O Homem-Aranha tem uma das melhores galerias de vilões dos quadrinhos.

Um grande herói precisa de grandes vilões para combater. E, nos quadrinhos, apenas o Batman tem uma galeria de inimigos no mesmo nível do Homem-Aranha. Os dois personagens disputam cabeça a cabeça quem tem a melhor galeria de vilões.

[Este post foi originalmente escrito em 2012 na época do lançamento de O Espetacular Homem-Aranha e foi atualizado em 2021].

Por isso, vamos explorar as histórias desses seres malignos que dão tanta dor de cabeça ao aracnídeo e são parcialmente responsáveis pelo teioso ser um dos mais espetaculares personagens dos quadrinhos. O foco do post são os quadrinhos, afinal, esta é a mídia em que surgiram esses bandidos, mas faremos pequenos acenos às versões cinematográficas que os ajudaram a serem ainda mais populares.

DUENDE VERDE

O arquiinimigo do Homem-Aranha é o industrial Norman Osborn, pai de seu melhor amigo, Harry, e um louco ensandecido tão forte quanto ele, um gênio da eletrônica e manipulador audaz. Apesar de seu visual algo infantil, o Duende se consolidou ao longo dos anos como o vilão que criou a relação mais pessoal e vilanesca em relação a Peter Parker por meio de vários feitos. Norman Osborn já era um empresário obstinado, audaz e sem escrúpulos antes mesmo de virar um criminoso. Ele deu um golpe em sua própria empresa e mandou prender seu sócio, o Dr. Mendel Stromm, e ao tentar manipular uma de suas fórmulas químicas foi vítima de uma explosão que lhe deu superforça e lhe deixou completamente louco! Daí se voltou ao crime e assumiu a identidade do Duende Verde. Ao contrário de algumas de suas versões em outras mídias, nos quadrinhos originais, a aparência do Duende era um uniforme com uma armadura de cota de malha e uma máscara, voando sobre um jato compacto no formato de morcego criado por ele mesmo, com uma série de armas químicas, como granadas em formato de abóbora, gases venenosos ou alucinógenos e muito mais.

O Duende Verde (esq.) no traço de seu criador, Steve Ditko.

O vilão estreou em Amazing Spider-Man 14, de 1964, nas mãos de Stan Lee e Steve Ditko, mas os detalhes de seu caráter e seu passado só seriam revelados após um tempo.

Seu objetivo era controlar o crime organizado, mas o Homem-Aranha (mesmo no início de sua carreira) atrapalhou tudo! Numa época em que ainda não existia o Rei do Crime (ver abaixo), o Duende arregimentou várias gangues, matou mafiosos e chegou perto de controlar uma parte do crime organizado, mas foi impedido disso pelo Homem-Aranha. Além desse diferencial, o Duende também tinha uma astúcia e planos engenhosos mais criativos do que os outros inimigos do aracnídeo e uma particularidade: ao contrário de todos os outros vilões contra quem o herói se debatia, sua identidade era secreta e ele não sabia quem o criminoso era. E nem os leitores!

Naquela primeiríssima fase da revista Amazing Spider-Man, entre 1964 e 1966, os criadores Stan Lee e Steve Ditko decidiram entregar um vilão diferente daqueles que o Aranha já combatia. (A identidade secreta do Duende Verde foi um mistério no qual cozinharam os fãs por dois anos!). Inclusive, é dito que a identidade do vilão foi um dos principais fatores que levaram à ruptura da dupla, pois Ditko não concordava com a escolha de Lee para o personagem, e se demitiu e saiu da Marvel. Além do Aranha, o desenhista também havia criado o Doutor Estranho e desenhado Homem de Ferro e Hulk.

Osborn e Parker conhecem as identidades um do outro. Arte de John Romita.

Ao longo de uma série de encontros, cresceu a rivalidade entre os dois e o Duende ficou obcecado em derrotar seu inimigo. Em um plano brilhante, Osborn descobriu a identidade secreta do Homem-Aranha (foi o primeiro que fez isso) e a disputa ficou ainda mais pessoal, especialmente por causa de Harry, que era amigo de Peter na universidade. O Duende percebeu que o Homem-Aranha era capaz de prever o perigo (por meio de seu sentido de aranha) e criou uma arma química capaz de neutralizá-lo. Com o Aranha desprovido de seu sentido, Osborn o seguiu e descobriu que ele era Peter Parker, um estudante universitário e fotógrafo em meio período do Clarim Diário. De posse da informação, o Duende o sequestrou, mas movido pelo excesso de confiança cega, terminou revelando sua própria identidade ao herói. Mas aí, Peter percebeu que Osborn era o pai de seu amigo Harry. Isso tornou a rivalidade dos dois um pouco mais perigosa e tensa. A revelação da identidade é uma das mais clássicas histórias do Aranha e saiu em Amazing Spider-Man 39 e 40, de 1966, ainda com Stan Lee nos roteiros, mas trazendo a estreia do desenhista John Romita, que se tornaria o mais lendário do aracnídeo.

Duende Verde na arte clássica de John Romita.

Após derrotar Osborn por meio de um grande choque elétrico, o vilão teve uma crise de amnésia e esqueceu sua vida de crimes por um tempo, dando trégua ao aracnídeo; mas Osborn lembrou de tudo e voltou a atacar, colocando Peter numa situação difícil, pois temia prender o criminoso e este expor seu segredo, ao mesmo tempo em que não queria machucar Harry, seu melhor amigo!

Depois que Harry se envolveu com drogas, Osborn achou que era uma vingança de Peter contra ele, então, em vingança, o Duende sequestrou a namorada de Parker, Gwen Stacy e atraiu o Homem-Aranha para o topo da Ponte do Brooklyn para uma batalha, apenas para, sadicamente, jogar Gwen lá de cima na frente do herói. O Aranha tentou parar a queda, mas o movimento matou a garota, num dos momentos mais fortes dos quadrinhos de super-heróis, que saiu em Amazing Spider-Man 121 e 122, de 1973, com roteiro de Gerry Conway e arte de Gil Kane e John Romita.

A dramática morte de Norman Osborn. Arte de Gil Kane e John Romita.

Na batalha que se seguiu, o Duende Verde e o Homem-Aranha travaram uma batalha acirrada, mas Osborn aparentemente morreu, caindo na própria armadilha e sendo empalado por seu próprio jato.

Harry Osborn como Duende Verde. Arte de Ross Andru.

Mas a morte de Norman Osborn não foi o suficiente para apagar o legado do Duende Verde, seja entre os leitores ou para os personagens da ficção. Uma longa sequência de aventuras escritas por Gerry Conway com arte de Ross Andru exploraram que Harry Osborn terminou por presenciar a morte do pai e descobrir todo o segredo dele e de seu amigo Peter. Com a sanidade destruída pelo uso de drogas, Harry terminou se tornando o segundo Duende Verde e tentou se vingar do ex-melhor amigo, inclusive, tentando matar Mary Jane Watson, que começava a namorar Peter após o longo luto pela morte de Gwen. Contudo, Harry não tinha os poderes do pai nem sua inteligência e foi facilmente derrotado.

