Lex Luthor é o principal vilão das histórias em quadrinhos do Superman e em 2020 completa 80 anos de publicação. Em sua longeva existência, o personagem já foi adaptado para todas as mídias e representado no cinema de diversas maneiras, ao mesmo tempo, em que passou por diversas fases distintas nas HQs. O HQRock apresenta aqui um Dossiê Especial sobre esse querido criminoso e suas artimanhas para vencer o maior de todos os super-heróis.

Lex Luthor: maior vilão do Homem de Aço.
Lex Luthor: maior vilão do Homem de Aço.

Ajudado com certeza pelo cinema e TV (incluindo os desenhos animados), Alexander Joseph Luthor, ou Lex para os íntimos, se tornou um dos mais famosos vilões da cultura pop e uma referência de malignidade.

Por isso, raspe seu cabelo, vista um terno caro e bem cortado, ponha na mesa seus planos de dominação mundial e venha conhecer a trajetória desse que é um dos mais famosos vilões da cultura global.

Um vilão para o maior dos heróis

Primeiro, é preciso contextualizar a criação de Luthor dentro das histórias do Superman. O homem de aço foi criado pela dupla Jerry Siegel e Joe Shuster, que se conheciam desde os tempos de colégio e, na época do surgimento do herói, em 1938, tinham por volta dos 24 anos. Siegel e Shuster trabalharam juntos no jornal da escola deles, em Cleveland, nos EUA, e dali decidiram seguir a carreira profissional como quadrinistas.

Jerry Siegel (em pé) e Joe Shuster, criadores do Superman.

A dupla criou um fanzine em 1934 chamado Sciense Fiction na qual apresentaram a primeiríssima versão do Superman, retratado como um vilão careca e com poderes mentais. Pouco depois, começaram a desenvolver a versão heroica de um homem com super-força, roupa colorida e capa, mas demorou bastante para venderem a ideia. Antes disso, Siegel e Shuster começaram a vender histórias de vários outros personagens (e fizeram sucesso com isso) para a editora National Periodicals, o primeiro nome da DC Comics, até que o editor Vin Sullivan, responsável por lançar uma nova revista chamada Action Comics, precisar de vários personagens para encher a publicação e terminar por comprar os direitos do Superman, que acabou na capa de Action Comics 01, publicada em junho de 1938.

Superman foi o primeiro dos super-heróis. Antes havia heróis de diversos tipos (como o detetive Sherlock Holmes, por exemplo) e até vigilantes mascarados (como Zorro, O Sombra e O Fantasma, que estreou nas tiras de jornal em 1934), mas o homem de aço foi o primeiro a explicitamente trazer a combinação de super-poderes, uniforme vistoso e identidade secreta. O sucesso foi imediato e, logo, Action Comics se tornou a revista em quadrinhos mais vendida dos EUA, criando o gênero dos super-heróis que vieram logo em seguida para lhe copiar, como o Batman, Flash (ambos na própria DC Comics), Shazam (inicialmente chamado Capitão Marvel na Fawcett Comics) e Capitão América (na Marvel Comics).

Action Comics 23 traz a primeira aparição de Lex Luthor (e a terceira vez que Lois Lane é raptada).

Um vilão cabeludo

Lex Luthor foi criado pela dupla Jerry Siegel e Joe Shuster, aparecendo pela primeira vez em Action Comics 23, de abril de 1940. De início, era apenas mais um dos costumeiros vilões cientistas loucos que o homem de aço enfrentava mensalmente. Tanto que o personagem apareceu até relativamente tarde no cânone do Último Filho de Krypton, estreando praticamente dois anos após o herói ter chegado às bancas. E diferente do Coringa, por exemplo, que estreou em grande estilo e com estardalhaço na revista especial Batman 01, de 1940, Luthor chegou quase anônimo numa edição qualquer de Action Comics, sem qualquer indicativo de que ali surgia o principal oponente de seu protagonista.

Luthor com o cabelo curtinho em Action Comics 23.

Além disso, diferente do que os leitores estão acostumados, Luthor é retratado como alguém com cabelos ruivos, um homem de meia idade. O visual que conhecemos para o vilão demoraria um pouco mais para chegar.

Na trama de Action Comics 23, Luthor (o seu primeiro nome ainda não é revelado) é um cientista que tem como base um grande dirigível e está usando atentados para causar a guerra entre duas nações da Europa. Clark Kent e Lois Lane estão investigando para o Planeta Diário e o Superman consegue impedir os planos do vilão, que tem o dirigível destruído pelo herói, com Luthor aparentemente caindo para a morte junto com o aparelho, no típico final “parece que o vilão morreu, mas ele vai voltar” da Era de Ouro dos Quadrinhos.

Luthor nesta primeira aparição tinha os cabelos ruivos bem curtos, num estilo Ivy League (típico de universitários) – lembrando bastante o corte que ficaria famoso como o Lanterna Verde Guy Gardner – e seu ambicioso plano impressiona o Superman pela ousadia. O vilão usa uma arma de raios para deter o homem de aço, mas é vencido, como já escrito. Mas ao ser questionado pelo último filho de Krypton “que tipo de criatura ele é?” (por causa de sua maldade), recebe uma resposta definidora do vilão:

Sou apenas um homem comum… Mas meu cérebro é de um super-gênio. Mas com milagres científicos na palma das minhas mãos, estou preparado para me tornar o mestre do mundo!

Os historiadores de quadrinhos hoje consideram que, apesar da primeira aparição do vilão ter sido planejada para sair em Action Comics 23, tecnicamente, a “segunda” aparição de Luthor, na verdade, chegou primeiro às bancas, na revista Superman 04, de março de 1940. Enquanto Action Comics trazia as aventuras mensais do herói (e também publicava histórias de outros personagens, com uma média de 8 histórias por edição); Superman era uma revista inteiramente dedicada ao homem de aço, com quatro histórias completas e publicada de forma trimestral. As duas revistas circulavam paralelamente e de modo complementar, e vale lembrar que não era comum naqueles tempos um personagem ter um título apenas para si. E o Superman foi o primeiro a ter um só seu.

Lex Luthor em sua estreia, ainda com cabelos ruivos.
Lex Luthor com cabelos ruivos (um pouco mais longos) em Superman 04.

Por algum erro de planejamento da DC Comics, terminou que Superman 04 chegou às bancas dos EUA antes de Action Comics 23, com um mês de antecedência. Mas a circulação de Superman era mais lenta, por causa de sua periodicidade. Ela também ficava mais tempo disponível nas bancas, sendo mais provável que um leitor a lesse depois da outra. Talvez por isso, tradicionalmente, continua se considerar a primeira aparição de Luthor como sendo em Action Comics 23.

Superman 04 traz a segunda aparição de Luthor. E não é ele na capa!

Por sua vez, Superman 04 traz o retorno do vilão, numa trama explicitamente localizada após os eventos da anterior. E o vilão tem um cabelo um pouco mais longo. A história é chamada Superman versus Luthor, o que dá certo prestígio ao vilão. De fato, parece que, após mostrar o personagem para a primeira história, os editores da DC Comics gostaram e pediram por mais aparições, de modo a vir logo em seguida nesta revista especial. E não apenas isso: com duas histórias!

Luthor ordena a morte de Clark Kent.

Na primeira, Superman versus Luthor, o cientista maligno rouba uma poderosa máquina causadora de terremotos do Exército dos EUA, criando uma ameaça tão grande que o cientista que a criou se suicida para que ninguém possa mais usá-la. A trama envolvendo chantagem sob o risco de uma grande tragédia lembra um pouco a que seria usada em The Atom-Man, filme posterior do herói, e também de Superman – O Filme.

Na segunda história da revista, Luthor’s undersea city, o vilão se apossa de uma cidade no continente perdido de Pacifo (no Oceano Pacífico) e usa monstros pré-históricos contra o Superman.

A DC parece ter gostado e Siegel e Shuster trazem Luthor outra vez três meses depois, em Superman 05, publicada no verão de 1940, numa trama em que o vilão usa um incenso como narcótico para dominar a mente de magnatas e se aproveitar de uma grave crise econômica.

Luthor de cabelos em Superman 05.

A história é cheia de reviravoltas, com Clark Kent investigando a estranha ação de investidores, o Superman perseguindo um empresário até uma caverna onde ele se comunica com Luthor por meio de uma grande tela; convencendo o empresário a entregar os outros envolvidos; sendo preso em um cofre; se disfarçando de capanga; sendo descoberto por Luthor no meio de uma conferência com todos os homens mais ricos da cidade e o vilão ameaçando matar todos. A saída final é o homem de aço demonstrar que possui super-velocidade e desarmar todos os capangas antes de atirarem. Luthor foge em um avião, mas o Superman (na típica atitude mais agressiva de seus primeiros anos) simplesmente colide com a nave, que cai e, mais um vez, o vilão é dado como morto.

Após essa série de aparições sucessivas – Action Comics 23 e Superman 04 e 05, Luthor demoraria mais ou menos um ano para retornar. E voltaria diferente!

Um vilão careca

Apesar das primeiras aparições trazerem Luthor como um cientista maligno com cabelos ruivos, ele terminou ganhando a aparência mais famosa, como alguém totalmente careca, ainda em 1941. E foi pelo motivo mais mundano de todos: um erro do desenhista.

Exemplo da página domincal do Superman.

Com o sucesso do Superman, Jerry Siegel e Joe Shuster precisavam fornecer à DC Comics uma enxurada de novas histórias todos os meses, para as revistas Action Comics, Superman e World Finest, que começaria em breve a também publicar aventuras do herói. E o homem de aço ganhou sua própria tira de jornal, começando a ser publicada diariamente (em preto e branco) em 16 de janeiro de 1939, com histórias paralelas e inéditas, adicionada por uma série dominical (colorida) em 05 de novembro daquele ano para centenas de jornais dos EUA. As tiras seguiam o formato tradicional com apenas três quadros diários, enquanto as de domingo traziam uma página inteira de história.

Para dar conta de todo esse material, Siegel e Shuster fizeram o que era comum em sua época: criaram um estúdio, ou seja, enquanto a dupla era responsável principal pela criação das histórias e era quem tinha o contrato com a DC Comics, contratavam desenhistas “fantasmas” que não levavam crédito. Para piorar, a visão de Shuster começou a se degradar rapidamente, de modo que ele passou a somente supervisionar os trabalhos e, no início, a fazer as expressões faciais dos personagens principais. Dentre os artistas que passaram a trabalhar no estúdio estavam Wayne Boring, Paul Cassady, Leo Nowak e Paul Sikela.

E foi Leo Nowak o responsável pela mudança do visual de Lex Luthor. Pouco familiarizado com o material do Superman, o artista deu uma olhada rápida nas edições anteriores e confundiu o vilão com um de seus capangas em Superman 04, que era careca, e desenhou o vilão assim numa história das tiras de jornal no início de 1941.

Clark Kent e capturado por um capanga calvo…
… que depois se comunica com seu chefe, Luthor (ruivo). A sequência confundiu o desenhista.

Nowak aparentemente deu apenas uma olhada rápida em Superman 04 e viu a cena em que um dos capangas de Luthor atira Clark Kent pela janela e depois se comunica com seu chefe por meio de uma tela. Nowak pensou que o capanga (calvo) era Luthor (ruivo) e o desenhou dessa forma na tira de jornal. Deve ter reforçado essa impressão o fato de um homem careca aparecer na capa de Superman 04, bem no canto direito da página, como se pode ver mais lá em cima desse post.

O Ultra-Humanite, outro vilão do Superman.

Havia uma teoria que Nowak confundiu Luthor com outro vilão do Superman na época, o Ultra-Humanita, outro cientista louco e que era calvo (mas não totalmente). Porém, não foi o caso, já que essa teoria foi contestada pela maioria dos historiadores das HQs e também pela DC Comics, mantendo a explicação em torno do capanga careca.

Lex Luthor aparece calvo nas revistas pela primeira vez em Superman 10.

Siegel e Shuster ou não perceberam ou deixaram rolar, mas o fato é que a dupla gostou do resultado, pois Luthor ficou mais ameaçador sem cabelos. Então, decidiram usar o novo visual no retorno do vilão às revistas em Superman 10, de junho de 1941. O texto de Siegel foi desenhado de novo por Leo Nowak, que fez Luthor não apenas careca, mas um pouco mais gordo do que o habitual. Não há qualquer menção ao fato de Luthor ter tido cabelo nas aparições anteriores.

Luthor e o herói em Superman 10.

Mas o vilão voltou ao peso normal logo em seguida, em Superman 12, com desenhos de John Sikela, seguindo retornos imediatos em Superman 13 e Action Comics 42 (a segunda vez que aparecia nesta revista, apenas).

Vale lembrar que nesta altura, Superman que era um título trimestral passou a ser mensal também e o homem de aço aparecia em dose dupla a cada mês nas bancas dali em diante.

Mas curiosamente, Superman era a casa de Luthor, porque o vilão só retornaria à Action Comics outra vez no número 125, de 1948! Mas continuava atormentando o homem de aço e ameaçando o mundo seguidamente em Superman, regressando na edição 17 e tendo mais 18 aparições até Superman 90, de 1954.

Os historiadores consideram que Superman 90 traz a última aparição de Luthor em sua versão da Era de Ouro. Dali em diante, a DC Comics começava a incorporar os elementos do Superboy (veja abaixo) às histórias do Superman e a construir uma cronologia diferente para o homem de aço daquela em que um herói adulto já com algum tempo de carreira cruzou o caminho do cientista louco com planos de dominar o mundo.

Essa divisão seria esboçada nos anos 1960 e ficaria mais definida nos anos 1970, quando se convencionou que esse Luthor da Era de Ouro que segue de Action Comics 23, de 1940, até Superman 90, de 1954, é um homem de bem mais idade do que o Superman e ligeiramente acima do peso, com poucos detalhes conhecidos sobre sua vida e cujo o nome completo seria Alexei Luthor.

O Luthor que se desenvolve a partir do fim dos anos 1950, ou seja, da Era de Prata, seria uma versão mais jovial do vilão e que não era um atleta, mas tinha uma compleição física comum (e ficaria bastante atlético a partir de 1970). Este Luthor teria uma história familiar mais detalhada (como veremos agora) e seu nome completo seria Alexis Luthor.

O Amigo de Clark Kent

Lex Luthor se torna calvo sem explicações.
Lex Luthor em Superman 18, de 1942, na arte de Leo Nowak.

Ver Luthor como um amigo de Clark Kent ao mesmo tempo em que é o grande inimigo do Superman se tornou uma versão bastante conhecida do personagem e ela apareceu no início dos anos 1960, em meio a uma série de transformações no universo do homem do amanhã.

Acontece que a DC Comics vinha publicando histórias do Superman desde 1938 (bem como do Batman e da Mulher-Maravilha, desde 1939 e 1941), mas os outros heróis antigos da editora foram aposentados, cancelados e ganharam novas versões na década de 1950, liderados pelo editor Julius Schwartz, como Flash, Lanterna Verde, Gavião Negro, Átomo etc. As histórias desses novos personagens ignoravam as velhas versões (à exceção do Flash que via a antiga versão do herói em uma revista em quadrinhos!) e isso logo despertou uma série de perguntas dos fãs. Se as velhas versões de Flash e Lanterna Verde não existiam porque agiam na época da II Guerra Mundial, como explicar o Superman, que também atuou no mesmo período?

