Em participação no podcast The Town With Matt Belloni, o CEO da Sony Pictures, Tom Rothman, confirmou algo que já vinha sendo especulado na imprensa nerd há algum tempo: o estúdio irá fazer um reboot do Universo Expandido do Homem-Aranha nos cinemas. A iniciativa vem na esteira dos constantes fracassos de bilheteria – e mais ainda de crítica – de quase todos os filmes da linha lançados pela Sony desde 2018.

Tendo vendido a franquia de 007 para a Amazon, hoje, a franquia do escalador de paredes da Marvel Comics é a propriedade mais valiosa da Sony Pictures, que produz seus filmes do teioso através da Columbia Pictures, mas simplesmente não conseguiram emplacar praticamente nada e têm enorme dificuldade de manter um fluxo criativo lucrativo. Peter Parker até que tem uma carreira vitoriosa nos cinemas, mas o mesmo não pode ser dito sobre o universo que o estúdio tentou construir ao redor dele. Veja, após o esgarçamento da primeira franquia do herói – A Trilogia de filmes de Sam Raimi lançados entre 2002 e 2007 com Tobey Maguire – a Sony tentou um primeiro reboot com dois filmes dirigidos por Marc Webb e estrelados por Andrew Garfield, que não emplacaram de verdade, especialmente, o segundo, muito mal recebido. Como saída, a Sony decidiu se aliar ao Marvel Studios da Disney e criar filmes do Homem-Aranha que, apesar de guardarem alguma independência, estavam associados e se situavam no mesmo universo ficcional do MCU dos Vingadores. Deu muito certo!

Peter Parker voltou aos cinemas em uma nova versão estrelada pelo britânico Tom Holland, que estreou em Capitão América – Guerra Civil, de 2016, do Marvel Studios, muito bem recebido, e protagonizando em seguida Homem-Aranha – De Volta para Casa, em 2017, pela Sony, que também fez muito sucesso. Enquanto o aracnídeo continuou aparecendo nos filmes do MCU – Vingadores – Guerra Infinita e Vingadores – Ultimato -, as sequências solo vieram com sucesso crescente, com Homem-Aranha – Longe de Casa e Homem-Aranha – Sem Volta para Casa, com este último batendo o 1 bilhão de bilheteria, mesmo num cenário pós-pandemia (um acontecimento raríssimo hoje em dia) ao se inserir na trama de multiverso do MCU e, com isso, reunir as versões de Peter Parker de Holland, Garfield e Maguire em uma mesma história.

Animados pelo boa empreitada, já que tinha que esperar os desdobramentos dos filmes dos Vingadores para contar as aventuras de Peter Parker, a Sony decidiu construir um universo ficcional próprio, particular, com personagens da franquia do cavaleiro das teias nos quadrinhos, começando com o mais popular deles, Venom, que ganhou seu próprio filme estrelado por Tom Hardy em 2018. A recepção da crítica – e de parte dos fãs – foi muito ruim, porém, ainda assim, a bilheteria foi muito boa: impressionantes US$ 856 milhões! O simbionte alienígena que incorpora o repórter Eddie Brock ganhou sua próprio trilogia, embora nunca cruzando o caminho com o amigão da vizinhança, o que frustrou bastante os fãs. Mesmo assim, os dois longas seguintes ainda foram pequenos sucessos comerciais, com Venom – Let There Be Carnage fazendo US$ 506 milhões e Venom – The Last Dance fazendo 478 milhões.