Mas a aventura deixou uma grande marca em sua psiquê que teria graves consequências no futuro.

Matar Norman Osborn foi forte e dramático, mas isso pôs a Marvel num problema: privar o Homem-Aranha de seu maior vilão. Então, de tempos em tempos foi necessário revitalizar o seu legado. Por isso, uma clássica aventura de 1976, escrita por Len Wen e ainda desenhada por Ross Andru trouxe o terceiro Duende Verde. Na trama é feito mistério sobre sua identidade, até descobrirmos ser Bart Hamilton, o psiquiatra que tratou Harry e descobriu todo o segredo em torno do Duende e usou isso contra Peter e Harry. No fim das contas, Hamilton morreu numa explosão e o tratamento levou Harry a esquecer todo o episódio em torno do Duende e passar a viver uma vida normal, na qual casou com Liz Allen, uma antiga amiga de Peter.

O fantasma de Norman voltaria a assombrar Peter (e os leitores) e em 1982 surgiu o Duende Macabro (veja abaixo), que prosseguiu o legado do Duende Verde em uma abordagem mais moderna.

Harry Osborn como o Duende Verde na arte de Sal Buscema.

E mais: muitos anos depois, Harry Osborn lembrou de todo o seu passado e atormentado entre a idolatria que sentia pelo pai e a recente descoberta dos crimes, o deixaram muito confuso, o que levou ao que poderíamos chamar de surto psicótico e levou Harry a reassumir o manto do Duende Verde. Mas dessa vez, na tentativa de obter os poderes do pai, Harry teve uma overdose da fórmula de Stromm e morreu nos braços de seu melhor amigo/inimigo, em Spectacular Spider-Man 200, de 1993, concluindo uma longuíssima (e aclamada) fase nas mãos de J.M. DeMattis e Sal Buscema.

Homem-Aranha e Duende Verde em confronto feroz desenhado por John Romita Jr.

Mas não terminou aí. O esgotamento do Duende Macabro e a morte de Harry Osborn deixaram mais uma vez a lacuna da ausência do principal vilão histórico do Homem-Aranha. Então, a Marvel Comics decidiu resolver o problema definitivamente: trouxe Norman Osborn de volta dos mortos, mesmo fazendo quase 25 anos que o personagem morreu indiscutivelmente na frente dos leitores.

Diferente de outros vilões, a guerra entre Parker e Osborn é pessoal. Arte de John Romita Jr.

Em meio à longa e polêmica Saga do Clone (na qual Peter Parker era enganosamente levado a acreditar que era apenas um clone de si mesmo e cedeu o espaço a quem seria seu verdadeiro eu – um homem que adotara o nome de Ben Reilly – até perceber que isso era uma farsa e ele, claro, era e sempre foi o verdadeiro Homem-Aranha), uma saga que se estendeu por mais de dois anos, criada por um batalhão de escritores e desenhistas, mas liderada por Tom DeFalco, Peter descobre que há uma mente por trás de todos os desatinos que enfrentou nessa árdua jornada, e esse homem era ninguém menos do que Norman Osborn.

Ainda que apelativo do ponto de vista comercial, a saída da Marvel terminou gerando um punhado de boas histórias, com o escritor Howard Mackie (que foi trazido para por fim à bagunça da Saga do Clone) e o desenhista John Romita Jr., filho do mestre. Desse ponto em diante, Osborn passou a agir menos como o Duende Verde – que continuou a ser sua faceta doentia – e mais como um tipo de empresário manipulador e maligno, tal qual o Lex Luthor da DC Comics. Assim, passamos a vê-lo mais com a cara limpa e ternos do que com a horrenda máscara demoníaca.

Norman Osborn vira o maior vilão do Universo Marvel. Arte de Mike Deodato Jr.

Em meio a isso, Osborn fez mais do que controlar o crime organizado: nas histórias dos anos 2000, tornou-se o homem mais poderoso dos EUA, após um plano ousado. Primeiro, foi recrutado por um programa especial do Governo para liderar os Thunderbolts, um grupo de vilões descartáveis usados em missões suicidas (a versão Marvel do Esquadrão Suicida, temos que dizer), numa sequência de aclamadas histórias de Warren Ellis com o desenhista brasileiro Mike Deodato Jr. , a partir de 2007. Mas a equipe de Osborn foi tão eficiente, que ele foi gradualmente sendo bem-visto pelo público. Quando os alienígenas Skrulls invadiram a Terra, os Vingadores se uniram para derrotá-los, mas Osborn terminou sendo o grande herói ao matar a Rainha Skrull. Por isso, o Governo indicou o vilão para liderar o MARTELO, nova organização secreta dedicada a fiscalizar as ações super-humanas no país.

O Patriota de Ferro nos quadrinhos também é Norman Osborn.

Liderando oficialmente as atividades superhumanas do Governo dos EUA, Osborn criou a sua própria versão dos Vingadores (os chamados Vingadores Sombrios – que nada mais eram do que os Thunderbolts disfarçados) e assumiu uma identidade heroica: o Patriota de Ferro, usando uma armadura de Tony Stark com as cores do Capitão América; nas histórias de Brian Michael Bendis e Mike Deodato Jr., em 2008 e 2009. Foi preciso uma ação coordenada e muito bem planejada dos Vingadores, com o Homem-Aranha entre eles, para revelar as malignas intenções de Osborn e derrotá-lo.

Desde então, ele voltou a uma condição mental instável, mas continua atormentando a vida de Peter Parker.

Como se vê, a história de Norman Osborn nos quadrinhos tem bastante potencial para ser explorada de forma múltipla em um universo integrado como o MCU nos cinemas. Mas antes disso…

O Duende Verde (interpretado por Willlem Dafoe) é o principal oponente do Homem-Aranha (vivido por Tobey Maguire) em Homem-Aranha, de Sam Raimi, em 2002, e apesar de morto ao fim do filme, continuou como uma assombrosa lembrança nos dois filmes seguintes; enquanto Homem-Aranha 2 e 3 (de 2004 e 2007) adaptaram o dramático arco de Harry Osborn (James Franco).

A segunda franquia do teioso, O Espetacular Homem-Aranha (com Andrew Garfield) menciona Osborn no primeiro filme (2012), mas traz o vilão apenas no segundo (2014), mas usando uma pegadinha fazendo Norman Osborn (Chris Cooper) ser um personagem secundário e o vilão de verdade, aquele que vira o Duende Verde e mata Gwen Stacy (Emma Stone), Harry (Dan DeHaan), numa forma de tornar o combate entre os dois mais pessoal, mais jovem e diferente do visto na outra franquia.