Isso criou a noção da Era de Ouro (anos 1930 a início dos 1950) e da Era de Prata (fins de 1950 a início dos 1970), com cronologias distintas. No caso da DC, criou-se a ideia de Multiverso e a Terra-1 (os heróis no “presente”) e a Terra-2 (as versões dos anos 1940).

Mas a principal questão era organizar a cronologia e o Superman foi publicado durante 20 anos sem grandes preocupações nesse sentido, mas àquela altura, os fãs mais instruídos começavam a fazer perguntas do tipo: como o Superboy se encaixa na história do Superman se suas primeiras aventuras mostravam que iniciou a carreira adulto?

Aqui um longo parêntese para o Superboy, a versão adolescente do homem de aço. Pouco depois de começar a produção das histórias do Superman para a DC Comics, em 1938, o escritor Jerry Siegel apresentou a proposta de, em paralelo, apresentar as aventuras de um Clark Kent adolescente usando o nome Superboy, mas a editora achou a ideia ridícula e negou. Com o último filho de Krypton se tornando um sucesso esmagador, Siegel apresentou a ideia de novo, em 1940, e a editora negou de novo. O contexto era mais favorável, pois a criação do Robin (naquele mesmo ano de 1940) gerou uma grande moda de “parceiros mirins”; mas a DC não queria uma história com um adolescente como protagonista. Apenas como sidekick.

Jerry Siegel em sua farda do exército, em 1943.

Então, em 1943, Siegel foi recrutado pelo exército para se alistar na II Guerra Mundial e, após um treinamento, assumiu um posto de escritor do jornal oficial dos militares e na produção de roteiros para filmes de treinamento ou noticiários de guerra. Distanciado da DC Comics, ele ficou sabendo por meio de Shuster que a editora simplesmente publicou uma história do Superboy em 1945, na revista Fun More Comics 101. E continuou a publicar nas edições seguintes.

O Superboy realizava grandes feitos em suas capas, como cortar as plantas dos jardins de Smallville.

Dispensado do exército em 1946, Siegel voltou a escrever as histórias do Superman, mas se uniu a Shuster e processou a DC por ter usado a ideia do Superboy sem pagá-los. A editora ficou muito irritada com o gesto e imediatamente parou de receber textos ou desenhos da dupla e, quando o contrato deles acabou, em 1947, não foi renovado.

O Superboy foi um sucesso e migrou suas histórias para Adventure Comics a partir da edição 103, de 1946, e ficou tão popular que ganhou sua própria revista, Superboy, em 1949, continuando a aparecer nas duas. As histórias do menino de aço tinham uma pegada mais leve e humorística, própria para o público infantil. Nas primeiras histórias, o personagem tinha apenas 10 anos de idade, mas quando começou a ter sua própria revista passou a ser representado como um adolescente de 14 ou 15 anos.

Por incrível que pareça, foi justamente nas histórias do Superboy que Lex Luthor ganhou um novo direcionamento como personagem e ficou vinculado de modo pessoal ao homem (menino) de aço. Embora ainda sem uma amarração cronológica forte.

Em Superboy 59, de setembro de 1957, escrita por Jerry Coleman e desenhada por John Sikela, o menino de aço encontra na cidade de Hadley, vizinha a Smallville, um vilão chamado Amazing Man e descobre que ele é Luthor, retratado como um jovem de cabelos castanhos e mais ou menos da mesma idade do Superboy.

Mas Adventure Comics 253, de outubro de 1958, escrita por Dave Wood e desenhada por Al Plastino, Luthor é retratado como alguém visivelmente mais velho do que o Superboy. Essa aventura trazia a típica viagem no tempo tão comum nos quadrinhos da época. Na trama, o Superman é mortalmente ferido pela explosão de uma bomba de Kryptonita e consegue chegar até a Batcaverna, onde encontra o Robin, explicando que o artefato estava escondido em um velho troféu que guardava em sua base na Fortaleza da Solidão, e o homem de aço morre. Por meio de um amigo cientista, Robin viaja no tempo e encontra o Superboy, e os dois vão atrás de desarmar a bomba e mudam o presente.

Ignorando esta última história, Luthor ganha pela primeira vez seu conto de origem em Adventure Comics 271, de abril de 1960, escrita por Jerry Siegel e desenhada por Al Plastino.

Parêntese: Siegel e Shuster perderam o processo contra a DC Comics, receberam uma pequena indenização e foram banidos da editora. Shuster nunca mais trabalhou na empresa. Siegel após perambular por algumas editoras pequenas terminou conseguindo trabalho na DC de novo em 1960, agora, apenas como escritor free-lancer. E num ato típico de vingança, o editor Whitney Ellsworth encomendou a Siegel justamente histórias do Superboy.

Um Lex Luthor de cabelos (castanhos) ajuda o Superboy.

Mas Siegel teria papel fundamental na organização da cronologia do Superman que estava sendo feita na época (ele também escreveu o herói adulto de novo) e um dos pontos iniciais é Adventure Comics 271, na qual é contada a origem de Lex Luthor. Para começar, foi apenas nessa revista que o vilão ganhou o seu primeiro nome (Lex), depois de 20 anos de publicação! Siegel era obcecado por letras L duplas (Lois Lane, Lana Lang, Lex Luthor) e o estranho nome “Lex” ficou subtendido como uma abreviação de Alexis, como seria desenvolvido anos mais tarde.

Mas o jovem Luthor vira um vilão após perder os cabelos.

Na trama, vemos um jovem Lex Luthor – de novo com a mesma idade de Clark Kent e de novo cabelos castanhos e não ruivos – vivendo em Smallville e já sendo um gênio, mas uma boa pessoa. Ele se torna amigo do Superboy e decide ajudá-lo em uma série de tarefas, inclusive, criando uma cura para a Kryptonita. Porém, quando um incêndio ocorre em seu laboratório, Superboy usa seu super-sopro para apagar as chamas, mas o vento faz uma série de produtos químicos caírem em cima dele, o que faz com que ele perca os cabelos definitivamente. Enfurecido e frustrado por ter seu laboratório destruído, Lex culpa o Superboy pelo acidente e passa a perseguir o herói, virando o vilão que conhecemos. Luthor tenta se vingar do herói criando ações beneficentes para Smallville, como uma torre solar que mantém o verão o ano inteiro e permite mais produção agrícola, porém, o calor começa a causar acidentes. Esses e outros fatos fazem com que a reputação de Lex seja maculada.

Por fim, o vilão finge permanecer amigo do menino de aço para ir ao espaço e comprovar que criou um antídoto para o efeito da Kryptonita ao herói. Ele criou mesmo, mas de volta à Terra, o jovem Lex tenta matar o Superboy com o mineral radioativo e ainda o tortura exibindo o antídoto à sua frente, no que o herói consegue se salvar sugando o produto.

A história deixa subtendido que os produtos químicos podem ter não somente exterminado os seus cabelos, mas alterado a psiquê do cientista, deixando-o louco, e transforma a rivalidade entre Superman e Luthor em algo pessoal (e longevo). A trama termina por explicar porque Luthor é totalmente calvo mesmo tendo a mesma idade do Superman.

Como se pode notar, essa história em si não trazia um laço de amizade específico entre Lex Luthor e Clark Kent, mas isso seria adicionado em contos futuros do Superboy, que colocariam os dois na mesma classe em Smallville.

Essa aventura teria um tipo de sequência em Superboy 86, de janeiro de 1961, novamente escrita por Jerry Siegel e desenhos de George Papp, na qual o jovem Luthor cria um exército de homens de pedra de Kryptonita e quase mata o menino de aço, que é salvo pelo Lightning Lad, membro da Legião dos Super-Heróis, que vem do futuro, do século 30 para salvá-lo.

A Família Luthor

O desenvolvimento das origens de Lex Luthor não acabou nas histórias do Superboy. Por estranho que possa soar aos dias de hoje, o vilão foi ganhando mais detalhes de sua vida pessoal nas histórias periféricas do universo do homem de aço.

Primeiro, na revista de Lois Lane. Informação esquecida dos leitores nos dias de hoje, a intrépida repórter apaixonada pelo Superman ganhou uma revista só sua nos anos 1950, em parte por causa da popularidade da personagem na série de TV As Aventuras do Superman, exibida entre 1952 e 1958, estrelada por George Reeves e tendo Lois Lane interpretada por Phyllis Coates na primeira temporada e Noel Neill nas outras cinco. A abordagem da HQ refletia seu tempo: Lane era retratada como uma louca casamenteira criando planos ardilosos para casar com o Superman.

Lena Thorul em sua primeira aparição.

Mas foi em Superman’s Girlfriend Lois Lane 23, de fevereiro de 1961, que Luthor começou a ganhar uma vida pessoal mais detalhada, mais uma vez com os roteiros do criador Jerry Siegel, e arte de Kurt Schaffenberg: na trama, Lois Lane investiga um caso de feitiçaria e começa a suspeitar que Lena Thorul é uma reencarnação de Louella Thompson, mas descobre que a moça é, na verdade, a irmã de Lex Luthor!

Jules Luthor expulsa o filho de casa, ao lado da esposa Arlene e da filha Lena.

Lena explica para Lois que após o irmão iniciar a vida criminosa na adolescência – conforme mostrado nas aventuras do Superboy – o pai deles, Jules Luthor e a mãe Arlene, explusaram Lex de casa. A família se mudou de Smallville e mudou o nome para Thorul, que é um anagrama de Luthor. Lena ainda era pequena e só percebeu a verdade muito tempo depois. Com medo de que o irmão descobrisse seu paradeiro, Lena pede a Lois que não revele a história e a repórter concede.

Grandes fatos da vida de Lena Luthor relatados em Superman Family 168.

Pouco tempo depois, Lena Thorul/ Luthor se tornaria uma personagem recorrente nas aventuras da Supergirl, que começou a ter histórias próprias publicadas de modo secundário na revista Action Comics. Na edição 295, de dezembro de 1962, escrita por Leo Dorfman e desenhada por Jim Mooney, Linda Danvers conhece Lena e descobre que ela tem poderes mentais. Outra vez, a garota narra sua história e revela que ganhou os poderes a partir de uma máquina alienígena que ficou na sua casa, trazida à Terra pelo Superboy, ainda nos tempos em que ele e Lex Luthor eram amigos.

Lena prosseguiria como uma coadjuvante da Supergirl pelos anos seguintes, sua melhor amiga. Ela inclusive casou com Jeff Colby em Action Comics 317, de 1964, e o casal teve um filho, Val Colby, em Adventure Comics 387, de 1969.

O Lex Luthor Clássico

Além desses contos de origem, Lex Luthor ganhou uma personalidade mais clara e complexa em um par de aventuras publicadas no início dos anos 1960.

A primeira se deu em Superman 149, de 1961, de novo escrita por Jerry Siegel e com desenhos de Curt Swan, que se tornava o principal artista do homem de aço pelos próximos 25 anos. A história, contudo, era apresentada como uma “história imaginária”, uma linha de aventuras que a DC Comics publicada desvinculada de seu cânone principal ou cronologia. Mas ainda assim, era exemplar da personalidade de Luthor (ainda mais na visão de seu criador).

Na trama de A Morte do Superman, Luthor está na cadeia e descobre uma rocha com o misterioso Elemento Z, um raríssimo mineral. Ao pesquisar o material no hospital da cadeia, Luthor termina criando uma cura para o câncer a partir do elemento. A despeito da suspeita inicial do Superman e do mundo, o procedimento inventado pelo vilão é comprovado e mundo consegue erradicar o câncer. Por causa disso, Luthor é libertado da prisão por meio de condicional e continua trabalhando pelo bem da humanidade, o que faz com que o Superman faças “as pazes” com o cientista.

Mas no fim das contas, era tudo um ardiloso plano de Luthor. Apesar da cura do câncer ser real, era apenas uma estratégia para ganhar confiança do Superman. Ao atrair o herói para uma armadilha, Luthor envenena o homem de aço com Kryptonita e ainda faz Lois Lane, Jimmy Olsen e Perry White para assisti-lo morrer. Com o herói morto (de verdade), a Supergirl se fantasia de Superman, surpreende Luthor e seus capangas e os prende. Cabe agora à garota de aço manter vivo o legado de seu primo.

A segunda história, esta agora canônica (pelo menos na época) foi publicada em Superman 164, de 1963, com texto de Edmond Hamilton e arte de Curt Swan. A trama mostra Luthor desafiando o Superman a derrotá-lo sem o uso de seus poderes. Então, a dupla parte para um planeta que orbita um sol vermelho, que anula os poderes do homem de aço. Os dois saem em uma luta ferrenha, porém, Luthor descobre que o planeta é habitado, tem pouca tecnologia e sérios problemas com o fornecimento de água.

Numa ação estranhamente altruísta, Luthor cria uma solução para o problema e, depois, elabora uma série de melhorias tecnológicas para o planeta, de modo que se torna um herói para o planeta – que passa a ver o Superman como um inimigo – e tão grande é a idolatria ao vilão que o planeta é rebatizado de Lexor. E o vilão ganha uma estátua em sua homenagem.

As duas histórias mostram que, apesar do ódio mortal que nutre pelo Superman, Luthor é uma mente tão genial que poderia ser uma grande força do bem. E até tem algo de bom dentro de si, mas que é embotado pela rivalidade com o último filho de Krypton.

Além disso, a vinculação com Lexor será a principal linha narrativa de Luthor por um tempo. Tanto que o planeta já retorna em Superman 167, de 1964, com texto de Edmond Hamilton e Cary Bates e arte de Curt Swan, quando Luthor e Brainiac se unem para encolher o Superman e matá-lo, mas terminam na cidade engarrafada de Kandor, são presos e julgados. No fim, os vilões escapam e Brainiac deixa Luthor em Lexor, onde é acolhido pelo povo e conhece uma mulher chamada Tharla, por quem irá se apaixonar.

Um parêntese importante é que a edição 167 também trouxe pela primeira vez a origem de Brainiac, com Luthor descobrindo que ele é um tipo de computador vivo, informação que Brainiac depois apaga da mente do vilão.

Na Superman 168, o herói vai em busca do vilão, mas descobre Luthor usando a identidade de O Defensor para proteger Lexor de ameaças. Em meio ao confronto, Superman descobre uma série de cristais e Luthor percebe que a radiação deles é o que impede os lexorianos de terem conhecimento de tecnologia. No fim, após eliminar os cristais, Superman parte e deixa Luthor lá.

A trama prosseguiu em Action Comics 318 e 319, ambas ainda em 1964, novamente por Hamilton e Swan, na qual o Superman vai a Lexor em busca de trazer Luthor de volta, mas no planeta, o vilão é um herói. Tanto que Luthor se casa com Tharla, que muda seu nome para Ardora.

Repetindo a luta que travaram na primeira ocasião, o homem de aço derruba Luthor, que aparentemente morre. Chocados pelo ocorrido, os lexorianos prendem o homem de aço, que vai a julgamento e é condenado à morte, sendo transformado em pedra. Mas os advogados de defesa do herói ficam convencidos de sua inocência e o libertam, com o Superman descobrindo os compostos que Luthor usou para se auto-infligir um tipo de coma e desperta o vilão. A população aclama a volta de Luthor e Superman sai exilado do planeta.

