Jack Kirby: um dos maiores criadores dos quadrinhos.

Aproveitando que o Capitão América está em evidência, por causa de seus 70 anos e do lançamento do filme, o HQRock aproveita para homenagear o cocriador do personagem: Jack Kirby, aquele que foi apelidado de “o rei dos quadrinhos”.

Nascido Jacob Kurtzenberg em uma família judia da região “barra pesada” do Brooklyn, em Nova York, em 1917, o desenhista e escritor ajudou criar alguns dos personagens mais importantes da mídia, como Capitão América, Quarteto Fantástico, Hulk, Thor, Homem de Ferro, Os Vingadores, os X-Men, Demolidor, dentre outros. Junto a Stan Lee, Kirby foi o grande arquiteto da Marvel Comics.

Página original à lápis de uma edição de Capitão América de 1941: a arte de Kirby repleta de movimentos, tensões e extrapolando os limites dos quadrinhos.
Outra inovação: foi Kirby quem criou as "páginas duplas" nos quadrinhos. Trecho de "Captain America Comics 06" de 1941.

Kirby aprendeu a desenhar sozinho e começou a trabalhar, ainda adolescente, nos estúdios de animação dos irmãos Fleischer, produzindo Popeye e Betty Boop. Depois, trabalhou em editoras pequenas como um dos terceirizados do famoso estúdio de Will Eisner e Jerry Iger.

A grande oportunidade veio na Marvel, que contratou Kirby como Diretor de Arte e seu amigo e parceiro, Joe Simon, como Editor-Chefe. A dupla supervisionava os trabalhos dos principais personagens da editora – o Tocha Humana e Namor – mas, em 1941, criaram aquele que seria o maior sucesso da casa: o Capitão América.

Em segredo, Kirby ajudou o Capitão Marvel (da editora Fawcett) a se tornar um sucesso maior que o Superman. Quando a Marvel descobriu, ele foi demitido.

A arte expressiva, nervosa e ousada de Kirby impressionou a todos e, logo, transformou-se em referência para todos os outros desenhistas.

Porém, como Simon e Kirby não ganhavam o prometido na Marvel, começaram a produzir secretamente material para outras editoras, inclusive, para o Capitão Marvel (também conhecido no Brasil como Shazam), da editora Fawcett, na época, um dos maiores sucessos em vendas.

A dupla se mudou, em 1942, para a DC, produzindo Guardião (uma cópia do Capitão América), Sandman, Legião Jovem e fizeram um sucesso estrondoso com The Boys Commandos, sobre um grupo de adolescentes órfãos que lutam na II Guerra Mundial.

Por certa ironia, terminou sendo convocado para a guerra, em 1943. Como era desenhista, sua missão era invadir as linhas inimigas sozinho e desenhar mapas da região para que os aliados pudessem atacá-los. Dormindo quase sempre ao relento, o artista terminou tendo as pernas congeladas e foi mandado para casa em 1945.

Kirby também fez sucesso com os faroestes. Aqui, The Boy's Ranch.

Kirby voltou a produzir The Boys Commandos, mas o fim da II Guerra fez as vendas despencarem. O mercado de super-heróis também decaiu, então, ele e Simon saíram produzindo para outras editoras, principalmente, histórias românticas, policiais, de faroeste e terror.

Na década de 1950, a Marvel tentou publicar novas aventuras do Capitão América, o que irritou Kirby profundamente. Como vingança, criou o Fighting American , mas o personagem não emplacou.

Fighting American: pequena vingança contra a Marvel.

Em 1957, a DC reformulava todos os seus velhos super-heróis, que voltavam a fazer sucesso depois de 10 anos de baixas vendas. Superman e Batman foram moderninzados e outros como Lanterna Verde, Flash e Mulher-Maravilha foram remodelados totalmente. Kirby foi convidado para trabalhar no Arqueiro Verde, herói que existia desde 1941, mas nunca fora um grande sucesso.

Arqueiro Verde: retorno de Kirby aos super-heróis.

As histórias produzidas pelo artistas foram as mais bem recebidas do personagem até então, fazendo-o deixar de ser uma imitação barata do Batman, dando-lhe personalidade e, não menos importante, criando sua origem.

Ao mesmo tempo, Kirby voltou à Marvel depois de mais de 15 anos e passou a trabalhar com Stan Lee em histórias de ficção científica e terror.

