
Pouca gente sabe, mas em 2009 a editora Marvel Comics completou 70 anos. O fato é que, ao contrário da DC Comics – que publicou Superman e Batman logo no início de sua história – a Marvel começou sua carreira como uma editora pequena publicando personagens que, em sua grande maioria, seriam esquecidos nos anos posteriores.
A editora estreiou com o nome de Timely Comics, em 1939, e lançou com sucesso dois personagens: Tocha Humana e Namor, o Príncipe Submarino, que realmente fizeram sucesso na época. O seu melhor momento, contudo, veio pouco depois, a partir de 1941, quando os principais editores da casa, o escritor Joe Simon e o desenhista Jack Kirby criaram o Capitão América, um dos heróis de maior sucesso da época, que fez frente a outros campeões de vendas, como Superman, Batman e o Capitão Marvel (Shazam).
Contudo, o fim da II Guerra Mundial, em 1945, fez as vendas de super-heróis despencarem e os personagens da Timely – Visão, Cidadão V, Anjo, Dama Fantasma e os três citados – foram paulatinamente cancelados e desapareceram. Nos anos 1950, a editora mudou de nome para Atlas e passou a publicar principalmente histórias de monstros e de ficção científica.

O jogo só virou em 1961 quando o Editor-Chefe Stan Lee se reuniu ao novo parceiro Jack Kirby e a dupla criou o Quarteto Fantástico, dando início a Marvel Comics que todos conhecem. Nos anos imediatamente seguintes, Lee, Kirby e outros colaboradores (Larry Lieber, Steve Ditko, Don Heck etc.) criaram Thor, Hulk, Homem-Aranha, Dr. Estranho, Homem de Ferro, Os Vingadores, os X-Men, Demolidor, Surfista Prateado etc. Entre os velhos personagens, alguns foram “trazidos de volta”, como o Capitão América e Namor, mas a maioria permaneceu esquecida no passado ou ganhou novas versões, como o Tocha Humana do Quarteto Fantástico, que não é o mesmo de 1939; ou o Visão dos Vingadores, que também é apenas uma homenagem ao seu predecessor.
A “primeira geração” da Marvel, entretanto, continuou causando fascínio nos leitores, porque foram publicados dezenas e dezenas de personagens, alguns bem interessantes. Vez por outra, esse período obscuro é resgatado por autores contemporâneos e geralmente rendem bons trabalhos. Nos anos 1970, por exemplo, o escritor Roy Thomas criou a equipe Os Invasores (baseada em uma equipe que realmente existiu nos anos 1940), que reunia heróis como o Capitão América, Tocha Humana, Namor, Bucky, Centelha, Spitfire e Union Jack e combatiam os Nazistas em plena II Guerra. Com isso, se criou uma cronologia mais definida do período da Marvel pré-Quarteto Fantástico.

Em 1994, o escritor Mark Waid e o ilustrador-pintor Alex Ross lançaram a luxuosa e bela minissérie Marvels que conta a história do Universo Marvel na ótica de um fotógrafo comum chamado Phil Sheldon. Por puro acaso, Sheldon vivencia o surgimento do Tocha Humana original no fim dos anos 1930 e vai acompanhando a história das “maravilhas” daí em diante: a II Guerra, o desaparecimento dos heróis, o ressurgimento dos superseres com o Quarteto Fantástico, a formação dos Vingadores, o problema mutante expresso pelos X-Men etc. A história se passa até os meados dos anos 1970, fazendo um panorama de qual seria o impacto na vida das pessoas comuns dos acontecimentos do Universo Marvel. Uma obra clássica!
No início dos anos 2000, a dupla Roger Stern e John Byrne produziu a maxissérie The Lost Generation (inédita no Brasil) que preenche o vácuo entre o fim da II Guerra Mundial – que na cronologia moderna marca o desaparecimento do Capitão América, que fica congelado e só vai ser reanimado pelos Vingadores décadas depois, no nosso presente – e o surgimento do Quarteto Fantástico, que demarca o início da era atual do Universo Marvel.

Grande parte desses personagens do passado também ganhou uma homenagem recente, em outro projeto comemorativo dos 70 anos da editora, na maxissérie Invasores-Vingadores, capitaneada pelo ilustrador-pintor Alex Ross (concepção, layouts e capas), com o roteirista Jim Grueger e o desenhista Steve Sadowski. Na trama, os Invasores são trazidos à nossa época numa ação que pode ter péssimas consequências, inclusive, a própria destruição da realidade.
No entanto, a melhor de todas essas recentes homenagens aos heróis do passado é a minissérie em oito partes, The Marvels Project, lançada também para comemorar as sete décadas da Marvel. Escrita por Ed Brubaker e ilustrada por Steve Epting, a história centra foco no Anjo, um dos primeiros vigilantes urbanos da editora, e a maneira como ele – um humano comum, vê o surgimento dos superseres no fim da década de 1930, na geração de Tocha Humana, Namor e Capitão América.

Brubaker é um romancista que migrou para as histórias em quadrinhos no início dos anos 2000 e, desde então, se transformou em um de seus principais criadores. Primeiramente, fez uma passagem marcante pelo Batman, na DC Comics, resultando em uma das melhores fases do personagem em todos os tempos. Em 2004, ele migrou para a Marvel e revolucionou a revista do Demolidor, que desde então se tornou uma das de mais alto nível da editora (mesmo que não seja uma supercampeã de vendas). Em seguida, ele também assumiu o título do Capitão América e tem sido responsável por, talvez, a melhor coisa que a Marvel produziu nos últimos tempos. As histórias do supersoldado por Brubaker o colocou nos tempos atuais, lhe fez se bater com novos adversários, enfrentar os dilemas da Guerra Civil dos superheróis, a aparente morte do Capitão América (em 2007), sua substituição por Bucky (o velho ex-parceiro da II Guerra) e seu retorno triunfal. Isso tudo em uma trama muito bem amarrada, com excelentes personagens coadjuvantes e soluções inteligentes, tendo como consequência a transformação do Capitão América um dos maiores sucessos atuais não só da Marvel, mas de todo o mercado dos quadrinhos, o que não acontecia há décadas.

Em Projeto Marvels (o título em português), Brubaker e Epting (que também foi o desenhista daquelas histórias do Capitão América) levam o mesmo nivel de ambientação, desenvolvimento e profundidade com que brindaram os leitores nos últimos anos, resultando em uma obra fechada e instigante. A arte de Epting, com seu traço ao mesmo tempo realista e sombrio, também dá uma caracterização toda especial à trama e sua época.
Os fãs brasileiros tinham esperanças de que esse material fosse traduzido, mas até hoje não havia sido tomada nenhuma ação nesse sentido. Agora, a editora Panini Comics (que publica a Marvel no Brasil) resolveu lançá-la, editando-a em um encadernado com alto nível gráfico reunindo os oito capítulos originais, talvez visando capitanear em cima do filme do Capitão América que logo estreará nos cinemas.
É uma ótima oportunidade dos brasileiros tomarem contato com essa história de mistério e fascínio e conhecer um pouco da obra de Brubaker.




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Viper, obrigado pela dica!
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