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Os Mutantes no início: psicodélicos.

Os Mutantes foram uma das bandas mais importantes do rock brasileiro e a única que têm algum tipo de prestígio fora do país que não seja um grupo de metal (como Sepultura e Angra). Surgidos nos estertores da Jovem Guarda, em 1967, a partir da união dos irmãos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias (baixo e guitarra) à cantora Rita Lee, os Mutantes se integraram com veemência ao Movimento Tropicalista, escandalizando o grande público com sua mistura de rock e MPB, uso de efeitos sonoros, música psicodélica e apostando sempre no não-ortodoxo, tudo com muito humor. Do sucesso dos Grandes Festivais do fim dos anos 1960 ao mercado dos LPs da década posterior, o grupo virou uma referência importante na música do Brasil.

Os Mutantes tiveram um tempo de gestação antes de chegarem ao formato final. A história inicia em São Paulo, com a fundação do grupo The Wooden Faces, por Arnaldo Baptista e seu irmão Cláudio César, ao lado de Raphael Villardi e Roberto Loyola, em 1964. Pouco depois, Arnaldo conheceu a ruiva Rita Lee, que tocava bateria no Teenage Singers, mas também sabia tocar (rusticamente) violão e flauta e tinha uma voz fraquinha e aguda, ao estilo das famosas cantoras de Bossa Nova da época, como Nara Leão.

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Rita Lee compondo: Rainha do Rock Brasileiro.

Encantado com a personalidade “para frente” da garota, Arnaldo a convidou para o grupo em 1965, ao mesmo tempo em que o caçula de Arnaldo e Cláudio César, Sérgio Dias, também foi admitido como guitarrista. Com a nova formação, a banda foi rebatizada de O’Seis e ganhou mais popularidade no pequeníssimo circuito de rock de São Paulo, mas o suficiente para conseguir um contrato com a gravadora Continental, que lançou um compacto simples com as faixas Suicida (de Raphael Villardi e Roberto Loyola) e Apocalipse (de Raphael e Rita Lee), embora o disquinho não tenha feito sucesso algum. A decepção com o resultado terminou resultando nas saídas de Raphael, Roberto e Cláudio César, que foram em busca de carreiras mais tradicionais.

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Ao vivo, com Rita tocando um temerin.

Arnaldo Baptista (baixo, piano e vocais), Sérgio Dias (guitarra e vocais) e Rita Lee (vocais, flauta e percussão) permaneceram firmes e adotaram o nome Os Mutantes, que ainda era um termo exótico e pouco conhecido. A partir daí, tudo foi rápido: conseguiram uma apresentação no programa O Pequeno Mundo de Ronnie Von, da TV Record, comandado pelo cantor da Jovem Guarda, Ronnie Von, em outubro de 1966 e agradaram bastante o artista e os produtores. Rapidamente, o grupo se tornou parte fixa do elenco do programa, apresentado aos domingos. A parceria também rendeu a participação do grupo no álbum Ronnie Von N.º 3, lançado em 1967, como banda de apoio.

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Com Gilberto Gil no Festival de 1967.

Contudo, mudanças nos bastidores da Record motivaram o desligamento da banda da emissora, no início de 1967, então, os Mutantes migraram para a TV Bandeirantes, participando do programa Quadrado e Redondo, onde conheceram o maestro Rogério Duprat. Conquistado pelo carisma e talento dos Mutantes, Duprat ligou o grupo a grandes artistas emergentes da MPB, de modo que os Mutantes servissem como banda de apoio para a cantora Nana Caymi na canção Bom dia (de Gilberto Gil), que seria defendida no III Festival da Música Popular Brasileira, organizado pela TV Record. Gil ficou tão satisfeito com o resultado que também colocou a banda em seu apoio em outra composição sua que iria defender ele próprio: Domingo no parque. Esta faturou o 2º Lugar do festival, lançando nacionalmente o nome da banda.

