Que triste coincidência… Horas atrás, o escritor J.M. DeMatteis escreveu uma postagem no Instagram para homenagear o desenhista Sal Buscema, com quem fez uma aclamadíssima passagem de dois anos pelo Homem-Aranha nos anos 1990, por seu aniversário de 90 anos hoje, mas depois de um tempo, atualizou a postagem dizendo que um colega lhe informou que o célebre artista, um dos pilares do estilo Marvel nas décadas de 1970 e 80, havia falecido na sexta-feira passada. O Comic Book Resources confirmou a notícia 30 minutos atrás com o escritor Sterling Clark, com quem o artista estava envolvido no projeto, que foi comunicado pela viúva de Buscema.

Sal Buscema morreu na sexta-feira, aos 89 anos e não há informações sobre a causa.

Nascido em 26 de janeiro de 1936, no Brooklyn, em Nova York, em uma família de emigrantes italianos, Salvatore Buscema estudou na High School of Music and Art e terminou convocado pelo exército, onde trabalhou como ilustrador até dar baixa e ingressar no mercado de quadrinhos por um tempo, fazendo o nanquim (arte final), antes de engajar uma longeva carreira na publicidade. Mas seu amor pelos quadrinhos o levou a trabalhar na Marvel, por meio de um “empurrãozinho” de seu irmão mais velho, John Buscema, um dos três principais desenhistas da editora no fim dos anos 1960 (ao lado de Jack Kirby e John Romita).

Trabalhando inicialmente com nanquim e depois desenhando alguns faroestes, Sal terminou assumindo o nanquim da arte do irmão em Silver Surfer, a aclamadíssima HQ solo do Surfista Prateado, lançada com sucesso em 1968, o que chamou bastante atenção e terminou por se tornar o desenhista dos Vingadores na revista Avengers 67, em 1969, fazendo um trabalho espetacular numa ótima fase com roteiros de Roy Thomas, na qual criaram personagens como o Zodíaco (grupo de vilões baseados nos signos) e o Esquadrão Sinistro (um grupo de vilões de uma dimensão alternativa que era uma versão da Liga da Justiça da DC Comics), que depois, ganhou também uma versão heroica como o Esquadrão Supremo, além de terem lançado a ideia dos Invasores, o grupo liderado pelo Capitão América nos tempos da II Guerra Mundial que anos depois ganharia uma revista própria.

Esse trabalho chamou a atenção para o caçula de John Buscema, que virou um artista respeitado por seu próprio talento: dono de traços retos e expressivos, era capaz de criar incríveis cenas de ação como também em cenas mais contidas e dramáticas como diálogos, sendo bom em movimento corporal e em expressões faciais. Thomas criou – junto ao artista Ross Andru, uma equipe de heróis chamada Os Defensores, reunindo Hulk, Namor e o Doutor Estranho, e após algumas revistas de teste, a Marvel decidiu criar uma revista própria para o time e Sal Buscema foi o escolhido para realizá-la, ao lado do escritor Steve Englehart. Estreando em 1972, The Defenders foi um sucesso e Buscema desenhou a maior parte das 40 primeiras edições, nas quais co-criou vários personagens e vilões, inclusive, a Gangue da Demolição, um grupo de inimigos que lutaria com vários heróis da Marvel no futuro.

Ao mesmo tempo, ele foi especialmente designado para substituir o grande John Romita como desenhista do Capitão América, estreando em Captain America & the Falcon 146, de 1972, e ficando quatro anos consecutivos até Captain America 181, de 1975, mas ele ainda retornou para outro ciclo de histórias com o sentinela da liberdade, entre os números 218 a 237, entre 1978 e 1979. Nessa longa empreitada, Buscema ajudou a criar toneladas de personagens, como o Capitão América dos anos 1950 (William Burnside, que viraria o vilão chamado Grande Diretor) e seu Bucky (Jack Monroe, que viraria o Nômade), além do vilão Barão Zemo II.