Mas o fracasso nas críticas e bilheterias interrompeu o processo – provavelmente veríamos o Sexteto Sinistro em seguida – e o reboot seguinte colocou o novo Peter Parker (Tom Holland) dividido entre a Sony Pictures e o Marvel Studios, interagindo com os Vingadores em filmes como Capitão América – Guerra Civil (2016), Vingadores – Guerra Infinita (2018) e Vingadores – Ultimato (2019); além de seus filmes individuais (De Volta ao Lar, Longe de Casa e Sem Volta para Casa).

Agora, com este último, é quase certo que veremos Norman Osborn voltando a cruzar o caminho do teioso nos cinemas.

Luta com o Dr. Octopus na estreia de Gil Kane como desenhista do herói.

DR. OCTOPUS

Gênio da ciência, Otto Octavius criou avançados tentáculos mecânicos para manipular material radioativo, mas um acidente terminou deixando-o completamente louco e lhe deu um tipo de vínculo telepático com os artefatos, tornando-o um criminoso perigosíssimo. Em ação, foi o primeiro vilão a derrotar o Homem-Aranha, que precisou usar o cérebro para derrotar o Dr. Octopus, já em sua primeira aparição, em Amazing Spider-Man 03, de 1963, por Stan Lee e Steve Ditko.

Desde o início, Lee e Ditko definiram Octopus como um oponente muito forte e perigoso, movimento por ambição louca, arrogância e um grau altíssimo de inteligência. Audaz, Octavius criou o Sexteto Sinistro, reunindo alguns dos principais inimigos do Homem-Aranha, em The Amazing Spider-Man Annual 01, de 1964. Infelizmente, o supergrupo de vilões não foi usado de novo por mais de duas décadas, desperdiçando a possibilidade de grandes histórias. Mas o velho Otto sozinho já era um inimigo bastante mortal.

Octopus protagonizou algumas histórias clássicas ao se enamorar de May Parker, a tia de Peter Parker (!), embora sequer soubesse do segredo dele, mas dando bastante dor de cabeça ao teioso (em Amazing Spider-Man 54, de 1967); e sendo o oponente na clássica aventura de Amazing Spider-Man 31 a 33, de 1965, na qual o Homem-Aranha fica soterrado embaixo de toneladas de entulho metálico num ambiente subterrâneo que está sendo inundado e parece condenado a morrer.

O Dr. Octopus na bela arte de John Romita, capa de “Amazing Spider-Man 157”.

Ao longo dos anos, Octopus voltou várias vezes, muitas delas marcantes. Em Amazing Spider-Man 56, de 1967, por Stan Lee e John Romita, Otto está atrás de um aparelho chamado Nullificador que poderia controlar qualquer aparelho elétrico, e quando o Homem-Aranha perde a memória em um evento, Octavius o convence a ajudá-lo. Claro, o herói se recupera e vira o jogo.

A morte de George Stacy em meio à batalha com Octopus.

O vilão foi o responsável pela morte do quase sogro de Peter Parker, o capitão George Stacy. Na ocasião, Octopus descobriu que podia controlar seus tentáculos indestrutíveis mesmo à distância e, com isso, consegue fugir da prisão, sequestra um avião e, depois sai no encalço do aracnídeo pela cidade. Mas ao lutar com o vilão no topo de um prédio, Octopus derruba parte do terraço. O Capitão Stacy, no intuito de salvar uma criança inocente, termina soterrado e morre, em Amazing Spider-Man 90, de 1970, por Stan Lee e John Romita. A imprensa, a polícia e o público culpam o Aranha pelo fato, assim como o faz Gwen Stacy, deixando Peter em uma situação para lá de incômoda.

Cabeça Martelo vs. Dr. Octopus: primeiro clássico de Gerry Conway.

Quando Gerry Conway assumiu os roteiros de Amazing Spider-Man, em 1972, ele e o desenhista John Romita criaram uma sequência bastante interessante de aventuras nas quais se dispara uma guerra entre o Dr. Octopus e o Cabeça de Martelo pelo controle do crime organizado, na esteira do vazio deixado pelo desaparecimento momentâneo do Rei do Crime, como se vê nas edições 112 a 115.

May quase se casou com o Dr. Octopus, em Amazing Spider-Man 131. Arte de Ross Andru.

Sua última grande aventura no período clássico se deu em Amazing Spider-Man 130 e 131, de 1974, por Conway e Ross Andru, quando Octopus voltou a se envolver com May Parker e até a pediu em casamento – algo que ela aceitou – mas o herói terminou descobrindo que ele só estava interessado em uma ilha herdada por ela (sem que nem soubesse) na qual havia uma instalação nuclear. No fim da batalha há uma explosão atômica e Octopus é dado como morto por um período relativamente longo.

Após esse evento, a importância de Octopus só fez diminuir no cânone do herói, pois suas aparições seguintes iam se tornando genéricas e repetitivas. Por exemplo, quando ele regressa pela primeira vez depois do acidente, em Amazing Spider-Man 157 e 158, de 1976, por Len Wen e Ross Andru, na qual é retomada sua guerra com o Cabeça de Martelo, mas sem o brilho de antes.

Nos anos 1980 e 90, a maioria de suas aparições foram um vai e vem de ideias que não colaram. Após quase matar a Gata Negra, a namorada do Homem-Aranha, o herói dá uma surra tão grande no vilão que ele fica com um tipo de fobia ao herói, o tornando incapacitado a lutar contra ele. Depois de curado, Octopus terminou morrendo no meio da Saga do Clone, após descobrir a identidade secreta de Peter Parker. Em sua ausência, uma ex-aluna chamada Carolyn Trainer assumiu seu lugar como a Dra. Octopus.

Quando foi trazido de volta dos mortos pelo Tentáculo, Octavius esqueceu a identidade secreta do Homem-Aranha, mas continuou sendo um vilão clássico em histórias sem graça ou importância.

A morte chega para Peter-Octopus, deixando Octopus-Aranha em seu lugar.

Ele voltou a ganhar notoriedade em anos mais recentes: numa trama iniciada a partir de Amazing Spider-Man 600, Octavius descobre que tem um câncer terminal e irá morrer. Ele sai em uma guerra desenfreada contra o Homem-Aranha ao mesmo tempo em que busca desesperadamente por uma cura, inclusive, reunindo o Sexteto Sinistro no processo. Numa sequência de aventuras a partir de Amazing Spider-Man 683, escrita por Dan Slott, Octopus está à beira da morte, mas por causa da natureza telepática de seus poderes, consegue transferir sua mente para o corpo de Peter Parker, enquanto o Homem-Aranha, de modo contrário, fica preso no corpo de seu inimigo. Embora Peter tente usar todos os seus recursos para impedir o plano de Octavius, seu corpo doente morre com a mente de Peter dentro dele em Amazing Spider-Man 700.

