1963

Com o fiasco de The Spy Who Loved Me, Ian Fleming voltou ao seu “normal” e produziu aquele que é o livro preferido de 007 de muitos fãs e críticos. A Serviço Secreto de Sua Majestade é o segundo capítulo da Trilogia Blofeld e uma sequência direta de Thunderball. Aliás, essa trilogia focada na SPECTRE possibilitou uma forte conexão entre as tramas dos livros, dando um senso de sequência mais intenso do que nos anteriores.

Outra curiosidade é que Fleming escreveu On Her Majesty’s… entre janeiro e fevereiro de 1962 ao mesmo tempo em que 007 Contra o Satânico Dr. No era filmado muito perto de sua casa, na Jamaica. Portanto, era a primeira obra de James Bond influenciada pela ambientação cinematográfica e pelo ator Sean Connery.

O livro começa com um James Bond sentimental visitando o túmulo de Vesper Lynd, sua paixão em Cassino Royale, ao mesmo tempo em que está há mais de um ano investigando a Operação Thunderball e em busca da SPECTRE e seu líder Ernst Blofeld, e frustrado com o beco sem saída e a pressão de M para as respostas, 007 escreve uma carta de desligamento do MI-6 e caí fora. Num jogo de carteado, ele conhece a bela Contessa Tereza “Tracy” Di Vicenzo e se encanta por ela; mas no dia seguinte, quando vai em busca dela, precisa impedi-la de cometer suicídio. Em seguida, é atacado por uma trupe de capangas e sequestrado, sendo levado à presença de Marc-Ange Draco, o líder da Unione Corse, o maior sindicato do crime da Europa, e é o pai da moça. Mas apesar de criminoso, Draco é afável e vê com bons olhos a relação de Bond e Tracy, chegando a lhe oferecer um dote de 1 milhão de Libras para que se case com ela, o que 007 recusa, embora continue a namorá-la nos dias seguintes.

Em gratidão, Draco fornece a pista que 007 precisa e lhe informa que Blofeld está escondido na Suíça e o College of Arms de Londres tem informações sobre ele. Nesta instituição, descobre que o vilão reivindicou o título de Conde de Bathalzar de Bleuville e precisa que o Colégio confirme sua titularidade. Na visita é exibido a 007 o brasão de armas de Sir Thomas Bond, que pode ser seu antepassado e o lema de sua família é “O Mundo Não É o Bastante” em latim. Em seguida, Bond assume o disfarce de Sir Hilary Bray, o representante do Colégio que irá à Suíça verificar a autenticidade da nobreza de Blofeld, pois para ser o tal Conde, teria que ter os lóbulos da orelha soltos, uma marca física da família alegada.

Blofeld no cinema.

Bond vai aos Alpes Suíços, encontrar Blofeld no Piz Gloria um restaurante circular no topo de uma montanha de 2.700 metros de altitude, onde mantém um centro avançado de medicina, trabalhando na cura de alergias. Claro, 007 irá descobrir, é tudo uma fachada para uma lavagem cerebral de jovens irlandeses para carregarem armas biológicas a mando da SPECTRE, sob a custódia da impassível Irma Blunt. O evento é o primeiro encontro entre Bond e Blofeld – que havia atuado apenas nos bastidores em Thunderball – mas a investigação do espião o leva a ser descoberto e ele precisa realizar uma escapada desesperada em esqui montanha abaixo, sendo perseguido por um exército de homens da SPECTRE. 007 consegue escapar, mas chega exausto ao pé da montanha, quando uma nova leva de capangas aparece, mas ele recebe a ajuda de Tracy Di Vicenzo, que fora para lá quando seu pai lhe contou o plano.

Com sua ajuda, Bond volta a Londres e, com a ajuda de Draco e da Unione Corse, organiza um ataque aéreo à clínica de Blofeld, que é bombardeada e destruída, mas o terrorista consegue escapar. Encantado com sua mulher altiva e independente, Bond pede Tracy em casamento e ela aceita. O casal vai à Alemanha e se casa, mas ao pegarem a estrada para a Lua de Mel, Blofeld e Blunt aparecem num carro e metralham o carro do casal. Bond escapa, mas Tracy é morta.

