Qualquer fã de cinema conhece pelo menos uma das várias faces de James Bond, o agente secreto 007, que foi vivido por seis atores diferentes ao longo de seis décadas e 25 filmes. Porém, quantos já pensaram em qual a aparência do personagem tal qual imaginado por seu criador, o escritor Ian Fleming? Algumas revelações curiosas surgiram a partir da recém descoberta coleção de correspondências entre ele e o desenhista britânico John McLusky, parte do acervo que a família do cartunista está disponibilizando para leilão, informa o The Hollywood Reporter. Nas cartas que discutiam a aparência de 007 para a tira de jornal que McLusky deveria ilustrar, Fleming orientou a descrição, dizendo que o espião não devia ter “uma cabeça muito americana” e nem usar “um rabo de pato”, um típico corte de cabelo dos anos 1950, com as têmporas curtas e um ligeiro topete espetado (daí seu nome) na fronte. A orientação era uma tentativa explícita de que o agente a serviço secreto de sua majestade tivesse uma aparência efetivamente britânica e não americanizada, tentando fugir da influência já vigente do típico herói de Hollywood.

Na verdade, apesar de ser bastante curiosa a oportunidade de ler o diálogo entre Fleming e McLusky, o escritor nunca foi tímido sobre a descrição da aparência de Bond em seus livros, onde apareceu pela primeira vez, quase uma década antes de se tornar ainda mais famoso quando transposto ao cinema. Um dos casos mais famosos está no quarto romance de Bond, Da Rússia Com Amor (From Russia with Love, no original, mas também já traduzido no Brasil como Moscou Contra 007), de 1957, Fleming apresenta um dossiê sobre o espião realizado pela SMERSH, a agência de contraespionagem soviética nos livros do autor, que o descreve como de cabelos pretos, olhos azuis, 1,80 m de altura de 76 kg, com uma cicatriz fina no lado direito do rosto, ao passo que já no primeiro livro do personagem, Cassino Royale, de 1954, além do detalhe da cicatriz, é informado que ele é parecido com o cantor Hoagy Carmichael, um sucesso da época.
Com o sucesso dos livros de Fleming desde o começo, o personagem 007 foi disputado para inúmeras adaptações, sendo levado à TV americana, ao desenvolvimento de uma série para a TV britânica (que nunca se realizou) e, por fim, chegaria aos cinemas com o filme 007 Contra o Dr. No, de 1962, interpretado pelo ator escocês Sean Connery. No meio disso, James Bond ganhou sua primeira representação imagética no Reino Unido por meio de uma tira de quadrinhos publicada diariamente no jornal Daily Express a partir de 1958, com textos adaptados de Fleming pelo artista John McLusky. E para orientar como McLusky deveria ilustrar Bond, ele e Flaming trocaram uma extensa correspondências. O THR informa a maior parte dessas cartas se perdeu, mas o filho do desenhista, Sean McLusky, encontrou algumas páginas enquanto organizava o acervo do pai para um leilão de sua arte na Gallery A de Londres.

O trecho da carta revelado pelo THR traz Fleming respondendo a um primeiro esboço do artista para o rosto de Bond…
Eu acho que devíamos evitar dar a Bond uma cabeça de formato americano e um corte rabo de pato.
É sabido que Fleming comissionou outro desenhista anônimo para criar uma ideia do rosto de Bond (alguém de aparência mais refinada, corpo magro e olhos sagazes, além de aparência mais velha) e passou esse desenho para McLusky, mas o artista achou a ideia do escritor “fora de moda” ou “pré-guerra demais”, e terminou dando sua própria visão para Bond, com um rosto mais quadrado, de expressão forte, passando uma imagem mais de durão, ainda que pudesse ser elegante. E embora tenha trabalhado a partir de 1958, quatro anos antes da estreia de 007 no cinema, o desenho terminou estranhamente parecido com o ator Sean Connery, que o interpretaria na tela grande.