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Os Tropicalistas.

Daí foi um pulo para assinarem um contrato com a gravadora Pollydor, que resultou no primeiro álbum homônimo, lançado em 1968. Ao mesmo tempo, uma das faixas do disco, Panis et circenses (de autoria de Caetano Veloso e Gilberto Gil) foi escalada como representante do grupo no disco-manifesto da Tropicália, lançado no mesmo ano.

Mutantes rita e caetano
Com Caetano e o figurino de É Proibido Proibir.

Enquanto o álbum era gravado e lançado, a banda se apresentou no IV Festival Internacional da Canção, organizado pela TV Globo, onde a faixa autoral Caminhante Noturno ficou classificada em sexto lugar; mas também forneceu apoio musical para Caetano Veloso na canção É proibido proibir, que foi vaiada impiedosamente pelo público e legou um famoso discurso de Caetano contra a alienação da plateia.

A fama de vanguarda dos Mutantes foi colhida bem cedo: em 1969, após o lançamento do álbum Mutantes, o grupo fez uma excursão à França, onde se apresentou com sucesso na MIDEM (a feira do Mercado Internacional de Discos e Editores Musicais), em Cannes, e depois, no Olympia em Paris.

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Ao vivo com Caetano e Gil.

De volta ao Brasil, os Mutantes participaram da temporada de Caetano Veloso e Gilberto Gil na boate Sucata, na qual o palco era ornado com a pintura de uma Bandeira Nacional pintada pelo artista plástico Hélio Oiticica que trocava o “Ordem e Progresso” por “Seja Marginal, Seja Herói” ao lado da ilustração do traficante de drogas Cara de Cavalo, famoso por ter sido assassinado pouco antes. Em plena Ditadura Militar, o Exército considerou o ato por demais ofensivo e prendeu Gil e Caetano, exilando a dupla do país, que foi buscar abrigo no Reino Unido, onde permaneceram alguns anos.

O exílio de Caetano e Gil é considerado por muitos como o fim do Movimento Tropicalista, mas os Mutantes continuaram seu rumo, produzindo o espetáculo Planeta dos Mutantes e tocando Ando meio desligado no IV FIC.

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Os Mutantes como quinteto, com Liminha e Dinho, gravando Technicolor.

Esta faixa seria lançada no álbum A Divina Comédia dos Mutantes ou Ando Meio Desligado, lançado em março de 1970, iniciando o direcionamento mais rock do grupo, embora a vanguarda e o uso de música de raiz brasileira tenha continuado. Incorporados oficialmente à banda, Liminha e Dinho (baixo e bateria, respectivamente) contribuíam para dar mais solidez roqueira à música executada. A banda foi de novo à França para se apresentar e foi convidada a gravar um álbum em inglês para o mercado internacional. Gravado no estúdio Des Dames, o material terminou por não agradar ao grupo – chapado demais para se concentrar seriamente – e o resultado foi abandonado, mas as fitas foram resgatadas em 1999 e lançadas com o título de Technicolor.

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Mutantes ou Aliens?

De volta ao Brasil, os Mutantes aproveitaram seu momento de maior popularidade, e lançaram Jardim Elétrico, em 1971, que abraça totalmente o rock e amplia a participação do baixista Liminha, que contribuiu bastante com as composições. Este disco, de certo modo, deu início a uma minifase dos Mutantes que prosseguiu em Os Mutantes nos Países dos Baurets, de 1972.

Mutantes rita entre irmãos
Caso com quem?