Apesar do fracasso do livro anterior, o sucesso do filme Dr. No lançado alguns meses antes impulsionou o interesse do público e … Secret Service vendeu 42 mil cópias ainda antes de seu lançamento em abril de 1963, e encerrando o ano com 75 mil cópias vendidas, a maior tiragem da série literária até então. E o mesmo se deu nos EUA, com uma nova editora, saindo a Viking Press e entrando a New American Library, e chegando ao topo da Lista dos Livros Mais Vendidos do The New York Times por mais de seis meses! A crítica gostou bastante.

O livro foi lançado logo em seguida no Brasil, em 1964, já com o título A Serviço Secreto de Sua Majestade, pela editora Bestseller.

George Lazemby vive Bond pela única vez: bom filme, baixa bilheteria.

A Serviço Secreto de Sua Majestade seria adaptado ao cinema em 1969, com o primeiro filme da franquia sem Sean Connery, o que chega a ser uma pena, pois a trama mais humana seria um ótimo veículo para a forte interpretação do ator, enquanto Bond foi vivido por George Lazenby, em sua única aparição na série. Connery voltaria para o seguinte e, depois, Roger Moore seria o titular do cargo. Quanto ao filme, é provavelmente, a mais fiel adaptação de um livro de Fleming ao cinema, o que também é um aspecto muito positivo; daí, também ser considerado um dos melhores filmes da série.

You Only Live Twice, 1964

Este foi o primeiro livro que Ian Fleming escreveu depois da estreia cinematográfica de 007 e também o último que lançou em vida. É o encerramento da Trilogia Blofeld e foi bastante influenciado pela interpretação de Sean Connery ao personagem, com o escritor incorporando o senso de humor irônico e o background escocês do ator. Dá para ver como nesse livro Fleming escreveu Bond com Connery em mente.

Na trama, 8 meses após a morte da esposa Tracy Di Vicenzo nas mãos de Blofeld, James Bond está completamente perdido, gastando seu tempo com bebida e jogatina e cometendo perigosos erros em sua profissão. Chegou ao ponto em que M está prestes a demiti-lo do serviço secreto; mas decide lhe dar uma última chance, designando-lhe uma missão diplomática no Japão, inclusive, renomeando-no como agente 7777. O objetivo é convencer o serviço secreto nipônico a fornecer informações confidenciais sobre as ações dos russos no Pacífico em troca de informações britânicas.

Bond chega ao Japão e é ciceroneado pelo australiano Dikko Henderson, que o apresenta a Tiger Tanaka, o chefe do serviço secreto japonês; mas embora se estabeleça uma boa relação entre Bond e Tanaka, o nipônico não está disposto a colaborar, dando a entender que já possuí as informações que a Grã-Bretanha poderia dividir com eles. Mas Tanaka pede ajuda de 007 para lidar com um criminoso que vem aterrorizando a ilha de Kyushu e mora em um velho castelo, dando a entender que pode colaborar após esse “favor”. Sem opções, 007 aceita e termina descobrindo que o Dr. Guntram Shatterhand e sua esposa são, na verdade, Ernst Blofeld e Irma Blunt.

O humor de Bond muda imediatamente, saindo do estado depressivo e lacônico para um humor irônico e um brilho no olhar, na expectativa de vingar seu inimigo. Instruído por Tanaka, Bond é treinado e maquiado para parecer um japonês e se infiltrar como Taro Todoroki, um minerador de carvão em Kyushu, apoiado pela atriz Kissy Suzuki. O plano dá certo por um tempo, até Bond ser desmascarado por Blunt, que o encaminha para uma execução, mas 007 escapa, e realiza um duelo com Blofeld, que estava usando uma armadura de samurai e uma espada, enquanto o agente secreto tem apenas uma vara de madeira. Ainda assim, Bond sai vitorioso e num rompante de vingança mata Blofeld estrangulando-o com as próprias mãos. Em seguida, explode o castelo e foge.

Porém, na explosão, Bond termina atingido na cabeça e fica com amnésia. Kissy salva sua vida, mas apaixonada por ele, fica vivendo com ele como se ele fosse um pescador japonês em uma pequena vila japonesa. Tanaka, M e o resto do mundo pensam que ele morreu e o jornal The Times publica seu obituário – que apresenta o relato biográfico mais completo de 007 já mostrado nos livros, revelando um resumo de sua vida e informações pessoais, como o nome de seus pais. Kissy descobre que está grávida e aguarda que Bond a peça em casamento antes de lhe contar a verdade, mas quando ele lê o nome da cidade soviética de Vladivostok em um jornal, algo desperta nele e decide viajar para lá em busca de descobrir seu passado.