Todavia, a grande virada na obra de Kirby estaria por vir. Martin Goldman, o dono da Marvel, se empolgou ao saber do sucesso dos novos heróis da DC, particularmente da Liga da Justiça, um grupo que reunia vários personagens.

Lee e Kirby criaram o Quarteto Fantástico que foi lançado em 1961 e se transformou no maior sucesso de vendas da editora em mais de uma década.

O Hulk é outras das criações de Kirby e Lee.

Em seguida, Lee e Kirby criaram outros super-heróis para aproveitar a moda, como o Incrível Hulk e o deus

O Quarteto Fantástico é o "marco zero" do Universo Marvel moderno.

nórdico do trovão Thor, lançados em 1962.

O modo como trabalhavam era inovador: como Lee tinha que escrever quase tudo na Marvel, que era um editora minúscula, o roteirista bolava apenas uma premissa ou sinopse, enquanto cabia a Kirby desenvolver o resto da história, detalhes, criar personagens. Com a arte pronta, Lee voltava e escrevia os diálogos. Essa prática, depois batizada de “Método Marvel”, seria usada por Lee em todos os seus trabalhos futuros, o que aumenta os créditos dos desenhistas que com ele trabalhavam.

O grande diferencial dos personagens da dupla é que não eram “seres perfeitos ou icônicos” como os da DC, mas seres humanos cheios de falhas, defeitos, dúvidas e limitações.

Homem-Aranha: controvérsia na criação, mas foi Kirby quem desenhou a capa da primeira aparição do personagem, em "Amazing Fantasy 15".

O ápice do conceito viria com o personagem seguinte: o Homem-Aranha, também lançado em 1962. Mas a participação de Kirby em sua criação é uma das maiores polêmicas dos quadrinhos. Os fatos: Lee criou o conceito do personagem e pediu a Kirby desenhá-lo; o trabalho foi iniciado, Kirby fez cinco páginas, mas por algum motivo, Lee mudou de idéia e repassou o trabalho para Steve Ditko, que recebeu os créditos.

Qual é exatamente a contribuição de Kirby e Ditko na criação do Homem-Aranha não se sabe, mas os créditos são dados apenas a Lee e Ditko. Porém, sabe-se que o personagem é baseado em outros dois heróis criados por Kirby nos anos 1940 e 50: Silver Spider (Aranha Prateada) e The Fly (O Mosca). Este último, inclusive, era um jovem órfão que foi criado pelos tios e tinha os poderes muito parecidos com o Homem-Aranha. Também há de se considerar que a capa da revista de estréia do aracnídeo foi desenhada por Kirby e não por Ditko. O visual do Mosca, entretanto, seria reciclado em outro personagem da Marvel: o Homem-Formiga.

Apesar da controvérsia, Lee e Kirby continuaram a trabalhar ativamente. Kirby criou o visual do Homem de Ferro, em 1963, embora não desenhasse as histórias, apenas as capas. Ele faria o mesmo com o Demolidor, no ano seguinte.

Embora não desenhasse as aventuras do Homem de Ferro, foi Kirby quem criou o visual do personagem, bem como fazia as capas de sua revista.

Kirby também ajudou Lee a criar os outros dois principais grupos da Marvel: Os Vingadores e os X-Men, ambos em 1963; bem como Nick Fury: primeiro em histórias situadas na II Guerra Mundial (baseadas nas lembranças do artista) em Sgt. Fury and howling commandos; depois, do personagem no presente, em Nick Fury, Agent of Shield, tomando carona no sucesso de 007.

Na revista dos Vingadores, Kirby pôde trazer o Capitão América de volta à ativa.

Em Avengers 04, de 1964, Lee e Kirby contaram a história em que os Vingadores, enquanto combatem Namor (outro velho personagem da Marvel, agora tratado como anti-herói), terminam por encontrar o Capitão América congelado no gelo desde o fim da II Guerra. O herói resgatado conta que o parceiro mirim Bucky morreu em uma explosão e ele terminou congelado no Ártico.

De volta à vida, o Capitão América se integrou aos Vingadores e passou logo a liderá-los. Lee e Kirby também lançaram histórias individuais do personagem, adaptando-o aos “novos tempos”, que foram um grande sucesso.

