O Rei dos Quadrinhos e cocriador do Universo Marvel, Jack Kirby, ganhou uma enorme homenagem de sua cidade natal! A cidade de Nova York acaba de batizar uma rua com o nome do artista que se tornou um dos mais importantes e influentes desenhistas e criadores do século XX, cujas criações – uma pequena lista que inclui Capitão América, Homem de Ferro, Thor, Hulk, Quarteto Fantástico, Pantera Negra, Vingadores, X-Men, Eternos, vilões como Doutor Destino, Magneto, Loki, isso na Marvel, além do vilão Darkseid e todo o Quarto Mundo dos Novos Deuses na DC Comics – permanecem como parte fundamental da cultura pop contemporânea.

Segundo reportou o Smithsonian Magazine, a revista de notícias do célebre museu Smithsonian Institute, em Washington, DC, a esquina das ruas Delancey e Essex no Lower East Side de Manhattan será batizada de Jack Kirby Way, como uma homenagem ao artista que nasceu e viveu essa região que, no início do século XX, era formada por apartamentos entulhados de imigrantes empobrecidos tentando sobreviver nos duros anos entre guerras.

Nascido Jacob Kurtzberg, em 28 de agosto de 1917, Kirby viveu no número 147 da Essex Street, há pouco mais de quarteirão de distância do cruzamento com a Delancey Street que agora levará seu nome. O artista homenageou a locação nas histórias que escreveu do Quarteto Fantástico ao lado do parceiro Stan Lee, colocando o personagem O Coisa (cujo nome é Ben Grimm) como um tipo de alterego dele próprio, inclusive, na maneira de falar, com o sotaque carregado do Low East Side da época – a gíria das gangues – e colocando como ponto referencial a fictícia Yancy Street, uma clara corruptela de Delancey.
O cruzamento entre Essex e Delancey havia sido batizada de Yancy Street e Jack Kirby Way numa placa discretamente exibida no filme Quarteto Fantástico – Primeiros Passos, lançado pelo Marvel Studios no ano passado, mas o historiador Roy Schwartz capitaneou para que a homenagem se fizesse em definitivo, pois já liderava uma campanha de mais de uma década por algum tipo de reconhecimento oficial da cidade ao grande artista. “Mudar o nome de uma rua em Nova York é muito difícil”, ele disse ao Smithsonian. Sua parceira na batalha foi Karen Green, curadora para quadrinhos e desenhos da Universidade de Columbia. Mas o Conselho Municipal (New York City Council), órgão representativo que cuida dessas coisas na política estadunidense, terminou por aprovar em definitivo a mudança, em dezembro passado, e uma cerimônia oficial ocorrerá na segunda-feira, dia 11 de maio (depois de amanhã).

Não custa lembrar, o museu Smithsonian guarda em seu acervo uma cópia da Captain America Comics 01, a revista de 1941 que introduziu o Capitão América, criado por Kirby e Joe Simon para a Marvel Comics. O museu também detém a Action Comics 01 de 1938 que introduziu o Superman. E ironicamente como aparece no filme Capitão América – O Soldado Invernal (2014), o museu guarda mesmo uma cópia do icônico escudo redondo do herói, a versão usada no filme, cujo design, não custa lembrar, foi criado por Kirby.

Kirby fez parte da primeiríssima geração de artistas que criou os super-heróis nas revistas em quadrinhos. Depois de um mínimo treinamento formal em desenho, o rapaz filho de judeus imigrantes que cresceu na zona pobre do Low East Side, trabalhou primeiro em tiras de jornais e no estúdio dos irmãos Fleisher de desenhos animados, antes de trabalhar para HQs como parte do estúdio de Will Eisner e Jerry Iger, que terceirizavam a produção para uma série de editoras no nascente mercado dos comics. Foi lá que ele conheceu o também escritor e desenhista Joe Simon, com quem estabeleceu uma profícua parceria (com ambos escrevendo e desenhando) que chamou a atenção do publisher da Marvel (então, chamada Timely Comics), Martin Goodman, que contratou Simon como editor-chefe da editora e Kirby como diretor de arte. Além de supervisionarem a produção de outros artistas e seus personagens, Simon e Kirby criaram o Capitão América, que se tornou o principal personagem da editora naqueles tempos.
Desde o início, a arte enérgica de Kirby foi reconhecida no meio, com seus personagens repletos de tensão, explodindo em cenas de ação vertiginosas na qual brinca com angulações e com as proporções dos quadros, além de criar (especialmente em seu trabalho tardio) uma verve de elementos visuais deslumbrantes para retratar tecnologias alienígenas ou cenários cósmicos.