You Only Live Twice foi lançado com o tradicional sucesso, vendendo antecipadamente ainda mais que seu predecessor, com 62 mil cópias encomendadas à Jonathan Cape antes do lançamento, em março de 1964, A crítica o recebeu bem no geral, com parte dos críticos dizendo que era o melhor livro de 007, enquanto outros diziam que estava longe de ser o melhor. Porém, o maior consenso era de que era um livro mais “cansado” de Bond, muito pautado em seu estado de espírito sombrio, muito carregado com as cenas de diálogo entre Bond e Tanaka, e com pouca ação. Visto hoje, de fato, fica alguns pontos abaixo dos dois primeiros episódios da Trilogia Blofeld e termina em uma nota mais fria.

Só Se Vive Duas Vezes foi escrito e lançado em meio à turbulência do julgamento de plágio movido por Kevin McClory e isso parece ter mesmo impactado o resultado final. Ian Fleming morreu cinco meses depois do lançamento do livro, vítima de seu segundo ataque cardíaco.

O livro foi lançado no Brasil em 1965, pela editora Bestseller com o título de A Morte no Japão, embora o filme lançado dois anos depois tenha adota o título Só Se Vive Duas Vezes.

Só Se Vive Duas Vezes (1967) foi adaptado como o quinto filme da franquia de 007 nos cinemas, contudo, servindo como uma sequência de A Chantagem Atômica e seguido de A Serviço Secreto de Sua Majestade, embaralhando completamente a ordem original da cronologia de Bond. O filme usou o plot do livro de modo apenas casual, mantendo a premissa da ida de Bond ao Japão, mas mudando a trama de modo significativo. No filme, o MI-6 finge a morte de 007 para que ele deixe de ser seguido pela SPECTRE e possa pegar Blofeld, o que tornou a vida “disfarçada” no Japão ainda mais bizarra.

Por causa da mudança da ordem, é no filme Só Se Vive Duas Vezes que se dá o primeiro encontro entre Bond e Blofeld, mas o longametragem seguinte, A Serviço Secreto de Sua Majestade (1969), ignora isso e estranhamente mostra como se Blofeld não reconhecesse 007 quando os dois se encontram na Suíça. Embora Tracy seja morta naquele filme, a vingança de Bond no cinema é transferida para a trama de Os Diamantes são Eternos (1971), mas não há uma batalha final, já que Blofeld escapa e no cinema não há realmente o desfecho da trama de Blofeld, pois o vilão e a SPECTRE não retornaram mais à franquia (provavelmente por causa do processo de McClory). Apenas em Na Mira dos Assassinos (1985), é incluída uma cena inicial em que 007 usa um helicóptero para capturar um vilão careca com um gato nas mãos em uma cadeira de rodas e o lançar em uma chaminé, dando apenas a entender que aquele é Blofeld, mas sem fazer nenhuma menção direta a isso.

The Man with the Golden Gun, 1965

Combalido pelo processo de plágio de Kevin McClory, debilitado pelo ataque cardíaco que sofrera em 1963, e sofrendo pelos anos de abuso de álcool e cigarro, um Ian Fleming doente e exausto voltou à Jamaica uma última vez em janeiro e fevereiro de 1964 para escrever The Man with the Golden Gun. Voltou a Londres em março com o primeiro manuscrito e entregou ao seu editor, avisando que precisaria de mais trabalho para a finalização. A ideia de Fleming era retomar o trabalho no livro na primavera de 1965 e, com isso, romper pela primeira vez com a tradição de lançamento anual que mantivera desde 1953.

Mas seu editor assistente, William Plomer achou que a obra estava pronta para a publicação e encaminhou à editora Jonathan Cape, cujos editores acharam que o livro precisava mesmo de mais trabalho. De qualquer modo, Fleming morreu em 12 de agosto de 1964, vítima de seu segundo ataque cardíaco. A editora, então, pagou ao escritor Kingsley Amis para ler e produzir uma resenha com recomendações de mudanças no outono daquele ano, embora, no fim das contas, aparentemente, tais recomendações não tenham sido usadas. Porém, a maioria dos autores afirma que Amis finalizou o livro, revisando, reestruturando e reescrevendo a história. O Homem da Pistola de Ouro foi lançado postumamente em abril de 1965.

