X2 by Bryan Singer
Poster de X-Men 2: Tempestade e Wolverine (acima); prof. Charles Xavier, Mística, Ciclope, Jean Grey, Noturno e Magneto. Sucesso de crítica e de público.

Entre 2000 e 2006 foram lançados os três primeiros filmes da franquia dos X-Men, os heróis mutantes da Marvel criados por Stan Lee e Jack Kirby em 1963. Os dois primeiros longametragens foram sucesso de público e crítica, dirigidos por Bryan Singer e estrelados por Hugh Jackman como Wolverine, que se tornou um astro mundial por causa disso.

Quando da produção do terceiro filme, algo deu errado. Apesar do sucesso estrondoso de X-Men 2 – até hoje considerado como o melhor episódio da franquia inteira – por algum motivo obscuro a 20th Century Fox estava vacilante em dar o “sinal verde” para a produção da sequência. A demora se alongou tanto que chegou ao ponto de haver dúvidas se seria mesmo produzido.

Como consequência, o diretor Bryan Singer caiu fora do barco e foi fazer o Superman – Returns para a Warner. Essa “traição” parece ter motivado a Fox que, imediatamente, deu partida na produção de X-Men 3 e contratou o diretor Brett Ratner (de A Hora do Rush) para fazê-lo. O filme foi feito às pressas e a mudança de comandante trouxe algumas transformações estéticas, também, como o “clima” da película.

X-Men 3 não agradou. Personagens demais, deturpação de alguns pontos da história e uma premissa interessante desperdiçada pela má condução do roteiro, que se transforma em uma série de cenas de impacto que não conseguem se articular entre si.

Hugh Jackman as Wolverine
Hugh Jackman: grande sucesso como Wolverine, mas o filme "solo" do personagem não agradou.

Além disso, o filme dava um fecho – talvez definitivo demais – à franquia. E as franquias precisam continuar, então, o que fazer? Ninguém parecia querer ir adiante com aquela história, assim, a Fox decidiu voltar para trás, para o passado. Nasceu a série Origins que teve dois filmes programados de imediato: Wolverine e Magneto.

Wolverine foi produzido primeiro, com direção de Gavin Hood e o mesmo Hugh Jackman atuando também como produtor. O resultado, lançado em 2008, também não agradou. X-Men Origens: Wolverine cometeu os mesmos erros de seu antecessor imediato: personagens demais, cenas de impacto, roteiro desconectado.

Este é um dos maiores desperdícios da história do cinema: se adaptada fielmente dos quadrinhos, a “origem” de Wolverine (ou seja, seu período anterior à entrada aos X-Men) renderia fácil uma trilogia por si só, bem contada! No entanto, a Fox optou por colocar tudo de uma vez só.

Com isso, não dá para engolir um filme que começa com o pequeno Logan descobrindo que é mutante, fugindo com seu irmão bastardo, lutando nas guerras mudiais, trabalhando como agente secreto, fugindo do mundo da espionagem, casando e vivendo uma vida normal de lenhador no Canadá (seu país de origem), sendo encontrado pelos velhos aliados, usado como cobaia em um experimento secreto, se vingando contra os algozes, descobrindo mutantes adolescentes aprisionados (entre eles, Ciclope, o futuro líder dos X-Men), lidertando-os, travando uma batalha final contra seu meio-irmão/agora arquiinimigo (Victor Creed, o Dentes de Sabre, interpretado por Liev Schreiber, o melhor ator do filme) e contra outra ameaça que combina os poderes de vários mutantes, além de, no fim das contas, perder a memória de tudo isso o que aconteceu. E ir para o Japão, que é o cenário da continuação.

James Mardsen as Cyclops
Ciclope, interpretado por James Mardsen, é o líder de campo dos X-Men.