Após serem demitidos da Marvel por problemas com Goodman, ainda em 1941, Simon e Kirby continuaram a trabalhar juntos pela década seguinte, passando uma boa temporada na DC Comics, onde emplacaram a HQ The Boys Commandos, sobre um conjunto de adolescentes que termina envolvido na guerra, além de criarem outras tiras, como Boy’s Ranch (faroeste), o herói The Guardian e trabalharem em outros como Sandman. Em 1943, Kirby foi convocado pelo Exército dos EUA e terminou efetivamente servindo como soldado em batalhas no front europeu (o que depois foi importante para as inúmeras HQs de guerra que ele ilustrou, pois foi um dos poucos que viu a guerra “de dentro”), enquanto outros colegas (como Simon e Stan Lee, então, um menino de 20 e poucos anos que trabalhara como assistente da dupla na Marvel, assim como o criador do Superman, Jerry Siegel, e seu editor Mort Weisinger) apesar de convocados, não entraram em batalha, mas cumpriram serviços técnicos, burocráticos ou mesmo artísticos para as forças armadas. Kirby quase morreu ao ter as pernas congeladas enquanto dormia em barracas improvisadas no rigoroso inverno de 1944, em sua missão solitária de invadir as linhas inimigas e mapear o terreno com sua habilidade para o desenho, e se livrando por pouco de ter as pernas amputadas, terminou seus dias militares condecorado por bravura e trabalhando como mecânico.
Ao ser dispensado, após o fim da guerra, em 1946, Kirby voltou aos quadrinhos, mas o cenário tinha mudado: o fim da guerra varreu também o lucrativo mercado das HQs de super-heróis, que estavam em forte decadência. Enquanto faziam trabalhos free-lancers para editoras pequenas, Kirby e Simon fundaram sua própria empresa, a Mainline Comics, mas o mercado exíguo não colaborou, então, em meados da década de 1950, Simon foi trabalhar na publicidade, e Kirby permaneceu nas HQs, trabalhando com revistas de romance, faroeste e ficção científica, até passar de novo pela DC Comics, onde trabalhou no Arqueiro Verde e criou os Desafiadores do Desconhecido, um grupo de aventureiros que foi germe para o Quarteto Fantástico.

Voltando a trabalhar na Marvel nos últimos anos da década de 1950, Kirby precisou refazer suas relações com o antigo desafeto Stan Lee, que agora, em vez de seu assistente faz-tudo, era o chefe, o editor-chefe da Marvel, mas eles conseguiram, e a dupla terminou criando o Universo Marvel a partir de 1961, começando com o Quarteto Fantástico, e em seguida, Hulk, Thor, Homem-Formiga, Homem de Ferro, os Vingadores, os X-Men, trouxeram de volta o Capitão América, e continuaram criando Pantera Negra, Inumanos, Surfista Prateado, e toda a galeria de vilões desses personagens, incluindo o Doutor Destino, que será a grande ameaça do vindouro próximo filme dos Vingadores.











Kirby se dedicou especialmente ao Quarteto Fantástico (cujas primeiras 102 edições assinou com Lee), Thor e o Capitão América, nos anos 1960, e fazendo bem mais do que “apenas desenhos”, pois o regime de trabalho que fundou com Lee era no qual o editor instigava uma premissa breve ou temática a ser seguida, e Kirby desenvolvia a história e os personagens por meio de seus desenhos, com Lee retornando para escrever os diálogos e textos, o que faz com que Kirby fosse um criador ativo de tudo o que trabalhou, não raras vezes, o principal criador, ainda que Lee tenha ganho mais fama e popularidade, porque, afinal, o crédito de “roteiro” lhe era dado, mesmo com Kirby criando a história na maioria das vezes.
Essa relação gerou muitas mágoas entre os dois e o fato de Kirby ter se mudado para a Califórnia no fim dos anos 1960 só deixaram as coisas piores, até que ele decidiu pedir demissão da Marvel em 1970 e foi de novo à DC Comics, onde trabalhou nas HQs do Superman e criou os Novos Deuses, todo um novo mini-universo de personagens que se tornaram o centro da facção cósmica da DC até os dias de hoje, incluindo, o célebre vilão (e protagonista) Darkseid. O material de Kirby causou algum problema na DC, que tinha uma postura de maior controle sobre seus artistas e sua empreitada não foi de toda um sucesso, sendo encerrada em quatro anos, quando retornou à Marvel para sua última passagem na editora que engradeceu, onde escreveu e desenhou novas HQs do Capitão América e Pantera Negra, criou Os Eternos, e fez capas para os Vingadores, até decidir se afastar de novo e se dedicar mais ao campo da animação em um regime de semi-aposentadoria.
Kirby terminou morrendo em 06 de fevereiro de 1994, aos 76 anos.

Ainda hoje, não reconhecido como merece diante do grande público, Kirby foi chamado de O Rei dos Quadrinhos por motivos justos, não somente por ter criado alguns dos personagens (e visuais) mais interessantes do mundo dos super-heróis, que deixaram um legado e uma influência impossível de serem medidos, mas também por ter, efetivamente, escrito esses personagens e suas histórias, e não apenas seguido o texto guia de um roteiro (algo que não existia em seu regime com Lee). Ao passo que Stan The Man era afeito aos holofotes, com sua personalidade risonha, simpática e falsamente modesta, Kirby The King sempre foi alguém mais retraído e fechado, meio turrão, um cara das ruas, que se criou em meios as gangues da rua Yancy… ops, ou Delancey… e que precisou se virar mesmo para sobreviver, não apenas na vida juvenil, mas em seu trabalho e nesse campo tão difícil e de pouco reconhecimento como os quadrinhos.
Seus herdeiros brigam na Justiça por mais reconhecimento e direitos autoriais devidos, mas Kirby morreu desconhecido do grande público, e celebrado apenas ao pequeno nicho dos leitores ávidos de quadrinhos, que reconhecem desde sempre sua grandeza, genialidade e criatividade para conceber (e escrever) alguns dos mais famosos personagens da cultura pop mundial.
Por isso, da próxima vez que for em Nova York, dê um jeitinho de visitar a esquina entre Delancey e Essex para passar pelo Jack Kirby Way. E quem sabe, atravesse a ponte em direção ao Brooklyn, pois lá existe, em um prédio comercial, uma estátua de bronze dedicada a uma de suas criações mais famosas, o Capitão América. O cocriador do Batman, o escritor Bill Finger – que também ficou menos conhecido para a história no lugar do cartunista Bob Kane – também tem um rua com seu nome em Nova York, no bairro do Bronx, a Bill Finger Way.