A trama dá sequência aos eventos de You Only Lives Twice: 8 meses depois de ter sido dado como morto, James Bond aparece na sede do MI-6, em Londres, apresentando-se a M, mas ao se reunir com o chefe tenta matá-lo com uma pistola de veneno. Contido por outros agentes, Bond é submetido a exames e se verifica que ele sofreu uma lavagem cerebral dos soviéticos e foi enviado em uma missão suicida para matar M. Daí, descobrem que 007 sobreviveu ao ataque final a Blofeld, viveu algum tempo como um pescador japonês com amnésia e terminou indo à União Soviética em busca de seu passado esquecido, quando terminou nas mãos da KGB. O tratamento com eletrochoques é bem sucedido e Bond volta ao normal pouco tempo depois.

Apesar disso, M encaminha 007 para uma missão que só pode ser pensada como suicida. Será que M queria dar um fim digno a Bond? A missão consiste em eliminar um assassino cubano chamado Francisco Scaramanga, que é chamado de “o homem da pistola de ouro” porque usa um Colt .45 banhado em ouro com balas de ouro sólido revestidas de prata, e que matou vários agentes britânicos nos últimos anos. Bond vai a Jamaica descobrir um plano na qual Scaramanga está construindo um resort como fachada para uma operação da KGB que consiste em exportar drogas para os Estados Unidos e, com isso, enfraquecer o Ocidente.

Bond se infiltra na construção do hotel e lá encontra seu amigo Felix Leiter, que continua trabalhando para a CIA depois da Operação Thunderball. Mas Scaramanga descobre que 007 é um agente britânico e pretende matá-lo durante uma viagem de um trem turístico para entreter os gangsters que estão com eles. Mas com a ajuda de Leiter, Bond vira o jogo e mata todos os criminosos; com Scaramanga fugindo pelo pântano até o duelo final entre os dois. Levado ao hospital, Bond e Leiter recebem um prêmio do Governo Jamaicano. De volta à Grã-Bretanha, é oferecida a Bond a KCMG, a Mais Distinta Ordem de São Miguel e São Jorge, a mais alta comenda militar do Reino Unido, mas o agente recusa, por se achar apenas um serviçal anônimo de sua Majestade. O livro revela, pela primeira vez, o nome de M: Almirante Sir Miles Messervy, membro da KCMG.

The Man with the Golden Gun foi recebido negativamente pela crítica, embora de modo respeitoso, pois Fleming havia morrido apenas 8 meses antes. A versão publicada do livro era menor do que a maioria dos livros de 007 e lhe faltavam as coloridas descrições que fizeram fama do autor, o que serve para mostrar que Fleming acrescentava esses detalhes no segundo tratamento ao manuscrito, quando voltava de suas férias anuais, mais uma vez descontruindo a tese que o escritor tentou construir de que fazia tudo de uma vez sem olhar para trás. A crítica concluiu que Fleming devia estar muito doente, cansado e desanimado para conseguir construir uma obra interessante e realizou o que muitos consideram como o mais fraco dentre todos os livros de 007, atrás até mesmo do experimental The Spy Who Loved Me.

Visto em si mesmo, O Homem da Pistola de Ouro é um final melancólico para a saga de James Bond, uma aventura sem vida (inclusive no tratamento aos personagens), sem graça, contra um vilão que não representa em momento nenhum uma grande ameaça e que empalidece diante da grandiosidade anterior da Trilogia da SPECTRE e também do confronto épico contra oponentes como Goldfinger, Largo, Drax ou Le Chiffre.

O livro foi lançado no Brasil ainda em 1965, agora pela editora Globo, e com o título de O Homem com o Revólver de Ouro para ficar mais claro. Em português e em inglês distinguimos “revólver” como a arma de fogo que usa um “cão” semi-manual para disparar a arma e precisa ser engatilhado a cada tiro; enquanto “pistola” é a arma de fogo na qual o engatilhamento é automático, sem precisar reposicionar o cão. Saramanga usa um revólver de ouro na história, mas para o lançamento do filme, muitos anos depois, se optou por usar a palavra “pistola”, mais sonora, mesmo que o personagem no filme também use um revólver.