Curiosamente, a trama de Lexor foi abandonada logo em seguida, e o planeta só fez uma rápida aparição em Action Comics 365, de 1968, numa história de Leo Dorfman e Ross Andru, é mencionado rapidamente que a população do planeta descobriu as maldades de Luthor e se voltou contra ele, com apenas a esposa Ardora se mantendo fiel e defensora do marido.

Lexor apareceria uma última vez no início de um novo capítulo da vida de Luthor.

Antes disso, a atribulada história de Luthor ganhou uma síntese em Superman 292, de 1975, com texto de Elliot S. Maggin e arte de Curt Swan, onde após mais uma batalha entre a dupla, o homem de aço relembra toda a biografia do vilão, reunindo pela primeira vez todo o drama construído nas histórias do Superboy e da Supergirl com aqueles das revistas próprias do herói. E dando ênfase no fato de Clark Kent e Luthor foram amigos ainda no colégio, antes de Lex cair para a vilania.

Por fim, é importante salientar que, especialmente nos anos 1970, a DC Comics deixou mais clara a divisão de seu Multiverso, como já escrito, com a Terra-1 sendo o palco principal dos heróis da editora, e a Terra-2 sendo uma realidade em que Superman e Batman surgiram na época da II Guerra Mundial e, portanto, eram idosos no “presente”. A linha divisória entre ambas para o Superman, do ponto de vista editorial, seria os meados dos anos 1950.

Para marcar essa diferença, também, ficou estabelecido que o Lex Luthor da Era de Ouro, que não conhecia o Superman antes de seu primeiro encontro, tinha como nome verdadeiro Alexei Luthor; e o Lex Luthor do Universo DC padrão (Terra-1) teria como nome completo Alexis Luthor. E este seria aquele que foi amigo de Clark Kent e Superboy quando adolescentes.

Uma Armadura de Guerra

O Superman passou por uma pequena renovação no início dos anos 1970, com o artista Neal Adams criando um visual mais esguio, adulto e realista para o herói, que no típico estilo da DC Comics, passou a ser adotado por todos os seus artistas, como Curt Swan, que continuou desenhando o herói. Ao lado do sucesso do desenho animado dos Super-Amigos, Lex Luthor terminou ganhando um visual renovado também.

O Luthor dos anos 1970 na arte de Ross Andru.

Ao longo dos anos, Luthor era retratado em roupas formais na maior parte do tempo, com uma camisa de mangas longas e calças sociais, mas a partir do início dos anos 1970, o vilão ganhou um visual mais esguio (perdendo parte do pequeno sobrepeso que tinha) e com um rosto mais vilanesco. Além disso, ganhou um tipo de uniforme, que passou a usar na maior parte das ocasiões, com botas, bolsos, luvas e uma blusa com gola alta, quase como uma armadura ou um traje de batalha. E jatos nas pernas que lhe permitiam voar. Esse visual também foi usado no desenho animado Super-Amigos, que fez bastante sucesso na TV.

O Luthor dessa nova época era ainda mais malvado, refletindo também o amadurecimento dos quadrinhos agora em sua Era de Bronze, com histórias mais sérias e adultas. Um exemplo disso é Superman 363, de 1981, na qual Cary Bates e Curt Swan contam uma história em que Lois Lane e Lana Lang contraem um vírus mortal e estão à beira da morte e Luthor ri da cara do Superman, humilhando-o e torturando-o psicologicamente pela possível morte das duas mulheres que amou.

Voltando ao aspecto da aparência, Luthor guardou o novo visual por algum tempo, mas logo no início dos anos 1980 ganhou uma adição ainda mais poderosa: uma verdadeira armadura de batalha ou Warsuit em inglês. A iniciativa era parte de uma nova reformulação do Superman no momento em que o personagem celebrava 45 anos de publicação. Acontece que na época o mercado de quadrinhos passava por uma grande crise e a diminuição numerosa nas vendas. Assim, se buscou um visual mais robusto em particular para os principais vilões do Superman: Luthor e Brainiac. Ambos os visuais foram criados por George Perez, um dos grandes artistas das HQs que desenhou vários heróis da DC Comics e também da Marvel. O design foi criado inicialmente para a linha de brinquedos Superpowers, que por sua vez, estava relacionada à atualização do desenho animado da TV Super-Amigos; mas foi logo adotado também nos quadrinhos.

Luthor ganhou uma poderosa armadura que lhe permitia lutar de igual para igual com o Superman.

O novo visual e o status estreou em Action Comics 544, de 1983, com texto de Cary Bates e arte de Curt Swan, uma edição especial com mais páginas. Na primeira história, Luthor decide voltar em Lexor, pois faz muito tempo que não visita o amado planeta.

Chegando lá, percebe que a população voltou a gostar dele como um herói, que Ardora o espera e mais: ela gerou um filho dele, que na ausência, já era um menino, Lex Luthor Jr. Tocado pelas mudanças, Luthor anuncia que irá viver permanentemente em Lexor. Ele passa a ter uma vida feliz com sua família e se dedica ao bem do planeta.

Enquanto isso, o tempo passa e o vilão não consegue se livrar do ódio ao Superman e, após descobrir uma caverna secreta com uma velha tecnologia avançada e esquecida em Lexor, Lex cria uma poderosa armadura para combatê-lo. Para testar o equipamento, Luthor começa a promover ataques aos transportes do planeta que o adotou e amava, e o homem misterioso na armadura começa ser temido pela população. Luthor mente e diz que vai investigar quem é o tal atacante. Até Ardora suspeita do marido, mas ele também mente para ela.

Enquanto isso, em Metrópolis, um dos robôs de Luthor se torna consciente e ativa um plano de destruição de seu mestre, Superman destrói o robô e um satélite do vilão e vai atrás dele. Superman chega em Lexor e começa a perder seus poderes, Luthor vai lutar com ele disposto à batalha final, mas um poderoso raio de energia que sai do peitoral de sua armadura ricocheteia no peito do herói e destrói um equipamento construído pelo próprio Luthor, que mantém a integridade do núcleo do planeta. Lexor começa a estremecer e Luthor voa para encontrar sua família, mas é tarde: Lexor explode e todos os habitantes morrem.

Superman é ferido, mas a explosão o afasta do sol vermelho. Ele retoma seus poderes e volta para Terra pensando que Luthor morreu. Mas o vilão está vivo em meio aos destroços do planeta espalhados pelo espaço, por causa de sua armadura. E jura vingança! Seu ódio pelo homem de aço está ainda maior.

O vilão ganha a chance de sua vingança pouco tempo depois, em Superman 385 e 386, ainda de 1983, e de novo por Bates e Swan, na qual Luthor volta à Terra junto a um asteroide que é um pedaço de Lexor. Ele transforma a rocha em uma ilha no Oceano Atlântico, Ilha L, e lá planeja o contra-ataque contra o homem de aço pretendendo matar Lois Lane… até descobrir que ela não está mais apaixonada pelo herói e buscar matá-lo simplesmente.

Luthor voltaria algumas outras vezes, embora sem tanto brilho, em Superman 401 e na trilogia 410, 411 e 412, esta última em 1985.

Enquanto a maxissérie Crise nas Infinitas Terras era publicada (entre 1985 e 1986 – veja mais abaixo) Luthor e Superman batalharam outras duas vezes. Em Superman 416, de 1986, Elliot S. Maggin e Curt Swan contam o bonito conto em que o homem de aço percebe que Luthor escapa da cadeia a cada dia 15 de março, a cada ano. Perseguindo o vilão, ele percebe que Luthor celebra anualmente o aniversário de Albert Einstein e revisita vários momentos e lugares da vida do cientista. A história retoma a ideia de que há alguma bondade e hombridade em Luthor, pois o vilão abdica da chance de fugir do Superman para salvar uma criança que estava se afogando em um lago. Por causa disso, o homem de aço até termina por ajudar no tour de Einstein antes de deixar o vilão de novo na cadeia.

Por fim, Superman e Lex Luthor em suas versões pré-Crise aparecem pela última vez em Superman Annual 12, de agosto de 1986, por Cary Bates e arte de Alex Saviuk e uma bela capa de Brian Bolland, numa trama na qual após uma ferrenha luta entre o homem de aço e o vilão em sua armadura de guerra, chega à Terra o Sentinela-1, inteligência artificial de Lexor que quer se vingar de Luthor. O mecanismo se apropria da armadura e se volta contra o vilão e o herói, sendo necessário aos dois unirem suas forças. A armadura é destruída, o Sentinela1 também e Luthor volta à cadeia.

Então, tudo mudou!

Crise nas Infinitas Terras

A cronologia da DC Comics sempre foi uma bagunça. De início, a editora não se preocupava muito com esse tipo de narrativa, então, apesar do senso de continuidade, as histórias contradiziam umas às outras e alguns detalhes eram simplesmente ignorados. Mas com a articulação do fandom (os agrupamentos organizados de fãs, em convenções e fanzines) no fim dos anos 1950 e a concorrência com a Marvel Comics, bem mais preocupada com cronologia, ao longo dos anos 1960.

Naquela década, a DC Comics instituiu a noção de Múltiplas Terras em um Multiverso, de modo que a Terra-1 era onde as aventuras canônicas da editora se passavam, mas existiam outras, como a Terra-2 (com a cronologia dos heróis que surgiram entre o fim dos anos 1930 e início dos 40). Na medida em que os anos foram passando, a editora foi acrescentando várias outras, como a Terra-S (com os personagens das histórias de Shazam!), a Terra-X (na qual os Nazistas ganharam a II Guerra Mundial) etc.

Mas na passagem da década de 1970 para 1980, essa cronologia se tornava algo incompreensível para os fãs, já que os próprios escritores e editores não respeitavam os limites. Para piorar, a indústria de HQs vivia sua maior crise de vendas desde os anos 1950 e a DC Comics corria o sério risco de fechar as portas.

Supergirl é morta em “Crise das Infinitas Terras”, na bela arte de George Perez.

Para responder a tudo isso, a editora lançou a maxissérie em 12 capítulos Crise nas Infinitas Terras, em 1985, escrita por Marv Wolfman e desenhada por George Perez, dois egressos da Marvel que estavam fazendo sucesso com a revista dos Novos Titãs; e era a oportunidade de promover uma grande e boa história e ainda consertar a cronologia. Na trama, uma entidade cósmica chamada Anti-Monitor decide destruir o tempo e o universo e os heróis (e vilões) de todos os Multiversos se unem para impedir, mas não conseguem seu plano inteiramente: o resultado é que o Multiverso é destruído e resta apenas um único universo, mesclando características de todos os outros. Na batalha, grandes perdas, como as mortes do Flash (Barry Allen) e da Supergirl, que dão suas vidas para salvar a realidade.

O corpo editorial da DC Comics – que reunia nomes como Dennis O’Neil, Cary Bates, o próprio Marv Wolfman – decidiu que, no caso do Superman, sua nova cronologia colocava o herói como realmente o último filho de Krypton, de modo que Supergirl, Superboy, a cidade engarrafa de Kandor e vários outros elementos estavam simplesmente extintos.

“Man of Steel” de John Byrne cria a nova versão do Superman.

Apesar de Crise delinear as linhas gerais, o Superman ganhou uma nova história de origem para estabelecer seu novo status quo, na minissérie The Man of Steel, publicada em seis números quinzenais entre outubro e dezembro de 1986, com textos e desenhos de John Byrne, outro grande artista advindo da Marvel.

O Homem de Aço estabeleceu que Krypton era um mundo tecnológico e frio, que foi destruído por instabilidade de seu núcleo – que envolvia minerais verdes radioativos (a Kryptonita) – e na qual Jor-El envia Kal-El deliberadamente à Terra, pois sabia que aqui o seu filho teria super-poderes. O bebê chega à Terra e é encontrado por Martha e Jonathan Kent, criado como filho deles em uma fazenda em Smallville, mas sem conhecer suas origens extraterrestres até muito mais tarde. Aqui, os poderes de Clark Kent vão se desenvolvendo aos poucos e é só no início da vida adulta que ele possui todos os seus poderes. Após rodar o mundo e salvando pessoas de forma anônima, Clark é obrigado a impedir a queda de um avião em Metrópolis e é visto por milhares de pessoas. Com o fim do seu anonimato, decide adotar as cores que vieram em sua nave e com elas passa a usar um uniforme, adotando também o nome que a jornalista Lois Lane cunhou para ele no Planeta Diário: Superman.

O Superman de John Byrne.

Nesta nova versão, Clark nunca foi o Superboy, e seus pais terráqueos ainda estão vivos quando ele se torna o homem de aço, aos 25 anos de idade. Martha e Jonathan Kent são retratados como idosos, tal qual a versão da Era de Prata, mas permanecem vivos quando o herói literalmente alça voo. Aqui, Lana Lang foi também seu amor da juventude e Clark revela seu segredo para ela antes de partir para conhecer o mundo.

O Superman de John Byrne: menos poderoso e mais humano.

Claro, toda essa ambientação também trouxe uma nova versão de seu maior inimigo.

O Novo Lex Luthor

Ainda mais do que o Superman, Lex Luthor ganha uma repaginada completa na cronologia pós-Crise. Agora, ele é Alexander Joseph “Lex” Luthor, filho de uma família pobre do Beco do Suicídio em Metrópolis, que ganha sua primeira fortuna ao fazer uma apólice de seguros para os pais e sabotar o freio do carro deles, causando sua morte. Depois, o jovem vai estudar no MIT e termina se tornando um empresário riquíssimo, dono do conglomerado LexCorp., “o segundo ou o terceiro homem mais rico do mundo”, como anota Lois Lane em The Man of Steel 04.

Como se vê, Byrne procurou representar Luthor não mais como um cientista maluco, mas como um magnata corrupto, numa imagem tão típica dos anos 1980 e inspirado em nomes da vida real, como Donald Trump (sim, ele mesmo!) e, claro, com uma (grande) pitada do Rei do Crime do Homem-Aranha, da Marvel Comics. Esse novo Luthor é simplesmente um homem poderoso demais para ser tocado pela Lei. Pelo menos até o Superman aparecer.

Outra curiosidade é que Byrne resgatou o elemento dos cabelos ruivos que marcaram o vilão em suas primeiras aparições. O vilão aparece primeiro em The Man of Steel 02, mas vemos apenas seus olhos, surgindo de modo completo na edição 04, representado como um homem de meia idade charmoso, mas com uma calvice natural. Após um pequeno salto de tempo, Luthor é mostrado já totalmente calvo, por um processo natural, mas de algum modo relacionado ao stress causado pela rivalidade com o homem de aço, o que presta outra homenagem à origem das histórias do Superboy.

E esse nem foi o único impacto físico que o Superman causou em Luthor. Em sua primeira nova aparição, ele é mostrado ligeiramente acima do peso, e pouco depois, quando finalmente perderá os cabelos, fica um pouco mais corpulento, de novo, numa referência ao Luthor do início da Era de Prata. Curiosamente, essa aparência o aproxima mais ainda do Rei do Crime do Homem-Aranha, na qual esta versão do vilão guarda muitas semelhanças.