Se tudo isso fosse bem contado em uma trilogia – com bom roteiro e diretor, o que não foi o caso – teria sido uma grande experiência, mas juntar tudo isso num filme só, cheio de personagens “importantes” – William Stryker, Deadpool, Blob, Agente Zero/Maverick, Raposa Prateada, Gambitt, Ciclope, Emma Frost – tornam a jornada mais tortuosa para o espectador do que para o próprio Wolverine.

Assim, não dá para explicar direito, por exemplo, porque ele começa o filme sendo chamado de James e, depois, virou Logan, sem nenhuma razão. Na história em quadrinhos Wolverine: Origem, de Paul Jenkins e Andy Kubert, é mostrado em detalhes que James Howlett nasceu em uma abastarda família do oeste do Canadá – provavelmente na região de Alberta – mas que, na verdade, é filho de sua mãe com o capataz da propriedade, um velho bêbado e brigão chamado Logan. O jovem James herda as habilidades mutantes do pai verdadeiro e as descobre quando o pai biológico confronta o pai adotivo pelo amor da mulher e o patriarca John Howlett é morto. Enfurecido, o pequeno James vê suas garras pela primeira vez e mata o pai biológico. O velho Logan tinha outro filho, chamado apenas de Cão na história e este passa a persegui-lo pelo resto da minissérie, que conta as aventuras adolescentes de James Howlett, que foge para trabalhar em uma mina esquecida pelo tempo e muda o nome para (vejam só!) Logan para não ser encontrado.

Liev Schreiber as Sabretooth
O melhor de "X-Men Origins: Wolverine" é a versão de Liev Schreiber para Victor Creed (conhecido como Dentes de Sabre), meio-irmão e maior inimigo de Wolverine.

No filme, a maior parte dessa trama é resumida em uma única cena e Cão é substituído por Victor Creed, o vilão Dentes de Sabre, seu futuro arquiinimigo. Mas o filme também não explica porque Creed tem esse nome se ele é filho do mesmo Logan que é pai de Logan. Entendeu? Nós também não.

Com a fraca bilheteria de X-Men Origins: Wolverine, a Fox cancelou o filme X-Men Origins: Magneto, que tinha roteiro de David S. Goyer (dos filmes de Batman) e contaria a história do maior vilão da equipe, antagonista da trilogia original. Em vez disso, transformou esse projeto em X-Men: First Class que contará a origem do grupo a partir das histórias cruzadas do fundador Charles Xavier e do futuro vilão Erik Lehnsherr, o Magneto. Ambos foram amigos e trabalharam juntos para construir os X-Men, mas o segundo se desilidiu com a humanidade e se voltou contra ela.

Decidida a acertar – senão corre o risco de enterrar a franquia de vez – a Fox chamou Bryan Singer de volta para tocar o projeto. O diretor aceitou, mas foi impedido pela Warner a quem devia um filme segundo contrato. Então, Singer ficou apenas como produtor e escalou Matthew Vaughn (de Kick-Ass) para comandá-lo.

Assim como X-Men Origins: Wolverine, First Class se baseia em grande parte em eventos do passado já citados na trilogia original.

No primeiro, a experiência foi negativa. A cena em que Wolverine tem enxertado em seu corpo dezenas  de quilos de adamatium líquido – um metal fictício extremamente resistente – por parte do programa secreto comandado por William Strycker é muito mais dramática no rápido flashback de X-Men 2 do que na cena rápida e insossa – e cheia de furos e bestamente finalizada – de Wolverine.

Adamatium fight
O selvagem confronto entre Wolverine e Lady Letal em "X-Men 2".

First Class já anunciou que reprisará a cena que abre o primeiro X-Men, quando um Erik Lehnsherr ainda criança é arrastado a um campo de concentração na Segunda Guerra Mundial e manifesta seus poderes mutantes pela primeira vez. Gravada com pouca luz e tons escuros – quase preto e branco – sob uma pesada chuva, esta cena é clássica e mostrou, pela primeira vez em muito tempo, que filmes baseados em quadrinhos podiam ser sérios sem ser afetados. (O Batman de Tim Burton foi sério, mas totalmente afetado; os seguintes de Joel Schumacher não foram sérios). Matthew Vaughn fará melhor?