Mas o desejo final de Peter era de que Octopus usasse sua nova oportunidade e fazer o bem, mantendo o legado do Homem-Aranha como protetor de Nova York. Comovido por tudo, Otto acata o pedido e decide ser um herói, chamando a si mesmo de O Homem-Aranha Superior, dando início a uma nova saga que durou mais de um ano na revista Superior Spider-Man, que teve 30 edições. No fim, Octavius reconheceu a maior grandeza de Peter e deixou seu corpo para seu dono. Mas a mente de Octopus continuou viva no Cérebro Vivo e depois se transferiu para um novo corpo, sendo agora o Octopus Superior.

Sim, a Marvel é um lugar bem estranhos esses dias…

O Dr. Octopus foi o oponente do herói em Homem-Aranha 2, dirigido por Sam Raimi, de 2004, provavelmente, o melhor dos filmes já realizados do aracnídeo, vivido por Alfred Molina. O longa mostra a origem do vilão – um bom cientista corrompido mentalmente por um acidente – e foi o veículo perfeito para o diretor explorar (ainda que de leve) suas origens no cine de terror. A dinâmica dos tentáculos e a agilidade do herói, aliados pelo avanço da tecnologia digital, possibilitaram algumas das mais belas e fantásticas cenas de ação que o cinema de super-heróis já realizou.

O Lagarto em ataque feroz.

LAGARTO

Renomado biólogo, o Dr. Curt Connors perdeu seu braço em um ferimento de guerra, mas isso criou nele uma obsessão por recuperá-lo. Sabendo que os répteis tinham essa habilidade de regenerar membros, Connors passou anos pesquisando um procedimento que adaptasse o feito aos humanos. Mas quando testou em si mesmo, terminou se transformando em um monstro reptiloide que passou a aterrorizar os pântanos da Flórida, onde vivia. Pior que isso, quando transmutado, Connors desenvolveu uma segunda personalidade maligna que pretende estabelecer a supremacia dos répteis à Terra.

Quando apareceu em Amazing Spider-Man 06, de 1963, por Stan Lee e Steve Ditko, Peter Parker é enviado pelo Clarim Diário à Flórida em busca de fotografar o monstro que aterrorizava os Everglades, promovendo a primeira batalha dos dois.

O Aranha descobriu sua origem e ajudou Connors em uma cura temporária, o que tornou o cientista um aliado de valor do herói, que o ajudou em muitas e muitas ocasiões, porém, quando se transforma em sua contraparte, se torna um inimigo sanguinolento e perigoso. Ao longo dos anos, o Lagarto vem sendo representado cada vez menos humano pelos desenhistas, especialmente após o retrato monstruoso de Todd McFarlane em Tormento, de 1990.

O Dr. Connors aparece como um personagem coadjuvante em aparições rápidas em Homem-Aranha 2 e 3, de Sam Raimi, vivido por Dylan Baker, e era esperado que viesse a se transformar no vilão em filmes futuros se a franquia não fosse interrompida; mas aparece como o vilão principal em O Espetacular Homem-Aranha, de Marc Webb, de 2012, vivido por Rhys Ifans.

O Homem-Areia é praticamente invencível.

HOMEM-AREIA

O bandido comum Flint Marko fugia da polícia quando terminou no meio de um teste nuclear em uma praia. Misteriosamente, em vez de matá-lo, a explosão terminou fundindo suas moléculas com a areia, de modo que Marko se tornou um criminoso muito mais perigoso. É assim que o vemos em Amazing Spider-Man 04, de 1963, por Stan Lee e Steve Ditko.

Desde então, se configura como um inimigo quase invencível, que obriga ao Homem-Aranha a usar seu cérebro para descobrir uma maneira de detê-lo à cada vez. O Homem-Areia até já tentou se regenerar e viver uma vida sem crimes, mas foi trazido de volta à velha prática. Sua aparência era um prato cheio para Steve Ditko explorar composições muito interessantes e somente alguns artistas souberam fazer o mesmo uso do vilão. Ele também enfrentou outros heróis da Marvel, como o Quarteto Fantástico e seu membro, o Tocha Humana. É também um dos membros do Sexteto Sinistro.

No cinema, o vilão aparece em Homem-Aranha 3, de Sam Raimi, em 2007, vivido por Thomas Haden Church, e foi alvo de uma polêmica, quando o longa revela que ele era o responsável pela morte do tio Ben. Apesar disso, o filme explora que ele era apenas um homem desesperado que é levado inadvertidamente ao mundo do crime, de modo que, no fim, quando Marko se redime e ajuda o Homem-Aranha a vencer Venom, Peter deixa ele ir livre.

Electro ataca o Homem-Aranha na arte de John Romita.

ELECTRO

Max Dillon era um eletricista que, ao ser atingido por um raio durante um serviço, terminou sendo dotado do poder de controlar e gerar energia elétrica. Electro é um criminoso extremamente poderoso e perigoso, quase derrotando o Homem-Aranha em seu primeiro encontro, mas lhe falta direcionamento (e talvez um pouco de inteligência), pois com seus poderes poderia ser muito mais. Surgiu em Amazing Spider-Man 09, de 1964, por Stan Lee e Steve Ditko. Também é membro do Sexteto Sinistro.

Na maior parte dos quase 60 anos de publicação do Homem-Aranha, Electro é apenas um vilão de ocasião e pouquíssimas vezes foi um oponente digno ou rendeu grandes histórias.

Electro e seu uniforme.

O vilão apareceu com pompa e circunstância em O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro, de Marc Webb, em 2014, vivido por Jaime Foxx, mas apesar de levar o título do filme, está longe de ser a atração principal. Na verdade, a visão estereotipada foi apenas um desperdício para com um grande ator como Foxx e uma mera “pegadinha” para (tentar) esconder dos espectadores que a grande ameaça era, na verdade, o Duende Verde de Harry Osborn. Uma pena.

MYSTERIO

Quentin Beck era um famoso técnico de efeitos especiais trabalhando em Hollywood, mas sentia que algo faltava à sua vida. Decepcionado com o mercado de cinema, que cada vez mais trocava efeitos práticos por efeitos digitais, Beck terminou criando uma identidade criminosa chamada Mysterio, na qual usa seu conhecimento em ilusionismo para criar crimes fantásticos e inexplicáveis. Por causa disso, suas ações são sempre repletas de suspense e obrigam o Homem-Aranha a ser muito centrado para distinguir o que é real do que não é. Mysterio surgiu em Amazing Spider-Man 13de 1964, por Stan Lee e Steve Ditko.

Mysterio: ilusões como arma.

Ele foi um vilão de destaque na era clássica do Homem-Aranha, sendo membro do Sexteto Sinistro e brilhando em aventuras escritas por Stan Lee e desenhadas por Steve Ditko e John Romita, mas depois disso jamais voltou a ter o mesmo brilho.

Isso mudou apenas no fim do século: no fim da vida, doente de câncer em estágio terminal, Beck armou um plano brilhante para ser sua grande despedida, mas terminou mudando de alvo e, em vez de atacar o Homem-Aranha, voltou-se contra o Demolidor ao descobrir que o “homem sem medo” era católico e seu plano envolvia um tema cristão. Mas ao ser derrotado, Beck decidiu imitar seu amigo Kraven e tirou a própria vida com um tiro na boca. Sua morte foi no arco Demônio da Guarda, de 1999, do Demolidor, por Kevin Smith e Joe Quesada.