No meio dos dois discos, Rita Lee se casou com Arnaldo Baptista. Contudo, era um “golpe publicitário”, cansada da fama de vadia e perseguida pelos donos da “moral e dos bons costumes”, a cantora decidiu se casar para “legalizar” sua situação em meio a uma banda de homens. Mas conforme esclarece em sua autobiografia, Rita e Arnaldo sequer eram namorados, apenas amigos. Era um arranjo de conveniência e ambos tinham outros parceiros. (O que não significa que não fazia sexo, embora ela fizesse sexo com Sérgio também). Pouco depois do casório, Rita e Arnaldo foram ao Programa Hebe Camargo e disseram sem pudores que ela escolheu com quem ia casar entre os dois irmãos no “cara ou corôa” (o que não era verdade, pois sempre teve mais afinidade com Arnaldo e nunca gostou muito de Sérgio) e o “casal” rasgou a certidão de casamento ao vivo no ar.

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Vestida de noiva.

País dos Baurets fez bastante sucesso, em faixas como Balada do louco, Vida de cachorro e Posso perder minha mulher, minha mãe, desde que eu tenha o rock and roll. Mas ao mesmo tempo, o grupo comprou um sítio na Serra da Cantareira, no interior de São Paulo e vivendo seus dias de comunidade hippie, cheios de drogas e sexo.

Isso agravou o relacionamento interno da banda. Para piorar, apesar do sucesso, a gravadora Pollydor parecia antever os problemas futuros da banda e decidiu investir na carreira solo de Rita Lee (que já havia lançado um disco sozinha, o Build Up, de 1970). Dessa forma, os Mutantes foram para um novíssimo estúdio de 16 canais (o primeiro do país) para gravar um novo álbum, mas a gravadora os obrigou lançar Hoje esse é o Primeiro Dia do Resto de sua Vida, em 1972, como se fosse um disco solo de Rita Lee, mesmo com a banda tocando e compondo em todas as faixas.

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O fim do trio…

Tudo isso minou o papel de Rita Lee na banda. Decididos a investir no rock progressivo de Yes e Emerson, Lake & Palmer, os irmãos Dias Baptista decidiram demitir a cantora, que não poderia contribuir muito em termos instrumentais. Enquanto Rita seguia sua carreira solo – começando do zero – os Mutantes gravaram O A e o Z, em 1973, totalmente no estilo progressivo e regado a LSD. A Pollydor achou o disco invendável e o engavetou, encerrando o contrato com o grupo.

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Os Mutantes sem Rita Lee: Liminha, Arnaldo, Sérgio e Dinho.

Os Mutantes prosseguiram sua agenda de shows, buscando encontrar uma nova gravadora e entrando no mercado (subversivo e underground) do rock pesado brasileiro. A tensão e a frustração levaram Arnaldo Baptista a uma forte depressão, aliada à inconformabilidade com o fim do “casamento” com Rita Lee. Mergulhado em LSD, Arnaldo começou a sofrer problemas psiquiátricos, tendo comportamentos bizarros, falando num idioma que ele mesmo criou e querendo construir uma nave espacial para juntar-se aos seus pretensos amigos alienígenas. Isso resultou em sua demissão do grupo. O baterista Dinho também não segurou a barra e o baixista Liminha partiu em seguida.

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Os Novos Mutantes na Serra da Cantareira. Só Sérgio restou…

Sendo o único membro remanescente dos Mutantes originais, Sérgio Dias seguiu em frente usando o nome da banda e reunindo músicos de grande calibre para acompanhá-lo, porém, sem nunca conseguir fazer uma formação durar muito tempo. Mesmo assim, conseguiu um contrato com a gravadora Som Livre e lançou o álbum Tudo Foi Feito pelo Sol (1974), o compacto Cavaleiro Negro (1976) e o disco Mutantes Ao Vivo (1977), mas a ausência de sucesso motivou o fim definitivo do grupo, em 1978, encerrando a carreira com um concerto para apenas 200 pessoas em Ribeirão Preto.

mutantes 1975 no bosqueVejamos, então, a Discografia Completa e Comentada dos Mutantes!