E isso ainda foi o melhor… O Spider-Verse seguiu com alguns dos maiores fracassos da história do cinema recente: Morbius, adaptando o vampiro-vivo dos quadrinhos (que é mais um anti-herói do que um vilão) estrelado nas telas por Jared Leto (o Coringa de Esquadrão Suicida e em breve nas telas como o Esqueleto de He-Man) foi um fiasco amargo, com apenas 167 milhões em bilheteria; Madame Teia, tentando adaptar a obscura personagem das HQs para capitanear um time de versões femininas do Homem-Aranha foi massacrado pelo público e pela crítica como um dos piores filmes de quadrinhos já feito e ainda conseguiu “incríveis” 100 milhões de arrecadação; mas isso cansou o público, que realmente jogou a toalha, tanto que Kraven – O Caçador, estrelado por Aaron Taylor-Johnson, que parecia bem mais promissor, arrecadou apenas 62 milhões. Ai.
Não sabemos se a Sony aprendeu a lição – esses filmes foram marcados por falta de carisma, nenhuma ousadia e decisões criativas questionáveis, e pelo menos no caso de Madame Teia, uma série de “histórias de bastidores”, que não sabemos ainda se reais ou não, de interferência de executivos na parte criativa que impediram qualquer bom resultado – mas tudo indica, até agora, que os mesmos erros seguirão sendo cometidos.
De qualquer modo, o Universo do Aranha ainda prossegue em movimento: os desenhos animados do Aranhaverso (mostrando versões alternativas do Homem-Aranha se encontrando em uma aventura multi-dimensional) foram muito bem-recebidos tanto por crítica e público, incluindo indicações ao Oscar de Melhor Animação, e aparentemente, seguirão em frente. Foi anunciado recentemente um novo filme do Venom, mas também sob a forma de animação, mas não sabemos ainda do que se trata, apenas que Tom Hardy está envolvido. Seria esse o primeiro passo do reboot?

Outro produto do Aranhaverso é o Spider-Noir, que irá estrear na Amazon Prime Video ainda este ano de 2026, com uma versão detetivesca do Homem-Aranha (chamado no programa de Ben Reilly) nos anos 1930 vivido por Nicholas Cage.
Na conversa com Matt Belloni, Tom Rothman minimizou a demora de Homem-Aranha – Um Novo Dia (que dará início a uma nova trilogia do herói, dirigida por Destin Daniel Cretton (que fez o filme Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis, do MCU pós-Ultimato), que deve estrear este ano, em 31 de julho, dizendo que a escassez adiciona valor e que a audiência sentir falta do herói nas telas é bom para o filme. Na mesma linha, até agora, pelo menos, não foi confirmada a aparição do Peter de Holland em Vingadores – Doutor Destino que também estreia este ano, em dezembro, embora é quase certo que ele esteja num papel importante no longa seguinte, Vingadores – Guerras Secretas, que deve chegar em 2027.
Rothman dá a entender que está às boas com Kevin Feige, o presidente do Marvel Studios, quando diz:
Nunca aposte contra [James] Jim Cameron e nunca aposte contra Kevin Feige. Eles sabem o que estão fazendo.
Ele até comentou sobre as mudanças da Marvel [e da Disney] recentemente, sobre produzir menos conteúdo para a TV (streaming) e coisas menos conectadas, que deixavam o público se sentindo excluído, sem conseguir acompanhar tudo o que está acontecendo, mas ressalta que isso foi algo que a administração anterior da Disney mandou ele fazer, e que agora, ele está corrigindo o curso. Isso lhe ensinou alguma lição? Talvez…
Sobre o Aranha-Verso, Rothman foi menos eloquente… perguntado se iria investir em mais animações da série Aranha-Verso, ele apenas respondeu “sim”, e questionado (talvez, mediante um acordo prévio com o entrevistador, nos bastidores) se haveria um soft-reboot do universo particular do Aranha nos cinemas, ele também apenas disse “sim”.

Tendo em vista que Peter Parker (by Tom Holland) inicia uma nova trilogia agora em seu próximo filme, e sabemos que a trama geral é uma sequência direta do que vimos na trilogia anterior (e nos filmes dos Vingadores do Marvel Studios), podemos pensar que a Sony está simplesmente pensando em “esquecer” as iniciativas frustradas de Morbius, Madame Teia e Kraven e fazer algo novo. Em seu benefício, o estúdio tem o fato de que nunca realmente conectou aquelas histórias com o Homem-Aranha (para além de um aspecto muito, muito subjetivo) e, com isso, não complicou a história do personagem de Holland – em cujos os filmes também jamais trouxeram qualquer referência breve a esses outros longas, exceto uma breve cena pós-créditos em Sem Volta para Casa na qual aparece o Eddie Brick de Tom Hardy e ainda sob a desculpa de uma trama no multiverso.
O que a Sony irá tentar em seguida, ainda é um mistério total. Quais as implicações do Spider-Noir e do desenho do Venom nesse cenário de soft-reboot (para usar o termo usado pelo apresentador na hora da pergunta)?
Não sabemos.
Vamos aguardar mais notícias.