Em seguida, surgiu um segundo Mysterio, na verdade, Denny Berkhart, velho assistente de Quentin Beck. Mas depois que este foi preso, surgiu um terceiro Mysterio.

O background do vilão foi completamente mudado para Homem-Aranha – Longe de Casa, de 2019, dirigido por John Watts, o segundo dos filmes solo do aracnídeo de Tom Holland. Na trama, Beck – vivido por Jake Gyllarhaal – é um operativo de tecnologia de hologramas com ligações com a Stark Enterprises e que, apoiado por uma grande equipe de engenheiros e cientistas, arma um plano para se apossar de uma série de satélites bélicos da empresa e usam Peter Parker como isca para isso. A despeito disso, o filme faz bom uso dos efeitos para representar as ilusões criadas por Mystério, dando uma adaptação muito fiel do vilão nesse aspecto.

Kraven, o Caçador: movido pela honra.

KRAVEN, O CAÇADOR

Nascido na União Soviética, Sergei Kravinoff ficou famoso como o maior caçador do mundo. Porém, quando caçar animais não representava mais nenhum desafio para ele, Kraven, como ficou conhecido, decidiu se voltar para caçar alvos humanos, se tornando um mercenário. Para o processo, utilizou uma série de poções naturais ou “mágicas” das tribos africanas que conhecia para criar um soro que lhe expandiu sua força. A outra virada em sua vida se deu quando o vilão conhecido por Camaleão o contratou para caçar o Homem-Aranha, como vemos em Amazing Spider-Man 15, de 1964, por Stan Lee e Steve Ditko. Derrotado pela primeira vez na vida, Kraven ficou obcecado pelo herói, criando os planos mais mirabolantes para derrotá-lo. Inclusive, aceitou o convite de Octopus para fazer parte do Sexteto Sinistro.

Tal qual outros vilões clássicos, como Mystério ou Electro, Kraven perdeu força após suas primeiras aparições e se manteve durante décadas como um vilão secundário do herói até que uma abordagem mais sombria lhe deu um último grande momento: Após anos de derrotas, Kraven armou um plano para simplesmente enterrar vivo o Homem-Aranha, trocar de lugar com ele e humilhá-lo; e foi momentaneamente bem-sucedido. Mas com a volta do herói, Kraven aceitou a derrota e se suicidou com um tiro de espingarda na boca. Essa história aterradora e adulta foi A Última Caçada de Kraven, de 1987, foi produzida por J.M. DeMatteis e Mike Zeck, uma das melhores já criadas para o Homem-Aranha.

Seu legado, contudo, prosseguiu, com sua esposa Calypso e seus filhos, Vlademir e Alyosha Kravinoff. O primeiro não chegou a ser uma ameaça, pois não tinha as habilidades do pai, terminando morto pelo vigilante Kaine. Já Alyosha Kravinoff, mais parecido com o pai, assumiu seu legado, embora inicialmente não fosse um criminoso.

O Abutre na arte de Steve Ditko.

ABUTRE

O inventor sexagenário Adrian Toomes criou uma fabulosa máquina que, por meio de um campo eletromagnético, permite ao usuário flutuar. Adicionando asas, a pessoa pode voar livremente. Inicialmente, o velhinho queria usar seu invento para ganhar fama e fortuna, mas ao perceber que fora passado para trás pelo sócio de sua empresa, Toomes decide se dedicar ao crime. No processo, descobre que o campo magnético não apenas lhe permite voar, mas lhe dá força sobrehumana! Sua carreira criminosa é atrapalhada pelo Homem-Aranha e a rivalidade dos dois segue uma metáfora muito interessante, com a juventude de Peter Parker contra a velhice de Adrian Toomes. Surgiu em Amazing Spider-Man 02, de 1963, por Stan Lee e Steve Ditko, e foi o primeiro vilão do Aranha a voltar, reaparecendo já na edição 07!

A incrível imagem do Homem-Aranha contra o Abutre do novo filme.

Stan Lee e seus primeiros desenhistas – Steve Ditko e John Romita – gostavam muito de explorar a silhueta ameaçadora do Abutre e sua velhice em contraposição à juventude do herói, mas depois do período clássico, o vilão também perdeu força. Isso começou a mudar na década de 1990, quando o Abutre se tornou cada vez mais maligno e violento e é um oponente respeitável do Homem-Aranha, que tem dificuldades de vencê-lo todas as vezes. Toomes também é membro do Sexteto Sinistro e matou Nathan Lubenski, o namorado da Tia May, que era seu amigo de juventude.

Toomes foi muito bem adaptado ao cinema em Homem-Aranha – De Volta ao Lar, de 2016, dirigido por John Watts, o primeiro dos filmes solo da versão de Tom Holland. Vivido por Michael Keaton, sua versão é o de um empreiteiro dono de uma empresa de sucata que muda de vida quando encontra a tecnologia alienígena dos Chitauri que ficou no chão após a invasão de Os Vingadores (2012). Passando a vender essas armas no mercado negro, Toomes enriquece e adquire algumas das características de Norman Osborn: sendo o pai de Liz, o interesse amoroso de Peter no filme, e descobrindo sua identidade e criando um clima tenso entre ele e o herói. No fim, ele é preso, mas o longa deixa uma questão dúbia se ele se redimiu ou se ainda pensa em se vingar.

O Rei do Crime na arte de John Romita.

REI DO CRIME

Nascido gordo, desajeitado e pobre, Wilson Fisk tomou para a si a missão de ser alguém na vida, nem que fosse pelo pior caminho. Usando de seu tamanho e peso como armas e treinando artes marciais, Fisk se tornou um bandido terrível já em sua adolescência. Logo, liderava uma gangue e o caminho o levou à chefia no crime organizado. Considerado um gênio, não demorou muito para Fisk ser apelidado de “o rei do crime”. Inspirado nas ações de dois vilões, O Maioral e o Duende Verde, que tentaram comandar todo o crime organizado de Nova York, Fisk tomou para si a empreitada. Aproveitando-se do desaparecimento momentâneo do Homem-Aranha, moveu as peças certas do xadrez e, de fato, se tornou o criminoso mais poderoso da Costa Leste. O Rei do Crime surgiu em Amazing Spider-Man 50, de 1967, por Stan Lee e John Romita.

Embora o Homem-Aranha tenha derrotado o vilão, não conseguiu provas suficientes para incriminá-lo, de modo que Fisk continuou como o Rei do Crime, dominando o submundo e trazendo muita dor de cabeça ao herói. A maior derrota dele, contudo, foi descobrir que seu próprio filho, Richard Fisk, passou a odiá-lo quando descobriu que o pai era um criminoso.

O Demolidor e o Rei do Crime fazem um pacto nos becos escuros: clima de série de TV.

