Black Panther movie Concept Art
O Pantera Negra em arte conceitual do Marvel Studios.

O filme Pantera Negra promete marcar gerações e se você quer saber mais sobre esse icônico personagem dos quadrinhos da Marvel Comics, este é o lugar! O HQRock preparou um Dossiê Especial com tudo sobre T’Challa, o rei de Wakanda e membro dos Vingadores, contando sua trajetória nos quadrinhos.

Então, faça honras ao deus Bast, beba da erva em formato de coração, vista seu uniforme de vibranium e embarque nessa aventura pelas selvas africanas e uma herança imemorial!

O Primeiro Super-Herói Negro

O primeiro grande feito do Pantera Negra é que ele foi o primeiro super-herói negro. Antes dele, os quadrinhos tiveram pouquíssimos heróis ou mesmo personagens afrodescendentes. E se excluíssemos os personagens caricaturais, muitas vezes feitos para ridicularizar esse povo, esse número diminuía ainda mais.

black panther standart image fullNeste caso, mérito para Stan Lee, o criador do personagem e um editor atento às questões sociais de seu tempo. Ao lado do desenhista Jack Kirby, em 1963, Lee criara antes um personagem chamado Gabe Jones, que era afroamericano, e fazia parte da revista Sgt. Fury and his Howling Commandos, HQ que mostrava um pelotão especial de soldados de várias etnias (havia também judeus, filhos de imigrantes com irlandeses e descendentes de orientais) lutando na II Guerra Mundial. O protagonista, Nick Fury, depois virou um importante e famoso personagem da Marvel, quando foi mostrado no “presente” como um experiente agente secreto. Mas faltava um super-herói negro.

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Stan Lee e Jack Kirby no início dos anos 1960, quando criaram o Universo Marvel.

E ele veio com o Pantera Negra, em 1966, numa época em que as tensões socio-raciais estavam acirradas nos EUA. Mas como o leitor pode perceber, o Pantera Negra era africano, então, três anos depois, Stan Lee criou o primeiro super-herói afroamericano, Sam Wilson, o Falcão, que estreou na revista do Capitão América. Antes disso, Lee também criou, em 1967, um núcleo de personagens afroamericanos – liderados pelo editor de cidades do Clarim Diário, Joe “Robbie” Robertson – na revista do Homem-Aranha, então, a mais popular da Marvel. Em 1971, a revista do Capitão América adotou oficialmente o título de Captain America and the Falcon, fazendo com que o Falcão fosse o primeiro herói negro a ter seu nome estampado no título de uma revista. E dois anos depois, Luke Cage, the Power Man, também estreou uma revista própria, fortalecendo ainda mais os personagens negros da Marvel.

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Alguns dos heróis negros da Marvel: Pantera Negra, Coração de Ferro, Luke Cage, Falcão e Tempestade.

Para se ter uma ideia do quanto isso era inovador, a maior concorrente da Marvel, a DC Comics, só criou um herói afroamericano em 1971, com John Stewart, que é recrutado por Hal Jordan como um Lanterna Verde substituto. Mas ele era isso mesmo, um substituto e não teve nenhum grande papel dali para frente até os anos 1980! Somente no fim dos anos 1970 é que a DC fez um retcon para que um antigo vilão do Aquaman, o Arraia Negra – cujo o rosto nunca havia sido mostrado – fosse um afroamericano por baixo de seu capacete. E também no fim dos anos 1970, em 1977, surgiu o Raio Negro, o primeiro super-herói afroamericano importante da DC Comics, que inclusive, estreou em sua própria revista.

Como predecessores, além de Gabe Jones, o Pantera Negra tinha poucos pares. Em 1947, o jornalista afroamericano (e primeiro do tipo a ter destaque na imprensa nacional) Orrin Crownwell Evans criou uma editora de  vida curtíssima chamada All-Negro Comics, que publicou uma revista com o mesmo título escrita e desenhada apenas por artistas negros, mas foi um ato isolado.

Jungle-Tales-7Em 1954, o editor Stan Lee criou na Atlas Comics (o nome anterior da Marvel) uma revista coletiva (trazia várias histórias) chamada Jungle Tales, para surfar na onda do sucesso de Tarzan e seus livros, quadrinhos e filmes. Um dos personagens protagonista da revista era Waku, prince of the Bantu, um herói negro, criada pelo roteirista Don Rico (futuro escritor das aventuras do Homem de Ferro e cocriador da Viúva Negra) e o desenhista Ogden Whitney. Um dos destaques dessas histórias é que elas não tinham personagens caucasianos e eram inteiramente estreladas por africanos. A revista teve apenas sete edições, publicadas até 1955, e as últimas aventuras de Waku foram ilustradas pelo iniciante John Romita (que no futuro seria o lendário desenhista do Homem-Aranha). LoboWestern1

Em 1964, após a criação de Gabe Jones no Comando Selvagem de Nick Fury, surgiu o personagem Lobo, estrela de um faroeste que era um afroamericano rico e sem nome, publicado pela pequena Dell Comics, mas sua revista teve apenas dois números, publicados com nove meses de diferença, entre aquele ano e o seguinte.

