Hoje pela manhã foram divulgadas as listas definitivas de indicação aos prêmios da Academia de Artes e Ciências de Hollywood deste ano, ou para os íntimos, o Oscar 2026. A má notícia é que nenhum filme de super-heróis foi indicado ao prêmio. Nem nas categorias técnicas! O que isso diz desse mercado em específico?

O Marvel Studios e a DC Studios, ancorados em seus empresas-mães, Disney e Warner, respectivamente, fizeram campanhas para indicações aos seus filmes lançados em 2025, como Quarteto Fantástico – Primeiros Passos e Capitão América – Admirável Mundo Novo, no primeiro caso, e Superman, no segundo. Mas não foi. Nem na categoria Efeitos Especiais eles foram indicados.

Na verdade, todo o campo nerd saiu perdendo, e nesse rol apenas Avatar – Fogo e Cinzas, de James Cameron, recebeu não uma, mas duas indicações, por Melhores Efeitos Especiais e Melhor Figurino. E só.

Cada um dos dois estúdios acima citados, representantes das duas maiores editoras de quadrinhos dos EUA, teve um filme presente na chamada lista Pré-Oscar, que são os candidatos às indicações. Superman apareceu na pré-indicação a duas categorias, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Som, enquanto Capitão América – Admirável Mundo Novo apareceu em Melhor Trilha Sonora Original. Mas na última rodada de votações, ambos saíram da lista final. Que pena!

Isso quer dizer alguma coisa nesse mundo Geek… Afinal, se na década passada os filmes de super-heróis geraram tanto dinheiro e sucesso que tensionaram as fundações da indústria cinematográfica ao ponto de pressionar para que fossem vistos como obras de prestígio e que fossem indicados a prêmios importantes, isso evanesceu em anos recentes, com filmes mal recebidos pela crítica, bilheterias muito mais baixas e sensação de esgotamento do nicho.

A interpretação histórica de Heath Ledger lhe garantiu o Oscar.

Historicamente, os filmes do campo Geek eram premiados (ou indicados) em categorias técnicas, como Efeitos Visuais, no qual tanto Star Wars – Uma Nova Esperança (1977) quanto Superman – O Filme (1978) foram premiados pioneiros, e houve uma exceção mais artística para Batman – O Filme (1989) que ganhou uma indicação (mas não levou) para Jack Nicholson como ator coadjuvante pelo Coringa, e levou para casa o prêmio de Melhor Design de Produção. Batman Begins (2005) de Christopher Nolan rompeu a bolha com uma indicação a Melhor Fotografia (que não levou), mas sua sequência, Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008) arriscou mudar o paradigma, recebendo indicações a 8 prêmios: Direção de Arte, Fotografia, Edição, Maquiagem, Mixagem de Som e Efeitos Visuais, e ganhando Melhor Edição de Som e Melhor Ator Coadjuvante para Heath Ledger pelo papel de Coringa.

E isso foi antes da revolução artística do Marvel Studios e seu universo integrado com bilheterias astronômicas, ainda que, seja importante frisar, que o longa de Nolan foi o primeiro de super-heróis a ganhar um Oscar por interpretação (ou uma categoria “nobre” do prêmio) e o primeiro de super-heróis a ultrapassar 1 bilhão de dólares nas bilheterias.

Na década seguinte, o megassucesso do Marvel Studios pressionou a Academia a aceitar esses filmes populares e de sucesso como “produtos artísticos” também, o que levou à associação chegar a discutir criar um prêmio de Melhor Filme Popular, o que gerou uma reação tão negativa do meio cinematográfico e da imprensa que, após anunciado, foi cancelado sem entrar em vigor.

Pantera Negra foi um fenômeno.

Como resultado, vários filmes do gênero furaram a bolha e receberam grandes prêmios no Oscar nos anos seguintes: em 2018, Logan, o final da trilogia de Wolverine, por James Mangold, foi indicado a Melhor Roteiro Adaptado (uma das categorias nobres), e Homem-Aranha no Aranhaverso ganhou de Melhor Animação, com Vingadores – Guerra Infinita mantendo a tradição de ser indicado (e não ganhar) por Efeitos Visuais. Em 2019, Pantera Negra de Ryan Coogler (indicado este ano por Pecadores) marcou época com 7 indicações (uma a menos do que Cavaleiro das Trevas), incluindo Melhor Filme (categoria na qual o longa ganhou um Globo de Ouro!), Edição de Som, Mixagem de Som e Canção, e ainda ganhou três Oscars – Design de Produção, Figurino e Trilha Sonora (que se não são categorias nobres, eram daquelas bem artísticas) – e se tornou, então, o filme de super-heróis mais bem premiado da história do Oscar.

O Coringa garantiu o Oscar a outro ator, Joaquin Phoenix.

Em 2020, outro fenômeno: Coringa, com a versão brutal, bizarra e sombria do vilão do Batman em um filme fora do universo corrente dos longas do herói, foi indicado a nada menos do que 11 categorias, se tornando o filme de super-heróis com maior número de indicações, e levou dois prêmios: Melhor Ator para Joaquim Phoenix (que também ganhou um Globo de Ouro na mesma categoria) e Melhor Trilha Sonora. Naquele ano, houve outras indicações menores, com Vingadores – Ultimato a Melhores Efeitos Visuais, Star Wars – A Ascensão Skywalker a Efeitos Visuais, Trilha Sonora e Edição de Som, mas nenhum deles levou.

Pantera Negra 2 foi indicado a cinco e ganhou um.

Em 2023, outro bom ano: Pantera Negra 2 ganhou o Oscar de Figurino (mesma categoria que o primeiro filme também tinha sido premiado) e havia sido indicado a outras quatro, com Maquiagem e Cabelo, Efeitos Visuais, Canção e Atriz Coadjuvante para Angela Bassett, que muitos esperavam vencer, mas não levou (embora tenha sido premiada nessa categoria no Globo de Ouro). Batman de Matt Reeves manteve o pé quente do personagem e garantiu pelo menos três indicações, com Maquiagem e Cabelo, Edição de Som e Efeitos Visuais, embora não tenha levado nenhum. Mesmo com poucos prêmios foi um ano de bom número de indicações.

Doutor Destino: vai ou racha?

2026 pode ser um ano de entressafra ou um indicativo de que os filmes de super-heróis perderam a moral? É cedo para dar essa resposta, mas é preciso muita atenção ao Oscar do ano que vem, na verdade. Este ano teremos Supergirl e Clayface (Cara de Barro – outro filme isolado de um vilão do Batman, sem o herói) pela DC e Homem-Aranha – Um Novo Dia e Vingadores – Doutor Destino pela Marvel, que está crescendo em hype na esperança de retomar os velhos tempos de frisson por aqueles heróis. Todo esse investimento trará frutos às premiações conseguintes? Ou mesmo às bilheterias?

Como o HQRock mesmo comentou na época das pré-indicações ao Oscar deste ano, garantir uma indicação para Efeitos Visuais por Superman já seria um prêmio. E não aconteceu.

A única boa notícia desse Oscar 2026 é que O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, foi indicado a 4 Oscars! O Brasil será representado em Melhor Filme, Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Elenco e Melhor Ator para Wagner Moura. Será que repetiremos a vitória do ano passado?