Atenção! Este texto contém leves spoilers. Se não quer saber nada sobre a trama (e alguns segredos) do filme, não leia!

Fazia um tempo que o HQRock devia esta resenha, mas agora, a dívida está paga.

Skyfall: talvez o melhor Bond dos cinemas até agora.

Em primeiro lugar, é preciso afirmar que 007 – Operação Skyfall, o 23º filme da franquia de James Bond, o agente secreto 007, não é um filme como os outros. Ao mesmo tempo em que é.

Skyfall pode ser interpretado de múltiplas maneiras. Pode ser o fecho de uma trilogia iniciada em 2006 com 007 – Cassino Royale (espécie de reboot da franquia), seguida por 007 – Quantum of Solace. Mas também pode ser pensada como um filme independente dos outros dois. E até serve como uma conexão aos velhos filmes da franquia.

Dizemos que Skyfall é um filme como os outros porque segue a estrutura-padrão das obras cinematográficas de James Bond: há uma abertura pré-créditos com muita ação; uma missão é delegada a 007; ele encontra-se com o vilão, que geralmente o trata com algo de cortez; várias mulheres passam nesse intermédio pelas mãos habilidosas de Bond; 007 precisa deter o vilão e há um confronto maior.

Contudo, dirigido por Sam Mendes, este 007 não é um filme como os outros. Pelo menos não de todo. Mendes é o cineasta de maior calibre a assumir uma produção do agente secreto desde sempre e isso faz diferença. Skyfall tem uma profundidade e uma tensão-suspense que nenhuma outra obra da longa franquia conseguiu até agora. Com isso, se parece mais com um bom filme de ação na qual há profundidade nos personagens.

Skyfall celebra os 50 anos da franquia de 007 e não esconde isso. Há várias referências a outras obras e situações conhecidas, mas assim como Cassino Royale o fez alguns anos atrás, tenta desvendar mais quem é o homem James Bond. Quem ele é? O que pensa? Onde vive? De onde veio?

A biografia de James Bond é bem detalhada. Não no cinema, mas nos livros. O escritor Ian Fleming criou Bond como um órfão de origem escocesa que ingressa na orgulhosa Marinha Britânica e, por seu destaque em campo, o Comandante Bond é convidado a servir no MI-6, o serviço secreto britânico, onde em pouco tempo ganha a licença para matar em missão, decifrada por meio do códio Duplo-Zero que ostenta. Nos livros, vemos Bond em seu apartamento, próximo da King’s Road, em Londres; conhecemos May, sua criada escocesa que cuida de suas coisas; sabemos um pouco de seus hobbies, como manter um velho Bentley conservado em uma garagem; em ser um jogador nato que, de vez em quando, acumula algum dinheiro em mesas de carteado; que tem uma tendência à melancolia e é, no fundo, um solitário.

Bond em um museu: Skyfall aprofunda os personagens…

Muito pouco disso já foi mostrado no cinema. Nunca vemos Bond em seu apartamento, por exemplo. Uma coisa básica. Isso não muda em Skyfall, mas Bond – depois de ser dado como morto – retorna à Londres e descobre que seu apartamento e suas coisas foram vendidas.

Porém, muito além disso, o filme explora as origens de Bond e sabemos um pouco mais sobre seus país – Andrew Bond e Monique Delacroix Bond – que ele veio da região rural da Escócia e vivia numa propriedade chamada Skyfall, que perdeu os pais bem cedo… Nunca houve um mergulho na psiquê de Bond antes no cinema.

… mas não esquece da ação desenfreada.

Além disso, o filme é um tratado sobre a relação dele com M, a chefe do serviço de inteligência vivida por Judi Dench desde 1995.

Pela profundidade da história, o alto grau de ação e tensão-suspense, o vilão espetacular Silva/ Tiago Ramirez, vivido por Javier Bardem, dentre outras coisas, Skyfall deve agradar em cheio não somente os fãs hardcore do agente secreto a serviço de Sua Majestade, mas também o grande público, mesmo aquele que está mais acostumado a ver as peripécias de outros heróis de ação mais modernos, como Bourne, Ethan Hunt, Triplo X etc.

Elenco diferenciado.

Para o fã da série, fica a delícia de identificar as inúmeras referências a outros filmes: a tortura de Cassino Royale; o Aston Martin DBV de Goldfinger, o duelo de O Homem da Pistola de Ouro e até a inacreditável cena dos jacarés em Viva e Deixe Morrer.