Na trama de John Byrne, Luthor é meio que “o dono” de Metrópolis e está afastado da cidade quando o Superman aparece pela primeira vez, estando na Venezuela, tratando de seus negócios com petróleo. Mas quando retorna, um ano e meio depois, quer ver o homem de aço com os próprios olhos, então, faz uma grande festa de gala em seu iate particular, com a presença do prefeito de Metrópolis e os intrépidos Clark Kent e Lois Lane; mas arma um sequestro com guerrilheiros venezuelanos. (Detalhe, a cena deixa bem claro que Clark e Lex não se conheciam previamente, ao contrário da cronologia anterior).

Quando o Superman acaba com eles, Luthor, ciente de que é intocável, diz que “sabia” que os criminosos podiam lhe atacar no mar, mas deixou acontecer para poder ver o homem de aço. Indignado com a cena e fortalecido pela presença do herói, o prefeito de Metrópolis, Frank Berkowitz, dá voz de prisão a Luthor e o Superman o leva preso.

Isso irá alimentar o ódio pessoal de Luthor pelo Superman, sendo a primeira vez que sua hegemonia foi ameaçada.

Rico, poderoso e influente, Luthor ficou apenas duas horas na prisão, mas foi o suficiente para sair de lá e encontrar o Superman pessoalmente para dizer que ele ganhou um inimigo mortal e que ele o mataria em breve.

De fato, The Man of Steel 05 já traz novamente uma contenda entre os dois. O painel de abertura da história prega uma pequena peça no leitor, fazendo parecer que Luthor está usando sua armadura de combate pré-Crise, mas na verdade, a página seguinte mostra que é um lacaio usando uma armadura comum, sem o poder da velha versão, e o homem de aço deixa claro que se trata de mais um estratagema do vilão, mantendo a lógica da minissérie de mostrar os primeiros anos do herói de modo salteado. Nesta aparição, Luthor já tem a cabeça bem mais calva, tendo apenas um pouco de cabelo.

Nesta edição, Luthor e o cientista chinês Dr. Teng tentam produzir um clone do Superman e geram uma primeira versão do vilão Bizarro, uma cópia imperfeita do homem de aço. O herói luta contra ele, mas acaba por descobrir que a monstruosidade é, na verdade, uma combinação de androide e clone, e ele explode no fim. Mas o experimento de Luthor revela que o Superman é um alienígena – algo que nem Clark Kent sabia, então! No último capítulo da minissérie, a edição 06, finalmente, o Superman descobre sua verdadeira origem, a existência de Krypton e de seus pais biológicos, Jor-El e Lara, quando já conta cinco anos de ação como o homem do amanhã, dentro da nova cronologia.

A história com Bizarro é importante para estabelecer que Luthor não é mais o cientista louco dos tempos antigos, pois agora ele contrata cientistas para fazer seus planos mirabolantes, já que ele mesmo não é um, e sim, um empresário ambicioso e inteligente.

Quando encerrou a minissérie The Man of Steel, a nova continuidade do Superman se firmou na linha de revistas mensais do personagem. A linha foi completamente alterada, claro, estreando no novo formato em janeiro de 1987. A principal revista do herói se tornou a nova Superman (vol. 2), que ganhou um número 01, com texto e arte de John Byrne. A pioneira Action Comics manteve a numeração, reiniciando no número 584, também com texto e arte de Byrne, e se transformou em uma revista do tipo team up, ou seja, a cada edição, trazia o homem de aço ao lado de algum convidado especial. A antiga revista Superman foi renomeada como Adventures of Superman, mantendo a numeração anterior, portanto, reiniciando no número 425, com texto de Marv Wolfman e arte de Jerry Ordway, e mais focada no elenco secundário do universo do herói, desenvolvendo suas histórias e personalidades, com o Superman sempre aparecendo, mas quase como um coadjuvante.

Superman (vol. 2) 01 e 02 trazem a estreia a versão pós-Crise do vilão Metallo, que é um ciborgue alimentado por um coração de kryptonita. Outro cientista (Emmett Vale) é responsável pela criação do vilão, mas Luthor interfere no plano para matar o homem de aço por meio dele. A trama é importante porque é por meio dela que o Luthor descobre que a Kryptonita é a maior fraqueza do Superman.

A edição 02 traz um fato importante, porque nela, a cientista de Luthor faz uma análise computadorizada de imagens do homem de aço e chega à conclusão de que Clark Kent é o Superman. Mas Luthor não consegue aceitar a verdade, pois não aceita que um homem poderoso como o herói pudesse viver fingindo que é um homem comum.

No fim da história, quando Superman vai confrontar Luthor por sua intervenção na trama de Metallo, o vilão exibe sua nova arma: o Anel de Kryptonita, que impede o herói de se aproximar dele. Luthor usará o anel o tempo inteiro dali em diante por algum tempo.

Essas histórias de Byrne estabeleceram Luthor como um vilão que, a despeito de seus planos mirabolantes e criminosos para matar o Superman, nunca é atingido pela lei e arma tão minuciosamente os detalhes que não sobram evidências para acusá-lo de nada, mantendo-se, ao olhar do público e da lei, como um inocente.

Esse é o caso de um pequeno “detalhe” que terá muita importância no futuro dos personagens que aparece na edição 02: Lana Lang é sequestrada e torturada por Luthor, mas ela e o Superman não conseguem provas disso.

O interessante sobre a fase de John Byrne é que o artista não se limitou a fazer histórias grandiosas e épicas, mas também se preocupava em delinear claramente quem eram seus personagens. Uma história secundária em Superman (vol. 2) 09, por exemplo, traz Luthor visitando uma lanchonete de beira de estrada apenas para humilhar uma garçonete com a possibilidade de lhe pagar um milhão de dólares para que ela fique com ele durante um mês em Metrópolis, que fica a 1.400 quilômetros dali. O vilão se regojiza apenas por causar dúvida e esperança na vítima e diz à sua motorista que todas as mulheres têm um preço, revelando uma personalidade misógena. A trama deixa claro que Luthor já teve oito esposas!

Enquanto o uso do Anel de Kryptonita protege Luthor do Superman por um tempo, ele traria grandes problemas ao vilão: em uma das histórias de Action Comics 600 (edição especial com várias histórias), publicada em maio de 1988, escrita por John Byrne e desenhada por Dick Giordano, enquanto tenta chantagear a capitã Maggie Sawyer, responsável pela unidade de crimes especiais de Metrópolis (de modo subtendido por ela ser lésbica), Luthor termina por dar um soco na mesa e sente uma terrível dor. Atendido por um médico, descobre que está com câncer!

Superman (vol. 2) 19, de julho de 1988, esclarece a questão, com Luthor descobrindo que seu câncer é causado pela radiação da Kryptonita em seu Anel. De início, ele e seus cientistas pensavam que a radiação do mineral alienígena era inofensiva aos humanos, mas não era o caso. Como saída desesperada, Luthor amputa a mão direita e a substitui por uma prótese mecânica como forma de evitar a disseminação da doença.

Tal questão deu origem a uma iconografia bastante famosa de Luthor passando a usar uma luva de couro preta apenas na mão direita para cobrir sua prótese mecânica.

A Vida Pessoal de Lex Luthor

A intensa fase de John Byrne, entre 1986 e 1988, abordou bastante a personalidade de Luthor, e esclareceu alguns pontos de seu passado, construindo uma biografia radicalmente diferente daquela da cronologia pré-Crise. Em paralelo à publicação das revistas mensais do Superman, Byrne escreveu uma trilogia de minisséries abordando aspectos mais pessoais dos personagens e seu universo: O Mundo de Krypton (desenhada por Mike Mignola), O Mundo de Smallville (desenhada por Kurt Schaffenber) e O Mundo de Metrópolis (desenhada por Win Mortimer), publicadas entre 1987 e 1988.

Para Luthor, a mais importante foi a última na qual o vilão é a estrela dos dois primeiros capítulos. Na primeira, há uma exploração da relação entre Luthor e o editor-chefe do Planeta Diário, Perry White; relação esta sugerida na edição 04 da minissérie O Homem de Aço. A trama mostra que Luthor e White nasceram e cresceram no Beco do Suicídio, o bairro mais pobre de Metrópolis, e foram os melhores amigos na juventude, mas foram se distanciando na medida em que a personalidade do vilão foi se tornando mais bem definida e inclinada para o mal.

Um elemento pitoresco da história é que Luthor termina tendo um caso amoroso com a esposa de White, Alice, e isso gera uma ruptura final entre os dois. No fim das contas, Perry e Alice se reconciliam, mas fica subtendido que o filho do casal, Jerome, pode ser, na verdade, filho de Lex. Essa informação seria confirmada no futuro, em outras histórias, mas Jerome morre jovem, envolvido com o crime e drogas.

Também vemos uma Lois Lane de 10 anos de idade numa visita escolar ao Planeta Diário e ficando completamente encantada por ver Perry White, que já era um jornalista famoso, então.

No segundo episódio de O Mundo de Metrópolis, por Byrne e Mortimer, vemos uma Lois Lane de 15 anos invadindo a LexCorp. para obter informações sigilosas da empresa como parte de um plano para conseguir um emprego no Planeta Diário, mas é pegue pela segurança. No primeiro encontro entre Lex e Lois, o empresário dá uma surra na bunda dela com um escavador de lareira por sua ousadia. Mas ela consegue seu emprego.

Essas ideias biográficas foram sintetizadas em uma revista especial chamada Lex Luthor: Unauthorized Biography, publicada em julho de 1989, escrita por James Hudnall, desenhada pelo uruguaio Eduardo Barreto, pintada por Adam Kubert (que teria uma grande carreira como desenhista em breve) e uma belíssima capa pintada por Eric Peterson, numa gravura que imita diretamente a capa da autobiografia de Donald Trump, a grande inspiração para o Luthor pós-Crise.

A história é interessante porque o Superman só aparece num único quadrinho e se foca inteiramente no vilão, com Peter Sands, um jornalista investigando a fundo a vida de Lex Luthor. Depara-se, então, com seu passado secreto: os pais abusivos, a morte deles em um suspeito acidente de carro que deu a Lex uma grandiosa soma de dinheiro em seguro e o início de sua fortuna e a ascensão inescrupulosa do empresário como um dos homens mais poderosos do mundo. Uma das frases dita pelo vilão é emblemática:

A vida é curta. Eu poderia ter me tornado como meus pais, que cederam a emoções baratas e auto-repugnância. Em vez disso, eu escolhi me tornar Deus. Eu controlo vidas em vez de ser controlado. Posso destruir alguém com um único telefonema. É por isso que eu não posso aceitar o Superman. só há espaço para um Deus na Terra. Estou determinado a derrubá-lo a qualquer custo. E eu irei!

A maior parte da trama gira em torno do repórter Peter Sands investigando a morte dos pais de Lex ao mesmo tempo em que – numa trama que avança e retrocede no tempo – Clark Kent é investigado pela morte de Sands. Luthor manipula os eventos, acompanhando tudo a distância sendo responsável tanto pela acusação de Clark quanto pela comprovação de sua inocência e faz o repórter saber disso.

A Morte de Lex Luthor

A trama do Anel de Kryptonita e a mão biônica começaria o desfecho em Action Comics 656, de 1990, com texto de Roger Stern (substituto de Byrne) e arte de Bob McLeod, quando Luthor descobre que seu câncer teria entrado em metátese, se espalhado pelo corpo e seu estado era terminal. A descoberta deixa o vilão melancólico e ele até visita o túmulo de Jerome White, seu filho bastardo, em Superman (vol. 2) 49, lamentando que o rapaz não tenha sobrevivido e que poderia ser seu herdeiro.

Luthor não aceita seu destino e em Action Comics 660, de dezembro de 1990, com a mesma equipe criativa, o vilão forja sua própria morte com um acidente aéreo no alto dos Andes, no Peru.

Lex Luthor II, o filho cabeludo

Inicia-se, então, uma das mais mirabolantes – e sem graça – histórias sobre o vilão: para sobreviver ao câncer, Luthor promove o transplante de seu cérebro para um corpo jovem e saudável clonado de si mesmo, ficando curado. Então, ele reaparece como Lex Luthor II, um filho desconhecido do vilão, com vastos cabelos ruivos e barba, que teria sido criado na Austrália para ser protegido dos inimigos de seu pai.

A estranha versão de Lex Luthor II.

O jovem Luthor aparece pela primeira vez em Action Comics 670, de 1991, por Roger Stern e Bob McLoad. As histórias da época reintroduziram a Supergirl, mas não mais Kara Zor-El, a prima de Kal-El, mas uma versão de Lana Lang advinda de um outro universo que tem a capacidade de mudar de forma e tem o corpo feito de protoplasma. Lex II se faz passar por um jovem bem-intencionado que quer se livrar da imagem criminosa do “pai” e essa Supergirl se apaixona por ele.

A Supergirl de protoplasma e Lex Luthor II: estranho demais para você?

Eram realmente tempos muito estranhos e o bizarro casal Supergirl & Lex Luthor II (para horror e incredulidade dos leitores atuais) aparecem como coadjuvantes da saga A Morte do Superman, de 1992, escrita e desenhada por um batalhão de escritores e artistas (que incluía nomes como Dan Jurgens, Roger Stern e Louise Simonson, de um lado; e Tom Grummett, Jon Bogadnove e Jackson Guice, do outro), que culminou na morte do herói nas mãos do monstruoso Apocalypse (DoomsDay); assim como em seu retorno ao mundo dos vivos na saga Superman Reigh ou O Retorno do Superman, no Brasil.

O Superman de uniforme preto e cabelos longos. Arte de Tom Grummett.

Como se o casal não fosse bizarro o suficiente, o Superman voltou dos mortos com cabelos longos e mullets.

Mas claro que tudo isso era uma ideia terrível dos editores e, rapidamente, as coisas começaram a mudar: Lex II percebeu que seu corpo jovem começava a envelhecer e se deteriorar (um mal comum aos clones em quadrinhos). Lois Lane consegue provas de que o “velho” Luthor havia mandado matar uma funcionária da Lex Corp. e termina por descobrir, também, a verdade sobre Lex II, em Superman (vol. 2) 77, de 1993, por Dan Jurgens (texto e arte).

A trama envolvendo Lois Lane investigando e conseguindo provas dos crimes de Luthor ao mesmo tempo em que o corpo do clone do vilão começa a se deteriorar ocupam a grande saga do Superman do ano de 1994: A Queda de Metrópolis, que transcorreu as quatro revistas mensais do herói. Com o corpo definhando e achando que vai morrer, Luthor dá início ao seu plano final, que consiste em robôs para atacarem Metrópolis. A trama conclui em Action Comics 700, com roteiro de Roger Stern e desenhos de Jackson Guice: com muito custo, o Superman consegue vencer o plano, mas vários prédios da cidade são destruídos, incluindo os do Planeta Diário e da LexCorp. Esses eventos revelam ao público, pela primeira vez pós-Crise, que Luthor é um criminoso.

Criminoso Público de novo. Por pouco tempo…

Depois, durante o megaevento Underworld Unleashed, de 1995, escrito por Mark Waid e desenhado por Howard Potter, um demônio chamado Neron alicia heróis e vilões para ampliar seus poderes. Àquela altura, o clone de Lex Luthor II estava tão deteriorado que ele não conseguia mais se mexer, então, num típico “pacto com o demônio” Luthor consegue que seu corpo seja restaurado, voltando a ser o bom e velho vilão careca e atlético, mas agora, mais jovem e com corpo atlético.

