DC Comics: 75 anos de cronologias e muitas confusões.

A editora norteamericana DC Comics tem problemas com cronologia. Fundada a mais de 75 anos, a casa de Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Lanterna Verde e Liga da Justiça sempre sofreu para ajustar tudo isso em um universo ficcional coerente.

Agora, 26 anos após iniciar um “radical” processo de reformas cronológicas, a DC irá (mais uma vez, talvez a quarta ou quinta) novamente “mudar tudo” e reformular biografias, caracterizações, acontecimentos, origens etc.

Manter um universo coerente com 75 anos de histórias mensais publicadas, com centenas de personagens, dezenas de revistas importantes e outras centenas de artistas e escritores diferentes produzindo tudo ao mesmo tempo realmente não é fácil. Talvez, o maior problema seja levar isso a sério demais.

Quando tinha mais ou menos 20 anos de idade, a DC Comics começou a criar contradições cronológicas ao relançar personagens do passado (Lanterna Verde, Flash, Mulher-Maravilha) e fazê-los interagir com outros ainda mais antigos do que eles (Superman e Batman). A editora criou a própria cobra para lhe morder: definiu que o Flash criado em 1956 lia as histórias em quadrinhos do Flash criado em 1940; e que o Gavião Negro de 1961 era um alienígena; enquanto sua “cópia” de 1940 era um arqueólogo que reencarnava o espírito de um príncipe egípcio.

"Crise nas Infinitas Terras": tentativa de criar um único universo coeso.

Para resolver essas questões, a editora criou, nas histórias da Liga da Justiça, a ideia do Multiverso, ou seja, existiriam vários universos paralelos em dimensões diferentes com versões diferentes dos mesmos heróis. Assim, a Terra-1 (a nossa) tinha a Liga da Justiça, Superman e Batman que conhecíamos; enquanto a Terra-2 trazia as versões dos mesmos heróis publicadas nos anos 1940. E não parou por aí, logo surgiram dezenas de outras Terras, como a Terra-3, Terra-S, Terra-Z etc.

Embora alguns fãs gostem bastante do conceito do Multiverso – alguns dizem ser a alma do Universo DC (UDC para os íntimos) – de fato, ele virou um pesadelo sem fim para aqueles (a própria DC, no caso) que queriam ver um universo ficcional coeso. Afinal, como trabalhavam com dezenas e dezenas de artistas diferentes ao longo de muitos anos, não demorou para que o conteúdo das Terras começassem a se misturar até o ponto onde ninguém sabia mais se “fato X” tinha acontecido na Terra-1, 2, 3 ou Z.

Para solucionar o problema (e poder comemorar os seus 50 anos em paz), a DC criou a maxissérie Crise nas Infinitas Terras, escrita por Marv Wolfman e desenhada por George Perez, os mais ilustres artistas da casa na época. A ideia era boa: uniformizar o Universo DC em uma Terra só, criando uma única cronologia para todos os personagens. A trama envolvia a batalha de todos os heróis de todas as Terras contra um ser extremamente poderoso que poderia aniquilar o Universo (ou o Multiverso). Editorialmente, a intenção era criar uma história coesa que permitisse a aproximação de novos leitores.

Claro que tal mudança só pôde ser feita com o corte de muita gordura. Para criar um único Superman, por exemplo, era necessário abdicar de todas as suas outras versões: o padrão, o adolescente, o idoso, o maligno etc. Assim, se sacrificaram uma dúzia de personagens para poder se construir uma personagem mais coesa.

"Superman: Man of Steel", a nova origem pós-Crise por John Byrne.

O Superman, por exemplo, ficou menos poderoso; Clark Kent se tornou a sua personalidade verdadeira (e não mais um repórter atrapalhado que sai derrubando tudo ao seu redor); Lex Luthor deixou de ser um mero cientista louco para ser um empresário poderoso e corrupto, mas intocável pela lei; os vários tipos de kryptonita (amarela, vermelha, roxa, azul, preta, prateada, rosa etc.) foram eliminadas e somente a verde continuou a existir, mas ainda assim, como um mineral extremamente raro, e não algo que se pode ter em qualquer esquina; Superboy deixou de existir; a Supergirl morreu e foi apagada da existência; a Cidade Engarrafada de Kandor também foi limada, afinal Superman precisava honrar o título de “o último filho de Krypton” e não conviver com outras centenas de kryptonianos.