Criando uma Lenda

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A capa de “Fantastic Four 01”, de 1961, por Lee e Kirby: marco zero do Universo Marvel.

Stan Lee e Jack Kirby criaram o Universo Marvel na revista do Quarteto Fantástico. Literalmente, Fantastic Four 01, de 1961, é o marco zero da Marvel Comics e seu sucesso imediato garantiu que a dupla pudesse continuar a criar toda uma nova fornada de super-heróis em seguida, como Hulk, Thor, Homem de Ferro, Homem-Formiga, Vespa, os Vingadores e os X-Men. Com outro desenhista, Steve Ditko, Lee ainda criou o Homem-Aranha e o Doutor Estranho; além do Demolidor, com Bill Everett.

Mas inicialmente, o Quarteto Fantástico era o carro-chefe da Marvel – antes que outras revistas, como a do Homem-Aranha e a dos Vingadores se tornasse mais populares. Por isso, era nas HQs da “primeira família” que Lee e Kirby introduziam novos personagens importantes, acrescentavam novos mundos e faziam grandes experimentos. Por isso, foi na Fantastic Four em que apareceram pela primeira vez personagens como os alienígenas Skrulls e Kree; além dos Inumanos, do Pantera Negra e do Surfista Prateado.

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O primeiro esboço de Jack kirby, com o Coal Tiger.

É provável que Stan Lee tenha tido a ideia inicial de um super-herói negro para estrelar a revista do Quarteto Fantástico, mas é curioso que o primeiro esboço conhecido do personagem criado por Jack Kirby ostentava outro nome: Coal Tiger e um uniforme diferente, embora já com alguns elementos presentes na versão final. O nome Black Panther já era associado aos negros quando Lee decidiu usá-lo: havia existido um batalhão de tanques no exército dos EUA na II Guerra Mundial chamado Black Panther que continha apenas soldados negros. E Lee e Kirby conheciam bem a história da guerra, pois ambos serviram o exército no conflito: Lee escrevera documentários, revistas informativas e manuais de treinamento; enquanto Kirby foi soldado no conflito, atuando diretamente no front. A The Lowndes County Freedom Organization também usava uma pantera negra como brasão antes mesmo de mudar seu nome oficialmente para The Black Panther Party, quatro meses depois da estreia de T’Challa na revista do Quarteto Fantástico.

Um Herói Africano

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A estreia do Pantera Negra em Fantastic Four 52. Arte de Jack Kirby.

T’Challa estreou em Fantastic Four 52, de julho de 1966. Na trama, Lee e Kirby mostram já no início o Rei de Wakanda enviando uma belíssima nave de presente para o Quarteto Fantástico, convidando-os a conhecer o misterioso e isolado país. Maravilhado com a tecnologia do transporte, o líder do grupo, Reed Richards, o Senhor Fantástico, prontamente aceita o convite e os heróis desembarcam em Wakanda e são atacados pelo Pantera Negra e seus guardas. A revista mostra que o herói africano vence cada um dos membros do Quarteto em uma luta isolada, só sendo derrotado quando o quarteto consegue se reagrupar e atacá-lo em conjunto. Ao fim, o herói africano tira a máscara e mostra que aquilo foi apenas um exercício para testarem as habilidades dos famosos heróis.

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Página de abertura de FF 53, por Lee e Kirby.

A edição 53 continua o conto, com T’Challa apresentando Wakanda aos heróis e contando sua origem: Wakanda era a única fonte na Terra do misterioso vibranium um metal indestrutível que absorve energia cinética e que não é natural do planeta, teria chegado por meio de um meteorito.

Fantastic_Four_Vol_1_53_001(Um retcon futuro iria estabelecer que o escudo do Capitão América era feito da combinação de uma liga de adamantium – metal indestrutível que compõe também as garras de Wolverine – e vibranium; embora aquela edição fosse a primeira vez que o metal era mencionado).

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Ulisses Klaw e a morte de T’Chaka, por Lee e Kirby.

Quando T’Challa era criança, um explorador chamado Ullisses Klaw chegou a Wakanda sabendo da existência do vibranium e em busca de minerá-lo. Com seu exército, Klaw matou o pai do herói, T’Chaka, o rei de Wakanda. Depois disso, T’Challa se submeteu ao processo de se tornar o Pantera Negra, o lendário guerreiro responsável por defender o país. Para se tornar o Pantera Negra era necessário vencer os seis melhores guerreiros do país em uma luta contra todos ao mesmo tempo; depois, vencer o atual  Pantera Negra em combate; e em seguida, ser embebido do chá da Erva em Formato de Coração, uma planta “mística” que só cresce em Wakanda e dota o consumidor de força extahumana, grande agilidade e velocidade, além de sentidos mais aguçados. Posteriormente, seria explicado que a Erva era, na verdade, uma planta endógena alterada radioativamente pelo vibranium que contaminou o solo.

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O ritual da Erva em Formato de Coração.

O povo de Wakanda acredita que a Erva é um presente do deus pantera, Bast, a quem reverenciam e que seria o guardião do espírito do Pantera Negra.

