Ontem, o novo conglomerado formado pela união da Warner Bros. Discovery com a Paramount-Skydance anunciou a demissão dos presidentes da seção de cinema da Warner, Michael De Luca e Pam Abdy, ao passo que confirmaram que a produção de filmes da megacompanhia emergente será liderada pelos atuais responsáveis pela Paramount, Josh Greenstein e Dana Goldberg. Esse movimento levou logo à comparações com a subdivisão mais famosa da Warner no campo do cinema: o DC Studios, liderado pelo diretor James Gunn e o produtor Peter Safran. Irão eles sair também, ou irão ficar?

As notícias foram saindo aos poucos… primeiro a imprensa em geral foi comunicada pela saída de De Luca e Abdy, e depois, o site Puck afirmou que Gunn e Safran foram convidados pelo CEO da nova empresa pós-fusão, David Ellison, a permanecerem no cargo, “ao menos inicialmente”. Depois, o Deadline deu o furo de que os líderes de cinema da nova empresa seriam Greenstein e Goldberg, adicionando também que Gunn e Safran tiveram uma reunião com Ellison sobre o futuro da DC Studios e que tudo ocorrera bem. O The Hollywood Reporter endossou o acordo, dizendo que foi confirmado por múltiplas fontes e que Gunn e Safran permanecerão em seus cargos pelo futuro próximo, mas com a adição de que, se por um lado, o encontro presencial entre eles e o chefão teria ocorrido na quinta-feira (dia 1º) e fora bem, tendo sido solicitado que a dupla “permanecesse e continuasse a fazer o que estão fazendo”, por outro lado, não deixaram de ressaltar que Ellison também prometera a De Luca e Abdy que eles permaneceriam após a compra da Warner pela Paramount, e isso não ocorreu.

O caso de De Luca e Abdy deixa sentimentos mistos na indústria, pois, tendo assumido o cargo em 2022, os anos recentes foram uma montanha russa para a Warner Bros. Motion Pictures (e para todo o cinema, na verdade), com um ano de 2024 de bilheterias muito baixas, uma recuperação impressionante em 2025, com filmes premiados com o Oscar (como Uma Batalha Após a Outra de Paul Thomas Anderson, e Pecadores de Ryan Coogler), e vários bons sucessos, incluindo o Superman de James Gunn, os já citados e Um Filme Minecraft, sucedido por um 2026 com nenhum sucesso (nenhum filme do estúdio ultrapassou 100 milhões de bilheteria!) e só fracassos, como Supergirl e o recém-estreado (na semana passada), Digger, estrelado por Tom Cruise, prometendo ser o maior fiasco do ano!

Mas como o leitor atento pôde reparar, esse currículo respinga forte no DC Studios, pois Superman (um sucesso modesto de 600 milhões) e Supergirl (um fracasso enorme de 100 milhões) pertencem à empresa liderada por Gunn e Safran, ainda que com o benefício de que Gunn dirigiu o primeiro. Este ano, o estúdio entrega dois produtos, e além da decepção com Supergirl, virá o obscuro Clayface (Cara de Barro), vendido como um thriller de terror baseado em um dos vilões do Batman. As pesquisas de mercado dos EUA indicam que o longa será outro fracasso e isso pode pesar para Gunn e Safran. Mundialmente famoso por ter escrito e dirigido os filmes dos Guardiões da Galáxia no concorrente Marvel Studios, Gunn tem apreço por esquisitices (sua obra anterior mais famosa era o roteiro da adaptação live action de Scooby-Doo) e produziu para a DC o filme (meio sequência, meio reboot) O Esquadrão Suicida (que foi um fracasso) e a série de TV O Pacificador, que foi relativamente bem em sua bizarrice, sem esquecer, porém, que o primeiro produto do DC Studios sob sua direção a realmente ir ao ar foi o desenho Comando das Criaturas, que foi outra produção estranha que ninguém deu muita atenção. Tudo isso para dizer onde se localiza Cara de Barro e que a próxima produção confirmada do estúdio é uma série de TV unindo o jornalista-mirim Jimmy Olsen (que já apareceu em Superman) com o vilão Gorila Grodd (um símio hiperinteligente) advindo da galeria de inimigos do Flash. Ou seja, Gunn investe no bizarro em seu DCU, mas não é claro se isso rende dividendos à Warner e à nova dona, Paramount.
Nos cinemas, Superman – O Homem do Amanhã é a aposta no certo que virá em seguida, com estreia prevista para o ano que vem. Haverá um novo Batman em 2028, mas a sequência do filme de Matt Reeves estrelado por Robert Pattinson não faz parte do DCU pelo menos até que se diga o contrário. O Batman do DCU é prometido para The Brave and the Bold, um filme escrito por Christine Hudson e aparentemente dirigido por Andy Muschietti, os mesmos criadores de The Flash (outro filme que foi um fiasco), mas não há data de lançamento e não deve se chocar com essa outra versão do homem-morcego nas telas.

