Paul Jenkins: Sai falando mal da DC Comics.
Paul Jenkins: Sai falando mal da DC Comics.

Há problemas com a DC Comics? A editora que publica Superman, Batman e cia. vem sendo o alvo de reclamações constantes de escritores e desenhistas desde que lançou o evento Os Novos 52, em agosto de 2011, com uma reformulação cronológica e editorial da casa. Mais de uma dezena de artistas já reclamaram publicamente do que chamam de arbitrariedades editoriais, imposição de histórias, truculência e até falta de ética. E duas novas “vítimas” vêm à público, o escritor Paul Jenkins e o desenhista J.H. Williams.

Williams, que continua trabalhando com a DC Comics na revista Batwoman – bastante aclamada pela crítica, inclusive – foi até cortês, apenas justificando que não irá trabalhar no chamado “mês dos vilões“, ou seja, o evento Forever Evil em que as revistas da casa serão “tomadas” por seus principais vilões, que irão sacudir as coisas. O artista disse que a editoria da DC o proibiu de utilizar qualquer referência ao trabalho de dois anos que desenvolve na revista, então, ele recusou tomar parte do evento. Aparentemente, ele retoma o título logo em seguida.

Dark Knight: revista de sucesso assinada por Jenkins na DC.
Dark Knight: revista de sucesso assinada por Jenkins na DC.

O caso de Paul Jenkins é mais grave. O escritor – vindo de aclamadas histórias principalmente na concorrente Marvel Comics – anunciou seu desligamento da DC, onde trabalha regularmente desde o início dos Novos 52, escrevendo a revista Batman: The Dark Knight, juntamente ao desenhista David Finch, e tendo participações em outros títulos como DC Comics Presents (com o personagem Deadman ou Desafiador no Brasil) e Stormwatch.

O autor não poupa críticas à DC, fazendo inclusive uma comparação com a Marvel. Ao site Bleeding Cool, ele disse:

Tive uma relação editorial que durou anos com a Marvel. Nem sempre foi uma relação perfeita, como eu e a Marvel bem sabemos. Mas embora não tenhamos nos acertado em tudo, meu negócio com a Marvel fica entre eu e eles. Os fãs teriam razão de reclamar se eu ficasse fazendo minhas queixas do dia a dia em público e sem motivo. Mas a DC é outro caso, completamente diferente. Por que eu quero falar do que aconteceu durante minha breve participação nos Novos 52? Porque eu fiquei abismado com os autores sofrendo bullying, e fiquei pirado com as coisas que vi no meu tempo por lá. Me deparei com mais mentiras, ameaças veladas, tentativas de justificar comportamento e sistema disfuncionais, do que vi em toda a minha carreira!

Jenkins também teoriza sobre o que está acontecendo. Para ele, o sucesso das adaptações cinematográficas dos personagens de quadrinhos e o bom momento do mercado de revistas (que apresenta os melhores números desde a década de 1990) fortaleceram as decisões editoriais (acusadas de arbitrárias) em relação à autonomia dos artistas.

Jenkins deixa ainda uma mensagem cifrada:

A DC está no buraco. Lembra da Marvel logo antes dos Marvel Knights. Você que chegue às suas conclusões quanto às semelhanças e conexões. Basta dizer que criaram uma cultura de desonestidade que afeta muitos autores. E o pior é que fazem bullying com os autores. Tentaram fazer comigo, mas eu os mandei irem para o Inferno!

Os Novos 52: polêmicas com artistas para construir uma nova cronologia.
Os Novos 52: polêmicas com artistas para construir uma nova cronologia.

A solução é simples: antes do lançamento do selo Marvel Knights, que trouxe uma série de histórias de teor adulto e grande qualidade à Marvel na virada para o século XIX, o Editor-Chefe da empresa era Bob Harras, o mesmo que é o Editor-Chefe da DC atualmente. Harras é um editor controverso, que já “bateu de frente” com muitos autores famosos – gente como John Byrne, Chris Claremont e Roger Stern deixaram a Marvel por causa dele no passado – e o momento atual da DC parece favorecer isso.

Não é de hoje que vêm as reclamações de imposição editorial na DC Comics. Pouco antes de sua morte, em 2011, o escritor Dwayne McDuffie reclamou publicamente da editora – no que foi alvo até de um post do HQRock na época (leia aqui). Aparentemente, nos dias de hoje, a DC mantém uma rédea muito forte sobre os artistas acerca do que se pode fazer com os seus personagens, talvez numa tentativa de construir uma cronologia mais coesa após Os Novos 52.