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Abordagem moderna de Blast, o deus pantera.

Enquanto o Quarteto Fantástico estava em Wakanda, Ullisses Klaw ataca o país novamente, e o grupo se une ao Pantera Negra para derrotá-lo, já que o vilão possui uma arma extraordinária que transforma som em massa. Os heróis são vitoriosos, e Klaw perde a mão esquerda quando o Pantera Negra faz explodir a arma que ele empunhava; mas o vilão escapa e mergulha dentro de sua máquina geradora de sons em busca de um modo de se vingar. Klaw logo voltaria em Fantastic Four 56, agora transformado em um superser chamado Garra Sônica cujo corpo é inteiramente formado de som sólido. O vilão só é derrotado com a ajuda remota de T’Challa, que envia uma carga de vibranium ionizado para jogar o vilão na Zona Negativa.

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Klaw se torna o Garra Sônica.

O Pantera Negra continuou aparecendo como coadjuvante em algumas aventuras do Quarteto Fantástico. Na edição 60, de 1967, por exemplo, ele auxilia o grupo a derrotar o Dr. Destino, que roubou (temporariamente) os poderes do Surfista Prateado. Dois números depois, T’Challa dá abrigo aos Inumanos em um lugar chamado Ilha da Pantera, que pretensamente fica no Lago que margeia Wakanda.

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Quarteto Fantástico, Inumanos e Pantera Negra contra o Homem-Psíquico. Arte de Jack Kirby.

Uma aparição mais efetiva e importante do herói se deu em Fantastic Four Annual 05, de 1967, na qual o Pantera Negra une forças com os Inumanos e o Quarteto Fantástico contra o Psyco-Man (Homem-Psíquico, no Brasil), um ser poderoso que termina sendo revelado como um habitante do Microverso.

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Tales of suspense se torna Captain America, em 1968: ampliação da linha editorial da Marvel. Arte de Jack Kirby.

A próxima aparição do Pantera Negra foi no arco de histórias do Capitão América que percorre as edições 97, 98 e 99 de Tales of Suspense (revista que o personagem dividia com o Homem de Ferro), concluindo em Captain America 100, todas de 1968 (Tales of Suspense teve seu título alterado para o nome do herói na centésima edição, mas manteve a numeração anterior), e tal qual Fantastic Four, também escritas por Stan Lee e desenhadas por Jack Kirby.

Tales_of_Suspense_Vol_1_98Antes dos detalhes da história, uma curiosidade histórica: na capa de Tales of Suspense 98, em que Capitão e Pantera lutam, a chamada diz apenas “Cap vs The Panther” e o corte foi proposital, pois na época, os Panteras Negras começavam a fazer barulho na política dos EUA e a Marvel quis evitar paralelos políticos.

Na trama, o Pantera Negra percebe uma invasão em Wakanda e descobre que os criminosos estão ligados ao Capitão América, T’Challa convida Steve Rogers a ir em seu país combatê-los, mas no típico estilo Marvel, eles lutam primeiro antes de se darem por satisfeitos de que cada um é quem diz ser (número 98), quando os dois herói entram em batalha, descobrem que a invasão é obra do Barão Zemo, um vilão que liderara os Mestres do Terror, mas aparentemente tinha sido morto em confronto com os Vingadores. A dupla é quase derrotada, mas salva pela Agente 13 da SHIELD (Sharon Carter) e descobrem que o vilão é um impostor e que o verdadeiro Zemo estava mesmo morto. Os comparsas do vilão não sabiam disso e matam o falso Zemo.

Ao final dessa aventura, o Capitão América convida T’Challa para ingressar no lugar dele mesmo nos Vingadores e o Pantera Negra aceita!

Um Vingador

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Capa de Avengers 51.

Ao final de Avengers 51, de abril de 1968, os Vingadores voltam a sua base após um confronto com o Colecionador e o Capitão América lhe faz uma videoconferência votando para que o Pantera Negra seja aceito no time como seu substituto. No contexto da época, isso era bastante necessário, pois velhos membros como Homem de Ferro e Thor já tinham deixado a equipe há bastante tempo; o Capitão vivia ausente (por que tinha suas histórias solo) e a dupla Feiticeira Escarlate e Mercúrio havia abandonado o time nas edições anteriores, após um confronto com Magneto e um desentendimento quanto à causa dos mutantes. Assim, só restavam três membros nos Vingadores na ocasião: Golias, Vespa e Gavião Arqueiro.

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O Pantera estreia nos Vingadores, com nova máscara. Arte de John Buscema.

T’Challa estreia como um vingador na edição 52, escrita por Roy Thomas e desenhada por John Buscema, no típico estilo Marvel: o Pantera Negra chega a Mansão dos Vingadores para assumir seu lugar no time e encontra os heróis (Golias, Vespa e Gavião Arqueiro) mortos no chão; com a polícia chegando no mesmo instante para prendê-lo e acusá-lo do crime; então, é mostrado que os Vingadores foram derrotados e colocados em um coma artificial pelo Ceifador, um vilão que queria se vingar da morte de seu irmão, o Magnum (Wonder-Man, no original), que morrera em confronto com a equipe muito tempo antes. Na cadeia, T’Challa consegue fugir, e vai de novo à Mansão onde enfrenta o Ceifador, vence, rouba sua arma indutora do coma, vai ao hospital, enfrenta de novo os policiais, e salva os Vingadores, com a situação esclarecida e todas as acusações retiradas.