Os_Mutantes 1968OS MUTANTES, 1968

O primeiro álbum dos Mutantes é uma grande obra de vanguarda, que foi bastante apreciado pela crítica, embora não tenha sido um enorme sucesso de público. Ao longo do tempo, se tornou ainda mais elogiado, inclusive, na crítica internacional, quando a revista Rolling Stone, por exemplo, o classificou como um dos 50 discos mais experimentais da história. Produzido por Manoel Barenbein e com arranjos de Rogério Duprat, o disco traz Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias em seus instrumentos  (baixo/ teclados; flauta/ percussão; guitarras, respectivamente) acompanhados por poucos outros músicos (como o baterista Dirceu), à exceção dos instrumentos de orquestra. Há participações especiais de Jorge Ben (em Minha Menina) e de Clarisse Leite (mãe de Arnaldo e Sérgio) no piano (em Senhor F).

A sonoridade do álbum é uma mistura de rock psicodélico com MPB, carregado de efeitos sonoros e experimentações estranhas. O melhor do repertório vem das parcerias da banda: o grupo grava as inéditas Panis et circenses (de Gil e Caetano); Minha Menina (de Jorge Ben) Batmacumba (de novo de Caetano e Gil) e Baby (de Caetano), que dão a força melódica do álbum. Também há parcerias mais explícitas, como em Trem fantasma (assinada por Caetano e Arnaldo, Rita e Sérgio); a regravação do baião Adeus Maria Fulô (de Sivuca e Humberto Teixeira); além de dois covers estrangeiros (Le premier banheur du jour – canção de folk rock francesa – e Tempo no tempo – versão de uma canção de John Phillips, gravada pelo The Mamas and the Papas). Os Mutantes também arriscam suas primeiras composições, como Senhor F, O relógio e Aves Gengis Khan, todas assinadas pelo trio.

Mutantes_1969MUTANTES, 1969

Ao contrário do primeiro, o segundo disco dos paulistas é basicamente autoral. Contudo, o espírito do primeiro ainda se mantém, com a mistura de rock psicodélico e música brasileira, novamente apelando às origens, dessa vez por meio da canção sertaneja em 2001. As parcerias com nomes da vanguarda tropicalista continuam, agora na figura de Tom Zé. O repertório do disco foi construído por meio da aventura do grupo nos festivais, trazendo Caminhante Noturno e Dom Quixote, duas faixas assinadas pelo trio que foram apresentadas ao público no ano anterior, ainda antes das gravações.

Os maiores destaques são 2001 (parceria do trio com Tom Zé), que mistura ficção científica com o ambiente sertanejo; Caminhante noturno, com seu ar orquestral e épico; e Fuga N.º II. Também há Qualquer bobagem (outra parceria com Tom Zé); Algo mais; Rita Lee; e Não vá se perder por aí (canção de Raphael Villardi e Roberto Loyola, ainda dos tempos de O’Seis). Para manter a tradição dos covers, há uma versão de Banho de lua, canção italiana que virou febre no Brasil dos anos 1950 na versão “rock and roll” de Celi Campelo.

Por fim, Mutantes marca a primeira vez que Liminha (baixo) e Dinho Paes Leme (bateria) tocam com o grupo e seriam depois oficializados como membros. Quanto ao trio principal, Arnaldo Baptista migra para o piano e os teclados, Rita Lee acrescenta o temerin (teclado em estilo prancha, na qual se movimenta os dedos e se produz sons por meio de estática) à flauta e percussão; enquanto Sérgio Dias mantém a guitarra.

Mutantes_Divina_Comédia 1970A DIVINA COMÉDIA OU ANDO MEIO DESLIGADO, 1970

Com Dinho e Liminha contribuindo mais e o interesse cada vez maior dos irmãos Baptista em investir no rock, a sonoridade dos Mutantes começa a mudar em seu terceiro disco. Esse direcionamento fica claro em Ando meio desligado e Desculpe, baby, duas canções do trio que, embora mantenham a atmosférica psicodélica de sempre, não estão tão ligados ao clima de Tropicália e soam como rock mesmo. Outro exemplo é o pastiche de Meu refrigerador não funciona, que inicia como um blues rock lento ao estilo Janis Joplin, interpretada por Rita Lee, mas assume o lamento absurdo do título na segunda metade, com a voz de Arnaldo Baptista.