Ao mesmo tempo em que trabalhava com o Capitão América, Buscema assumiu a revista Peter Parker: The Spectacular Spider-Man, a publicação secundária do Homem-Aranha, que corria paralela à principal Amazing Spider-Man, e tinha como foco a vida estudantil do escalador de paredes. Ele desenhou a maior parte das 20 primeiras edições, entre 1975 e 1977, mas voltaria no futuro em várias ocasiões, numa dessas, ainda no fim dos anos 1970, ajudando a criar o vilão Carniça. Buscema também contribuiu para a outra revista aracnídea, Marvel Team-Up, na qual o herói sempre aparecia ao lado de outras atrações da Marvel, da qual ilustrou duas dúzias de edições entre 1974 e 1983, criando a importante personagem coadjuvante capitã Jean DeWolff.

Busema deixou a revista do Capitão América para poder trabalhar em The Incredible Hulk, onde estreou no número 194, de 1975, e permaneceria por nada menos do que 10 anos consecutivos, até o número 309, de 1985, atravessando as fases de Len Wein e, principalmente, Bill Mantlo, como escritores do gigante verde em uma das melhores fases do personagem em todos os tempos, e que rendeu a criação de dezenas de personagens, dentre os quais a super-heroína israelense Sabra e os grupos de vilões U-Foes (Alienígenas, no Brasil) e os Super-Soldados Soviéticos (depois, Sovietes Supremos). Busema e Mantlo também trabalharam juntos na revista Rom: The Spaceknight, personagem intergaláctico que era a adaptação de um brinquedo licenciado como quadrinho pela Marvel, que iniciou em 1979 e foi um grande sucesso de vendas, e o ilustrou até 1984, na maior parte da existência da publicação. Ao mesmo tempo, ele também ilustrou a revista do personagem Nova – um jovem herói intergaláctico – entre os números 03 e 14, de 1976 e 77.

Thor combate a Serpente da Terra, em “Thor 380”, uma das melhores do personagem. Texto de Simonson, arte de Sal Buscema.

Buscema continuou trabalhando com vários personagens da Marvel ao longo dos anos 1980, incluindo os Novos Mutantes (da franquia dos X-Men) em 1984, e assumiu os desenhos do Thor sob a escrita de Walt Simonson, em uma fase muito interessante, quando o deus do trovão assume uma nova armadura para proteger seu corpo deixado frágil pela deusa da morte, Hela. Essa passagem curta, mas sensacional, incluiu Thor 380, edição histórica que adapta a morte do deus do trovão diretamente das narrativas da Mitologia Nórdica, na qual narram o confronto do herói com a Serpente do Mundo, um monstro gigantesco, no qual Buscema ilustra inteiramente em quadros de páginas inteiras ou páginas duplas, num efeito belíssimo e um dos maiores trabalhos que já realizou em termos gráficos.

Depois disso, Buscema voltou a Spectacular Spider-Man no número 134, de 1987, e permaneceu por nove anos na revista, inclusive, a célebre fase com J.M. DeMatteis que iniciou na edição 178, de 1991, com o arco A Criança Interior, que é uma das melhores histórias do aracnídeo em todos os tempos, e passou pelo celebrativo número 200, em 1993, e se alongou até o número 216, de 1996.

Depois do Homem-Aranha, Buscema finalizou a década de 1990 fazendo alguns trabalhos para a DC Comics, onde ilustrou personagens como Superman, Batman e Mulher-Maravilha, mas a partir dos anos 2000, assumiu uma postura já meio aposentada (pois já tinha mais de 60 anos de idade) e se dedicou especialmente ao nanquim, cobrindo (e melhorando) a arte de outros artistas, embora ainda tenha ilustrado a Garota-Aranha, a versão da filha de Peter Parker de um futuro alternativo, entre 2003 e 2006, e ainda continuou fazendo o nanquim para a arte de Ron Frenz até 2009, e daí em diante, se dedicou principalmente ao nanquim em editoras mais alternativas, se mantendo ativo pelo menos até 2022.

Por causa dessas passagens longas, Sal Buscema é até hoje o artista que por mais tempo desenhou o Hulk e um dos que mais desenhou o Homem-Aranha, em todos com passagens marcantes e histórias célebres. Ele foi um dos maiores artistas da Marvel Comics em todos os tempos.