O interessante acerca de Avengers 52 é que esta era a primeira vez que o Pantera Negra aparecia em uma história sem ser escrito por Stan Lee ou desenhado por Jack Kirby, dois anos após sua criação. Outro detalhe importante é que o desenhista John Buscema optou por fazer uma abertura na máscara do herói, de modo a mostrar seu nariz e boca, como uma tentativa de lhe dar mais expressão, uma vez que o capuz completo original dificultava isso. Mas a nova máscara só dura quatro edições antes de voltar ao design original.

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O Pantera Negra e os Vingadores em sua fase áurea, na arte de John Buscema.

O Pantera Negra ingressa nos Vingadores justamente no momento em que se inicia uma das melhores fases entre todas da equipe dos Maiores Heróis da Terra. Thomas e Buscema tinham refinado o trabalho que desenvolveram nas 10 edições seguintes e agora estavam afiadíssimos. Após confrontar os X-Men na edição 53, o grupo confronta o vilão Ultron pela primeira vez nos números 54 e 55; viajam ao passado para testemunhar o momento em que ocorre o acidente de 1945 em que após confrontarem o Barão Zemo (sim, aquele mesmo), um avião explode no ar, fazendo o Capitão América cair no Ártico e ser congelado (onde seria resgatado pelos Vingadores décadas depois) e seu parceiro de combate, Bucky Barnes, é (aparentemente) morto; voltam para outra realidade temporal onde têm que confrontar os Vingadores originais (Homem de Ferro, Thor, Gigante, Vespa e Hulk) foram manipulados por um vilão chamado Centurião Escarlate e dominaram o mundo (isto em Avengers Annual 03); retornam para casa para continuar a saga contra Ultron, que joga sua criação, O Visão, contra o time (número 57); mas este desenvolve sua própria personalidade e se une ao time contra seu criador (edição 58); enfrentam o conflito de dupla personalidade do Golias que resulta no surgimento do Jaqueta Amarela (edição 59 -60); e combatem os deuses nórdicos Surtur (do fogo) e Ysmir (do gelo) com a ajuda do Dr. Estranho (número 61).

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Demolidor e Pantera Negra juntos. Capa de Barry Windsor-Smith.

Em meio a isso, o Pantera Negra também fez uma aparição especial na revista Daredevil 52, de 1969, com roteiro do mesmo Roy Thomas (que tinha acabado de assumir a revista das mãos de Stan Lee) e o desenhista britânico Barry Windsor-Smith, na época, com uma arte bastante influenciada por Kirby. Era o início de uma longa amizade com o homem sem medo.

Trilhando seu Próprio Caminho

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A primeira aventura “solo” do Pantera, em Avengers 62. Arte de John Buscema.

O Pantera Negra ganha uma primeira aventura praticamente solo em Avengers 62, de março de 1969, ainda por Roy Thomas e John Buscema. Esta história é extremamente importante, porque é a primeira a dar uma dimensão mais política e conflituosa a Wakanda, em vez da visão idílica apresentada até aqui. Também é a primeira que começa a esboçar os conflitos internos que movem T’Challa, que neste ponto de sua trajetória nos quadrinhos, tinha deixado sua nação para trás para ingressar um time de heróis protetores do planeta.

Assim, na trama dessa clássica aventura, tendo terminado a batalha da edição anterior na Antártica, T’Challa decide levar seus companheiros Vingadores para descansar em Wakanda, mas ao chegarem lá são atacados pelo exército do país portando armas. O rei questiona os soldados porque estavam usando aquelas armas e eles respondem que o fizeram a mando de seu substituto indicado: M’Baku (que tinha aparecido brevemente em Fantastic Four 53). O herói vai conversar com o amigo em um jantar formal e M’Baku lhe explica que armou o exército porque ouvira dizer que Klaw (o Garra Sônica) iria atacar Wakanda outra vez, mas era mentira: a comida estava envenenada e T’Challa e os Vingadores terminam inconscientes.

Quando T’Challa desperta, esta vestido com seu uniforme de Pantera Negra, enquanto M’Baku está uniformizado com uma roupa de gorila branco, um totem proibido em Wakanda. Ele agora se chama Man-Ape (traduzido no Brasil geralmente como Homem-Gorila). Os dois lutam no topo de um poço atômico que abastece o país de energia e o Pantera ganha a luta, com Man-Ape caindo no poço, mas sendo salvo pelo herói. Mas o vilão se aproveita da benesse e nocauteia o Pantera, que acorda em um altar do deus pantera Bast prestes a ser sacrificado; porém, os Vingadores conseguiram se libertar e vêm em sua ajuda. Man-Ape tenta derrubar o totem da pantera em cima do herói, mas esse se desvencilha e o vilão é aparentemente esmagado pela estátua.