Christopher Lee como o Homem da Pistola de Ouro: bom vilão, filme ruim.

O Homem da Pistola de Ouro foi adaptado ao cinema em 1975 como o segundo filme estrelado por Roger Moore e teve o lendário ator Christopher Lee no papel do vilão-título, num filme que usou muito pouco da obra original, movendo a trama do Caribe para as ilhas do Oriente e tomando a Crise de 1973 como pano de fundo e alguma pitada dos filmes de artes marciais tão em voga na época. Contudo, tal qual o livro em que se originou, o filme permanece como um dos piores da franquia.

Octopussy & The Living Daylights, 1966 (contos)

Em vista do esquema de trabalho de Ian Fleming, quando o autor morreu, em agosto de 1964, não deixou praticamente nada de inédito sobre 007, à exceção de The Man With the Golden Gun, que já estava em vias de edição. Porém, restavam 4 contos já publicados que não tinham sido lançados em livro e os herdeiros do escritor decidiram publicá-lo como livro em 1966, para manter (pela última vez) a periodicidade anual dos livros de 007.

Na verdade, em sua edição original Octopussy & The Living Daylights contou apenas com os dois contos do título em uma edição de capa dura pela editora Jonathan Cape. Dois anos depois, quando foi publicada a edição em capa de papel (paperback), foi incluída a história The Property of a Lady; e quando o livro foi relançado em 2002 pela editora Penguin, foi incluído o quarto, 007 in New York. Vamos aos contos…

  • Octopussy: Escrito em 1962, este conto foi originalmente publicado no jornal britânico Daily Express de forma serializada entre 04 e 08 de outubro de 1965, ou seja, já de forma póstuma. Octopussy era o nome de uma canoa do tipo coracle (pequenas embarcações para uma pessoa do País de Gales), que Ian Fleming ganhou de presente de sua vizinha na Jamaica – e amante – Blanche Blackwell, que o escritor homenageou várias vezes em suas histórias, inclusive, no barco do Dr. No, que leva seu primeiro nome. Ela era mãe de Chris Blackwell que fundou a Island Records, que se tornou uma das principais do Reino Unido. A trama de Octopussy tem a mesma estrutura de Quantum of Solace, ou seja, uma narrativa em que Bond é o catalisador, mas é um personagem coadjuvante de outro que conduz a trama por meio de flashbacks. Na história, 007 vai atrás do Major Dexter Smythe, um herói da II Guerra Mundial a qual pesa a suspeita de ter se apropriado de ouro roubado pelos Nazistas. Bond encontra o militar, agora, um velho alcoólatra, sombrio e solitário, cuja principal companhia é um polvo de estimação, com que conversa e dá comida, chamado Octopussy. Smythe conta-lhe sua história em detalhes e assume a apropriação do ouro roubado, que tomou de um nazista chamado Hans Oberhouser. O agente lhe dá duas opções: suicídio ou corte marcial. Mas enquanto pesca um peixe escorpião para alimentar seu polvo, Smythe é envenenado pelo mortífero peixe e termina se afogando. Complacente, 007 registra sua morte como acidental.
  • The Living Daylights: 007 recebe uma missão de servir como um snipper (atirador de elite) para auxiliar o agente 272 do MI-6 a sair ileso da Alemanha Oriental via Muro de Berlim, com o conhecimento de que um agente alemão chamado Trigger irá tentar abatê-lo. Bond se instala no topo de um hotel com vista à região e passa três noites monitorando o movimento e observando uma orquestra feminina chegar e ensaiar, se encantando com uma violoncelista. Quando 272 finalmente fez sua travessia, Bond percebeu que Trigger era a tal violoncelista e decide atirar apenas contra a arma dela, sem feri-la. Depois, 007 fica pensando que tal ato de insubordinação poderia lhe render a cassação de seu número 00 (a permissão para matar). O conto foi originalmente publicado com o título de Berlin Escape no The Sunday Times em fevereiro de 1962; e também saiu na revista dos EUA, Argosy, em junho do mesmo ano.
  • The Property of a Lady: 007 é encarregado de acompanhar um leilão na Sotheby’s de um Ovo de Fabergé (as esculturas de ouro do famoso artista produzidas para o Império Russo no século XIX) que é uma fachada para realizar o pagamento de uma agente dupla dos soviéticos. Sua missão é identificar o líder da KGB em Londres. Ele o faz e consegue reunir provas para que o homem seja expulso da Inglaterra. O conto foi encomendado especialmente pela casa de leilões Sotheby’s para que fosse publicado no seu jornal, The Ivory Hammer, em novembro de 1963; e depois, também foi publicado nos EUA na Playboy. Mas Fleming ficou tão desgostoso do resultado final que escreveu ao diretor da Sotheby’s, Peter Wilson, que não o pagasse pelo trabalho.
  • 007 in Nova York: 007 vai a Nova York para comunicar à agente Solange que seu novo namorado é um espião da KGB. A história foi escrita por Fleming na época da pesquisa que rendeu o livro reportagem Thrilling Cities, e terminou publicada no The New York Herald Tribune, em outubro de 1963 com o título de Agent 007 in New York. Porém, ganhou seu título definitivo quando foi publicado como um bônus na edição norteamericana de Thrilling Cities, em 1964.