Com o passar do tempo, o uso repetitivo do vilão o afastou das histórias aracnídeas e o Rei do Crime se tornou um oponente perigoso para outros heróis, como o Capitão América e, principalmente, o Demolidor. Inclusive, Fisk se tornou o arquiinimigo do “homem sem medo” e, ao descobrir sua identidade secreta, implicou a maior derrota de todas a Matt Murdock em Já A Queda de Murdock, em que derrota o Demolidor, foi publicada em 1985, por Frank Miller e David Mazzucchelli.

Michael Clarke Ducan emprestou seu talento ao rei do Crime Wilson Fisk em Demolidor.

Vários criminosos também já tentaram se impor contra o Rei do Crime, como as organizações criminosas HIDRA e Maggia, o Caveira Vermelha, o Duende Macabro, o Rosa e os gângsters Cabelo de Prata e Cabeça de Martelo.

Por causa de sua relação intrínseca ao Demolidor, no campo dos direitos de adaptação ao cinema, Wilson Fisk sempre fez parte do pacote do homem sem medo, o que o levou a ser interpretado por Michael Clarke Ducan em Demolidor – O Homem sem Medo, de 2003, estrelado por Ben Affleck; e depois, sendo um dos grandes destaques de Demolidor, a série de TV da Netflix, vivido de maneira incrível por Vincente D’Onório.

Duende Macabro: maior vilão do Homem-Aranha nos anos 1980.

DUENDE MACABRO

Já falamos ligeiramente no Duende Macabro na entrada do Duende Verde: ao matarem Norman Osborn em 1973, a Marvel criou um problema para si mesma, ao eliminar o maior inimigo do Homem-Aranha tão cedo. Apesar de os substitutos de Osborn nunca terem o mesmo brilho, de tempos em tempos, a divisão de marketing da editora pressionava os escritores e editores a criarem novas versões. Para se sair disso de maneira criativa, o escritor Roger Stern teve uma ideia que – ainda que não original (pois tal recurso já havia sido usado em outros vilões, como Mysterio e Abutre) – pelo menos foi muito bem sucedida: um novo vilão que se apossa do legado do Duende Verde, mas é alguém que se mantém em seus próprios méritos.

Assim, com estardalhaço, surgiu o Duende Macabro em Amazing Spider-Man 238, de 1983, por Roger Stern e John Romita Jr. Na trama, enquanto impedia um bando que assaltou um banco, o Homem-Aranha deixou um capanga escapar. Esse cara encontrou, sem querer, um velho esconderijo do Duende Verde e contactou seu chefe, de identidade misteriosa. Esse homem tomou os equipamentos para si, matou o capanga e se tornou o Duende Macabro. Diferente de Norman Osborn, contudo, o novo vilão não era louco e usou o conhecimento dos diários de Osborn para reproduzir a experiência que lhe deu superpoderes.

Stern e Romita Jr. criaram histórias eletrizantes, repetindo a fórmula do Duende Verde em suas primeiras aparições, quando nem o Aranha nem o público sabiam sua identidade secreta. Quando Stern saiu da revista (sem revelar o segredo aos leitores), o substituto Tom DeFalco (acompanhado do desenhista Ron Frenz) deu outro direcionamento ao Duende Macabro, mas mantendo a herança original de Osborn: disposto a tomar o império do Rei do Crime, o Duende Macabro se aliou ao misterioso gangster conhecido como O Rosa e montou uma superquadrilha que, de fato, passou a rivalizar com a de Wilson Fisk e levou a uma terrível guerra de gangues na cidade.

Essas sequências de histórias tornaram o Duende Macabro o principal inimigo do Homem-Aranha nos anos 1980, uma época de histórias sensacionais do herói, depois de um longo período de aventuras mornas. Infelizmente, uma série de disputas editoriais nunca exatamente esclarecidas também não permitiram a DeFalco terminar suas histórias e os escritores seguintes “perderam a mão” e afundaram o Macabro na obscuridade.

Nas tramas que se seguiram, um de seus rivais, o Halloween (Jack O’Lantern), descobriu que o Duende Verde era o repórter do Clarim Diário Ned Leeds e contratou um assassino para eliminá-lo. O próprio Halloween se tornou, então, um segundo Duende Macabro, contudo, um versão fracassada do vilão, sem nenhum brilho.

Roderick Kingsley era o Duende Macabro de verdade. (Arte de Ron Frenz).

A situação se inverteu somente em 1998, quando Roger Stern regressou à Marvel após quase 15 anos e contou sua versão da história, produzindo a minissérie Hobgoblin Lives: anos depois daqueles eventos, o Homem-Aranha descobriu que Leeds era inocente e que caiu em uma armadilha criada pelo verdadeiro Duende Macabro, que era, na verdade, o empresário Roderick Kingsley.

Kingsley foi preso, mas fugiu, se mandou para o Caribe, mas ainda reaparece de vez em quando. O jovem Phil Ulrich se tornou um terceiro Duende Macabro e atuou como mercenário, porém, de novo, nunca foi tão perigoso e astuto quanto o original.

VENOM

Anos atrás, na saga Guerras Secretas, de 1984, por Jim Shooter e Mike Zeck, o Homem-Aranha e outros heróis foram sequestrados por uma entidade cósmica (o Beyonder) para batalhar em um mundo alienígena. Lá, o herói teve seu uniforme destruído e, usando uma tecnologia alienígena, passou a usar um uniforme negro que obedecia aos seus pensamentos, podendo assumir qualquer forma. Quando voltou à Terra, numa sequência de histórias de Tom DeFalco e Ron Frenz, em Amazing Spider-Man, o Homem-Aranha terminou descobrindo que a “roupa”, na verdade, era um simbionte alienígena que estava se alimentando de sua energia vital. Sem conseguir se livrar do hospedeiro, recorreu a ajuda do Quarteto Fantástico e aprisionou o “bicho”. Pouco depois, o alien se libertou e buscou o Aranha de novo, quando este aparentemente foi destruído pelo alto som de um sino de uma catedral.

Venom: o vilão mais popular dos anos 1990.

Tempos depois, contudo, o Homem-Aranha foi atacado por Venom, que era o alien simbionte usando o ex-jornalista Eddie Brock como hospedeiro, um homem que odiava o herói, porque este prendeu um assassino cuja a identidade era diferente daquela que Brock revelara aos jornais e isso destruiu sua carreira, como vimos em em Amazing Spider-Man 299 e 300, de 1988, por David Michelinie e Todd McFarlane. Mais poderoso do que antes, Venom se tornou um dos piores inimigos do Homem-Aranha, que abandonou a versão em tecido do uniforme negro para não ser confundido com o vilão, voltando ao clássico vermelho e azul.

Venom na arte de Todd McFarlane: personagem popular.