Avengers_Vol_1_68Curiosamente, depois dessa aventura “solo”, o Pantera Negra continuou agindo com os Vingadores, mas com um papel bastante reduzido nas histórias, pelo menos no que concerne a aprofundar sua personalidade. As aventuras se sucedem com um confronto contra o Egghead e o Espadachim (edições 63-65); uma nova investida de Ultron (números 66-68); o confronto combinado contra o Grão-Mestre e Kang, o conquistador (edições 69-71); até o herói ter novamente um conto solo na revista dos Vingadores.

Avengers_Vol_1_73Avengers 73 e 74, de 1970, ainda escritas por Roy Thomas e desenhadas por Herb Trimpe e John Buscema, respectivamente, trazem um interessante conto ainda mais politizado do que da outra vez, mostrando como Thomas ia se apropriando com mais ousadia do intenso contexto sócio-político dos EUA na época, uma postura que seria a marca da Marvel na década de 1970. Avengers_Vol_1_74

Na trama, o Pantera Negra percebe que os Filhos da Serpente, uma organização criminosa que já havia aparecido em antigas edições da revista (números 32 e 33) estavam atacando proeminentes figuras afroamericanas em Nova York. Então, a cantora Monica Lynne decide aparecer no The Dan Dunn Show, intermediada por seu assessor de imprensa, Montague Hale. Na TV, Lynne acusa o Filhos da Serpente de serem criminosos racistas e vira um alvo da organização. O Pantera decide intervir e os Vingadores se propõem a ajudar, mas ele nega o auxílio. O herói termina capturado pelos criminosos, que põem um impostor usando seu uniforme para cometer crimes na cidade. Monica continua indo ao programa de Dan Dunn e o clima racial pega fogo em Nova York, com uma série de distúrbios. Os Filhos da Serpente armam um cenário afirmando que irão desmascarar o Pantera Negra ao vivo na TV e fazê-lo pagar por seus crimes, mas T’Challa se liberta e desmancha o embuste.

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Monica Lynn na arte de Herb Trimpe.

No fim, ele descobre que os dois líderes dos Filhos da Serpente são justamente Montague Hale e Dan Dunn. A dupla explica que queria criar tensão social para que os negros se empoderassem e mudassem a situação do país. Enquanto conversam, T’Challa e Monica percebem que, apesar dos métodos totalmente errados, a causa dos vilões não era má, e os dois se comprometem em se engajar mais na luta dos negros nos EUA.

Monica Lynn passou a ser a namorada de T’Challa e uma personagem importante em suas aventuras dali em diante. O herói também passou a ter mais proeminência na revista dos Vingadores depois, disso, com a edição 77 revelando que ele adotou o nome de Luke Charles para dar aulas em uma escola de Nova York.

Avengers 78 traz o retorno de Man-Ape, com T’Challa visitando o apartamento de Monica Lynn para lhe contar a novidade sobre suas aulas, mas ela é sequestrada pelo vilão e o Pantera é derrotado em combate. Levado para um túnel de esgoto, descobre que Man-Ape montou um supergrupo de vilões ao lado de Tufão, Laser Vivo, Poderoso e Espadachim, liderados pelo Ceifador, a Legião Letal. Inicialmente, o time é derrotado, mas vence na edição seguinte.

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Capa de Daredevil 69 com arte de Sal Buscema.

O Pantera em seguida fez outra participação especial na revista Daredevil 69, de 1970, que trazia as aventuras do Demolidor, também escritas por Roy Thomas, mas com desenhos de Gene Colan, As aventuras do homem sem medo tinham um caráter mais urbano e eram ideais para abordagens como  aquela que começou a se desenvolver em Avengers. Assim, nesta edição, o Demolidor intercepta um caminhão roubado e descobre que era apenas um menino de 15 anos. O Pantera Negra se alia a ele contra uma gangue que arregimentava garotos negros para crimes, alguns dos qual alunos de T’Challa na escola em que ensinava. A gangue dos Thunderbolts seria bastante importante no cânone do personagem, voltando no futuro. Na ocasião, os dois heróis trocam suas identidades secretas, com o Demolidor revelando que é o advogado cego Matt Murdock.

De volta aos Vingadores, é importante dizer que os problemas sociais dos negros não eram os únicos abordados por Roy Thomas. Avengers 80 e 81, de 1970, abordam os problemas dos povos indígenas por meio de um herói índio: Lobo Vermelho, que teria algum futuro na Marvel.

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Em Avengers 82, praticamente todo o time de Vingadores é capturado pelo vilão Áries, do Zodíaco, e o Pantera Negra é o único que permanece livre, indo atrás do Demolidor para ajudar a livrar seus companheiros de uma execução pública, quando o exército do vilão toma a cidade inteira como refém.