Lendo assim, o prognóstico do DC Studios não parece muito bom. Mas há boas notícias no horizonte também…
Fora dos cinemas, outro projeto do estúdio vem fazendo um grande sucesso: Lanterns, a série de TV baseada no Lanterna Verde. Segundo a Variety, o programa exibido no streaming da HBO Max tem uma média de audiência por episódio de 18 milhões de visualizações, o que é muito, muito bom. Para se ter uma comparação, o fenômeno que foi Euphoria teve média de 25 milhões, enquanto The Pitt que vem sendo elogiada, marcou 15 milhões. E olha que coisa: Penguim, a série baseada no vilão do Batman que serviu como um spin-off do filme de Reeves e Pattinson foi um enorme sucesso de público e crítica com 27 milhões.

E as coisas podem melhorar… Lanterns tem aprovação de 92% no Rotten Tomatoes (que mede a qualidade de filmes e séries a partir da avaliação de público e crítica) e o episódio de estreia teve 1,5 milhões de novos telespectadores na semana passada, confirmando que novo público continua chegando. Isso já deve ser mais do que suficiente para garantir uma 2ª temporada. Com seu tom sério e trama dura e sombria, Lanternas garantiu grandes elogios de público e crítica, ainda que também tenha críticas, como do escritor Grant Morrison – famoso por suas HQs de Superman, Batman e Liga da Justiça e que escreveu Lanterna Verde: Terra Um, uma versão alternativa do personagem, lançado há alguns anos numa linha já extinta da DC Comics – que acha que o programa podia ser mais luminoso, na linha das ficções científicas de Star Trek ou na fantasia de Star Wars, ao passo que o programa adotou uma perspectiva “mais pé no chão”, com uma trama na Terra estruturada como uma história de detetive (e que, por sua vez, se baseia em uma famosa fase do personagem no início dos anos 1970).
Lanterns tem a vantagem de – diferente de Pinguim – estar oficialmente dentro do DCU, e com isso, poder se comunicar com Superman e outros filmes derivados no futuro próximo. Isso aponta um caminho para James Gunn?

Por fim, não podemos deixar de falar de política. James Gunn é um diretor claramente associado às ideias de esquerda e que fez questão de incentivar pautas como diversidade e feminismo em seus filmes, o que se choca diametralmente com seu novo chefe, David Ellison, um fervoroso conservador, apoiador de Donald Trump. O capitalismo e a sanha de ganhar dinheiro permitem alianças improváveis e estranha – isso diz algo do gosto pelo bizarro de Gunn? – mas muitos na imprensa e na indústria têm dúvidas de que a “sobrevivência” do projeto de Gunn-Safran seja possível em médio ou longo prazo dentro de um ambiente conservador.
E ligado a isso fica a dúvida ainda não esclarecida sobre a quem o DC Studios irá se reportar no novo arranjo. Na Warner, Gunn e Safran se reportavam não a De Luca e Abdy, mas diretamente ao chefão, o CEO da Warner, David Slavek. Na Paramount ou seja lá como se chamará a nova empresa nascedora do conglomerado Warner-Pramount-Skydance, eles responderão a Greenstein e Goldberg ou diretamente a Ellison, como no arranjo antigo?

Isso é importante, porque se é difícil imaginar Gunn e Safran trabalhando na empresa de Ellison, é ainda mais difícil os três trabalharem juntos, diretamente ligados. A postura de conservadores de extrema direita como Trump, Ellison e seu pai, dono da Oracle, não é dada à tolerância ao diferente ou à diversidade. Em outras palavras: não é democrática. Impõe suas posições e lima do processo o diferente.
Neste cenário, é difícil vislumbrar um futuro duradouro ao DC Studios e ao DCU de Gunn e Safran.
Aguardemos os próximos meses.