Ian Fleming nasceu em 1908, em Londres, filho de um militar de família aristocrática (seu avô fora banqueiro), e seguiu uma carreira nas letras, trabalhando como jornalista e como contador em uma das empresas da família, mas terminou convocado pela Inteligência da Marinha em 1939, com o início da II Guerra Mundial, se tornando um alto oficial de espionagem, comandando missões reais na guerra que lhe serviriam de inspiração à sua literatura futura. Finda a guerra, voltou a trabalhar como jornalista, especialmente, correspondente estrangeiro, e já numa idade madura, decidiu se dedicar à sua paixão pela escrita de ficção e publicou Cassino Royale, em 1953, aos 45 anos de idade. O livro foi um sucesso e Fleming prosseguiu lançando obras anuais sobre o personagem, com a popularidade do personagem só crescendo cada vez. A adaptação de Bond ao cinema, em 1962, tornou Fleming uma celebridade mundial, porém, ele morreu vítima de um ataque cardíaco em 1964, aos 56 anos. Ele deixou 12 romances de 007 e dois livros de contos.
Já John McLusky nascera em 1923, também de ascendência escocesa, e estudou belas artes antes de se tornar ilustrador do Daily Express, mas ganhou sua fama mesmo com as tiras de 007, que iniciaram em julho de 1958 com a adaptação do livro Cassino Royale, com o roteiro adaptado pelo escritor Anthony Hern, que durou 18 semanas, publicada em quadrinhos diários. O sucesso da tira, permitiu sua continuidade, com o roteiro assumido por Henry Gammidge e seguindo mais ou menos a ordem de publicação dos livros de Fleming, e também seus contos.

A tira foi comissionada para vários outros jornais e publicada especialmente na Europa e durou mais de uma década. Peter O’Donnel assumiu o roteiro de Dr. No em 1960, mas Gammidge escreveu praticamente todos os outros, com arte de McLusky. A tire chegou a ser interrompida em 1962 por uma disputa judicial entre Fleming e o jornal, mas as partes fizeram um acordo antes da morte do autor em 1964, e a publicação continuou. McLusky encerrou sua longa temporada na tira em janeiro de 1966 e seguiu uma profícua carreira como ilustrador nos quadrinhos britânicos, trabalhando com a tira educacional Look and Learn, com a adaptação de O Gordo e o Magro (Laurel & Hardy) e da Pantera Cor de Rosa, morrendo em 2006, aos 83 anos de idade.
Sem McLusky, a arte da tira de jornal de 007 foi assumida por Yaroslav Horak, que deu a Bond um visual menos caricato e mais plástico, com um rosto mais afilado e heroico, ao passo que o texto passou para Jim Lawrence. Todas as histórias de Fleming terminaram adaptadas pela tira de jornal em 1968, então, Lawrence e Horak passaram a criar histórias originais, mantendo a publicação do quadrinho até janeiro de 1977 (quase 20 anos no total!), um atestado de sucesso da adaptação.

Ainda assim, a tira sobreviveu… Embora não mais publicada pelo Daily Express, a produção da tira foi assumida pelo Sunday Express e depois pelo Daily Star, seguindo publicada por Lawrence e Horak nos anos seguintes, e com McLusky até regressando à arte por um período, entre 1981 e 1983, até a tira ser definitivamente encerrada em 1984, com Lawrence e Horak.
Esse material hoje em dia é bastante raro, mas foi republicado em quatro livros da editora Titan Books entre 1987 e 1990, e em 2004, a mesma editora iniciou uma série de 17 livros com todas as 52 histórias produzidas para a tira de jornal, publicados até 2010. A Titan ainda republicou o material completo em 6 volumes de uma Omnibus Series, entre 2009 e 2014; e em 2015 republicou o material de novo, agora, em capa dura, em quatro volumes, até 2017, contendo o material clássico entre 1958 e 1969.