Avengers_Vol_1_87Por fim, em Avengers 87, de 1971, ainda escrita por Roy Thomas, mas com arte de Sal Buscema (irmão caçula de John), tem-se novamente uma aventura solo do Pantera Negra. Na trama, os Vingadores estão apenas conversando quando T’Challa, que os outros percebem estar triste, decide contar-lhes suas origens: assim, é narrada em flashback (e com mais detalhes do que em Fantastic Four 53) a jornada do rei para se tornar o guardião de seu povo, fazendo menção à morte de seu pai; a ida aos EUA para sua educação; à volta a Wakanda para passar pelo rito de passagem que lhe transformou no Pantera Negra, com aluta contra os maiores guerreiros, passar uma noite no Templo do Deus Pantera Bast e a tomar a Erva em Formato de Coração.

Desta porém, há um detalhe acrescentado: com a morte de T’Chaka, T’Challa é criado pelo melhor amigo do pai, que tem um  filho da sua mesma idade: B’Tumba. Os dois vão para os EUA, mas T’Challa é sempre melhor do que B’Tumba, seja nos estudos, seja nos esportes, o que vai transformando seu amigo numa pessoa ciumenta e invejosa. Quando o período de educação se encerra, T’Challa volta a Wakanda, mas B’Tumba não, segue seu caminho.

Enquanto terminava seu rito de passagem, T’Challa descobre uma facção da IMA (Ideias Mecânicas Avançadas, uma organização terrorista da Marvel) tentando roubar o vibranium de Wakanda. Vestido como Pantera Negra, ele combate os criminosos, mas descobre que B’Tumba é um deles! Encarregado de executar o ex-amigo, B’Tumba não consegue, e trai a IMA, mas é morto no processo.

Ao fim da narrativa, T’Challa explica aos Vingadores que recebeu a comunicação da morte de N’Baza, que estava governando Wakanda em sua ausência. Assim, ele devia reassumir seu posto de rei ou deixá-lo para sempre.

Participações Especiais

Astonishing_Tales_Vol_1_7Em sequência, o Pantera Negra apareceu como opositor do vilão Dr. Destino, na série de histórias que recebia na revista Astonishing Tales 06 e 07, de 1971, com texto de Larry Lieber e desenhos de George Tuska, na primeira; e texto de Gerry Conway e arte de Gene Colan na segunda. Na trama, Victor Von Doom descobre a existência do vibranium e vai a Wakanda roubá-lo, no que é impedido pelo Pantera Negra. Os dois teriam uma duradoura ligação conflituosa dali em diante.

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Arte de John Buscema.

Depois de seis meses fora das bancas, o personagem voltou à revista do Quarteto Fantástico, sua casa inicial, aparecendo em Fantastic Four 119, de fevereiro de 1972, também escrita por Roy Thomas e desenhada por John Buscema. Essa aparição é importante por dois motivos. O primeiro é que nesta aventura, T’Challa adota o nome de Leopardo Negro (Black Leopard) e explica explicitamente aos amigos do Quarteto que decidiu usar o nome para não ser associado com “algumas organizações” dos Estados Unidos. Na verdade, era a Marvel tendo que responder à pressão governamental, numa era de Governo Nixon e de grande perseguição aos Panteras Negras, que revidavam com resistência armada. Mas esta foi a única ocasião em que o personagem adotou esse nome, voltando ao original na aparição seguinte.

A outra importância é que apresentada pela primeira vez o país de Rudyarda, um vizinho de Wakanda na qual existia um Governo segregacionista, em que brancos e negros viviam separadamente. Na aventura, O Coisa e o Tocha Humana descobrem que T’Challa está preso e este revela que fora aprisionado porque foi parado na rua e não tinha a Carteira de Identidade que todos os negros precisavam portar.

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Avengers 100. Arte de Barry Windsor-Smith.

O Pantera Negra faz uma participação rápida em Avengers 99, tentando ajudar os Vingadores em um procedimento científico, mas luta novamente ao lado de seus companheiros contra os deuses do Olimpo em Avengers 100, de 1972, escrita ainda por Roty Thomas e com desenhos de Barry Windsor-Smith.

Em seguida, outra participação especial na revista Daredevil 92, em 1972, na qual reportagens de jornal começam a insinuar que Matt Murdock é o Demolidor, por causa de seu envolvimento com a Viúva Negra, que não tem identidade secreta. Assim, T’Challa vai a San Francisco apenas para se vestir de Demolidor e aparecer ao lado de seu amigo Murdock para as câmeras e desfazer os boatos.

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Avengers 112 e a história do Deus Leão. Arte de Don Heck.

O Pantera retornou pouco tempo depois, em Avengers 105, já escrita por Steve Englehart, na qual volta a ser membro da equipe, primeiro num arco contra o Ceifador e o Fantasma do Espaço até a edição 108 (com desenhos de Rick Buckler, George Tuska, Jim Starlin e Don Heck alternadamente); depois contra Magneto; mas tem uma aventura mais pessoal em Avengers 112, de 1973. Nesta, Englehart e Heck entregam uma história na qual surge na África um Deus Leão de verdade, que quer se bater contra o Pantera Negra, porque ele é o espírito do Deus Pantera; e o herói triunfa. E Deus Leão já voltaria em breve, em Avengers 114, onde seria novamente derrotado.

