Uma notícia algo chocante chegou agora… Com a maior proposta oferecida esses dias pela Paramount Skydance, o Conselho Diretor da Warner Bros. Discovery considerou este “de maior valor” do que o anterior oferecido pela Netflix para a compra do conglomerado. Como consequência, a Netflix desistiu de “cobrir” a aposta e, agora, é quase certo que a Paramount será a nova proprietária da Warner e todas as suas propriedades intelectuais, incluindo a DC Comics.

As rodadas de negociação pela Warner Bros. Discovery estavam em circulação desde setembro do ano passado, com as propostas oferecidas em novembro, e o Conselho Diretor da empresa anunciando, via seu CEO David Zaslav, em dezembro que a proposta da Netflix era a melhor apresentada e que o famoso canal de streaming seria a nova dona do conglomerado. Esse poderia ser o fim da história, mas não foi…Apenas alguns dias depois, a Paramount Skydance realizou o que é chamado nos EUA de “oferta hostil”, quando é realizada uma proposta de compra passando “por cima” do conselho diretor e indo direto aos acionistas, com promessas de maiores ganhos. Daí, se seguiu uma série de novas negociações até que, na virada do ano, a Paramount apresentou sua proposta “final”, substancialmente maior do que a anterior. O resultado saiu hoje, com o Conselho Diretor da WBD confirmando que a oferta da Paramount é “superior” e a Netflix comunicando que não irá aumentar sua proposta, na prática, saindo da negociação e deixando o caminho livre para a Paramount se tornar a nova dona da Warner.

O negócio não foi fechado, ainda, é preciso dizer, porém, não há, no momento, nenhum outro investidor na disputa pelo preço da WBD e a Paramount deve levar esse jogo.

A Netflix tinha colocado um preço de 27 dólares por cada ação da empresa, enquanto a proposta da Paramount é de 31 dólares.

Outro ponto que deve ter sido decisivo é que a Netflix só estava interessada na parte Warner (produção de cinema e streaming) e não no setor Discovery (programas para TV, aberta e a cabo) que teria que ser comprado por outro interessado. A Paramount adquire o conglomerado inteiro.

Com isso, a Paramount se torna proprietária de produtos como a DC Comics e seus super-heróis (Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Liga da Justiça etc.) e seu braço cinematográfico, o DC Studios, além de outras franquias importantes, como Harry Potter, A Quiet Place, The Conjuring, Mortal Kombat, Games of Thrones, O Senhor dos Anéis, Looney Tunes e Bob Esponja; bem como o conglomerado Discovery Channel (com uma série de canais, como DiscoveryID, Investigation Discovery, Animal Planet, Science Planet etc.) e canais de TV como Cartoon Network, TNT, CNN e HBO, o que inclui o streaming HBO Max.

A Paramount, por sua vez, além de seu estúdio de cinema homônimo, contém marcas como a emissora de TV CBS, o Showtime, a Viacom (MTV, Nickelodeon e a editora de livros Simon & Schuster) e a PlutoTV, sendo proprietária de franquias como Star Trek, Missão Impossível, Transformers, G.I. Joe, TopGun e filmes como Titanic e Interestrelar.

A fusão da Warner com a Netflix ou a Paramount foi objeto de intensa discussão nos meses passados por toda a Hollywood e além: se por um lado vários setores de Hollywood ficaram preocupados por desconfiarem da Netflix (por ser uma empresa de streaming) vir a investir mais na “televisão” do que nos lançamentos de cinema (o que motivou, por exemplo, na sexta-feira passada, dia 20, o diretor James Cameron, de Avatar, a declarar em uma carta enviada a um Senador, que a compra pela Netflix seria “um desastre” para a indústria do cinema), ainda que o CEO da Netflix, Ted Sarandos, tenha negado essa abordagem, como recentemente, numa participação no famoso podcast The Town with Matt Belloni, no dia 18 passado, quando propôs manter uma janela de lançamento de 45 dias nos cinemas (ou seja, 6 semanas) para os lançamentos cinematográficos da Warner, antes de submetê-los aos lucrativos servidos de “aluguel digital” ou view on demand (VOD) por mais algumas semanas, e somente depois disso, liberar o acesso no streaming regular; por outro lado, não poucos artistas ou executivos ficaram preocupados com a crescente conservadora da direção da Paramount do CEO David Ellison, que apoia as políticas destrambelhadas de Donald Trump. E por isso mesmo, o presidente dos EUA, desde o princípio, condenou a compra anterior e declarou publicamente preferir a fusão com a Paramount. E o papel de Trump nessa virada de jogo de última hora não pode ser descartada.

[Atualização em 27/02: O site de notícias econômicas Bloomberg afirmou que ontem mesmo – ou seja, o dia da postagem original deste artigo – o CEO da Netflix, Ted Sarandos, havia ido à Casa Branca tratar da fusão com a Warner com Trump. Ninguém sabe o teor da conversa, mas horas depois, a WBD anunciou que a proposta da concorrência era economicamente superior e a Netflix, imediatamente em seguida, anunciou que estava desistindo da compra. Trump disse algo a Sarandos? Fim da Atualização].

Não é uma boa notícia para a DC Comics…

Enquanto as lideranças tanto da Warner quanto da Netflix tinham caráter mais liberal, a Paramount é mais alinhada ao pensamento conservador do presidente dos EUA, Donald Trump, com o CEO da Paramount, David Ellison, sendo um ferrenho defensor do controverso empresário-político e herdeiro do proprietário da Oracle. Neste campo, a DC se reinventou nos cinemas com a estruturação (relativamente recente) do DC Studios, sob a liderança dos CEOs James Gunn e Peter Safran, o que rendeu algumas reclamações de um pretenso conteúdo woke no filme Superman do ano passado, por exemplo. A partir de declarações do próprio Ellison em meses recentes é bem provável que a nova administração tire Gunn e Safran da liderança da DC e, com isso, destruam toda a nova construção de um Universo DC nos Cinemas como se pretendia e se comece tudo de novo com um novo direcionamento.

Isso é apenas uma especulação e é preciso aguardar os desdobramentos da compra nas semanas e meses que se seguem.