Mas foi em Thor e no Quarteto Fantástico que a dupla Lee e Kirby fez seus melhores trabalhos: explorando questões mitológicas e cósmicas que combinavam com a arte expressiva do artista. Ambas também lançaram a maior parte da base do chamado “Universo Marvel” e uma centena de personagens coadjuvantes importantes.

O Surfista Prateado (aqui atacado pelo Dr. Destino) é exemplo de personagem criado por Kirby para as aventuras do Quarteto Fantástico.

Nas páginas da revista Fantastic Four, por exemplo, surgiram os heróis Pantera Negra (o primeiro super-herói negro dos quadrinhos), o Surfista Prateado, os Inumanos liderados por Raio Negro e vilões memoráveis, como o Dr. Destino, Galactus e as duas raças alienígenas que usam a Terra como campo de batalha, os Skrulls e os Krees. (Para ter uma ideia do impacto desses personagens no Universo Marvel atual, leia a série História Recente da Marvel Comics, postada aqui no HQRock em sete capítulos).

Lee e Kirby produziram as 102 primeiras edições de Fantastic Four, entre 1961 e 1970, e talvez seja o melhor momento do artista como ilustrador. Mas em uma briga com a direção da editora, o desenhista largou a casa e foi trabalhar na DC.

Nas histórias do Quarteto Fantástico, Kirby fez experimentações com fotografias e efeitos gráficos que combinavam o clima psicodélico dos anos 1960.
O Superman de Kirby: conceitos cósmicos misturados à mitologia.

A chegada de Kirby na DC foi anunciada com estardalhaço e sua estreia se deu na revista Superman’s Pal Jimmy Olsen, estrelada pelo fotógrafo que é o melhor amigo do homem de aço. Kirby mudou o foco da revista, tornando-a mais séria e desenvolvendo uma trama que mostrava o misterioso Laboratório Cadmus produzindo clones e a interferência de um ser intergaláctico chamado Darkseid.

Esse conceito se desenvolveu em seguida no mais ousado projeto de sua carreira, o Quarto Mundo, uma série de revistas interligadas, que deu origem a uma dezena de personagens. Por isso, em 1971, estrearam New Gods, Mr. Miracle e Forever People, que desenvolviam o conceito dos Novos Deuses: numa galáxia distante, os velhos deuses morreram e deram origem a uma nova raça de deuses que se dividiu em guerra em dois planetas, o pacífico Nova Gênesis e o bélico Apokolips. Os heróis Órion, Sr. Milagre e Grande Barda combatem Darkseid e seus asseclas. Este, inclusive, se transformou em um dos maiores vilões da editora.

Novos Deuses: apesar de não ter feito sucesso, a crítica aponta como o ápice da "carreira solo" de Kirby.
Nos dias de hoje, Darkseid permance como um dos principais vilões da DC.

Contudo, a complexidade das tramas dos Novos Deuses não agradou aos leitores e todas as revistas foram canceladas em 1973, embora seus personagens tenham se tornado parte fundamental do Universo DC moderno. A saga é considerada por muitos críticos como a obra-prima de Kirby. Mas o artista continuou desenvolvendo conceitos não-ortodoxos, em revistas como Omac, o exército de um homem só e o futurista Kamandi, o último jovem da Terra, mas estes também não foram sucesso.

Kirby terminou voltando à Marvel, onde, entre 1975 e 1977, escreveu, desenhou e editou a revista do Capitão América em histórias cheias de ação e convulsão social. Também trabalhou com o Pantera Negra e criou os Eternos, uma espécie de versão-Marvel dos Novos Deuses, mas que também não fez sucesso.

O Capitão América dos anos 1970 foi a última obra de Kirby a chamar a atenção.

Houve tempo, também, para uma última produção em parceria com Stan Lee: uma graphic novel do Surfista Prateado, onde a dupla explora as origens do personagem.

Porém, Kirby não conseguia emplacar sucessos como nos velhos tempos, então, terminou se afastando da Marvel novamente e foi trabalhar no campo da animação, como no início da carreira. Ocasionalmente, o artista ainda trabalhou para editoras pequenas e faleceu em 06 de fevereiro de 1994, aos 76 anos.

Sua obra marcou gerações e sua arte ainda é expressão de exuberância, força e tensão, servindo de influência para muitos artistas, não somente no ramo dos super-heróis.

A obra de Kirby é fundamental às adaptações cinematográficas da Marvel e da DC.