Avengers_Vol_1_122O Pantera permaneceu como membro dos Vingadores por outro período, participando da saga Vingadores versus Defensores, que ocorreu em seguida; numa grande batalha contra o Zodíaco entre Avengers 120 e 122, de 1974, escrita por Steve Englehart e desenhada por Bob Brown; e a batalha contra Thanos, na edição 125, com arte de John Buscema.

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A despedida dos Vingadores.

O ciclo se fecha com Avengers 126, de 1974, quando T’Challa é visitado, em Nova York, pelo embaixador de Rudayarda, o país segregacionista vizinho de Wakanda, pedindo a ajuda dos Vingadores para combater um risco à sua nação. Mas na verdade, o embaixador é o Garra Sônica. A aventura faz T’Challa pensar em suas obrigações com Wakanda e ele abandona os Vingadores, só retornando à equipe três anos depois, na edição 159.

É curioso que quando isso ocorreu, o herói já tinha aventuras solo publicadas há mais de seis meses. Porém, para efeitos cronológicos, este é o ponto de partida para seu próximo e mais importante capítulo como personagem até então.

De Volta a Wakanda

Neste ponto editorial, o Pantera Negra já era publicado em duas revistas ao mesmo tempo, embora, em Vingadores não houvesse ainda menção às suas novas aventuras solo. Com a chegada dos anos 1970, a Marvel investiu pesado na diversificação de seu material. Mesmo que os heróis tradicionais continuassem a ser o carro-chefe da editora, foram feitas muitas apostas de ampliação desse espectro, com heróis cósmicos (Capitão Marvel e Adam Warlock); aumento do núcleo afrodescentente (com o Falcão e as aventuras de Luke Cage); artes marciais (Mestre do Kung-Fu e Punho de Ferro); além de histórias de terror (Werewolf by the Night); de vampiros (The Tumb of Dracula); e fantasia (Conan, o bárbaro e Rei Kull).

Nessa linha, foi lançada a revista Jungle Action (vol. 2), em 1973, com o propósito de publicar histórias, como diz o título, na selva, retomando velhos personagens como Kazar (o Tarzan da Marvel) e Jann of the Jungle, algumas das histórias sendo republicações do material dos anos 1950. Como isso não deu certo, logo a partir de Jungle Action (vol. 2) 05, de julho de 1973, decidiu-se focar a revista nas aventuras do Pantera Negra. E deu supercerto.

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A estreia em Jungle Action, com capa de John Romita.

A edição 05, na verdade, era apenas a preparação de terreno, pois era uma republicação de Avengers 62 ( de quatro anos antes), por Roy Thomas e John Buscema; a aventura em que Man-Ape confronta T’Challa pela primeira vez; embalada agora em uma belíssima nova capa de John Romita. Esta aventura foi escolhida porque, dentre todas as outras dos Vingadores, essa era a que melhor fazia uma ambientação de Wakanda e permitia aos novos leitores adentrarem melhor no mundo do herói. E outro ponto interessante é que a capa de Romita não faz menção aos Vingadores que efetivamente aparecem na história, servindo para dar T’Challa seu próprio espaço e que os leitores chegasse nele pelo próprio mérito do personagem.

Era só o aperitivo para o que vinha a seguir. Jungle Action 06 dá origem ao que ficou conhecido como The Panther’s Rage, um longo arco de histórias que é o mais famoso do personagem e para muitos leitores o melhor de todos. Também é bastante inovador porque, longe do apelo de massas de títulos como o dos Vingadores, essas aventuras solo do Pantera Negra se desenvolveram como uma história focada em personagens e que se arrastava por várias edições seguidas, e não nos capítulos rápidos de dois ou três edições como era comum nos títulos de maior sucesso.

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O início de The Panther’s Rage. Arte de Rick Buckler.

A trama foi criada pelo escritor Don McGregor, com desenhos de Rick Buckler, que já tinha desenhado o herói na revista dos Vingadores. Jungle Action 06 é histórica não apenas por ser a primeira aventura solo “de verdade” do Pantera Negra, mas por dar início à exploração intensa de sua rica mitologia e da criação de sua melhor história.

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Don McGregor na redação da Marvel nos anos 1970: primeiro a explorar a fundo o potencial do Pantera Negra.

Na trama de Panther’s Rage, T’Challa volta a Wakanda (acompanhada da namorada, a cantora Monica Lynn) depois de sua passagem com os Vingadores e encontra seu país mergulhado em conflitos, pois um homem chamado Eric Killmonger está promovendo uma insurreição nas pequenas vilas. T’Challa vai enfrentar Killmonger e este o põe para lutar contra seu leopardo. O herói vence, mas está esgotado, e é lançado pelo vilão de uma cachoeira. A primeira edição ainda traz de bônus um mapa de Wakanda.

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Versão moderna do mapa de Wakanda.