Na revista Superman: The Man of Tomorrow, que começou a ser publicada em 1995, com texto de Roger Stern e desenhos de Tom Grummett, vem a consequência imediata dessa trama é que, uma vez que os crimes de Luthor foram expostos e ele “deixou de ser” o clone, o empresário volta a Metrópolis e se entrega à polícia, O vilão vai a julgamento, mas consegue convencer a todos de que foi raptado pelos cientistas dos Laboratórios Cadmus e clonado. E foi o clone quem cometeu os crimes de que era acusado. Lex é inocentado pela Justiça.

Àquela altura, a DC Comics já tinha promovido um pequeno reboot para aparar algumas arestas deixadas pela Crise nas Infinitas Terras, e lançara Zero Hora, em 1994. Uma das consequências para Luthor é que ele voltou a ser retratado como um cientista, e não mais apenas um empresário.

Uma trama interessante sobre Luthor nesse momento foi seu casamento com a Condessa Erica Alexandra del Portenza, que se tornou sua oitava esposa! (Sim, deveria ser a nona, mas as histórias mantêm o número oito). Quando os crimes do vilão foram expostos por Lois Lane, ele foi afastado da presidência da LexCorp., e a Condessa passou a controlar a empresa. Mesmo com o casal se odiando e disputando poder, Lex conseguiu casar com ela como parte de seu plano de reaver sua empresa e seu poder. A cerimônia ocorreu em Superman: The Man of Tomorrow 05, por Stern e Grummett.

Por fim, ela terminou grávida, e Luthor usou a criança como uma ferramenta de chantagem.

Perry White, Lois Lane e Lex Luthor.

O nascimento da menina Lena Luthor (usando o mesmo nome da irmã do personagem das histórias da Era de Prata) é mostrado em Superman (vol. 2) 131, de 1998, escrita por Dan Jurgens e desenhada por Ron Frenz. Na revista, uma boa aventura para mostrar a psiquê de Luthor, o vilão vai ao lançamento de uma iniciativa do prefeito de Metrópolis (Frank Berkowitz, o mesmo que mandara prendê-lo lá atrás em 1986) para eliminar as armas e violência do Beco do Suicídio, onde Lex e Perry White cresceram. White está lá para cobrir a coletiva de imprensa ao lado de Lois Lane e o editor conta à repórter sua história como amigo de Luthor na infância.

A amizade entre White e Luthor – que ajuda a definir a idade do vilão por volta dos 60 anos, pela aparência do editor – já fora mencionada desde os primeiros tempos pós-Crise. Nesta história, White conta como a família Luthor era desestruturada (o pai batia na mulher, que bebia como resposta) e que, após a morte deles, Luthor ganhou 300 mil dólares, mas terminou indo parar sob a custódia da família Griggs, que adotava crianças como forma de ganhar dinheiro com elas. Outra das crianças acolhidas por eles foi Lena, da idade de Lex e muito bonita, provavelmente, a única mulher que ele amou. Mas quando os Griggs descobrem que o jovem tem 300 mil no banco surram Lena para que ela convença Lex a lhes dar o dinheiro, e terminam matando a garota.

Depois daquilo, diz White, Luthor se tornou extremamente frio e jamais citou Lena de novo.

A trama continua para mostrar o prefeito sendo baleado na cabeça durante o discurso e que Luthor armou tudo como uma forma de se vingar dele e de Griggs – que foi o assassino e também é morto pelo vilão à sangue frio. Isso transcorre enquanto a Condessa dá à luz à filha de Lex, que ele prontamente a batiza como Lena.

A Condessa permaneceria sedada nos meses seguintes até ficar estabelecido que oficialmente ela morreu no “incêndio” de um hospital.

O Maior dos Filantropos

Mas uma vez que Luthor era um homem inocente para a Justiça desde seu julgamento, o vilão soube se aproveitar de uma grande oportunidade que lhe surgiu, Ou duas!

Na edição especial Superman: Y2K, de fevereiro de 2000, escrita por Joe Kelly e desenhada por Jackson Guice, Brainiac 13 ataca Metrópolis, num plano que é confrontado tanto pelo Superman quanto por Luthor. O ataque é feroz e – tal qual em A Queda de Metrópolis – a cidade do amanhã é severamente destruída. Na reconstrução que se vem necessária a seguir, a LexCorp. tem um grande desempenho, inclusive, usando a tecnologia alienígena chamada a partir de então de B13, o que dá a Luthor uma fama de filantropo e humanitário, afastando as suspeitas que pairavam ainda desde o seu julgamento.

Uma abordagem interessante dessa história – e Joe Kelly escreveu muitas boas histórias do Superman nessa época – é que em paralelo à ameaça futurista de Brainiac, somos apresentados à história da Família Luthor nos Estados Unidos: desde o século XVII quando chega junto aos primeiros holandeses no litoral da futura colônia britânica e entra em conflito com os povos indígenas do local; passando por outros eventos históricos importantes, como Edna Luthor lutando pelos trabalhadores em 1845; Wallace Luthor sendo um dos homens mais ricos do país após sua empresa se tornar a principal fornecedora de armas na I Guerra Mundial (1914-1918) e quando este se suicida após perder tudo na Crise de 1929; levando a família Luthor à pobreza e ao contexto ao qual Lex irá nascer mais tarde.

A batalha contra Brainiac, contudo, tem um alto custo pessoal para Luthor, pois sua filha Lena é morta na tragédia.

Coincidentemente, na mesma época, chegava ao fim a grande saga do Batman, Terra de Ninguém, na qual Gotham City é arrasada por duas tragédias: uma pandemia de ebola e um terremoto. Em consequência, o Governo dos EUA decide extinguir a cidade e fechar seu território. Quem não saiu não pode mais sair e ninguém pode entrar, criando um ano bastante difícil para o cavaleiro das trevas, na medida em que seus vilões decidem ficar e controlar a cidade sem lei. No fim, Bruce Wayne faz uma grande campanha no Congresso dos EUA e consegue que a cidade seja reaberta.

Daí, novamente, a LexCorp é uma das principais empresas envolvidas na reconstrução de Gotham. Só que Bruce Wayne é o Batman, então, por meio de uma série de manobras corporativas, consegue fazer com que a Wayne Enterprises assuma a tarefa, tirando Luthor da jogada.

Esse episódio torna Wayne inimigo de Luthor, de modo que o vilão contrata um assassino para matar a namorada do bilionário – a radialista Vesper Fairchild – e acusar o playboy do crime, no que dá origem à saga Bruce Wayne: Assassino/ Fugitivo. No fim, Batman consegue limpar o nome de sua identidade secreta e descobrir que foi Luthor quem armou tudo, mas não tem provas para incriminar o vilão.

Presidente dos EUA

Os eventos de Metrópolis e Gotham City ajudam a popularizar a figura de Luthor entre o público dos EUA, de modo que o impensável acontece: o vilão se candidata ao cargo de Presidente da República! E o pior: ele vence a eleição e se torna o 43º presidente dos Estados Unidos!

Lex Luthor vira Presidente dos EUA.

Era uma singela crítica à eleição de George W. Bush (o verdadeiro 43º presidente) num paralelo bem interessante, pois Luthor também aumentou a corrida armamentista e o posicionamento bélico do país no mundo tal qual sua contraparte na vida real.

A jogada da DC Comics ainda encontrou outro estranho paralelo quando a vida real imitou a arte outra vez, pois Donald Trump – uma das grandes inspirações para o Luthor pós-Crisefoi eleito de verdade presidente dos EUA, em 2016, 16 anos depois.

A eleição de Luthor foi apresentada na revista especial Lex 2000, publicada em janeiro de 2001, com cinco histórias, das quais quatro foram de autoria de Jeph Loeb e uma por Greg Rucka (que traz o Batman confrontando moralmente o vilão). A mais interessante delas é Triunfo sobre a Tragédia, desenhada por Tony Harris, que narra a biografia “oficial” de Luthor, apresentada por Cat Grant na emissora WGBS, amarrando vários aspectos demonstrados em Superman: Y2K e Action Comics 700.

Para Superman, além de ter seu arqui-inimigo agora como presidente do país, o evento ainda tem outro elemento sórdido, pois o vice-presidente é ninguém menos do que Pete Ross, o amigo de infância de Clark Kent, agora, o marido de Lana Lang, o primeiro amor do herói, e pai do filho dela. O herói vai a Smallville pedir conselho aos pais, e recebe uma reprimenda de Martha Kent, ressaltando que Lana o defendeu desde o primeiro dia.

Há uma tocante cena de Clark confrontando Lana (que sabe de seu segredo desde a adolescência) pelo fato dela ter votado em Luthor e achar que, com a orientação de Ross, eles podem fazer um grande trabalho no país. Lana até relembra de que foi torturada por Luthor e não deixa ele falar e seu monólogo é interessante, bem como a arte quase em preto em branco do momento.

Além disso, é importante salientar que Jeph Loeb fazia parte de um movimento que era declaradamente contra a onda sombria e violenta que dominou os quadrinhos desde o que chamamos de Era Moderna dos Quadrinhos. Além disso, era favorável a resgatar elementos da Era de Prata que julgava serem fundamentais ao Superman. E faria isso nas suas histórias.

A trama de Luthor como presidente dos EUA impactou bastante todas as revistas da DC Comics durante dois anos e, claro, a imagem de Luthor como presidente se tornou importante dentro da iconografia do personagem.

As tramas abordavam os sentimentos dúbios do Superman, que sabe quem Luthor é, ao mesmo tempo em que respeita o cargo que ele ocupa e na qual ganhou – até certo ponto – honestamente. Por outro lado, as histórias do Batman mostravam o cavaleiro das trevas – rival acirrado do vilão desde o episódio de Gotham e a acusação de assassinato – tramando maneiras de atingir Luthor. Uma delas foi que, uma vez que Lex virou presidente, não poderia mais continuar como CEO da LexCorp. Aproveitando-se disso, o homem-morcego manipula as articulações corporativas para que Talia Head, a filha do vilão Rã’s Al Ghul, mas sua aliada, assumisse a direção da empresa.

Claro, Luthor empoderou vários vilões para atuarem mais livremente e montou um novo Esquadrão Suicida para fazer o trabalho sujo de que precisava.

Um desenvolvimento da história ganha impulso em Superman (vol. 2) 178, de março de 2002, escrita por Jeph Loeb e desenhada por Ed McGuinness. Na trama, um técnico que trabalha com o monitoramento via satélites mostra a nave que trouxe o bebê Kal-El caindo em Smallville, próximo à Fazenda Kent. Claro, eram evidências mais do que suficientes para que Luthor deduzisse que Clark Kent é o Superman, relembrando a evidência que havia lhe aparecido ainda na edição 02 da mesma revista 16 anos antes.

Depois disso, Lex teve o prazer de dizer ao homem de aço que sabia sua identidade secreta, mas manteve a informação sob sigilo, pois informação é poder – e também por um toque de nostalgia.

Tal evento desequilibrou – de novo – as relações entre o homem de aço e o presidente, mas por outro lado, ficou claro que Lex gostava sinceramente de Lois Lane e sabia que tornar público a identidade secreta do herói colocaria a vida dela em risco.

Isso desencadeou a saga A Batalha Final, na qual Luthor usa o vilão Manchester Black para matar o Superman, e que termina em Action Comics 796, de dezembro de 2002, com texto de Joe Kelly e arte de Duncan Rouleau. Na trama, Manchester Black forçar o Superman a lhe matar para provar o ponto de vista dele, de que o homem de aço é uma grande ameaça. Black mata Lois Lane e espera que o kryptoniano enlouqueça e lhe ataque, mas o herói simplesmente imobiliza o vilão e tenta lhe levar para a prisão. Isso convence Manchester de que ele próprio estava errado. Então, mostra que Lois estava viva e a “morte” fora apenas uma ilusão.

Manchester se retira e, como vingança contra Luthor, antes de se matar, apaga o conhecimento de que Clark Kent é o Superman da mente do presidente.

Rápido confronto vindo do futuro.

O capítulo final da saga de Luthor presidente se deu na nova revista Superman/Batman, lançada em outubro de 2003, com o arco Inimigos Públicos, nas edições 01 a 06, pela dupla Jeph Loeb e Ed McGuinness. Na trama, Luthor descobre que um asteroide do tamanho do Brasil, todo de Kryptonita, está vindo em direção à Terra. Além de uma oportunidade para matar o Superman, o presidente começa a tomar medidas mais desesperadas contra o herói, o que inclui tomar a droga Veneno, que aumenta a força do usuário, mas ao preço da sanidade.

O plano louco de Luthor envolve culpar publicamente o Superman pelo asteroide, o que não é algo que funciona com a população, ao mesmo tempo em que o presidente mobiliza todo o aparato legal contra o homem de aço e o Batman. No que a dupla de heróis consegue se livrar da ameaça do espaço, Luthor volta a usar sua armadura de guerra verde dos anos 1980, mas agora, apresentada como uma peça de tecnologia alienígena de Apokolips, o planeta do vilão Darkseid.

… e a versão do desenho em longa metragem Superman e Batman – Inimigos Públicos.

Com o traje, Luthor é uma ameaça real para Superman e Batman, mas o vilão está tão transtornado pelo uso do Veneno que termina por enlouquecer totalmente e, numa batalha pública, revela toda a sua vilania, que é testemunhada, filmada e exibida no mundo inteiro.

Embora desapareça após a batalha, Luthor é imediatamente afastado da Presidência da República e o Congresso dos EUA dá início a um processo de Impeachment, que termina por destituí-lo oficialmente do cargo, com Pete Ross se tornando o novo presidente.

Inimigos Públicos fez muito sucesso e chegou até a ser adaptada como um longametragem em desenho animado, e consolidou de modo importante o “espírito Era de Prata” que parecia ser o objetivo de Jeph Loeb, com planos mirabolantes e algumas idiotices.

Mas ao final da história, vemos Luthor vivo e predizendo o que viria pela frente ao Universo DC: “haverá uma crise!”.

Lex Luthor e Clark Kent, amigos, de novo!

A este ponto devemos lembrar que Crise nas Infinitas Terras já havia passado há 15 anos e os elementos nostálgicos sobre a DC e o Superman pré-Crise começaram a pesar sobre alguns leitores e, principalmente, sobre alguns artistas.

Iremos falar das adaptações em outras mídias mais abaixo, mas é preciso dizer, com o sucesso da série de TV Smallville, o elemento de aproximação entre os dois foi “devolvido” à cronologia nos quadrinhos. Isso dava início a certa dependência da mídia imprensa sobre o que outras mídias apresentavam – e por ser mais populares e disseminadas do que as HQs – terminavam se tornando mais populares.

O Legado das Estrelas: origem para os anos 2000.

Smallville era uma série exibida no canal Warner – mais tarde recriado como The C.W. – iniciada em 2001, que mostrava as aventuras de um jovem Clark Kent antes de se tornar o Superman. E nessa realidade, Lex Luthor é seu amigo e a amizade/ rivalidade da dupla era uma das forças motrizes do programa. A série foi um enorme sucesso – chegou a ter 8 milhões de espectadores apenas nos EUA – e isso influenciou os quadrinhos fortemente.