O livro foi lançado no Brasil logo em 1966, agora, pela editora Bloch, com o título de Encontro em Berlim.

Os contos de Octopussy & The Living Daylights também foram adaptados ao cinema. Octopussy nomeou o filme de 007 em 1983, estrelado por Roger Moore, que adaptou a trama de Smythe e seu suicídio honrado, porém, colocando sua filha como a coadjuvante real da história em meio a uma organização criminosa. Além disso, o filme adicionou a trama do leilão do Ovo de Fabergé de The Property of a Lady como um subplot.

The Living Daylights foi usado como título do filme de 007 de 1987 (no Brasil, Marcado para a Morte), o primeiro estrelado por Timothy Dalton, mas desenvolvido a partir de outra trama. Apesar disso, o subplot do conto original foi adaptado na íntegra no início do filme, embora alterando o motivo de Bond disparar apenas na arma: ele o faz não apenas porque ela é bonita e ele gosta dela, mas porque percebeu, pela maneira que ela manuseava o rifle, que não se tratava de uma profissional, desencadeando uma trama em que a violoncelista Kara Milovy é um bode expiratório de uma trama bem maior.

Por fim, a personagem Solange de 007 in New York foi usada no filme Cassino Royale, de 2006, o primeiro com Daniel Craig; enquanto a trama daquele conto em si, de Bond avisar uma agente que seu namorado é um traidor, compôs parte da trama do filme Quantum of Solace, de 2008, que usou o título de outro conto do personagem.

007 por Outros Autores

Com a morte de Ian Fleming, a obra de James Bond ficou inacabada. Apesar da controvérsia se Kingsley Amis contribuiu ou não para a versão final do póstumo O Homem da Pistola de Ouro, o fato é que o escritor foi o primeiro – e durante muito tempo, o único – autor comissionado a produzir uma nova aventura de 007, publicando Colonel Sun, em 1968, tentando mimetizar o estilo de Fleming.

Amis era um escritor reconhecido, amigo e fã de Fleming. Em 1965, ele tinha publicado um popular ensaio sobre 007 chamado The Bond Dossier, e no mesmo ano – sob o pseudônimo de Tenente-Coronel William “Bill” Tanner (que, por sinal, era um personagem dos livros de 007) – The Book of Bond, um tipo de manual sobre 007. A Jonathan Cape lhe encomendou uma novela sobre o personagem e lançou – com o pseudônimo de Robert Markham Colonel Sun, que dá continuidade às aventuras de Bond.

O livro fez sucesso e até serviu de inspiração para os filmes, com o sequestro de M sendo usado no filme O Mundo Não é o Bastante; o vilão de Um Novo Dia para Morrer, Tan-Sun Moon, foi baseado no Coronel Sun Liang-Tan; e a cena da tortura de Bond em Spectre foi tirada diretamente do livro, inclusive, o diálogo de Blofeld.

Mas por qualquer motivo, não houve outro livro de 007 em muito tempo. Em 1973, chegou às livrarias James Bond: The Authorized Biography of 007, pelo estudioso John Pearson, uma “biografia” que trata como se Bond realmente existisse.