Contudo, a própria prática de reformulações cronológicas constantes da DC – Crise nas Infinitas Terras (1985), Zero Hora (1994), Crise Infinita (2005) e Os Novos 52 (2011) – colabora para a não existência de uma cronologia coesa, ao contrário da concorrente Marvel Comics que até hoje nunca recorreu a esse tipo artifício e mantém praticamente a mesma cronologia desde a criação do Universo Marvel em 1961, por Stan Lee e Jack Kirby.

Os Inumanos: série premiada de Jenkins.
Os Inumanos: série premiada de Jenkins.

O ruim para a DC é perder artistas de grande porte, como o próprio Paul Jenkins. Nascido em 1965, na Inglaterra, Jenkins emigrou para os EUA na década de 1980 e iniciou sua carreira como editor, trabalhando para a editora  Mirage Studios, em 1988, com as Tartarugas Ninjas, inclusive, fazendo o licenciamento que as transformaram em sucesso nos desenhos animados e vídeo games. Depois, foi para a DC Comics, onde trabalhou como escritor na aclamadíssima série Hellblazer, do personagem John Constantine, entre 1995 e 1998.

Em seguida, foi para a Marvel, trabalhando inicialmente na linha de terror da editora, com Werewolf by the Night, passando ao selo Marvel Knights, onde lançou com muito sucesso e aclamação a maxissérie Inumanos, ao lado do desenhista Jae Lee, em 1998. A revista ganhou o prêmio Eisner, o Oscar dos quadrinhos.

Origem: finalmente o passado de Wolverine revelado.
Origem: finalmente o passado de Wolverine revelado.

O início dos anos 2000 é o seu auge como escritor: assumiu a revista The Incredible Hulk, ao lado do desenhista Ron Garney, onde produziu uma série muito aclamada, entre 2000 e 2001, num grande arco que ficou conhecido como Dogs of War; ficou cinco anos trabalhando com o Homem-Aranha, primeiro em Peter Parker: Spider-Man, depois em Spectacular Spider-Man (vol 02), entre 2000 e 2005, o que inclui arcos famosos como Um dia na vida, O retorno do Duende e Pecados Relembrados; e a minissérie Origem, que contou o passado de Wolverine pela primeira vez em 2000, com grande sucesso de público e crítica.

Sentinela: obra ímpar de Jenkins.
Sentinela: obra ímpar de Jenkins.

Além disso, Jenkins criou um novo personagem com Jae Lee, o Sentinela, que foi lançado em duas minisséries, em 2000 e 2001. The Sentry narrava uma ousada história de um grande super-herói esquecido surgido na Era de Prata ainda antes do Quarteto Fantástico (a promoção tentava “enganar” os fãs dando a entender que foram o próprio Stan Lee quem criara o personagem nos anos 1950), mas que por algum mistério não era lembrado por ninguém. Nem por ele mesmo!

Paul Jenkins como personagem na revista dos Vingadores.
Paul Jenkins como personagem na revista dos Vingadores.

Mais tarde, o Sentinela foi de fato incorporado ao Universo Marvel, quando o escritor Brian Michael Bendis e os desenhistas David Finch e Steve McNiven, incluíram o personagem nos dois primeiros arcos da revista New Avengers, com os Novos Vingadores, em 2005. O Sentinela inclusive nomeia o segundo arco. Por causa da trama, o próprio Paul Jenkins aparece como personagem na história, sendo um escritor de quadrinhos que publicava as histórias do “personagem” que nem sabia existir de verdade.

Jenkins também tem passagens marcantes em Homem-Aranha e Capitão América.
Jenkins também tem passagens marcantes em Homem-Aranha e Capitão América.

Isso deu a oportunidade a Paul Jenkins retomar o personagem e amarrar algumas pontas soltas de sua origem na brilhante minissérie The Sentry (vol 2), em 2006, com desenhos de John Romita Jr., uma das obras mais impressionantes de quadrinhos psicológicos dos últimos tempos.

Paralelamente, Jenkins fez trabalhos na editora Tow Cow, com The Darkness, Witchblade e  The Agency, entre 2001 e 2006.

Ainda na Marvel, produziu a série de minisséries Linha de Frente, em que mostrava como os personagens “normais” (ou civis), liderados pelo jornalista Ben Ulrich (repórter do Clarim Diário, coadjuvante das histórias do Demolidor e do Homem-Aranha) reagiam aos grandes eventos da editora na época, como Guerra Civil e Hulk Contra o Mundo, entre 2006 e 2008; além da minissérie Penance (Penitência no Brasil), que apresentava o novo personagem-título, criado junto ao desenhista Paul Gulacy. Produziu, por fim, uma série de minisséries do Capitão América, chamadas Teatro de Guerra, em 2009.

Além do já citado trabalho recente na DC Comics, Paul Jenkins vem colaborando com o Boom! Studios, nas séries Deathmatch e Fairy Quest.

DC Comics já emitiu até uma explicação sobre os problemas recentes, mas a situação não parece mudar.