Frank Miller: discurso direitista e fascista.

O movimento Occupy Wall Street surgiu nos Estados Unidos como uma reação de parcela da população de ideias mais liberais ou de esquerda protestando contra o “grande capital“. Como metodologia, o movimento escolheu a ação que lhe batiza: ocupar Wall Street, o distrito financeiro da cidade de Nova York, possivelmente o mais importante do mundo. É uma ocupação literal, os manifestantes armam barracas, fazem um camping e ficam “morando” no lugar, tudo de um modo pacífico.

O movimento foi um sucesso e com o auxílio das redes sociais virtuais se espalhou pelo mundo. Logo, outras cidades do globo começaram a ter sua versão do Occupy Wall Street, inclusive São Paulo, no Brasil.

Um movimento dessa magnitude não poderia passar despercebido pelo mundo dos quadrinhos. Enquanto ainda não aparece nas histórias em si – já que é muito recente – o evento pelo menos enseja uma grande discussão entre os quadrinistas. Chamou a atenção, de maneira negativa, as manifestações do roteirista e desenhista Frank Miller contra o movimento.

Em seu blog pessoal, o quadrinista americano – famoso por algumas das mais importantes obras dos quadrinhos recentes, como Wolverine: Divida de Honra, Demolidor: A Queda de Murdock, Batman: O Cavaleiro das Trevas, Batman: Ano Um, 300, Sin City etc. – disse:

O ‘Occupy’ não passa de um bando de turrões, bandidos e estupradores, uma turba indisciplinada, vivendo da nostalgia de Woodstock e de fétida e falsa honradez. A única coisa que esses palhaços conseguem é fazer mal à América. Não é mais do que uma modinha criada por moleques mimados de iPhones e iPads na mão que deviam sair da frente de quem quer trabalhar e procurar emprego (…). Em nome da decência, voltem para casa do papai, seus medíocres. Vão para o porão da mamãe brincar de Lords Of Warcraft.

Talvez nossos militares consigam botar razão na sua cabeça. Só que talvez não deixem você ficar com o iPhone.

"O Cavaleiro das Trevas": lançado em 1985 foi interpretada como uma crítica social severa à sociedade capitalista.

O comentário gerou uma onda de polêmica na internet e irritou e escandalizou os fãs. Afinal, Frank Miller foi um dos exponentes do movimento que emergiu no início dos anos 1980 para deixar os quadrinhos de super-heróis mais adultos e que terminou por fundar a chamada Era Sombria. O conteúdo daquelas obras iniciais de Miller, como a longa fase no Demolidor (1981 a 1983) e, principalmente, as histórias do Batman, O Cavaleiro das Trevas e Ano Um são repletas de críticas sociais e um leitor poderia, inclusive, identificar muitas ideias de esquerda ali.

Esta página de "Ano Um", de 1987, tem sido bastante citada em meio à polêmica: nela, Batman ataca os ricos mafiosos de Gotham City, dizendo "vocês comeram bem, mas agora, nenhum de vocês está à salvo!". Arte de David Mazzucchelli.

Contudo, nos últimos anos é muito fácil perceber ideias de direita – e talvez até fascistas! – nas obras de Miller, principalmente na safra pela qual é mais famoso atualmente: Sin City e 300, ambos adaptados ao cinema de modo literal e visceral. Porém, a total rendição do autor às ideias consevadoras – e talvez até fascistas! (isso mesmo, de novo) – se deu nos polêmicos últimos projetos para a DC Comics. Primeiramente, na maxissérie All-Star Batman, criada à maneira da imensamente aclamada All-Star Superman, na qual um grande escritor tem total liberdade para criar uma história icônica de um personagem icônico. No caso do homem de aço, o escocês Grant Morrison cumpriu a missão de maneira brilhante e sua obra é considerada como a melhor história do Superman das últimas décadas (e foi adaptada como um longametragem animado também muito bom!).

Miller por sua vez, tentou contar a história de como o Batman recrutou o Robin. E embora tenha contado com a apreciada arte de Jim Lee, sua história só serviu para mostrar um homem-morcego insano, a ausência de um roteiro propriamente dito e muita, mas muita violência sem sentido. Aliás, o apelo à violência de modo exarcebado – e além do recomendado, poderia se dizer – está presente tanto em 300 quanto em Sin City, mais ainda nesta última, cuja única finalidade parece mostrar quão baixo se pode chegar para contar uma história (ou não contá-la, afinal).

A recepção à All-Star Batman foi confusa e rendeu muita polêmica. Algo deve ter acontecido nos bastidores, pois a maxissérie sequer foi concluída: saíram apenas 10 dos 12 números prometidos e embora tenha sido interrompido no antipenúltimo capítulo, a história parece não ir à lugar nenhum e não há nenhum tipo de conclusão à vista.