O primeiro passo forte nesse sentido veio com a maxissérie Legado das Estrelas (Birthright, no original), escrita por Mark Waid e desenhada por Leinil Francis Yu, publicada em 12 episódios entre setembro de 2003 e 2004, e mostra Clark e Lex como amigos na adolescência, portanto, rejuvenescendo bastante o vilão.

O texto de Mark Waid cai incisivamente em cima de um aspecto do Superman que é sua origem alienígena. A origem de John Byrne (pós-Crise) amenizou tal elemento, pois em The Man of Steel, Kal-El é gerado em Krypton, mas nasce na Terra, pois é inseminado artificialmente em uma matriz incubadora, que só se abre quando ele chega à Terra. Portanto, tecnicamente ele nasce na Terra. É bem diferente da Era de Prata em que o homem de aço era criança quando da destruição de Krypton e guardava lembranças do planeta-natal.

A história de Waid, ao contrário, desde seu título – “direito de nascença” no original – ressalta o aspecto alienígena do último filho de Krypton.

Embora mantenha alguma inspiração na obra de Byrne, mimetizando alguns momentos, a trama de Waid se distancia totalmente criando uma origem completamente nova, resgatando elementos da Era de Prata sob uma roupagem do século XXI e claramente inspirada em Smallville. De início, era para ser uma história não-canônica, mas uma série de modificações na DC Comics – falaremos abaixo – terminaram por estabelecê-la como canônica.

O jovem Clark tenta ajudar as pessoas na África, mas nem sempre isso é possível.

De qualquer modo, é uma boa história. A trama – tal qual Superman – O Filme e O Homem de Aço (a HQ e o futuro filme) – se inicia em Krypton, onde testemunhamos o fim do planeta e Lara e Jor-El depositando o pequeno Kal-El na nave que irá salvá-lo da destruição. É um Krypton tecnológico e exuberante, mas não o mundo frio e sem vida de Byrne.

Depois, pulamos o tempo e vemos que o jovem Clark Kent saiu rodando pelo mundo e ajudando as pessoas em segredo após o fim do colégio – de certo modo, muito similar à história de Byrne – dando destaque à sua experiência na África e testemunhamos que o rapaz não gosta de máscaras porque na sua terra isso está relacionado à criminalidade. De volta a Smallville, vemos versões mais joviais de Martha e Jonathan Kent, que se assemelham até na aparência ao casal da série televisiva. Com a ajuda dos pais, Clark cria a identidade de Superman e vai atuar em Metrópolis.

Lex Luthor e Superman: relação mais complexa.

Lá, ele tem seu “primeiro” encontro com Lex Luthor, que se dá de forma diferente do que na trama de Byrne, mas resguardando a mesma essência: Superman impede um plano do vilão – no caso drones/ helicópteros armados do exército que “saem” do controle – e consegue insinuar uma ligação entre o crime e o empresário dono da LexCorp. Não há provas, mas é uma mácula à reputação até então ilibada de Luthor.

Daí, então, voltamos ao passado e descobrimos que Clark e Lex foram amigos na adolescência. Nesta representação, um jovem Lex de cabelos ruivos é um antissocial completo, um gênio que de tão inteligente num ambiente tão árido, é mal compreendido e temido. Ao mesmo tempo, o rapaz é meio desequilibrado porque sua família, embora rica, seja completamente desfuncional e seu pai seja um abusador. Inclusive, seu pai também é desenhado à semelhança de Smallville.

Clark e Lex se tornam amigos por causa de um interesse comum: a astronomia, ambos fascinados – por motivos diferentes, obviamente – pela vida alienígena. Essa amizade dura algum tempo, mas Lex está cada vez mais obcecado com os experimentos que realiza em seu laboratório caseiro. Como na Era de Prata, Luthor é um cientista brilhante já em tenra idade e tenta criar um buraco de minhoca usando uma peça de Kryptonita.

Clark testemunha o experimento e Lex chega a ver um pequeno vislumbre de Krypton, porém, o futuro Superman é afetado pela Kryptonita e começa a passar mal, o que Lex interpreta como o amigo assumindo a mesma postura de medo e repugnância que os outros sofrem em relação a ele e fica enfurecido. No fim, o experimento dá errado e explode: a combinação radioativa do fogo e da radiação da Kryptonita deixam Lex careca – numa singela homenagem à origem dos anos 1960 – , mas no típico tom mais adulto das histórias do século XXI, o jovem Luthor presencia seu pai em meio às chamas, mas o deixa morrer.

Depois disso, Luthor segue seu rumo, se tornando um cientista brilhante, especializado em astrobiologia, mas passa a negar que tenha vivido em Smallville e chega ao ponto de não reconhecer (ou fingir não reconhecer) Clark Kent quando o reencontra em Metrópolis.

Alguns elementos de O Legado das Estrelas começaram a ser incorporados nas histórias mensais do Superman, mas aquilo não durou muito, pois logo veio outra crise dando uma fissura na DC Comics para fazer um reboot completo de seu universo ficcional a cada três ou quatro anos. (Não, isso não é piada, isso aconteceu mesmo!).

Três Crises

Lembram que quando Luthor perdeu a presidência disse que haveria uma “crise”? Pois, bem, houve sim, não uma, mas três. Três!

Passados 20 anos de Crise nas Infinitas Terras, o desejo dos escritores e editores da DC Comics de trazer de volta elementos do Universo DC perdidos pós-Crise estava em alta e os remendos da Zero Hora – um ajuste de arestas da Crise original, em 1994 – só piorou as coisas. A cronologia da DC começava a ficar confusa e havia um embate entre dois grupos claramente definidos de escritores: os favoráveis à postura mais sombria e violenta da Era Moderna e aqueles que gostariam de trazer de volta o humor e leveza da Era de Prata adaptado aos tempos modernos.

Como maneira de conciliar tudo, a DC decidiu fazer um novo reboot de seu universo, de modo menos dramático do que em Crise nas Infinitas Terras, mas ao mesmo tempo atendendo à lógica mais “grandiosa” dos megacrossovers da época. Então, um quinteto de megaeventos procurou organizar o Universo DC: Crise de Identidade, Contagem Regressiva para a Crise Infinita, Crise Infinita, 52 e Crise Final, publicados entre 2005 e 2010.

Crise Infinita.

Crise de Identidade, ao contrário das demais, era uma história mais concisa, humana e de alta qualidade, escrita pelo romancista Brad Meltzer e desenhada por Rags Morales, publicada em sete capítulos na virada de 2004 para 2005. Não era um reboot, mas um retcon, ou seja, dando outra visão a eventos passados. Na trama, em meio a uma investigação de assassinato, Batman descobre que membros da Liga da Justiça lobotomizaram um vilão e apagaram a mente do evento do próprio Batman, exibindo uma postura menos simpática dos heróis, o que gera uma reação dos vilões. Na história, Luthor tenta criar uma articulação mais organizada dos vilões da DC, trazendo a ideia da Legião dos Super-Vilões dos anos 1960 e do desenho Super-Amigos.

Guerreira violenta em “Contagem Regressiva para a Crise Infinita”.

Vem então, Contagem Regressiva para a Crise Infinita, na qual o ex-aliado da Liga da Justiça, Maxwell Lord, cria um sistema de vigilância contra os heróis e cria uma enorme ameaça. No fim, quando os heróis reagem, Lord (que é telepata) domina a mente do Superman e o faz tentar matar a Mulher-Maravilha. Em resposta, a princesa amazona mata o vilão a sangue frio, quebrando seu pescoço.

O Superman da Terra 2 vs. o Superman da Terra 1 na sólida arte de George Perez.

Vem então a Crise Infinita propriamente dita, escrita por Geoff Johns e desenhada maravilhosamente por Phil Jimenez, publicada em sete episódios na vidada de 2005 para 2006: A soma dos eventos de Crise de Identidade e Contagem Regressiva geram uma reação violenta de três sobreviventes do Multiverso pré-Crise das Infinitas Terras que viviam em um tipo de realidade reduzida: o Superman e a Lois Lane mais velhos da Terra-2 e o Superboy extinto, que passaria a se chamar Superboy-Prime dali em diante. As duas versões de Clark Kent pensam que os heróis foram longe demais e deixaram de ser dignos dos nomes que carregavam. O Superboy-Prime fica enlouquecido e quebra “as paredes da realidade” (seja lá o que isso significa) que lhes permitem assistir o que se passa no nosso mundo (como se fosse uma tela de semana) e separa a realidade deles e a dos heróis e modifica a cronologia da DC em consequência.

Os dois Supermen vêm ao mundo da DC e são confrontados pelos heróis e o Superboy-Prime termina ficando louco e virando um poderoso vilão. Tudo isso modifica a cronologia da DC e traz de volta o Multiverso, que é de certo modo apresentada na maxissérie 52, publicada em 52 capítulos semanais ao longo do ano de 2006.

Alexander Luthor Jr. em Crise Infinita.

No que consiste a Luthor, nosso objeto aqui, há uma importante participação em Crise Infinita: outro sobrevivente do velho Multiverso, Alexander Luthor – o herói da antiga Terra-3 na qual a Liga da Justiça é maligna – que está interessado em trazer o Multiverso de volta apenas como fonte para que ele possa montar o que considera o Universo perfeito, pois também considera que os heróis se desvirtuaram.

O Coringa e Lex Luthor matam o jovem Alexander Luthor Jr.

Ele é parcialmente bem-sucedido em seu plano, mas ao se fazer passar pelo Luthor da “nossa” realidade, o vilão ficou muito irritado. Desmascarando a jovem contraparte de sim mesmo, Luthor promove que Alexander seja atacado e morto pelo Coringa, na frente de si.

É a deixa para repetir o plot do clone jovem dos anos 1990 e Luthor usar a existência de um “outro eu” para acusar de seus crimes e, de novo, o vilão é inocentado de seus crimes e, mesmo tendo perdido a presidência, não era mais um criminoso procurado.

Crise Final.

Houve ainda a Crise Final escrita por Grant Morrison e belamente ilustrada por J.G. Jones, numa trama sobre o ataque de Darkseid à Terra e Luthor às voltas com uma Sociedade Secreta dos Super-Vilões.

Mas se mudou a cronologia da DC então o Superman precisava de uma nova origem, certo? Uma que trouxesse de verdade de volta os elementos da Era de Prata. E assim, após apenas três anos de ser publicada, O Legado das Estrelas deixou de ser canônica.

Origem Secreta

Mais um reboot completo da origem do Superman chegou em 2009 com a minissérie Origem Secreta, escrita por Geoff Johns e desenhada por Gary Frank, criada para resgatar todo o classicismo possível da Era de Prata e desfazer completamente o enxugamento proposto após a Crise nas Infinitas Terras. A história de Johns e Frank se propõe tão ligada ao período clássico que chega a ser cafona: Frank tem um traço limpo e imprime algum realismo ao dar o caráter “de roupa” ao uniforme do herói e até a simplesmente desenhá-lo com o rosto do ator Christopher Reeve, que o viveu em Superman – O Filme.

Origem Secreta: Origem por Geoff Johns.

As mudanças são totais, inclusive, no que diz respeito a Legado das Estrelas, desde Jonathan e Martha Kent sendo mais idosos (mas ainda assim mais joviais do que as versões antigas e de novo guardando parte do visual de Smallville) até trazer de volta todos os elementos da Era de Prata (que só os editores da DC sentiam falta), como Superboy, Krypto, Legião dos Super-Heróis… E, claro, a amizade adolescente entre Clark Kent e Lex Luthor.

Painel com as capas de Origem Secreta, por Gary Frank.

A trama recicla um conjunto de ideias tanto de O Homem de Aço quanto de Legado das Estrelas, trazendo os elementos da Era de Prata de volta à continuidade da DC em uma ambientação moderna, mas não sombria. Na história, um Clark Kent de uns 14 anos de idade já tem seus poderes em um nível alto e incentivado pelos pais se torna o Superboy, o que o leva a conhecer a Legião dos Super-Heróis do século 30. Porém, diferente das HQs antigas, o menino de aço age nas sombras e ninguém fica sabendo de sua existência. Ele é apenas uma lenda. O herói só se revela ao grande público já adulto e em Metrópolis, para salvar Lois Lane de um acidente de helicóptero muito parecido com o do Superman – O Filme.

Na minissérie, Clark e Lex se conhecem em Smallville, mas enquanto o futuro Superman tens uns 14 anos, o futuro vilão parece um pouco mais velho, talvez com 16 anos. Seu pai é novamente retratado com a aparência do Lionel Luthor de Smallville, porém, ele volta a ser um beberrão tal qual na versão dos anos 1980. Numa “homenagem” à cronologia de O Homem de Aço, Origem Secreta mostra Lex sabotando os freios do caminhão do pai, mas o velho não morre pela ação do Superboy, que impede o veículo de cair de uma ribanceira. Depois, o Luthor pai morre de um ataque cardíaco, deixando claro que foi o filho o responsável, embora a polícia não tenha suspeitado. Lex tem uma irmã chamada Lena. E, de novo, tal qual O Homem de Aço, o jovem de cabelos ruivos faz uma apólice de seguros e ganha uma grande soma de dinheiro que irá ser o primeiro passo para sua fortuna.

Quanto a Clark, os dois se conhecem, mas não chegam a se tornar grandes amigos nessa história. Lex fica ligeiramente impressionado por Clark ser um leitor voraz na tacanha Smallville e mais ainda por seu conhecimento em ciências. Mas embora Clark tenha tendado se aproximar do colega, Luthor não vê sentido em ser amigo de um pirralho. Anos mais tarde, quando Clark Kent e Lois Lane vão entrevistar Lex Luthor, Clark menciona que os dois se conhecem e Luthor dá a entender que lembra (diferente de O Legado das Estrelas), embora de modo frio. Clark diz: “nós nos conhecemos, de Smallville”; no que Lex responde “hum… isso faz algum tempo, mas eu lembraria desses óculos em qualquer lugar”.

Na trama, Luthor é um dos principais fornecedores de armas para o Exército dos EUA e seu principal contato é o general Sam Lane, pai de Lois. Quando as tramoias de Luthor deixam claro que o Superman é um alienígena, o general Lane aprova uma ofensiva contra o herói. Quase numa tacada só, Lex é o responsável pelo surgimento de dois vilões: o Parasita (em um acidente radioativo) e Metallo, com John Corben sendo um tenente apaixonado por Lois que, ao usar uma armadura alimentada por Kryptonita, quase morre e é “salvo” por Luthor, que o transforma no ciborgue que conhecemos.

De Volta à Rotina

A reformulação de Crise Infinita também restabeleceu Lena Luthor no presente. Ela aparece em Adventure Comics (vol. 2) 05 e 06, de 2010, escrita por Geoff Johns e desenhada por Francis Manapul, numa aventura do novo Superboy Conner Kent (o clone que combina DNA do Superman e de Lex Luthor que surgiu na saga O Retorno do Superman, em 1993), na qual a vemos como uma mulher paralítica e vivendo em uma cadeira de rodas e tendo uma filha adolescente, Lori Luthor.