O disco fez bastante sucesso e fez polêmica por sua capa, que mostra Rita Lee nua em meio a uma cena da Divina Comédia. O álbum resume o momento de maior popularidade e prestígio da banda.

mutantes Tecnicolor 1969TECNICOLOR, 1970 [Lançado apenas em CD, em 1999]

Os Mutantes fizeram o maior sucesso na França, quando se apresentaram lá pela primeira vez, em 1969, de modo que voltaram em 1970 e, desta vez, foram convidados a gravar um álbum para o mercado internacional, produzido por Carl Homes no estúdio Des Dames. A banda versionou suas principais canções até ali para o inglês ou manteve a linguagem original dos covers que já tinham registrado, resultando em um disco multilinguagem, com inglês, francês, italiano, espanhol e português. Essa falta de foco talvez tenha sido um dos motivos que fizeram a Polydor desistir de lançá-lo. Algumas faixas seriam reaproveitadas no álbum seguinte da banda, mas a maior parte ficou inédita até ser lançado em 1999.

Destaque para Panis et circenses, Batmacumba, She’s my Shoo shoo (Minha menina), I feel a little space out (Ando meio desligado), Baby, Tecnicolor, El justiceiro, I’m sorry, baby (Desculpe, baby). Diferente da maioria das canções originais, os arranjos são mais rock e se beneficiam do pleno uso da formação com teclados, guitarras, baixo e bateria do quinteto.

mutantes Jardim_Eletrico 1971JARDIM ELÉTRICO, 1971

Se alguém ainda tinha dúvidas de que os Mutantes iriam abraçar o rock de vez, isso foi sanado com este álbum, que adota uma sonoridade mais agressiva e distorcida, utilizando-se plenamente da formação teclados, guitarra, baixo e bateria do quinteto. Novamente, é um disco praticamente todo autoral, à exceção de uma versão em inglês para Baby (de Caetano Veloso), canção que já tinha aparecido no primeiro álbum da banda. A nova versão era fruto das sessões que os Mutantes gravaram na França, no ano anterior. Outras canções também advêm dessas sessões, como Technocolor e It’s very nice pra xuxu, ambas de autoria do trio Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias.

O disco não foi tão bem sucedido quanto os anteriores, porque a crítica começava a estranhar a escolha dos Mutantes pelo som mais elétrico e pesado, mas ainda houve sucessos com Jardim elétrico (também do trio) e TopTop, que é uma parceria de Liminha com os outros três.

Mutantes_Cometas 1972MUTANTES E SEUS COMETAS NO PAÍS DOS BAURETS, 1972

Aquele que acabou sendo o último álbum oficial dos Mutantes com Rita Lee e na gravadora Pollydor retomou um pouco do velho sucesso do grupo, ao mesmo tempo em que mantinha a pegada mais rock. A bela capa é emoldurada pelo curioso título, que faz uma homenagem ao amigo Tim Maia, que chamava de Baurets os fortes baseados que fumava. Novamente, é um disco quase todo autoral, mas com dois covers, um rock brasileiro dos anos 1950, Rua Augusta, e Todo mundo pastou (de Bororó).

A canção mais famosa foi Balada do louco (de Arnaldo Baptista e Rita Lee) que fez algum sucesso, mas anos depois virou um grande hit na voz de Ney Matogrosso. Outros pequenos sucessos foram Posso perder minha mulher, minha mãe, desde que eu tenha o rock and roll (de Baptista, Lee e Liminha), Vida de cachorro (Baptista, Lee e Dias) e A hora e a vez do cabelo nascer (de Liminha, Baptista, Lee e Dias).

mutantes oaeoz 1973O A E O Z, 1973 [Lançado apenas em 1999 em CD e em 2015 em vinil]

Com saída de Rita Lee, os Mutantes se resumiram a um quarteto, formato que se manteve até o fim do grupo. Restaram Arnaldo Baptista (teclados, piano e vocais), Sérgio Dias (vocais e guitarras), Liminha (baixo e vocais) e Dinho (bateria). O A e o Z foi gravado ainda sob o contrato da gravadora Polydor, mas o som progressivo do disco não agradou aos executivos, que engavetaram o álbum e reincidiram o contrato da banda.