Um livro mesmo sobre 007 só foi lançado em 1977, uma adaptação em romance do filme The Spy Who Loved Me, escrito por Christopher Wood, que trabalhava como roteirista dos filmes. O filme usava apenas o título do livro de Fleming com outra história totalmente diferente, então, fazia sentido transformá-lo em um livro. A experiência foi repetida em 1979, com o filme Moonraker (O Foguete da Morte), este já um livro de Fleming.

O sucesso dos livros motivou a EON, que após adquirir a editora de Fleming, começou a publicar uma série de 14 livros, escritos por John Gardner (mais baseado no 007 dos filmes do que dos livros), que saíram de 1981 até 1996, misturando adaptações dos filmes (2) e histórias originais (14). Depois, o estudioso Raymond Benson – que havia escrito o The James Bond Bedside Companion (aqueles dossiês especiais em capa dura), em 1984 – deu continuidade ao Bond literário, com uma nova série de livros publicada entre 1996 e 2002, de novo, misturando adaptações de filmes (3) e histórias originais (6).

A longa série de Gardner e Benson construiu uma espécie de cronologia típica de 007. Gardner não desconsiderava nada do que Fleming produzira, apenas situava os eventos no presente (os anos 1980) como se as aventuras originais de Fleming tivessem ocorrido há pouco tempo antes; enquanto Benson manteve a mesma estrutura, embora tenha tornado Bond mais humano e falho, mais pautado na ação do que na bengala tecnológica das gagdets do cinema. O estratagema deu muito certo em termos de popularidade, embora a crítica nunca tenha apreciado os livros, ainda que reconhecesse que os de Benson eram melhores e um pouco mais próximos do estilo de Fleming do que os de Gardner.

Mas após tanto tempo, os livros ficaram desgastados e a EON decidiu realizar algumas experimentações, como o renomado escritor Sebastian Faulks com Devil May Care, de 2008 (que ignora a cronologia de Gardner e Benson e situa seu livro como uma sequência direta da obra de Fleming, situada nos anos 1960); Carte Blanche, de Jeffery Deaver, de 2011, situa Bond nos dias atuais, numa aventura contra terroristas pós-11 de setembro; Solo de William Boyd, de 2013, retorna aos anos 1960; enquanto Anthony Horrowitz também situou seus dois livros nos anos 1960, mas desenvolvendo tramas deixadas inacabadas por Fleming, com Trigger Mortis (2015) situada meses depois dos eventos de Goldfinger e trazendo Pussy Galore de novo; e Forever and a Day (2018) sendo um prequel (prelúdio) a Cassino Royale, mostrando como Bond conseguiu sua licença para matar.

Houve ainda a série de livros Young Bond, que retrata a adolescência de 007 nos anos 1930, baseando-se apenas no retrato deixado por Ian Fleming, escrito por Charlie Higson, com 10 livros entre 2005 e 2017.

TítuloAutorAno
Colonel SunKingsley Amis1968
James Bond: The Autorized Biography of 007John Pearson1973
James Bond, the Spy Who Loved MeChristopher Wood1977
James Bond and MoonrakerChristopher Wood1979
Licence RenewedJohn Gardner1981
For Special ServicesJohn Gardner1982
IcebreakerJohn Gardner1983
Role of HonourJohn Gardner1984
Nobody Lives for EverJohn Gardner1986
No Deals, Mr. BondJohn Gardner1987
ScorpiusJohn Gardner1988
Win, Lose or DieJohn Gardner1989
Licence to Kill (movie adaptation)John Gardner1989
BrokenclawJohn Gardner1990
The Man from BarbarossaJohn Gardner1991
Death is ForeverJohn Gardner1992
Never Send FlowersJohn Gardner1993
SeafireJohn Gardner1994
GoldenEye (movie adaptation)John Gardner1995
ColdJohn Gardner1996
Zero Minus TenRaymond Benson1997
Tomorrow Never Dies (movie adaptation)Raymond Benson1997
The Facts of DeathRaymond Benson1998
High Time to KillRaymond Benson1999
The World is Not Enough (movie adaptation)Raymond Benson1999
Double ShotRaymond Benson2000
Never Dream of DyingRaymond Benson2001
The Man with the Red TattooRaymond Benson2002
Die Another Day (movie adaptation)Raymond Benson2002
Devil May CareSebastian Faulks2008
Carte BlancheJeffery Deaver2011
SoloWilliam Boyd2013
Trigger MortisAnthony Horowitz2015
Forever and a DayAnthony Horowitz2018