Gene Colan: traço bonito e sombrio.

O lendário desenhista Gene Colan faleceu ontem aos 84 anos, vítima de sérios problemas de saúde no coração e no fígado, além de um câncer. O artista fez fama nos anos 1970 e 1980 com sua bela arte de tons sombrios, sendo um dos principais desenhistas da chamada Era de Bronze dos quadrinhos, que cumpre mais ou menos esse período. Ao longo de sua extensa carreira, foi um dos principais artistas de personagens como Demolidor, Homem de Ferro e Dr. Estranho da Marvel e o Batman e a Mulher-Maravilha na DC Comics.

Demolidor: trabalho de assinatura de Gene Colan.

Gene Colan nasceu em 1926 no Bronx, em Nova York, e se alistou para combater na II Guerra Mundial, embora não tenha sido aceito porque era jovem demais. Ainda assim, ele prestou serviço miltar nos próprio território dos Estados Unidos, em treinamento, e após o fim do conflito, fez parte das forças de ocupação nas Filipinas. Após “dar baixa”, Colan começou sua carreira profissional de desenhista fazendo justamente histórias de guerra para a editora Timely, em 1948, aquela mesma que mais tarde mudaria o nome para Marvel. Quem lhe deu o emprego foi um jovem Stan Lee, que já era o Editor-Chefe da empresa.

Nos anos 1950, porém, o mercado de quadrinhos sofreu uma grande diminuição, e Colan passou a atuar como freelancer, trabalhando para a Marvel e para a concorrente DC Comics, fazendo histórias de guerra, de terror, policiais e até de romance.

"Sub-Mariner 01", de 1968: as histórias desenhadas por Colan fizeram sucesso o suficiente para ganhar um título próprio.

Como Stan Lee sempre admirou seu trabalho, quando a Marvel começou a crescer em 1966 e precisou de mais artistas além de Jack Kirby, Steve Ditko e Don Heck (os arquitetos do Universo Marvel original), Gene Colan foi um dos primeiros a ser contratado para trabalhar nas revistas da editora (os outros foram John Romita, John Buscema e Jim Steranko). Colan passou a desenhar as novas histórias solo de Namor, o Príncipe Submarino, escritas pelo próprio Lee e por Roy Thomas. O personagem era um dos mais antigos da Marvel e, agora, voltava a ter suas próprias aventuras, depois de ser coadjuvante do Quarteto Fantástico e dos Vingadores, estreando na revista Tales to Astonish, onde dividia espaço com o Hulk.

O Homem de Ferro foi outro personagem que teve uma clássica fase nas mãos de Gene Colan.

Logo em seguida, Colan passou a desenhar as histórias do Homem de Ferro, substituindo o artista original, Don Heck, na revista Tales of Suspense. Colan permaneceria como o principal ilustrador de Tony Stark e seu universo até os meados dos anos 1970, trabalhando com diversos roteiristas.

O Falcão, criado por Colan, chegou a ter seu nome incluído no título da revista do Capitão América: primeiro herói americoafrodescendente.

Também em 1966, Colan assumiu a revista do Demolidor, tornando-se o primeiro artista fixo do herói, que já tinha passado por literalmente dezenas de outros. O Demolidor é considerado o “trabalho de assinatura” de Colan, que permanceceu por mais de 80 edições no título, entre aquele ano e 1973, começando em Daredevil 20 e seguindo até o número 81; voltando para uma segunda temporada entre 1974 e 1979, embora dessa vez de modo mais esporádico.

Em "Dr. Strange", Colan fez experimentos.

Ainda no início dos anos 1970, Gene Colan também teve passagens memoráveis pela revista do Dr. Estranho (onde fez experimentos com colagens e fotografias) e com o Capitão América, onde criou, junto a Stan Lee, o Falcão, o primeiro super-herói americoafrodescente dos quadrinhos.

Drácula e seus inimigos em "The Tomb of Dracula", um dos trabalhos mais marcantes do artista. O herói Blade está à esquerda.

Em 1972, a Marvel decidiu voltar a publicar histórias de terror, que tinham sido proibidas nas últimas décadas por causa do Comics Code Authority, um selo de aprovação que fiscalizava o conteúdo das histórias. O Editor-Chefe da Marvel, Stan Lee, começou deliberadamente a desafiar o selo, especialmente com as referências às drogas nas revistas do Homem-Aranha que escrevia. Com isso, o selo perdeu força. Como parte da empreitada, surgiu a revista The Tomb of Dracula, uma inusual série em que o vilão era o protagonista.

The Tomb of Dracula foi escrita por Marv Wolfman e desenhada por Gene Colan durante 70 edições, entre 1972 e 1979 e fez um grande sucesso. Inclusive, no Brasil, onde suas histórias continuaram a ser publicada por mais de 10 anos. O cancelamento se deu por ordens do novo Editor-Chefe da editora, Jim Shooter, o que levou à demissão tanto de Wolfman quanto de Colan da Marvel.

O Batman de Colan, já nos anos 1980.

Colan voltou a trabalhar para a DC Comics, sendo o principal artista do Batman entre 1982 e 1986, desenhando tanto a revista Detective Comics quanto sua “irmã” Batman. Ele também foi o responsável pela arte da revista da Mulher-Maravilha no mesmo período.

Infelizmente, com a mudança do panorama da DC após o megaevento Crise nas Infinitas Terras, artistas “clássicos” como Colan (ou Gil Kane) começaram a perder espaço. Ele ainda participou das novas histórias do Espectro, escritas por Doug Moench, mas diminiu seu ritmo de trabalho.

Durante boa parte dos anos 1990 e 2000, já em idade avançada, Colan fez apenas trabalhos ocasionais na Marvel e na DC, embora tenha produzido mais em editoras independentes.

Nos últimos anos, fez algumas “participações especiais” em revistas nas quais foi marcante. Por exemplo, ilustrou histórias para as comemorativas Daredevil 50, 100 e 101.

Seu último trabalho, ironicamente, foi bastante premiado. Em 2009, Colan ilustrou a história Sangue vermelho, azul e branco, parte da comemorativa Captain America 601, escrita por Ed Brubaker. A história ganhou o prêmio Eisner (o Oscar dos quadrinhos) de Melhor História Fechada e se passa nos tempos da II Guerra Mundial, onde o Capitão América e seu parceiro Bucky enfrentam vampiros. Ela foi recentemente publicada no Brasil como parte do mix de Os Novos Vingadores 75, da editora Panini.