Em seguida, Miller foi anunciado em outros dois projetos na DC, ambos com o Batman, novamente. O primeiro, Odissey, o reuniria ao lendário desenhista Neal Adams, que reformulou e revolucionou o visual do personagem no fim dos anos 1960. Mas Miller terminou afastado do projeto, que foi concluído apenas pelo artista. (Detalhe: Adams é um conhecido militante de esquerda, atuante no Sindicato dos Artistas de Quadrinhos).

Capa de Holly Terror: discurso contra o islã e os mulçumanos.

E veio Batman: Holly Terror que seria um confronto do Batman com a rede terrorista Al Qaeda. Mas parece que a DC percebeu o buraco em que estava se metendo e o projeto não foi adiante. Miller acabou de publicar Holly Terror, a mesma história, mas com um outro personagem: uma versão nada disfarçada do Batman, só que direitista, facista, violento e preconceituoso. Na obra – e nas entrevistas para divulgá-la – Miller assumiu o discurso da Era Bush, de que os islâmicos são monstros a ser combatidos e que o Islã é o grande inimigo dos EUA e do mundo.

É uma pena! A obra de Miller nos anos 1980 é realmente impressionante, mas seu momento atual pode até maculá-las.

O britânico Alan Moore: discurso de esquerda.

O falatório do autor chamou a atenção na mídia internacional e gerou respostas. Uma delas foi de Alan Moore, outro escritor de quadrinhos da mesma geração de Miller e responsável por outras mais aclamadas obras em quadrinhos das últimas décadas, como Watchmen, V de Vingança, A Liga Extraordinária, Do Inferno (todos adaptados ao cinema), além de obras “mais tradicionais” no mundo dos super-heróis, com histórias clássicas do Batman (A Piada Mortal, que inspirou o filme Batman – O Cavaleiro das Trevas), do Superman (Ao homem que tinha tudo, que virou um episódio fantástico da série animada da Liga da Justiça; e O que aconteceu ao homem de aço?), de ter criado o mago John Constantine (que também foi levado ao cinema) e ter escrito histórias importantíssimas do Lanterna Verde, Monstro do Pântano e Vigilante.

Watchmen: visceral crítica à política dos EUA e à direita.

Nos últimos anos, Moore se afastou dos quadrinhos convencionais por brigas com as grandes corporações, especialmente a DC – com quem mantém uma “guerra fria” pelos direitos de Watchmen – e é avesso à ideia de seus personagens serem levados ao cinema. Ele, inclusive, moveu processos para que seu nome fosse tirado dos filmes, o que ocorreu, mantendo apenas os desenhistas.

Desse modo, é fácil identificar Moore com ideias de esquerda e, portanto, simpatia com o Occupy e total oposição à posição de Miller. E a impressão é correta. Em entrevista ao Honest Publishing, o escritor britânico comentou sobre as declarações do “colega”:

Bem, Frank Miller é alguém cujo trabalho mal acompanhei nos últimos 20 anos. Acho que as coisas de Sin City são misoginia ultrapassada, 300 parecia ser incrivelmente anistórico, homofóbico e completamente equivocado. Ouvi falarem do discurso dele contra o movimento Occupy. É o tipo de coisa que eu esperaria dele. Sempre me pareceu que o mundo dos quadrinhos, em sua maioria, se você tivesse que localizá-lo politicamente, seria de centro-direita. Essa posição seria a mais liberal que eles se permitiriam ir (…). Tenho falado isso desde o começo da minha carreira. Sim, seria justo dizer que eu e Frank Miller temos posições diametralmente opostas sobre todo tipo de coisa, e certamente sobre o movimento Occupy.

Do meu ponto de vista, o movimento Occupy são pessoas comuns exigindo direitos que eles sempre deveriam ter. Não consigo pensar em nenhuma razão para nós, como população, ficarmos assistindo à redução drástica dos nossos padrões de convívio e dos nossos filhos, possivelmente por gerações, enquanto as pessoas responsáveis por isso têm sido recompensadas. Eles certamente não têm recebido punição em nenhum sentido, porque são ‘grandes demais para errar’. [O movimento] é um grito justificado de ultraje moral e parece que está sendo conduzido de um jeito pacífico e inteligente, o que provavelmente é outra razão para Frank Miller ficar tão desagradado. Tenho certeza de que se fossem uns jovens vigilantes sociopatas com maquiagem de Batman na cara ele seria bem favorável.

O debate deve continuar nos próximos dias, envolvendo outros artistas.