Inicialmente, Venom não era exatamente um criminoso, porque suas ações eram direcionadas exclusivamente ao Homem-Aranha, chegando até a ajudar outras pessoas; mas com o tempo foi ficando cada vez mais maligno. Tempos depois, Brock conseguiu se livrar do simbionte e reconstruir sua vida. O alien, então, migrou para outro hospedeiro, Mac Gargan, o criminoso conhecido como Escorpião, que se tornou um novo Venom, ainda mais psicótico.  Entretanto, Brock descobriu que parte da fisiologia do simbionte se incorporou ao seu corpo, de modo que ele virou um tipo de justiceiro conhecido como Anti-Venom.

O simbionte ainda deu origem a outro vilão, Carnificina, quando o serial killer Cletus Casady encontrou uma parte do alien. E houve ainda outro Venom quando o exército dos EUA fez um experimento para usar outra parte do simbionte para usar em Flash Thompson, soldado que atua como agente secreto. E a namorada de Eddie Brock, Anne Weying também virou hospedeira do simbionte e virou a She-Venom (ou Lady Venom, no Brasil).

Criado e desenvolvido no “estilo muscular” dos quadrinhos – uma estética muito popular na década de 1990, com arte exagerada e mais violenta – Venom se tornou o vilão mais querido dos jovens fãs do Homem-Aranha, o que o levou a todas essas variantes e uma série de histórias solo, entre minisséries e revistas próprias.

Por isso, não foi surpresa nenhuma que Venom é um dos três vilões (!) de Homem-Aranha 3, de Sam Raimi, de 2007, interpretado por Topher Grace. A trama ficou meio corrida, porque Raimi não gostava do personagem, que foi imposto no filme pelo estúdio. O filme não foi bem, mas começou a se pensar em fazer um filme solo do vilão, que aconteceu em 2018, com Venom, dirigido por Ruben Fleischer, e estrelado por Tom Hardy, com Michelle Williams como Anne Weying. Apesar de nem ser tão bem recebido, o longa ganhou uma sequência com Venom – Tempo de Carnificina, que estreia ainda em 2021, na qual Cletus Kasady é interpretado por Woody Harrelson.

ESCORPIÃO

Mac Gargan era um detetive particular que foi empregado por J. Jonah Jameson para seguir Peter Parker e descobrir como ele conseguia suas fotos do Homem-Aranha. Porém, logo, Jameson deu uma oportunidade melhor a Gargan: participar de um experimento que lhe conferiria superforça para combater o Aranha. Deu certo, mas Gargan se tornou um louco psicótico que, usando uma armadura, passou a ser conhecido como Escorpião. Devido a sua força, se tornou um dos piores oponentes do herói, que precisou de muito esforço para vencê-lo em um mano-a-mano. O Escorpião surgiu em Amazing Spider-Man 20, de 1965, por Stan Lee e Steve Ditko.

O Escorpião ataca a Tia May.

Porém, com o tempo, a instabilidade mental de Gargan o tornou um oponente menos perigoso e seus embates com o Homem-Aranha deixaram de ter qualquer brilho. Gargan até se uniu ao simbionte alienígena se tornou o novo Venom nas histórias da década de 2000. No cinema, Mac Gargan aparece como um bandidinho de segunda em Homem-Aranha – De Volta ao Lar, vivido por Michael Mando, porém, sem virar o vilão.

O Devorador de Pecados apareceu só duas vezes, mas suas histórias são muito marcantes.

DEVORADOR DE PECADOS

Todos os outros vilões aqui apresentados combateram o Homem-Aranha uma dezena de vezes ao longo dos anos. Mas estar sempre de volta não é um prerrequisito obrigatório para ser marcante ou terrível. O Devorador de Pecados apareceu apenas duas vezes, mas marcou lugar na história do personagem não somente por si mesmo, mas pelo drama em que estava envolvido. O criminoso assassinou brutamente a capitã de polícia Jean DeWolff, que era amiga do Aranha (e secretamente apaixonada por ele), mas se revelou como um assassino serial que fez outras vítimas. Não apenas impiedoso, o criminoso também tinha superforça e deu uma surra no Homem-Aranha e no Demolidor. Foi preciso unir os esforços dos dois heróis para detê-lo e descobrirem que o vilão era, na verdade, o tenente Stanley Carter, responsável pela investigação da morte de DeWolff e amante dela. Enfurecido, o Homem-Aranha agrediu Carter violentamente e o prendeu. Isso foi mostrado em Spectacular Spider-Man 107 a 110, de 1985, por Peter David e Rick Buckler, dentro do arco A Morte de Jean DeWolff. Muitos críticos consideram essa uma das melhores histórias do Homem-Aranha.

Porém, o herói teve que arcar com as consequências de seus atos quando, meses depois, reencontrou Carter – em liberdade condicional (porque seu problema era psiquiátrico) – e descobriu que o deixou praticamente aleijado por causa da surra: mancando, gaguejando e surdo de um ouvido. Isso abalou o herói profundamente. Infelizmente, Carter não conseguiu manter o equilíbrio mental e voltou a agir como o Devorador de Pecados, sendo morto pela polícia, como visto em Spectacular Spider-Man 136de 1988, por Peter David e Sal Buscema.

Em tempos recentes, seguindo a tendência de reciclar histórias e personagens gloriosos do passado, a Marvel criou uma nova interpretação do Devorador de Pecados, mas não vale nem à pena comentar.

Camaleão: o mestre dos disfarces.

CAMALEÃO

Nascido na Rússia, Dimitri Smerdyakov foi criado da família Kravinoff, de modo que desde sempre foi um grande amigo de Sergei Kravinoff, mais conhecido como Kraven, o Caçador. Adulto, Smerdyakov tornou-se um espião, mas a Guerra Fria não lhe era atrativa, de modo que migrou para a espionagem industrial. Em sua carreira, desenvolveu a habilidade de um mestre dos disfarces, podendo imitar a voz e os trejeitos de qualquer pessoa, o que lhe valeu o codinome de Camaleão. Sua carreira lhe levou a confrontar o Homem-Aranha e sua derrota o motivou a contratar o velho amigo Kraven para matar o aracnídeo.

As constantes derrotas para o Homem-Aranha abalaram a credibilidade do Camaleão, de modo que ele investiu sua fortuna em um experimento que tornou sua pele maleável, de modo que, agora, podia realmente reproduzir o rosto de qualquer pessoa, tornando-o mais perigoso. Quando Kraven morreu, Smerdyakov armou um elaborado plano para se vingar do Homem-Aranha e isso o levou a uma aliança com Harry Osborn – então o Duende Verde outra vez – que o levou a conhecer a identidade secreta de Peter Parker e fazê-lo pensar que seus pais falecidos estavam de volta. No entanto, os anos assumindo identidades diferentes pagaram um preço à psiquê de Smerdyakov, que terminou completamente fora de si e inutilizado.

O Camaleão foi o primeiro supervilão que combateu o Homem-Aranha, aparecendo em Amazing Spider-Man 01, de 1963. Seu reboot como capaz de modificar a própria aparência ocorreu em Amazing Spider-Man 307, 1988, por David Michelinie e Todd McFarlane.