Outra preocupação é com a continuidade dos filmes. Wolverine afirmou ser fiél à cronologia criada nos filmes de X-Men, mas recorreu a erros grosseiros. Existe forma mais estúpida para Wolverine perder a memória de seu passado – tema forte naqueles filmes originais – do que levando um tiro com uma bala de adamantium na cabeça? Se o adamatium é inquebrável, nada pode quebrá-lo, certo? Por que uma bala de adamatium iria perfurar o crânio feito do mesmo material? Quando Wolverine luta com a comparsa de Strycker em Wolverine 2 – baseada na personagem Lady Letal, dos quadrinhos – ela também têm garras (unhas) do mesmo metal e eles não se quebram ao chocar-se com as garras do herói.

X-Men First Class
Os jovens personagens de "X-Men: First Class": Banshee, Magneto, Mística, Moira McTagger, Hank McCoy, Charles Xavier e Destrutor. Conexão precisa com os outros filmes?

Nos quadrinhos, Wolverine perdeu a memória após uma severa lavagem cerebral desenvolvida pelo mesmo programa que lhe implatou o adamatium: era parte do esforço de criar o soldado perfeito, imbatível e sem memórias ou emoções.

First Class vai mexer no mesmo vespeiro, só que sem Wolverine – que não está no filme. Como o filme se passa nos anos 1960, personagens como Xavier e Lehnsherr estarão mais jovens, juntos com outros que apareceram antes, como a transmorfa Mística, Moira McTagger, Hank McCoy/o Fera e a Rainha Branca, Emma Frost.

Esta última apareceu no final de Wolverine como uma das adolescentes sequestradas – e ainda irmã de Raposa Prateada, a esposa de Wolverine, parentesco inexistente nos quadrinhos e esdrúxulo à história original: uma indígena norteamericana e uma nórdica de ascendência européia. Como essa participação será explicada não se sabe, pois os eventos de First Class parecem transcorrer antes do terço final de Wolverine. Não esqueça que Xavier apareceu ao final deste e estava com uma aparência ligeiramente mais jovem do que mostrada nos filmes originais.

Em X-Men, Xavier diz a Wolverine que ele está “perdido” há 15 anos, ou seja, este filme se passaria uma década e meia depois de Wolverine, o que faz sentido, considerando o Ciclope adolescente deste e o jovem na casa dos 30 anos do outro.

Mas nas fotos de First Class, Emma Frost é uma adulta e femme fatale. Como? O filme deve explicar (ou não).

Outra questão é o personagem Destrutor. Nos quadrinhos, ele é o irmão mais novo de Ciclope e membro irregular dos X-Men. Em First Class ele é um adolescente, enquanto Ciclope não deve ter nem nascido, pois será adolescente mais tarde, em Wolverine e adulto em X-Men.

O Fera está aparentemente coerente. É um jovem adulto nas imagens de First Class e será um adulto bem mais velho em X-Men 3.

Resta esperar que a empreitada seja bem sucedida.

Outros dois filmes dos mutantes estão em desenvolvimento: uma aventura solo do vilão Deadpool, interpretado pelo mesmo Ryan Reynolds que o fez em Wolverine; e o que seria X-Men Origins: Wolverine 2, mas que por razões comerciais está sendo chamado apenas de The Wolverine e contará a Saga do Japão (a melhor história em quadrinhos do personagem – que será objeto de um post futuro) e será dirigido pelo aclamado diretor Darren Aronofsky, em sua estréia em filmes de ação.

O que esperar de um Wolverine feito pelo diretor de Requiém para um sonho, A fonte da vida e o oscarizável Cisne Negro?

Antes dessa resposta, teremos a estréia de X-Men: First Class em junho de 2011.