Apesar de trazer uma sonoridade totalmente diferente daquela normalmente vinculada aos Mutantes, o álbum é uma boa peça de rock progressivo, bastante antenado ao que Yes e Emerson, Lake & Palmer produziam na mesma época. Os grandes destaques são O A e o Z, Rolling stone, Uma pessoa só e Ainda vou transar com você. Todas as faixas são creditadas ao quarteto inteiro.

mutantes TudoFoiFeitoPeloSol 1975TUDO FOI FEITO PELO SOL, 1974

Com a saída de todos os outros membros originais, Sérgio Dias decidiu seguir em frente usando o nome Mutantes e contratou um time de músicos de altíssimo calibre para mergulhar de vez no rock progressivo, aproveitando também a nova gravadora Som Livre. Como resultado, Tudo Foi Feito pelo Sol é um álbum bastante diferente da discografia anterior, mesmo de O A e o Z, e é uma peça de grande beleza. Quando de seu lançamento, o álbum fez bastante sucesso em meio ao mercado alternativo de rock no Brasil e a crítica especializada elogiou bastante, de modo que até hoje é considerado o melhor disco de rock progressivo do país.

A banda que o produziu foi a seguinte: Sergio Dias (vocais e guitarras), Túlio Mourão (teclados, piano e vocais), Antonio Pedro de Madeiros (baixo e vocais) e Rui Motta (bateria, percussão e vocais). O repertório do disco foi construído ao longo da transição entre a etapa anterior dos Mutantes e a nova, de modo que o ex-baixista Liminha é coautor de três faixas, ao lado de Sérgio Dias, com Desanuviar, Só penso em te ajudar e Cidadão da Terra. Uma curiosidade é que existe a “lenda” de que todo o álbum foi gravado ao vivo no estúdio, com cada canção executada em apenas um take.

Os destaques são: Deixe entrar um pouco d’água no quintal, Desanuviar e Tudo foi feito pelo sol. A versão em CD de 2006 traz como faixas bônus as três canções do EP Cavaleiro Negro, lançado em 1976 pela mesma formação.

Os-Mutantes-Ao-Vivo-1976MUTANTES AO VIVO, 1977 [ao vivo]

Único exemplar ao vivo na discografia oficial da banda, Mutantes Ao Vivo tem o benefício de fazer o registro de um concerto no MAM no Rio de Janeiro formado apenas com canções autorais inéditas. Existe uma “lenda” de que a banda ficou bastante insatisfeita com o resultado porque o produtor Pena Schmitd (o Peninha) teria editado todo o álbum, excluindo vários minutos de gravação para deixar as faixas mais curtas e um pouquinho mais comerciais. Novamente como os registros anteriores, é um disco de rock progressivo, embora não tenha a mesma beleza de Tudo Foi Feito pelo Sol.

A formação dos Mutantes neste registro é a seguinte: Sérgio Dias (vocais e guitarras), Luciano Alves (teclados e vocais), Paul de Castro (baixo, violino e vocais) e Rui Motta (bateria, percussão e vocais). Os destaques são: Anjos do sul e Sagitárius (ambas de Sérgio Dias), mais Hey tu (Paul de Castro e Sérgio Dias).

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Não iremos considerar aqui as gravações com a “volta” dos Mutantes nos anos 2000, com a reunião de Sérgio Dias e Arnaldo Baptista com músicos mais jovens, como Zélia Ducan nos vocais.