A Mulher-Maravilha teve suas origens relacionadas à Mitologia Grega. O Batman não sofreu nenhuma reformulação radical, apenas sua origem se tornou mais sombria e ficou definido que ele agiu dois anos sozinho até admitir o Robin como seu parceiro de combate ao crime. Também para evitar qualquer tipo de rumor, Dick Greyson foi oficializado como “filho adotivo” do herói.

Apesar do sucesso comercial (e por que não, artístico?) de Crise nas Infinitas Terras e a reformulação que se seguiu, logo os problemas apareceram. Por exemplo, os fãs da DC sempre adoraram a Legião dos Super-Heróis, um grupo de adolescentes que vivia aventuras no Século XXX. Entretanto, suas histórias estavam intimamente ligadas ao Superboy e a Supergirl, que eram membros. Como continuá-las sem a presença da dupla que, agora, não existia mais?

Canário Negro e Poderosa: reminiscência de velhos problemas cronológicos.

Outro problema: colocar a Sociedade da Justiça como heróis do passado que lutaram na II Guerra Mundial era uma ótima ideia, que homenageava o contexto original de suas histórias, e poder usar Flash e Lanterna Verde como heróis do passado que inspiraram suas versões do presente (mais famosas); mas como explicar que um Gavião Negro humano (no passado) e outro alienígena (no presente) coexistiam na mesma linha temporal? Se respondeu essa pergunta de diversas formas, mas nunca de maneira satisfatória.

Se a Poderosa (Power Girl) era uma versão da Supergirl em outra dimensão, como ela poderia continuar existindo pós-Crise, se a Supergirl nunca existiu?

Após 1985 (ano em que Crise começou), a DC tornou a produzir vários outros projetos para “consertar” elementos de sua cronologia, como Zero Hora, Crise Infinita, 52, Crise Final etc. e, curiosamente, no processo desfez muitas das decisões tomadas na saga original. Elementos como a Supergirl ou a Cidade Engarrafada de Kandor foram reinseridos no universo do homem de aço, por exemplo.

Contudo, o desejo de “aperfeiçoar” suas personagens continua motivando a DC a criar “grandes sagas” para “mudar tudo” e, apesar da Crise Final ter sido vendida como “a última das Crises“, a editora está publicando Flashpoint, outra “grande saga” que vai “mudar tudo”. O comunicado oficial anuncia que personagens terão caracterizações e até idades modificadas para ajustar as histórias ao “mundo moderno” (seja lá o que isso significa). Ou seja, mais um monte de mudanças para serem desfeitas na saga seguinte.

Talvez, esse seja o grande problema da DC em firmar seus icônicos personagens como dotados de alguma profundidade, pois nada se firma tempo o suficiente para desenvolver-se.

Não se sabe que mudanças serão essas, mas a editora promete que serão (mais uma vez) inovadoras, inéditas e duradouras.

O que se sabe é que as revistas da editora terão a numeração zerada (mais uma vez), outra medida que se acredita atrair novos leitores. Nada contra aumentar as vendas, afinal, eles precisam delas, mas a maneira como se faz isso…

A nova Liga da Justiça por Geoff Johns e Jim Lee.

O anúncio diz que a revista da Liga da Justiça passará ao comando de dois dos principais artistas da editora: o escritor Geoff Johns e o desenhista Jim Lee, respectivamente o Diretor Criativo da DC e o Coeditor-Chefe. A ideia é criar uma fase memorável da equipe que não acontece desde 2007, quando foi produzida por Brad Meltzer e o brasileiro Ed Benes. Johns também é o responsável por tornar o Lanterna Verde em um fenômeno de vendas tão alto que possibilitou a realização de seu primeiro longametragem com atores, que estreará no Brasil em agosto deste ano.