MORBIUS

Morbius: o primeiro vampiro da Marvel.

Michael Morbius era um famoso biólogo, ganhador do Prêmio Nobel, que sofria de uma rara doença sanguínea que o levaria à morte. Isso o levou a pesquisar um soro com o sangue de morcegos que terminou lhe transformando num vampiro. A partir de então, Morbius começou a viver atormentado por ser obrigado a sugar o sangue de pessoas para poder sobreviver, como é apresentado em Amazing Spider-Man 101, de 1971, por Roy Thomas e Gil Kane.

O personagem tem uma importância significativa na história editorial dos quadrinhos, pois o Código de Autocensura dos Quadrinhos, de 1954, proibia o uso de vampiros nos quadrinhos. Mas Stan Lee, então como editor, vinha desafiando o Código seguidamente e decidiu criar esse personagem que não era um vampiro no termo tradicional do termo, pois sua origem não era mística nem relacionada ao Conde Drácula, mas um acidente científico. Com o tempo, o Código enfraqueceu e os vampiros míticos voltaram os quadrinhos – a própria Marvel publicou uma longeva revista estrelada por Drácula – mas Morbius foi o pioneiro.

A arte de Sal Buscema para o Homem-Aranha em um confronto com Morbius.

O personagem teve certa relevância nos anos 1970, ganhando até aventuras solo dentro da linha de terror da Marvel, mas depois decaiu. Ainda aparece de quando em quando e não é exatamente um vilão.

O personagem parece ter carisma, pois a Sony decidiu dar-lhe um filme solo: Morbius – O Vampiro Vivo é estrelado por Jared Leto.

O Chacal: legado nefasto (inclusive para os fãs).

CHACAL

Com a morte do Duende Verde, o Chacal se tornou o principal vilão do Homem-Aranha em meados dos anos 1970. Foi introduzido em  Amazing Spider-Man 129, de 1974, por Gerry Conway e Ross Andru, como um criminoso que agia nas sombras e manipulou vários outros vilões contra o Homem-Aranha, como o Justiceiro, Cabeça de Martelo e Tarântula. Mas o principal ato dele foi a criação dos clones do Homem-Aranha e de Gwen Stacy, que trariam grandes consequências anos depois na muito criticada Saga do Clone dos anos 1990.

A saga do Chacal nos anos 1970 é chamada de A Primeira Saga do clone e colocou o Homem-Aranha tendo que lidar com o clone de Gwen Stacy e passar a duvidar se era de verdade ou apenas um clone também. No final, o herói descobriu que o Chacal era na verdade o professor Miles Warren, que lhe ministrou aulas na faculdade e era secretamente apaixonado (obcecado) por Gwen Stacy. (Waren era um personagem terciário que aparecia de vez em quando desde Amazing Spider-Man 31, de 1965, por Stan Lee e Steve Ditko). As histórias de Conway mostraram que, tendo descoberto a identidade secreta de Peter Parker, Warren foi um inimigo perigoso, mas morreu vítima de sua própria armadilha em Amazing Spider-Man 149, de 1975, por Conway e Andru.

Contudo, seu legado permaneceu por muitos anos, inclusive, com o vilão Carniça (Carrion), que foi revelado como um clone mal gerado do próprio Warren, aparecendo em Spectacular Spider-Man 25, de 1978, por Bill Mantlo e Jim Mooney. Na esteira da Saga do Clone (dos anos 1990) e da reciclagem de material de anos recentes, Warren, Carniça e Chacal tiveram inúmeras reinterpretações e reutilizações.

Tarântula: origem latina.

TARÂNTULA

O Tarântula era um mercenário de origem latina que agia para quem lhe pagasse o melhor preço. Combateu o Homem-Aranha diversas vezes ao longo dos anos 1970, mas morreu em combate. Surgiu em Amazing Spider-Man 134, de 1974, por Gerry Conway e Ross Andru e faleceu na edição 236, de 1982, por Roger Stern e John Romita Jr.

Shocker.

SHOCKER

Shocker não tem importância nenhuma como vilão do Homem-Aranha, pois nunca representou uma real ameaça. E é uma redundância em relação a Electro. Mas seu visual é legal. Surgiu em Amazing Spider-Man 46, de 1967, por Stan Lee e John Romita. O vilão é ligeiramente adaptado como um dos capangas do Abutre em Homem-Aranha – De volta para Casa.

Rhino: poderoso e burro.

RHINO

Burro como uma pedra, Rhino é tão forte quanto o Hulk e usa uma armadura que o deixa quase imbatível. Mas seu pior inimigo é seu próprio cérebro. Surgiu em Amazing Spider-Man 41, de 1966, por Stan Lee e John Romita. Nunca foi uma ameaça grande demais, embora tenha enfrentado outros heróis da Marvel, como o próprio Hulk. Mas seu visual legal e sua força motivam que sempre apareça em desenhos animados e videogames como um bom oponente. O vilão fez uma pequena ponta em Homem-Aranha 3, de Sam Raimi, de 2007, vivido por Paul Giamatti e servindo como alívio cômico e gancho de finalização.

O Homem-Lobo (Man-Wolf).

HOMEM-LOBO

O filho de J.J. Jameson, John Jameson, era um astronauta famoso, mas em uma de suas missões na Lua, trouxe à Terra uma misteriosa pedra que passou a usar como um colar. Com o tempo, a pedra o levou a se transformar em um tipo de lobisomen. Mas quando a pedra foi tirada dele, voltou ao normal. John Jameson apareceu pela primeira vez em Amazing Spider-Man 01, de 1963, por Stan Lee e Steve Ditko, mas só se transformou em Homem-Lobo (Man-Wolf) na edição 124, de 1973, por Gerry Conway e Ross Andru. O Homem-Lobo não apareceu muitas vezes depois disso e John Jameson é um bom homem na maioria das vezes. O personagem apareceu com destaque vivido por Daniel Gillies em Homem-Aranha 2, de Sam Raimi, de 2004, como um rival de Peter Parker ao namorar Mary Jane Watson, e com promessas de voltar como Homem-Lobo no futuro, algo que não aconteceu.

O Justiceiro em sua primeira aparição.

JUSTICEIRO

Tudo bem, Frank Castle não é um vilão. O Justiceiro é um dos maiores anti-heróis dos quadrinhos. Mas surgiu como um coadjuvante em uma história do Homem-Aranha. Apareceu outras vezes e se tornou mais ou menos recorrente até que, na onda dos heróis violentos dos anos 1980, no início da chamada Era Sombria dos Quadrinhos, se tornar um dos personagens de maior sucesso da Marvel. O cara tem apelo, pois já estrelou três filmes para o cinema e uma série de TV. Surgiu em Amazing Spider-Man 129, de 1974, criado por Gerry Conway e John Romita.

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Bem, poderia ter muitos mais, mas está uma lista de bom tamanho. e então, quais desses você quer ver nos próximos filmes?