
A DC Comics criou, ao longo dos anos, uma forte tradição de transposição de seus personagens para os desenhos animados. Entre os anos 1970 e 1980, qualquer criança ocidental assistiu aos Super-Amigos, a versão infantil da Liga da Justiça, o que em muito ajudou a disseminar a popularidade de seus principais ícones: Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Flash, Lanterna Verde e Aquaman.
Contudo, uma pequena revolução foi atingida em 1992 quando estreou Batman – The Animated Series, como uma maneira de ajudar na promoção do longametragem Batman – O Retorno de Tim Burton. A animação criada pelo cartunista Bruce Timm e escrita por Paul Dini fazia uma verão séria e sombria do homem-morcego, mas ao mesmo tempo, adaptável a todas as idades. Foi um grande sucesso e lançou a tônica das animações seguintes de super-heróis – e não só da DC, é importante frisar.

Mas a casa deu prosseguimento com Superman – The Animated Series e atingiu talvez seu melhor momento com Justice League, desenvolvida entre 2001 e 2004, e sua sucessora, Justice League Unlimited (2004-2006), todas produzidas por Timm e Dini.
O sucesso instigou a DC a produzir uma série de longametragens animados diretamente para o mercado de home video, o que foi uma medida acertada. E seguindo a tradição já estabelecida na série da Liga da Justiça, a DC se empenhou em fazer filmes baseados em histórias clássicas, o que permite aos fãs assistirem suas aventuras prediletas com movimento, de um modo que seria impossível em produções com atores.
Essas produções diretas para DVD e Blue-Ray atingem um bom pico com Liga da Justiça – Crise em Duas Terras, na qual a equipe recebe a visita de um Lex Luthor de uma outra dimensão que pede auxílio para deter uma versão maligna deles próprios. Os planos do Sindicato do Crime envolvem não apenas dominar seu próprio planeta, algo que estão muito próximos de conseguir, mas a destruição de toda a realidade.

Os membros da Liga neste filme são Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Lanterna Verde/Hal Jordan, Flash e o Caçador de Marte e eles combatem algumas de suas próprias versões malignas: Ultraman, Coruja (Owlman), Superwoman, Power Ring, Johnny Quick e mais alguns outros.
O filme segue a tendência das outras animações em longametragem da DC – dentre as quais A Morte do Superman, Batman – O Cavaleiro de Gotham, Liga da Justiça – A Nova Fronteira, Lanterna Verde – Primeiro Vôo e os mais recentes Batman Contra o Capuz Vermelho e All-Star Superman – que são ainda menos infantis do que as séries para a TV, primando por um tratamento mais adulto, tramas mais complexas e mais violência.

A violência, aliás, é algo que chama a atenção. Os confrontos entre a Liga da Justiça e o Sindicato do Crime são refletos de muitos golpes e som, embora não haja sangue para não restringir a faixa-etária.
Também é interessante o tratamento dos personagens. Superman se humaniza quando se percebe que ele não consegue confiar no outro Lex Luthor, por causa da semelhança física com seu maior inimigo; e toma uma lição quando se confronta com o reflexo distorcido de si mesmo que é o Ultraman.

Mas é o Coruja, a versão maligna do Batman, o maior destaque do filme. Retratado como um niilista, ele descobre uma maneira de destruir toda a realidade e decide fazê-lo simplesmente porque pode, sem ter nenhum motivo real para isso e, mais importante, sem ganhar nada com o ato. Sua total ausência de sentimentos e seu bordão “nada importa” o transformam num oponente terrível, até mesmo para o Batman, que vê como ele poderia ter sido com um pouco menos de humanidade.

Os fãs de quadrinhos mais atentos vão poder notar, ainda, que o visual e o próprio nome do “Batman Maligno” se remetem ao personagem de Watchmen (a obra monumental de Alan Moore e Dave Gibbons, adaptada ao cinema em 2009) Ambos traduzidos como Coruja em português, mas Night Owl em Watchmen e Owlman em Crise em Duas Terras. Poucos sabem, mas o Coruja de Watchmen é a combinação do Batman com o Besouro Azul e este longa metragem animado se preocupou em reforçar a referência tornando o visual do Owlman ainda mais parecido com o do Night Owl de Watchmen. E uma dica: não se preocupe com processos judiciais, Batman e Watchmen são propriedades da mesma DC Comics.
Por fim, é interessante notar a abordagem profunda com que o texto do roteirista Dwayne McDuffie trata a organização do Sindicato do Crime em sua Terra: uma organização tal qual a máfia, organizada em famílias, nas quais cada um dos personagens principais comanda uma, dominando setores diferentes.

Aos fãs do Universo DC, estão lotadas de referências a personagens secundários: na outra Terra, o vilão Exterminador (Deathstroke) é um bom homem e, também, o presidente Slade Wilson, dos Estados Unidos; e sua filha, uma agitadora política, que termina se apaixonando pelo nosso Caçador de Marte. Na outra Terra, Coruja e Superwoman são amantes, tal qual Batman e Mulher-Maravilha tiveram um envolvimento explorado na série de TV da Liga.
Falando em continuidade, é interessante notar que Crise em Duas Terras funciona como uma continuação da série de TV da Liga, pois alguns elementos são confirmadores: a Mulher-Maravilha chama Batman de Bruce (os membros da equipe revelaram suas identidades secretas no episódio em três partes, depois também lançado como longametragem em DVD, Liga da Justiça – Escrito nas Estrelas (Starcrossed); o grupo está terminando de construir um novo satélite, pois o original foi destruído em Starcrossed; e o line up da equipe é o mesmo da antiga série, apenas com a ausência da Mulher-Gavião, que saiu justamente ao fim de Starcrossed.
Entretanto, o Lanterna Verde de Crise em Duas Terras é o tradicional Hal Jordan e não o substituto John Stewart da série de TV. E o design dos personagens também é bastante diferenciado da TV, especialmente o Batman e o Caçador de Marte, que têm feições mais duras e adultas.

Crise em Duas Terras foi lançado em fevereiro de 2010 e foi muito bem recebido. Produzido por Bruce Timm e dirigido por Lauren Montgomery, tem no elenco William Baldwin (Batman), Mark Hamon (Superman), Chris North (Lex Luthor), Gina Torres (Superwoman), James Woods (Owlman), Jonathan Adams (Caçador de Marte), Brian Bloom (Ultraman), dentre outros.
O filme foi idealizado ainda em 2004 para servir de transição entre a série tradicional Justice League e sua continuação Justice League Unlimited, mas foi impossível de ser produzida a tempo, de modo que foi substituída por Escrito nas Estrelas, na verdade uma trama que se espalha por três episódios, mais tarde reunidos em longametragem.
Apesar das semelhanças com a ambiência da série de TV, nenhum dos atores dubladores do seriado repete seu papel no longametragem.

Crise em Duas Terras desenvolve um antigo conceito criado nas edições 29 e 30 da revista Justice League of America, escritas por Gardner Fox e desenhadas por Mike Sekowsky, em 1963, na qual a Liga da Justiça encontra o Sindicato do Crime pela primeira vez. Mas a fonte principal do enredo é a graphic novel JLA: Earth 2 escrita por Grant Morrison e desenhada porFrank Quitely, lançada em 2000.


masssssssss
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As silhuetas dos personagens tamb m aparecem em sombras que as precedem, como se se tratasse de uma grande alegoria das cavernas.
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