É sobre a revista da equipe que se tem as informações mais concretas: Johns comentou que, como consequência dos eventos de Flashpoint, todos os heróis principais da DC serão rejuvenescidos de maneira a tentar maior identificação com o público jovem. Os uniformes também apresentam algumas ligeiras modificações. Notem na imagem ao lado que o Superman, por exemplo, além de bastante jovem, tem um design diferenciado para o “s” do peito, mangas que se sobressaem aos pulsos e (talvez o mais importante) sua sunga não é vermelha, e sim, azul. Aliás, pelo que se dá a entender, sequer há uma sunga, apenas uma calça. É o fim da sunga vermelha? (Já há um post do HQRock sobre o polêmico tema, embora dedicado ao novo filme do herói). Além disso, sua blusa tem uma gola, ao contrário da versão corrente. Isso também pode ser um indicativo do visual que o “ultimo filho de Krypton” terá em seu novo fime? (Veja o post sobre as ideias para o visual do Superman no filme!).

Repare que o uniforme do Batman também tem pequenos detalhes nas luvas e no dorso que dão a ideia de uma armadura (tal qual nos filmes) e não uma roupa comum (como aparenta nos quadrinhos). Justice League 01, de Johns e Lee, será lançada em agosto deste ano com esta imagem na capa.

Outra novidade a respeito do lançamento é o formato: juntamente com a revista nas comics shops, será lançada a versão digital da mesma, sendo a primeira vez que uma revista de grande porte será comercializada nos dois formatos de maneira consecutiva.

Como já dito aqui no HQRock algumas semanas atrás, Geoff Johns ainda irá se reunir de novo ao seu parceiro em Lanterna Verde, o desenhista brasileiro Ivan Reis, para relançarem a revista de Aquaman.

Capa de "All-Star Superman 10", escrita por Grant Morrison: melhores histórias do homem de aço em décadas.

Outra informação de impacto é que o cultuado e badalado escritor escocês Grant Morrison assumirá os títulos do Superman. Morrison escreve o Batman há cinco anos e transformou a personagem no maior sucesso dos quadrinhos da atualidade, apesar de algumas histórias e ideias bem polêmicas. O autor também é o responsável pela maxisssérie All-Star Superman, uma saga dedicada a explorar a importância da personagem como ícone que é considerada por muitos como a melhor históriado homem de aço nas últimas décadas e que foi recentemente adaptada para um (bom) longametragem animado.

Aparentemente, uma das consequências de Flashpoint será a eliminação do casamento do Superman com Lois Lane, de modo que Morrison irá colocar o homem de aço em rota de colisão com a Mulher-Maravilha. Isso está fazendo os leitores questionarem se o escocês irá manter em suas mãos toda a “trindade” da DC, ou seja, Superman, Batman e Mulher-Maravilha. Não é impossível.

No campo dos rumores, corre a informação de que a graphic novel Superman: Earth One, escrita por J.M. Straczynski e desenhada por Shane Davis, em 2010, poderia ser considerada uma nova “Superman: Ano Um”, tal qual já o foram Superman: Man of Steel de John Byrne em 1986 e Superman: Birthright (Legado das Estrelas, no Brasil) de Mark Waid e Leinil Francis Yu, de 2003. Mas talvez isso seja apenas um rumor, já que Superman: Origem Secreta cumpre exatamente essa missão e foi concluída ainda este ano, além de ser produzida por Geoff Johns (um dos responsáveis por todas as mudanças atuais), juntamente ao desenhista Gary Frank.

Imagem promocional de "Superman: Earth One": versão moderna do homem de aço.

É bem mais provável que Superman: Earth One (ainda inédita no Brasil) permaneça tal qual como anunciada: uma história mais moderna e concisa do homem de aço, publicada de modo a não depender de décadas de cronologia e, com isso, poder explorar todo o aspecto icônico da personagem para um público novo, inclusive aqueles que, normalmente, não lêem quadrinhos.

Já foi anunciado um Batman: Earth One, escrito pelo mesmo Geoff Johns e desenhado por Gary Frank, inclusive com algumas imagens promocionais divulgadas, mas ainda sem previsão de lançamento.

Este formato – já testado com êxito no passado com os álbuns escritos por Paul Dini e pintados por Alex Ross – deveria ser o principal a ser adotado pela editora, que poderia comercializá-los como livros e atingir um público maior.

Muito melhor do que ter que ficar produzindo a nova “grande saga” que vai “mudar tudo” todo ano, irritando e afastando os heróicos leitores que se dedicam a ler mensalmente as aventuras de suas personagens favoritas.