Ambas não compartilham a maldade de Lex, e a história mostra Luthor enviando o Superboy para reunir compostos secretos e poderosos que poderiam formar um soro que curaria Lena. O herói cumpre a missão e Lex injeta o soro na irmão e ela fica curada, mas ele injeta um outro soro anulando tal efeito, apenas para zombar com Lena e Superboy. Lori ameaça matá-lo com uma arma, mas Brainiac o retira da cena.

Geoff Johns ganhou bastante respaldo dentro da DC Comics e foi o principal escritor do Superman entre 2006 e 2011, numa fase que realmente produziu grandes histórias para o personagem e certa popularidade entre os leitores dos quadrinhos como há algum tempo não ocorria.

Mas isso não envolvia Luthor, que voltou à rotina de vilão cientista maluco que teve na Era de Prata em aparições não muito inspiradas. Um exemplo é Action Comics 839 e 840, de 2006, escrita por Geoff Johns e Kurt Busiek e desenhada pelo brasileiro Renato Guedes e por Pete Wood; na qual usa os cristais kryptonianos para tentar destruir a cidade, enquanto é impedido pelo Superman; para em seguida, os dois lutarem no mano a mano, uma vez que o herói está enfraquecido pela Kryptonita, mas ainda assim, vence. Luthor é um criminoso de novo nessa nova realidade e é preso.

Lex Luthor e sua armadura nos quadrinhos. Arte de David Finch.

Luthor teria uma participação um pouco mais importante no arco Novo Krypton, particularmente em Action Comics 871 e 872, de 2009, por Geoff Johns e Pete Woods, na qual 300 kryptonianos liderados pelo General Zod causam uma grande ameaça à Terra. Desesperados por ajuda, os militares permitem que o general Sam Lane, antigo aliado de Lex antes dele ser descoberto como criminoso, coopta o vilão para auxiliá-lo, e Luthor usa Brainiac para encontrar uma forma de derrotar os kryptonianos e matar o General Zod. Depois disso, Brainiac ajuda Luthor a fugir da prisão.

Já tínhamos dito que a DC Comics estava fissurada em fazer reboots, não é? Pois bem… Depois de Crise Infinita em 2006 veio Flashpoint, em 2011 e um novo reboot.

A última aventura dessa realidade pós-Crises (sim, no plural) foi com a história Reino do Apocalipse, no qual em Action Comics 899, de 2011, escrita por Paul Cornell e desenhada por Jesus Merino, Lex Luthor se apossa de um artefato cósmico extremamente poderoso e confronta Brainiac usando uma nova versão de sua armadura de batalha, incrementada com tecnologia kryptoniana, e vence, conseguindo uma passagem para a Zona Fantasma. Lá encontra um monstro cujo domínio das emoções lhe fazem uma das coisas mais poderosas do universo. Luthor consegue se fundir ao monstro e se torna poderoso como um deus.

A batalha “final” entre Luthor e Superman se dá em Action Comics 900, que celebrava os 73 anos de publicação da revista (e do herói), numa edição especial com quase 100 páginas e várias histórias. Na principal, escrita por Paul Cornell e desenhada especialmente por um batalhão de artistas, que inclui Pete Woods, Gary Frank, Jesus Merino e Rags Morales, Superman tenta convencer Luthor a fazer o bem com os novos poderes que adquiriu, mas o ódio do vilão é mais forte.

Na batalha, Luthor tenta sobrecarregar o homem de aço de emoções humanas que ele acha que o “alien” apenas finge ter, mas o acesso à mente do Superman revela para o vilão que ele é Clark Kent, o seu velho “amigo” de adolescência, o que o desestabiliza. Com isso, Luthor perde a conexão com o tal monstro e também perde todas as memórias do que aconteceu enquanto esteve vinculada a ele, o que inclui o lance da identidade secreta, e termina caindo em um buraco no espaço-tempo da Zona Fantasma, onde ficaria para sempre.

E veio o reboot e mudou tudo. De novo.

De novo, mas não pela última vez.

Os Novos 52

Em Flashpoint (Ponto de Ignição, no Brasil), uma viagem do Flash ao passado termina por alterar toda a realidade e surgir, daí, uma nova cronologia para a DC Comics. Contudo, dessa vez, em vez de manter a continuidade “com mudanças” como foi Crise Infinita, se adotou uma mudança total tal qual havia sido Crise nas Infinitas Terras. Incluindo que todas as revistas tiveram a numeração zerada e ganharam novas equipes criativas.

Capa original de Flashpoint, Ponto de Ignição no Brasil, por Andy Kubert.

Um elemento importante nesse reboot foi que os heróis da DC – que já chegavam aos 40 ou 45 anos de idade na cronologia pós-Crise foram todos rejuvenescidos, sendo estabelecido que no “presente” só estavam em ação há 5 anos. E mais: quando os metahumanos começaram a surgir, mais ou menos ao mesmo tempo, foram temidos pela população e o termo “super-herói” só foi adotado quando a Liga da Justiça se reuniu e derrotou uma invasão das forças de Apokolips submissas a Darkseid.

A nova Liga da Justiça de Geoff Johns e Jim Lee.

O Superman estabelecido pelo editor Dan Didio, os escritores Geoff Johns, Grant Morrison e o desenhista Jim Lee, era mais jovem e impulsivo, perdendo parte do bom-mocismo que sempre marcou o personagem – e é visto por muitos comum uma fraqueza. Ah, e ganhou um tipo de armadura kryptoniana. E perdeu a cueca vermelha sobre a calça.

Mas quanto a Lex Luthor não houve grandes transformações. Na nova versão, em histórias escritas por Grant Morrison e desenhadas por Rags Morales na nova Action Comics que recomeçou do número 01, de novo não há ligação remota entre ele e Clark Kent, e os caminhos dos dois se cruzam quando Luthor ainda é visto como um empresário honesto e Superman é um iniciante em sua carreira heroica. Mas aqui, ele é perseguido pela polícia e o General Sam Lane contrata Luthor e a LexCorp. como assessores para enfrentar essa ameaça desconhecida.

A nova capa de “Action Comics 01” na arte de Rags Morales.

Usando um trem desgovernado para atrair o jovem Superman – que por bizarro que possa aparecer era então simplesmente Clark Kent usando uma camiseta, uma calça jeans, uma capa vermelha e sapatos – que sem ter todos os seus poderes ainda desenvolvidos (ele não voa ainda, por exemplo), termina inconsciente. Luthor o sequestra e o submete a uma série de testes, descobrindo suas forças e fraquezas. Aqui, de novo, o vilão é um grande cientista.

O novo uniforme Superman, por Jim Lee.

Algum tempo depois, numa batalha contra Brainiac, o Superman encontra uma armadura kryptoniana que se torna seu uniforme, ao mesmo tempo em que desenvolve a plenitude de seus poderes, mas Sam Lane e o herói descobrem que Luthor estava mancomunado com o Coletor de Mundos e o empresário perde sua conexão com os militares, mesmo que tal crime não possa ser provado.

Por fim, Luthor usa o DNA do Superman para criar um monstro que ele chama de Híbrido e junto com um vírus e armas de kryptonita termina por atacar Metrópolis. Dessa vez, o Superman consegue conectar o vilão aos eventos e Luthor é preso pela primeira vez nesta realidade.

Novos Rumos

Desde então, Luthor viveu algumas aventuras… Após descobrir a identidade secreta do Batman, Luthor chantageia Bruce Wayne para entrar na Liga da Justiça, como se fosse um herói.

Depois, o vilão Vandal Savage revela que o Superman é Clark Kent, mas Luthor – tal qual fizera nas histórias de John Bryne nos anos 1980 – não acredita na informação. Porém, não muito tempo depois, o herói é “desmascarado” diante Lois Lane em uma batalha e abre o jogo com ela.

Mas a Lois Lane de Os Novos 52 decide contar o segredo à imprensa e o mundo passa a saber que o Superman é Clark Kent. Luthor permanece reticente à ideia.

Quando o Superman de Os Novos 52 morre em batalha, Luthor passa a usar uma armadura com o “s” do herói e se torna o novo Superman, mas o velho Superman pós-Crise está vivo e retorna – sim, é isso mesmo o que você está lendo – e desmascara os planos do vilão.

Na maxissérie Doomsday Clock, que promove o primeiro crossover entre o universo de Watchmen (criada por Alan Moore e Dave Gibbons e publicada pela DC Comics em 1986) e o Universo DC, escrita por Geoff Johns e desenhada por Gary Frank, Lex Luthor tenta descobrir o que está acontecendo com esse choque de realidades tanto quanto Superman e Batman, ainda mais depois de ser atacado pelo Comediante após ser procurado por Ozzymandias.

Luthor em Outras Mídias

O Superman é um dos grandes ícones culturais dos tempos modernos e migrou das histórias em quadrinhos para todos os outros tipos de mídia, de desenhos animados e filmes com atores a livros (adultos e infantis), videogames etc. e Lex Luthor, como seu principal vilão, fez o mesmo.

O fato de ser uma presença constante nessas outras mídias, e em particular nos filmes (animados ou não) terminaram por transformar Lex Luthor em um dos maiores vilões da literatura (e das artes) moderna e um ícone por si próprio.

Lyle Talbot: o primeiro Luthor live action.
Lyle Talbot: o primeiro Luthor live action.

Como o vilão surgiu somente após dois anos depois da criação do Superman e demorou algum tempo para se notabilizar como seu principal inimigo, Luthor não apareceu na primeira versão em desenho animado do herói, no início dos anos 1940. A primeira vez que Luthor foi interpretado por um ator foi no seriado para o cinema Atom-Man vs. Superman, um seriado para o cinema em 15 capítulos lançado em 1950, na qual o vilão é interpretado por Lyle Talbot e o herói por Kirk Alyn. Foi o segundo serial para o cinema do herói: o anterior fora dois anos antes.

Na trama, Luthor é o Atom-Man, que chantageia uma cidade sob o risco de destruí-la com armas avançadas. Lyle Talbot tinha interpretado o Comissário Gordon no serial do Batman de 1949 e usou uma peruca de borracha para simular a calvice. O vilão é retratado com uma típica roupa de cientista e usa um leve sotaque alemão para o personagem. A aparência ligeiramente acima do peso de Talbot também era condizente com o visual do vilão nos quadrinhos.

Infelizmente, quando o Superman ganhou seu primeiro seriado para a TV, em 1952, agora interpretado por George Reeves em seis temporadas, o vilão não apareceu em nenhum episódio.

Mas o vilão ganhou um pouco mais de fôlego fora os quadrinhos nos desenhos animados, aparecendo em 10 episódios do desenho animado da Filmation, The New Adventures of Superman, exibido em três temporadas entre 1966 e 1968, concomitante com a série de TV (live action) do Batman. O programa do Superman, contudo, era formado por pequenos episódios de apenas 6 minutos. Luthor foi interpretado por Ray Owens e tem a curiosidade de aparecer mais gordinho nas duas primeiras temporadas e mais magro na terceira.

Pouco depois, Luthor regressou aos desenhos em Super-Amigos, a versão infantil da Liga da Justiça da DC que ganhou uma famosa série pelos estúdios Hanna-Barbera, estreando em 1973 e tendo 9 temporadas até 1986, no qual o vilão era representado com o visual dos quadrinhos em seu uniforme roxo e verde e com uma aparência mais magra e musculosa. Luthor foi o vilão mais recorrente no programa, em todas as suas fases, e era o líder da Legião do Mal (Legion of Doom), um grupo de super-vilões, e foi dublado pelo ator G. Stanley Jones.

A espalhafatosa versão de Gene Hackman.
A espalhafatosa versão de Gene Hackman.

Os filmes modernos trouxeram o vilão em sua maioria. Gene Hackman viveu Luthor em Superman – O Filme (1978), Superman II – A Aventura Continua (1980) e Superman IV – Em Busca da Paz (1987), numa versão caricata e humorística do personagem, retratado como um gangster que quer muito poder a qualquer custo.

Superman – O Filme foi a primeira superprodução de um super-herói e um filme que causou bastante impacto na época de seu lançamento, por sua qualidade, dirigido por Richard Donner, e com um elenco estrelado, incluindo, Hackman como Luthor, Marlon Brando como Jor-El, Glen Ford como Jonathan Kent, e os novatos Christopher Reeve e Margot Kidder como Clark Kent e Lois Lane.

Christopher Reeve: para muitos, o Superman definitivo.

Na trama, Luthor é um criminoso de carreira, procurado pela polícia e o FBI, e vive em uma base secreta no subterrâneo de Metrópolis. Ele é um gênio e milionário, mas não resiste a cometer grandes crimes, aparentemente, por pura egomania. Não há, portanto, nenhum tipo de animosidade particular contra o homem de aço. Refletindo as ameaças dos quadrinhos da Era de Prata, o plano de Luthor envolve disparar mísseis nucleares na Falha de San Andreas, e com isso, derrubar a Califórnia dentro do Oceano Pacífico, transformando as propriedades de Luthor em territórios à beira-mar.

Em sua egolatria, o vilão termina se tornando um alívio cômico, numa abordagem galhofeira, o que é um dos defeitos do clássico primeiro filme. E está sempre acompanhado de ajudantes atrapalhados, alguns até no estilo pastelão. Também fica óbvio que Gene Hackman tem cabelos! Mas o filme deixa claro que ele é calvo e usa peruca. Inclusive, na cena final, quando o Superman entrega Luthor à cadeia, o vilão tira a peruca e se revela careca – de novo, usando o recurso de uma peruca calva.

Superman II traz o retorno de Luthor, embora agora como uma ameaça secundária. Dirigido agora por Richard Lester, a trama mostra os kryptonianos General Zod, Ursa e Non chegando à Terra logo após o Superman decidir abdicar de seus poderes para viver uma vida normal com Lois Lane. Ao ver os kryptonianos dominando os Estados Unidos e prestes manter todo o planeta sob sua rédea, Clark dá um jeito de retomar seus poderes e enfrentá-los.

O filme inicia com Luthor na cadeia e usando seu gênio científico para escapar e sabendo que o homem de aço sempre se dirige ao Polo Norte vai para lá e descobre a Fortaleza da Solidão, onde obtém uma série de informações sobre o herói. Depois, propondo uma aliança com Zod, em troca de informações sobre o Superman – o filho de Jor-El, o responsável por mandar Zod para a Zona Fantasma – solicita o domínio da Austrália. Depois, Luthor leva o trio à Fortaleza da Solidão, onde se dá a batalha final, e ainda tenta enganar o Superman para lhe tirar os poderes, mas espertamente, o homem de aço inverte o funcionamento da máquina e tira os poderes de Zod e seus asseclas. No fim, Superman deixa Luthor de novo na cadeia.

A icônica versão de Zod de Terence Stamp.

Superman II foi um filme extremamente problemático em termos de produção, pois o diretor do primeiro, Richard Donner, foi demitido e Lester colocado em seu lugar, mas atores como Marlon Brando e Gene Hackman se negaram a realizar refilmagens sob o comando do novo diretor, o que obrigou o estúdio a mesclar cenas filmadas por Donner (com Hackman) e novas com Lester (sem Hackman). Brando por sua vez, vetou o uso de sua imagem no filme, o que obrigou à reescrita do roteiro e a perda de um dos grandes temas do filme, que era a relação entre o Superman e seu pai, Jor-El. A visão de Donner, contudo, pôde ser conferida em Superman II – The Richard Donner Cut, lançada em DVD em 2006, remontada a partir das filmagens originais.

