Foi anunciado esta semana que a casa em que o cantor e compositor britânico David Bowie cresceu, nos subúrbios de Londres, será transformada em um museu/ centro cultural e será aberta ao público em 2027, em parceria com a Heritage of London Trust, instituição que preserva imóveis históricos. A casinha de dois pavimentos fica na rua Plaistow Grove, n.º 4, em Bromley, cidade da Região Metropolitana de Londres.

Conhecido como o Camaleão do Rock, por suas várias fases estéticas ao longo da carreira, Bowie viveu na casa da Plaistow Grove entre os anos 1955 e 1968, até às vésperas de se tornar um astro do rock. A casa será reformada para parecer uma residência com a cara do ano de 1963, quando o cantor tinha 16 anos de idade, e seu quarto de dormir será reconstruído, expondo como ele era em sua época, com seus livros e discos e até um poster de Little Richard na parede.

A iniciativa encontra eco nas residências-museus dos Beatles, na cidade de Liverpool, onde os fãs podem visitar os lares reconstruídos de John Lennon e Paul McCartney, por exemplo, e alguns outros casos no mundo, como a famosa Graceland de Elvis Presley nos EUA.

Nascido David Robert Jones, em Brixton, no sul de Londres, em 08 de janeiro de 1947, filho de um diretor de uma instituição filantrópica e de uma garçonete, ele se mudou para Bromley Common em 1955, quando tinha 8 anos de idade, na mesma época em que descobriu a música por causa da explosão do rock’n’roll. Após ter cantado no coral da escola e tocar flauta doce, ele começou a tocar violão e piano, sempre incentivado por seus pais, que admiravam sua verve artística, e ele se destacou na dança, também, nos tempos de escola. No ensino médio, Jones se interessou por jazz por causa da influencia de um tio, e passou a tocar saxofone em 1961, quando teve uma breve experiência em uma banda escolar chamada George and the Dragons. Seu professor de arte era pai do guitarrista Peter Frampton (futuro membro do Humble Pie e artista solo de sucesso nos anos 1970), de quem se tornaria amigo.

Em 1962, aos 15 anos, ele sofreu um incidente que marcaria sua vida: ao brigar em um pub com um amigo por causa de uma garota, levou um soco que afetou severamente seu olho esquerdo, o que rendeu uma internação de 4 meses, a perda de profundidade e um estado raro no qual sua pupila permanecia permanentemente dilatada. Isso causava a impressão de que os olhos tinham cores diferentes, mas era apenas a diferença entre as pupilas.

Após sair do hospital, Jones formou sua primeira banda, The Konrads, tocando rock’n’roll, antes de ingressar nos The King Bees, que tinham um repertório mais de blues e R&B, com quem lançou seu primeiro disco: um compacto com a canção Liza Jane, creditada como Davie Jones with the King Bees, em 1964, seguida por um segundo single, ambos sem sucesso, então, saiu dessa banda também e se juntou aos The Lower Third, em 1965, cujos singles também não fizeram sucesso. Naquela época, ele adotou o sobrenome artístico Bowie (inspirado na famosa faca americana), por causa de seu homônimo Davy Jones, que era parte do The Monkees. Com o novo nome, ele lançou mais singles com o The Lower Third e, em seguida, o The Buzz, todos sem sucesso.

David Bowie se lançou como artista solo em 1967 com mais alguns compactos e seu primeiro álbum David Bowie, todos sem sucesso, o que o levou a pausar a carreira musical e ir estudar arte dramática e mímica, ainda que algumas composições suas tenham sido lançadas por outros artistas ao longo do ano de 1968. Naquele ano, ele formou um trio folk chamado Feather, mas não foi bem sucedido. De volta a artista solo, conseguiu um contrato com a Mercury Records (parte do grupo Phillips) e conseguiu seu primeiro sucesso com o single Space oddity, em maio de 1969, o que lhe rendeu seu segundo álbum, também chamado David Bowie (mas que anos depois foi rebatizado com o título de sua canção mais famosa).
Bowie lançou os álbuns The Man Who Sold the World (1970) e Hunky Dory (1971), que apesar de não fazerem grande sucesso nas paradas, lhe tornaram um nome cult e admirado pela imprensa, especialmente neste último, que rendeu faixas brilhantes, como Changes, Life on Mars? e Oh! You pretty things, que contaram com a participação do pianista Rick Wakeman, logo famosíssimo como parte da banda de rock progressivo Yes. O visual de Bowie, usando maquiagem e vestidos, construíram uma imagem andrógena, o que também chamava bastante a atenção.

Mas sua performance visual foi ainda mais ousada no passo seguinte, adotando a personalidade de um roqueiro vindo de Marte e lançando o álbum The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars (1972), que foi um enorme sucesso na Inglaterra, e gerou hits como Ziggy Stardust, Five years, Moonage daydream, Starman e Sufragette City. Daí em diante, Bowie viveu uma era de estrelato na Europa, com os álbuns Alladin Sane (1973), Pin-Ups (1973) e Diamond Dogs (1974), antes de “matar” a persona Ziggy Stardust, a assumir um visual mais sóbrio e influenciado pela Soul Music e lançar Young Americans (1975), que foi seu primeiro álbum de sucesso nos Estados Unidos, e rendeu o 1º lugar das paradas Fame, escrita e cantada com John Lennon (ex-Beatles).

O megassucesso afetou Bowie e ele tentou se isolar, se mudando para a Alemanha e gravando uma série de álbuns mais experimentais e com roupagens mais eletrônicas, que tiveram recepção menos calorosa do público, mas continuaram cults para a crítica: Station To Station (1976), Low (1977), “Heroes” (1977, que rendeu um grande sucesso em sua faixa título) e Lodger (1978). Após um passo em falso com Scary Monsters (and Super Creeps) (1980), Bowie foi bastante impactado pelo assassinato de seu amigo John Lennon, em Nova York, em 1980, e se afastou um pouco dos holofotes por um tempo, até que se reinventou de novo, assumindo o visual yuppie dos anos 1980 e uma sonoridade dançante de influência Disco, que rendeu talvez seu maior sucesso em todos os tempos: Let’s Dance (1983).

Ironicamente, depois disso, Bowie nunca mais conseguiu um grande sucesso nas paradas, nem um álbum essencial de sua obra, mas seu legado foi o suficiente para mantê-lo um artista relevante. Após passar o restante dos anos 1980 com apenas alguns lançamentos, teve uma sequência mais intensa de discos nos anos 1990 até o lançamento de Reallity (2003), quando se afastou de novo da música e só retornou após uma década de hiato com The Next Day (2013).

Ao se descobrir doente de um câncer agressivo, Bowie investiu pesado na produção de seu último álbum, Blackstar (2016), onde retomou uma abordagem experimental. Infelizmente, o disco saiu no dia de seu 69º aniversário, apenas dois dias antes dele morrer.
Com suas grandes canções e suas ousadias estéticas, Bowie marcou presença na história do rock, da arte e da moda, e se sua casa-museu conseguir representar isso, ou pelo menos seus anos formativos, pode ser um empreendimento sensacional.

