Dentre as novidades para o Oscar 2019, numa tentativa de repopularizar o prêmio, que anda perdendo relevância, a Academia de Artes e Ciência de Hollywood promoveu uma mudança significativa na festa para o ano que vem, que promete ser mais curta e atrativa. Mas não só isso: criou um prêmio novo – Melhor Filme Popular. A ideia é premiar os blockbusters que, tradicionalmente, são excluídos das premiações principais. Porém, isso não é motivo para fazer o Marvel Studios desistir de seu objetivo: o estúdio irá fazer forte campanha para que Pantera Negra seja indicado a Melhor Filme, a mais importante categoria da premiação. É o que diz o L.A. Times.

Segundo o jornal, a Marvel (via Disney) contratou Cynthia Swartz, uma estrategista especialista em Oscar para comandar uma campanha de convencimento aos membros da Academia para que Pantera Negra seja indicado. Campanhas do tipo são padrão em Hollywood, com os estúdios investindo para que seus filmes sejam lembrados, mas o LA Times garante que a Disney vai pegar pesado!

Ao jornal, o presidente do Marvel Studios, Kevin Feige, disse:

Eu gostaria de ver o trabalho duro e o empenho e a visão e a crença do talentoso cienasta Ryan Coogler [ser premiada], alguém que sentou na mesa diante de nós, alguns anos atrás e disse: “Eu tenho lutado com questões sobre o meu passado e minha herança e acho que realmente quero contar a história dentro desse filme”. E ele o fez inacreditavelmente bem e com muito impacto… Ver isso potencialmente ser reconhecido é o que mais me anima.

Vai ser uma briga bonita de se ver: ao longo dos quase 80 anos de premiação do Oscar, a Academia fez um esforço hercúleo para transformar o cinema na autoproclamada 7ª Arte, e com isso, passar a ser visto como algo “Sério”, profundo. Muito embora a premiação do Oscar em geral seja mais “pop” do que outros prêmios considerados mais sérios – a Palma de Ouro em Cannes, o Urso de Ouro em Berlim, o prêmio do festival de Sundance etc. – esse esforço é claro e distancia as premiações principais de filmes mais massificados, com raras exceções.

Contudo, o jogo mudou nos últimos anos. Por um lado, o público em geral (e dos Estados Unidos em particular) não vem conseguindo se identificar com as obras escolhidas como “melhores” nas premiações do Oscar, o que vai gerando um distanciamento irreparável entre a plateia e o considerado cinema de arte. Com isso, os filmes que ganham o Oscar de Melhor Filme geralmente têm bilheterias pífias, que muito raro ultrapassam os US$ 200 milhões.

Por outro lado, os blockbusters, uma marca tipicamente hollywoodiana, formatada desse modo a partir do fim dos anos 1970, são uma máquina incrível de fazer dinheiro, com uma arrecadação que, normalmente, passa dos US$ 500 milhões, e já chegou a criar um grupo seleto de filmes que ultrapassaram a marca de US$ 1 bilhão.

Claro, sempre filmes de caráter “mais divertido”, “leve” e voltados à aventura fizeram mais sucesso do que dramas pesados, densos, complexos. Isso não é novidade. O que é novidade no quadro atual é a distância abismal entre eles: um ganhador do Oscar de Melhor Filme que mal consegue fazer 100 milhões ao lado de um blockbuster elogiado pela crítica que ultrapassa 2 bilhões! Só que o segundo não é premiado no Oscar. Mas financia Hollywood com seu sucesso.

Outra mudança é que antes, nos anos 1980 e 90, por exemplo, havia uma clara definição entre um grupo e o outro. Assim, enquanto Hollywood se levava à sério com diretores como Stanley Kubrick, Francis Ford Copolla e Woody Allen, e atores com o Marlon Brando, Robert Redfford, Jack Nicholson e Robert DeNiro; existia o “lado da diversão”, de diretores como George Lucas, Tony Scott, e atores como Sylvester Stallone, Arnold Schwartznegger, Jean Claude Van Damme. Somente ocasionalmente alguém de um grupo migrava para o outro, como o diretor Steven Spielberg, que promoveu “diversões” como Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida ou Parque dos Dinossauros, mas de vez em quando era levado (e se levava) à sério em obras “de mais peso”, como A Lista de Schindler e Amistad.

Ou Marlon Brando (talvez o maior de todos os atores de Hollywood) fazer Superman – O Filme, como o pai kryptoniano do herói; e Jack Nicholson encarar o Coringa em Batman – O Filme. Mas essas eram exceções na mesma categoria de Spielberg.

Todavia, a Era dos Super-Heróis do Cinema mudou tudo, quebrou a muralha entre os dois mundos. As mesmas qualidades que um diretor como Christopher Nolan imprimiu em uma coleção impressionante de filmes, como O Grande Truque, A Origem e Interstellar, estão presentes na Trilogia Cavaleiro das Trevas, sobre o Batman, que dirigiu.

Atores indiscutivelmente talentosos, inclusive premiados pelo Oscar em outras ocasiões, como Christian Bale, Scarlet Johannson, Robert Downey Jr., dividem seu tempo entre os “filmes sérios” e serem super-heróis em outros.

Então, qual a diferença?

Você acha mesmo que Robert Downey Jr. não emprestou nenhuma interpretação de Tony Stark nos filmes da Marvel no mesmo nível daquela que lhe valeu o Oscar de Melhor Ator por Chaplin ou outras interpretações aclamadas, como em O Juiz? Não, ele devia ter sido indicado por Homem de Ferro. E talvez por Capitão América – Guerra Civil também.

O problema é que a Academia vem tentando manter o muro de pé, quando ele já não existe mais. E não se iluda: o que move a indústria do entretenimento é dinheiro! E não dá para filmes que sustentam Hollywood não serem reconhecidos por seus pares. Especialmente quando são sim, alguns deles, tão “sérios” ou densos quanto qualquer outro. Com a diferença de gastarem mais em efeitos especiais e ação.

Mas a Academia é conservadora e criou a categoria Filme Popular para que Vingadores – Guerra Infinita ou Star Wars – Os Últimos Jedi possam ser indicados e levar prêmios sem ameaçar a sacra categoria do Melhor Filme resguardado para os “sérios”. Só que o muro já caiu! Ela devia ter feito isso 20 anos atrás. Agora, é tarde demais!

Pantera Negra não é simplesmente um blockbuster. É sim um filme de super-heróis e tem ação, efeitos especiais e elementos inverossímeis. Mas ao mesmo tempo, tem conteúdo! E muito! Traz a questão da herança africana, os problemas relacionados às ações dos Estados Unidos no mundo e até sobre o empoderamento feminino. E mais: é um fenômeno cultural, que arrastou todos – público e crítica – a essas reflexões, de modo que é considerado um filme importante por todos.

Então, qual é o critério – não só cultural e político, mas principalmente, artístico – para não indicar Pantera Negra ao Oscar de Melhor Filme?

Só porque tem a bandeira da Marvel na frente?