E aqui entra um detalhe interessante para quem gosta de cronologias: Skyfall parece ao menos sugerir uma conexão entre a nova fase da franquia pós-Cassino Royale e a antiga que vai de Dr. No com Sean Connery até Um Novo Dia para Morrer com Pierce Brosnan.

Eve: novo olhar sobre velhos personagens.

Em certo sentido, Cassino Royale zerou tudo. Nele e em sua sequência direta, Quantum of Solace (que não custa lembrar, inicia-se exatamente no ponto onde o outro terminou), vemos um James Bond jovem, que acabou de receber sua licença para matar e que ainda não é “aquele” 007 que conhecemos. Ainda não é refinado o bastante, ainda não gosta de martini batido, não mexido etc. Porém, o James Bond de Skyfall é alguém mais velho, um espião quase no limiar da aposentadoria; e longe de ser perfeito! Até é reprovado no teste de admissão! Várias vezes no filme é destacada sua experiência e o fato de ser um representante de uma outra era.

Ou seja, se passou um tempo considerável – 10 anos? – entre Quantum of Solace e Skyfall. E o que 007 fez nesse intervalo?

M: personagem central da nova trama.

É aí que está um dos charmes do filme. A história nos conduz o tempo todo a pensarmos que o que houve entre esses dois filmes foi justamente a franquia 007 inteira! Isso não é possível – nos velhos filmes, M era um homem; ao mesmo tempo em que o agente só é apresentado à secretária Moneypenny no fim do filme novo – mas a sugestão está lá. E por vezes de maneira direta!

Dois momentos mostram isso. Num primeiro, o novo Q (Ben Whishaw) presenteia 007 com seus novos Gadgets: um localizador de rádio e uma pistola com assinatura eletrônica. Bond não disfarça seu desapontamento: “não é exatamente o Natal, não é?”; no que Q responde: “O que você queria? Uma caneta que explode? Não usamos mais isso”, numa clara referências aos Gadgets fantasiosos dos filmes do passado. Contudo, a referência mais direta é que ao fugir com M para salvá-la das mãos de Silva, Bond vai a um depósito e resgata seu velho Aston Martin DBV.

Javier Bardem: magistral como o vilão Silva.

E desta vez, não é uma mera referência ao veículo original – tal qual em Cassino Royale, onde ele rouba um do vilão – mas o mesmo DBV de Goldfinger! Estão lá o assento ejetor e as metralhadoras embutidas!

Em outro sentido, Skyfall tenta o tempo todo mostrar a relevância de 007 para os tempos atuais. Já criticado por ser um velho representante da Guerra Fria – algo com o qual os filmes de Pierce Brosnan brincaram – Bond emerge como um mal necessário a combater um novo inimigo. Um inimigo que não são mais nações, mas agentes invisíveis, como o Silva do filme. Em certo sentido, esta parece ser a lógica da franquia. Embora vinculado à Guerra Fria, o James Bond dos filmes sempre lutou contra inimigos que eram uma “terceira força”, um “inimigo oculto” dentro do contexto do velho conflito. Raramente a China ou a URSS eram realmente o inimigo a ser combatido.

Skyfall é um manifesto à importância atual de Bond.

Skyfall reforça isso, num discurso inflamado de M em um depoimento à comissão que investiga os eventos do filme. E emerge, então, um 007 humano, falho (como nos livros de Ian Fleming), que vai precisar se superar para vencer um inimigo tão habilidoso quanto ele. Ou até melhor.

Um símbolo com a logomarca dos 50 anos da franquia de James Bond nos cinemas encerra o filme, deixando claro uma reminiscência à série como um todo. E parece que é isso que Skyfall faz, ao tentar, mesmo que sutilmente, conectar todos os filmes como uma mesma história.

Ao mesmo tempo em que abre uma janela para o futuro.

007 – Operação Skyfall, é dirigido por Sam Mendes (de Beleza Americana, Apenas um Sonho), com história de Neal Purvis e Robert Wade e roteiro de John Logan. O elenco traz Daniel Craig (James Bond), Judi Dench (M),  Javier Bardem (o vilão Silva), Ralph Fiennes (Gareth Mallory), Naomi Harris (Eve Moneypenny), Ben Whishaw (Q), além de Helen McCrory, Albert Finney, Berenice Marlohe Ola Rapace. A estreia no Brasil foi em 26 de outubro.

James Bond, o 007, foi criado pelo escritor escocês Ian Fleming em 1953 como personagem de um romance de espionagem. Com o estrondoso sucesso, o autor produziu vários livros e o espião chegou aos cinemas pela primeira vez em 1962, fundando a mais longeva e bem-sucedida franquia do cinema em todos os tempos.