Talvez por todo esse mal estar, Hackman e Luthor não voltam para Superman III, que usou outro milionário criminoso genérico como vilão. Mas uma “renovação” da franquia veio em Superman IV – Em Busca da Paz, trouxe o vilão de volta, com Luthor usando um fio de cabelo do Superman para criar um clone maligno, o Homem-Nuclear. O herói triunfa e leva Luthor outra vez à prisão. A produção, contudo, foi ainda mais problemática, com um grande corte no orçamento que obrigou ao roteiro ser reescrito e o filme enxugado, o que gerou o filme mais fraco da franquia e até constrangedora em alguns momentos.

Kevin Spacey: mais sombrio, mas com humor.
Kevin Spacey: mais sombrio, mas com humor.

De qualquer modo, a franquia do Superman ganhou um tipo de sequência com Superman – O Retorno (2006), dirigido por Bryan Singer (dos filmes dos X-Men) e estrelado por Brandon Routh, que meio que retomava a trama geral dos velhos filmes em uma abordagem contemporânea. Lex Luthor foi vivido por Kevin Spacey, numa versão mais sombria, mas ainda mantendo algo do humor da versão anterior. Seus capangas também fazem o tipo atrapalhado da versão anterior.

Spacey – que é um ator talentosíssimo, mas cuja carreira caiu em desgraça nos últimos anos por causa das acusações de assédio sexual contra homens com quem trabalhou – raspou mesmo a cabeça, mas como o filme mantém uma continuidade com os anteriores, é visto usando perucas em algumas cenas.

O Retorno, contudo, não foi bem recebido e não gerou continuidades.

John Shea: versão charmosa e maligna.
John Shea: versão charmosa e maligna.

Na TV, o vilão teve destaque em Lois & Clark – As Novas Aventuras do Superman, exibido na primeira metade dos anos 1990, vivido por John Shea, inclusive fazendo um triângulo amoroso com Clark Kent (Dean Cain) e Lois Lane (Teri Hatcher), e quase casando com a repórter.

É uma versão interessante, refletindo diretamente a versão Byrne-Pós-Crise do vilão, como um empresário intocável pela lei. John Shea faz um Lex Luthor com cabelos, como pode-se notar.

Lex morre ao fim da primeira temporada, mas é ressuscitado por seus asseclas na segunda temporada, ficando calvo temporariamente, mas depois ganhando os cabelos de novo. O vilão também aparece na terceira temporada e termina morrendo na explosão de seu laboratório.

Mas seria em Smallville que Lex Luthor ganharia sua versão mais célebre nos últimos anos.

Smallville

Michael Rosenbaun como Lex Luthor: melhor versão do vilão até hoje.
Michael Rosenbaun como Lex Luthor: melhor versão do vilão até hoje.

Em Smallville, Lex Luthor era o segundo personagem principal, interpretado por Michael Rosenbaum durante sete temporadas. A trama do seriado gira quase inteiramente em torno da amizade entre Luthor e Clark Kent (Tom Welling), construindo em detalhes a personalidade complexa do vilão.

Por isso mesmo, por mais que existam críticas dos fãs a Smallville, não há como negar que o programa construiu a melhor versão de Lex Luthor entre todas. Melhor até que nos quadrinhos, porque está mais concisa, bem contada e construída. E Michael Rosenbaum é um grande ator e botou sangue em sua versão atormentada do jovem Luthor: ele podia ser charmoso e irônico ao mesmo tempo em que cínico e vil, transpassando um grande espectro de emoções;

Lionel Luthor: a relação tensa, cheia de mentiras e segredos entre ele e seu filho Lex foi muito bem construída em "Smallville".
Lionel Luthor: criando o filho para ser um Luthor.

Na trama, Lex é herdeiro da fortuna de seu pai, Lionel Luthor (John Glover), que construiu um império em torno da LuthorCorp. Lionel é um homem totalmente sem escrúpulos e um competidor extremo. Por isso, incentiva a competição e a ganância em seu filho, criando jogos mentais e corporativos que forcem Lex ao limite. As evidências de um alienígena superpoderoso na pacata cidade de Smallville, terra natal dos Luthors, não ajuda nada.

Amizade entre Clark e Lex é desenvolvida na série.
Amizade entre Clark e Lex é desenvolvida na série.

Ciente de tudo isso que o cerca, o jovem Lex Luthor do início da série está disposto a se diferenciar do pai e ser um homem melhor, após um passado “delinquente” em sua adolescência, marcado por erros e até crimes. Ao se tornar amigo de Clark Kent, Lex fica fascinado com a simplicidade da vida do fazendeiro, do forte código moral que os move e da família amorosa, o que o aproxima mais. Contudo, os fatos estranhos em torno da vida de Clark, que esconde os seus segredos, terminam por criar uma obsessão em Lex, que passa a fazer de tudo para saber o que está acontecendo, enquanto inicia uma trajetória que o levará cada vez mais a ficar parecido com seu pai.

Lex não pôde contemplar o seu futuro em “Hourglass”, mas nós sim!

Em um dos primeiros episódios da primeira temporada, Clark e seus amigos encontram uma velhinha capaz de ver o futuro das pessoas e enquanto ela vê um futuro grandioso para o futuro herói, também somos agraciados com o futuro de Lex: ele aparece disparando uma série de mísseis nucleares, cercado de crânios, em meio a uma chuva de sangue e também usando uma luva preta na mão direita, sinalizando o famoso plot dos quadrinhos no qual perde a mão por causa de um câncer causado pelo uso constante do anel de Kryptonita.

Lana Lang, Clark Kent e Lex Luthor em Smallville: triângulo amoroso.

Particularmente, as temporadas 4 e 5 exploram um tipo de triângulo amoroso entre Clark Kent, Lana Lang e Lex Luthor. Os segredos em torno de Clark terminam afastando-o de Lana, e isso abre o caminho para Lex. Na sexta temporada, quando Lana já sabe da verdade, ela termina se casando com Lex, mas depois, tudo é revelado como um plano dela para proteger Clark. Em vingança, Lex termina por infectar o corpo de Lana com Kryptonita, impedindo-a de se aproximar de Clark.

Smallville mergulha fundo na psiquê de Lex Luthor.

Smallville ainda criou uma aterradora história familiar para os Luthors, conforme visto em sua 3ª temporada. Lex é o primogênito de Lionel e Lena, mas quando tinha cerca de quatro ou seis anos, ganhou um irmão mais novo, Julian. À esta altura, sua mãe, Lena, já estava farta dos jogos de Lionel e achava que o marido iria transformar as crianças em inimigas para que o mais forte sobrevivesse. Por isso, Lena mata o próprio filho, ainda bebê, sufocado em seu berço.

Em choque, a mulher não consegue impedir que Lionel pense que foi Lex quem matou o irmão, criando uma relação de ódio do pai para com o filho. Em depressão profunda, Lena fica em estado praticamente catatônico e, depois, termina por se suicidar, de modo que Lionel atribui tudo isso à morte de Julian, sem saber que fora ela a assassina. A partir de então, o clima gélido e competitivo da casa dos Luthor passou a imperar, enquanto Lex crescia e era enviado a reformatórios ou caras escolas privadas de tempo integral.

A relação tensa, cheia de mentiras e segredos entre Lex Luthor e seu pai, Lionel, foi muito bem construída em "Smallville".
A relação tensa, cheia de mentiras e segredos entre Lex Luthor e seu pai, Lionel, foi muito bem construída em “Smallville”.

A 3ª Temporada revela, ainda, que Lionel havia matado seus próprios pais, recebendo o dinheiro do seguro (tomando de empréstimo a ideia das HQs em relação ao seu filho) e, com isso, iniciando sua fortuna. Mais tarde, a 10ª temporada revelaria que Lionel teve uma filha fora do casamento, Luthessa, que encaminha para um orfanato (após supostamente matar a mãe dela). Sem saber da verdade, essa garota adotará o nome de Tess Mercer, personagem introduzida antes, na 8ª temporada, como um tipo de “substituta” de Lex.

Antes disso, porém, o arco de Lionel Luthor transcorre de modo inverso ao do filho. O contato com Clark Kent termina por “contaminá-lo” pela bondade da família Kent, de modo que ele passa a rever seus erros e tentar corrigi-los. Embora jamais chegue a ser um “cara do bem”, Lionel se transforma em um aliado relutante de Clark entre a 5ª e 7ª Temporadas.

Lex Luthor presidente dos EUA em “Smallville”.

Na sexta temporada, vislumbramos um futuro possível e lá está Lex de novo usando a luva preta na mão direita, e como Presidente dos EUA, tendo Brainiac como seu braço direito.

Lex e Clark (Tom Welling) têm o seu momento definitivo em “Arctic”: segredo revelado.

Na 7ª Temporada, Lex já está praticamente transformado no vilão que deverá ser no futuro e ao descobrir o envolvimento do pai na seita Véritas e saber que Lionel já conhecia o segredo de Clark (que ele é o kryptoniano enviado à Terra e tem superpoderes), fica completamente enfurecido e assassina o próprio pai, jogando-o do alto da torre da LuthorCorp. No entanto, Michael Rosenbaum não renovou o seu contrato e saiu do programa após o fim daquela temporada, deixando o arco de seu personagem incompleto.

Após sua saída do programa, em 2008, a trama o colocou como desaparecido e, em seguida, dado como morto. As tramas insinuavam como se Lex agisse nas sombras (agora que Clark se unira a outros heróis, como o Arqueiro Verde), mas também sem dar muita ênfase a isso, porque os produtores não tinham certeza se Rosenbaum iria regressar ao programa algum dia.

Gray como o clone envelhecido de Lex Luthor.
Gray como o clone envelhecido de Lex Luthor em Smallville.

O início da 10ª temporada, em 2010, dava indícios do retorno de Lex em breve – como demonstra a participação de Mackenzie Gray , que interpreta um dos clones de Luthor. Um clone que envelheceu rapidamente e está morrendo, mas ainda assim, consegue causar uma grande dor de cabeça ao herói, ao sequestrar Lois Lane (Erica Durance) e explodir o famoso globo de metal no topo do prédio do Planeta Diário, no primeiro episódio daquela temporada.

Clark (Welling) e Lex (Rosenbaum) se reencontram após anos: ex-amigos destinados a serem os maiores inimigos.
Clark (Welling) e Lex (Rosenbaum) se reencontram após anos, no episódio final: ex-amigos destinados a serem os maiores inimigos.

Rosenbaum só reapareceu mesmo no capítulo final da série, um episódio duplo, sendo ressuscitado por meio da clonagem, repetindo o plot de Lois & Clark. O empresário retoma rapidamente suas atividades e reencontra Clark e os dois têm um diálogo matador sobre porque são rivais. Depois, Lex mata sua meia-irmã, Tess Mercer, mas ela consegue envenená-lo com uma substância que apaga sua memória, fazendo-o esquecer do segredo de Clark.

No fim, o programa avança sete anos no tempo para mostrar que Clark é o Superman ao mesmo tempo em que Luthor aparece como candidato à presidência dos EUA.

Luthor teve uma encarnação mais recente na TV na série de TV Supergirl, onde apareceu na quarta temporada vivido por John Cryer, ator conhecido por papéis cômicos, mas que surpreendeu na sua versão do vilão.

O vilão nos Cartoons

Em 1993, a DC Comics lançou Batman – A Série Animada, um desenho animado do homem-morcego capitaneado pelo desenhista Bruce Timm e o produtor Alan Burnett, que fez muito sucesso com sua abordagem art decord e sombria do herói. O sucesso motivou um derivado com Superman – A Série Animada, que estreou em 1996, com o mesmo design e três temporadas.

Lex Luthor, claro, era uma das grandes atrações do programa, mostrado tal qual na versão pós-Crise como um empresário inescrupuloso e intocável pela lei, apesar de seus constantes crimes horrendos, e é dublado por Clancy Brown. Luthor é retratado de modo tradicional, careca, relativamente magro, não aparentando ser muito velho; mas dessa vez, seu rosto tem algo de exótico, inspirado no ator Telly Savalas, que viveu o vilão Blofeld no filme 007 – A Serviço Secreto de Sua Majestade, de 1969, e que embora nascido nos EUA vinha de uma família grega.

O Luthor animado, assim como o Superman, migrou para Liga da Justiça – A Série Animada e continuou por uma série de longametragens em desenho animado que constituíram o Universo Animado da DC.

Nos cinemas de Novo

A partir de 2013, a DC Comics tentou (?) criar um universo cinematográfico próprio para concorrer com a Marvel Comics que lançou o seu em torno da franquia dos Vingadores com absoluto sucesso. A DC não foi tão bem-sucedida.

O Homem de Aço.

Superman – O Homem de Aço foi o primeiro produto, um filme com bastante potencial e uma boa história, algo desperdiçada em um número tão grande de lutas que deixa pouca margem para explorar os personagens depois de um início promissor, numa trama que mimetiza alguns elementos de Superman II, no qual após ter sido condenado em Krypton por Jor-El e enviado à Zona Fantasma junto a seu grupo por causa de seus crimes, o General Zod consegue escapar de volta à nossa dimensão e termina na Terra, em busca do último kryptoniano sobrevivente, Kal-El. A chegada de Zod e seus asseclas força Clark Kent a finalmente se revelar ao mundo e se torna o Superman.

A Origem da Justiça: versão estendida ganha prólogo.

Em Batman vs. Superman – A Origem da Justiça, as consequências do ataque de Zod e da revelação do Superman ganham suas consequências, com um Batman enfurecido pensando que o último filho de Krypton é uma ameaça; enquanto Lex Luthor manipula a todos para obter controle sobre a tecnologia alienígena.

Lex Luthor: versão maníaca. E fabulosa.

O Luthor de A Origem da Justiça é diferente de tudo o que se viu antes: é jovem como o de Smallville, mas completamente louco, psicótico, alucinado, com algumas manias e aparência de alguém viciado em cocaína. Não tem nada de cômico, mas de aterrador, vivido com afetação por Jesse Eisenberg, advindo do cinema indie.

Lex Luthor.

Ele é retratado como herdeiro da LexCorp., alguém que ficou órfão cedo e assumiu um império – e seu pai é retratado como imigrante do Leste Europeu – e possui longos cabelos ruivos. No final do filme, ao ser preso, tem o cabelo raspado e toma a aparência clássica do vilão.

O vilão retorna brevemente no fim de Liga da Justiça, onde o vemos fugir da prisão e se associar a Wilson Slade, o Exterminador, propondo a formação de uma afiliação de vilões, já que os heróis se uniram em grupo. Na cena em questão, em uma singela homenagem a Gene Hackman, Luthor aparece usando um terno com detalhes amarelos muito similar ao que o ator usou em Superman – O Filme.

O futuro do Universo DC nos cinemas está incerto e não se sabe quando o Superman e Luthor irão voltar nem se seguirão tal encarnação. Enquanto isso, o legado de Luthor em seus 80 anos de histórias prossegue como o suprassumo da vilania. E o mais interessante: de um vilão que é humano, que não tem superpoderes, que é apenas muito inteligente. E sem escrúpulos.

Que continue assim!