Foi anunciado ontem em seus canais oficiais que o filme Power to the People – John & Yoko Live in NYC, trazendo imagens do último concerto do ex-Beatles John Lennon, será lançado de modo limitado nos cinemas. Como vem sendo bastante comum, filmes-concertos de artistas clássicos chegam às salas de projeção para pequenas temporadas – o que aconteceu recentemente com Beatles, Foo Fighters ou Pink Floyd – e agora chegou a vez de Lennon.

O longa é uma recriação em vídeo da filmagem do One to One Concert, que John Lennon apresentou ao lado de sua esposa, a também cantora e compositora Yoko Ono, acompanhados pela banda underground novaiorquina The Elephant’s Memory, no Madison Square Garden, na cidade de Nova York, em duas apresentações (tarde e noite) do dia 30 de agosto de 1972, num evento beneficente para uma escola de jovens com deficiências intelectuais. Lennon apresentou algumas canções do então recém-lançado álbum Sometime in New York City, um cover de rock’n’roll, canções já clássicas de seu repertório solo (Imagine, Instant Karma!, Mother) e um único número dos Beatles, Come together, para um público combinado de 40 mil pessoas. Além da atração principal, o evento contou com apresentações de Renata Flag e Steve Wonder.

O concerto é historicamente importante porque foi o último show completo que Lennon apresentou em vida. Antes daquilo, Lennon já tinha realizado alguns shows e também algumas apresentações mais curtas, em eventos especiais e aparições na TV, mas após migrar para os Estados Unidos em 1971, o músico passou a sofrer um processo de deportação, fachada para uma perseguição política do governo conservador de Richard Nixon, que temia o poder aglutinador de Lennon, envolvido com movimentos de esquerda na época. Por causa do processo, o ex-Beatles era impedido de trabalhar formalmente, então, não podia realizar um concerto oficial, e muito menos, sair em turnê. Ao se reunir com a Elephant’s Memory em 1972 e até produzir o álbum deles para a gravadora Apple, dos Beatles, a intenção de Lennon era fazer uma turnê pelos EUA (ele seria o primeiro ex-beatle a fazer isso se tivesse dado certo, pois George Harrison só o fez em 1974 e Paul McCartney em 1976), contudo, o processo de deportação impediu tudo, e o que restou foi fazer um concerto beneficente isolado.

Depois disso, Lennon fez apenas um punhado de apresentações ao vivo, sempre pontuais e curtas, como participar de três canções de um show de Ação de Graças de Elton John no mesmo Garden, em 1974, e tocar três faixas em um evento especial da TV, em 1975. Neste último ano, Lennon finalmente venceu o processo de deportação e ganhou seu Green Card, mas aí, o momento da vida já era outro: após quase dois anos de separação, ele havia se reconciliado com Yoko Ono e eles havia tido um filho, Sean, com Lennon escolhendo pausar a carreira e se dedicar à criação do menino. Somente depois de cinco anos, Lennon voltou à ativa, lançou um álbum (Double Fantasy), começou a gravar outro, e tinha plano de após o lançamento deste, fazer uma turnê para promovê-los. No entanto, antes disso, o músico foi assassinado por um fã com problemas mentais, com cinco tiros, em 08 de dezembro de 1980.

(L-R) top row: Stan Bronstein, Gary Van Scyoc, Wayne “Tex” Gabriel, Jim Keltner and Adam Ippolito of Elephants Memory. (L-R) bottom row: Rick Frank of Elephants Memory, Yoko Ono and John Lennon at The Record Plant, NYC. 1972. ?? Bob Gruen / http://www.bobgruen.com??Please contact Bob Gruen’s studio to purchase a print or license this photo. email: info@bobgruen.com??Image #: R-388

O One to One Concert, portanto, ficou como o último registro do músico tocando ao vivo em um show completo.

Os dois concertos foram filmados e gravados e até ganharam um lançamento póstumo em LP, CD e VHS (vídeo, dirigido por Steve Gebhardt) em 1986, com o nome Live in New York City, chegando ao filme-concerto se tornar uma atração relativamente comum na TV, mas as gravações sofreram de problemas técnicos, com excesso de ruído, e a qualidade foi criticada na época, a banda de apoio foi acusada de ser amadora, e talvez por causa disso, discretamente, o álbum ao vivo e o filme desapareceram das lojas e saíram de catálogo, virando peça de colecionador.

Version 1.0.0

Mas em 2025, aquele filho de Lennon, Sean Ono Lennon, agora um músico e produtor de prestígio, resgatou as gravações do pai e no uso das mais modernas técnicas sonoras da atualidade, restaurou tanto o áudio quanto o vídeo dos concertos e capitaneou o lançamento do box-set Power to the People: John & Yoko Live in NYC, com 12 discos, trazendo a íntegra de ambos os concertos, uma versão combinada dos dois (um tipo de best of), o álbum Sometime in New York City (agora rebatizado apenas de New York City) remixado e remasterizado (recriado, podemos dizer), uma longa coleção de sobras de estúdio e gravações demo, e alguns outros registros ao vivo feitos na época em eventos políticos e na TV. O single de antecipação do lançamento foi lançado apenas em vinil e chegou no Top10 das paradas britânicas. Vindo em uma bela embalagem e contendo versões menores, mais acessíveis (com menos discos), o material foi bem recebido, ganhando elogios pela qualidade sonora dos shows, passando uma impressão completamente diferente do que se tinha desses concertos, revelando uma banda mais afiada, uma voz maravilhosa de Lennon e muita energia na performance das canções. O material foi acompanhado, na época, por outro filme: One to One: John & Yoko, um documentário sobre o intenso ano de 1972 para o casal e a preparação para o show.

Algumas imagens do show foram usadas como clipes para as canções do box, já dando um gostinho do que o novo filme deve ser: imagem nítida, som maravilhoso e a abordagem multicâmera, ou seja, com imagens duplicadas ou triplicadas de várias câmeras ao mesmo tempo preenchendo a tela.

Power to the People: John & Yoko Live in NYC é dirigido por Simon Hilton, com edição de Ben Wainwright-Pearce e produção de Peter Worsley e Sean Ono Lennon, um time que já ganhou (combinados) sete prêmios Grammy. A produção sonora é de Sean Lennon, com mixagem e engenharia de som de Paul Hicks e Sam Gannon.

Os ingressos para os cinemas estarão disponíveis ao público a partir do dia 20 de março e a exibição começa em 29 de abril. Alguns locais terão áudio em 5.1 surround ou em Dolby Atmos. Os locais específicos em que o longa será exibido ainda não foram divulgados, portanto, não sabemos se o Brasil está incluso. Em lançamentos recentes desse tipo, como o Pink Floyd – Live at Pompeii, houve participação massiva em nosso país.

John Lennon nasceu em Liverpool, na Inglaterra, em 1940, e fundou uma bandinha de rock na escola que evoluiu para se tornar os Beatles, que lançaram seu primeiro disco em 1962 e se transformaram no maior fenômeno cultural popular do século XX e a banda musical mais influente da história, embalados nas composições de Lennon ao lado de seu parceiro, Paul McCartney. Após 13 álbuns, a banda se separou em 1970 e todos os membros do quarteto fizeram carreiras solo de sucesso. Lennon se destacou por seu envolvimento político, suas faixas críticas e suas letras poderosas, e foi assassinado em 1980, aos 40 anos de idade.

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