A saga segue adiante encantando os leitores, Killmonger quer ser o novo rei de Wakanda porque se acha mais digno do que T’Challa e vai reunindo uma série de oponentes para o herói, como Venomm, que aparece na edição 07; e ao ser derrotado tem uma tentativa de resgate por parte de sua namorada, Malice, que é a assassina-chefe de Killmonger (número 08); em seguida saindo contra o Barão Macabro (edição 09), mas com a trama se aprofundando na medida que Monica é acusada de assassinato e uma conspiração é descoberta a partir de uma série de túneis subterrâneos em Wakanda.Jungle_Action_Vol_2_9

Arte é assumida por Billy Graham a partir da edição 09, as capas são assumidas por Gil Kane e Panther’s Rage conclui em Jungle Action 18, de dezembro de 1975, com uma capa especial de Jack Kirby, o criador visual do Pantera. Na história, T’challa consegue conter a ação de Killmonger e seus asseclas.

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Capa de Jack Kirby para a edição 18.

Começa então um novo arco, The Panther vs. The Klan, na qual o Pantera Negra combate a Ku Klux Klan, ainda por McGregor e Graham, que se desenvolveu entre Jungle Action 19 e 22, até 1976, numa história que gerou bastante controvérsia por causa de seu tema contra o racismo. Na trama, T’Challa vai aos Estados Unidos conhecer a família de Monica Lynn, na Georgia, e termina confrontando a KKK, que continua a matar negros no sul do país.

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O arco contra a Ku Klux Klan.

Curiosamente, Jungle Action 23 não trouxe uma nova história. Em vez disso, republicou a história de Daredevil 69 (de seis anos antes!) na qual o Pantera Negra e o Demolidor combatem a gangue Thunderbolts que usa jovens negros. A capa da revista, porém, desenhada por John Byrne, um dos novos artistas-sensação da Marvel, virou uma das imagens mais conhecidas do personagem. A chamada da capa também não faz menção ao Demolidor, tal qual a edição 05 não fazia aos Vingadores.

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Capa de John Byrne.
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Capa de Gil Kane.

Jungle Action 24, de novembro de 1976, é a última edição da revista. Infelizmente, em meio a uma crise que atingia todo o mercado editorial dos EUA no fim da década, as revistas que não tinham vendas excepcionais foram canceladas. Jungle Action era extremamente bem recebida pela crítica especializada e consumida de modo voraz pelo público universitário dos EUA, principalmente os afrodescendentes, porém, como não atingia a massa, foi descontinuada. Curiosamente,  aquela edição iniciava um novo arco de Don McGregor e Billy Graham (contra um vilão chamado Wind Eagle) e a história foi simplesmente abandonada.

As Aventuras de Kirby

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Black Panther 01, de Jack Kirby.

Contudo, os planos da Marvel não eram deixar o Pantera Negra fora de circulação. Pelo contrário. Na época, o artista Jack Kirby tinha voltado à editora após cinco anos na DC Comics; e voltou com todo o direito que The King tinha, como o maior artista da história das HQs. Assim, a Kirby foram dados plenos poderes para escrever, desenhar e editar as revistas que trabalhassem. Dentre os trabalhos que desenvolveu para a Marvel na época (como Os Eternos e a viajante adaptação de 2001 – Uma Odisseia no Espaço) se destacam o Capitão América e o Pantera Negra.

Porém, Kirby não estava nem um pingo interessado em prosseguir o trabalho de outra pessoa. Assim, descartou totalmente o plot de Jungle Action e começou do zero, com nova ambientação, novos coadjuvantes e novos inimigos; sem menção às suas aventuras recentes. Desse modo estreou Black Panther 01, em janeiro de 1977, a primeira revista solo “de verdade” de T’Chala, ostentando seu nome na capa.

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Arte de Jack Kirby.

As aventuras de Kirby eram viajantes e extremas, como se nota a sinopse de sua aventura: T’Challa conhece um pesquisador chamado Abner Little (chamado de Mr.Little) que lhe apresenta o Sapo de Salomão, uma relíquia valiosíssima que teria pertencido ao avô do rei de Wakanda. Curioso, o herói vai conhecer a peça e descobre que o tal Sapo é um tipo de dispositivo que manipula o tempo. Assim, enquanto T’Challa e Little se apossam do artefato e procuram pela Tumba de Salomão, são perseguidos pela vilã Princesa Zanda; mas ao manipular o Sapo de Salomão trazem para o presente um habitante da Terra de seis milhões de anos no futuro, chamado Hatch-22, que dispara rajadas mentais e tentam matá-los; os heróis precisam buscar, então, uma peça-irmã do Sapo para levar o alien de volta ao seu tempo; assim, encontram a Tumba do Rei Salomão e a outra metade do Sapo e mandam Hatch-22 de volta ao futuro; mas Zanda coloca Os Colecionadores no encalço do Pantera e Little, e a dupla precisa encarar o Samurai Pele-D’Água. Então, as coisas começam a piorar quando o meio-irmão de T’Challa, o General Jakarra decide dar um golpe de Estado em Wakanda.

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Última edição de Kirby.

Infelizmente, apesar da arte estonteante, as tramas de Kirby não caíram bem no gosto do público, o que gerou insatisfação na redação da Marvel. O Rei dos Quadrinhos, assim, encerrou abruptamente sua participação em Black Panther 12, de 1978, deixando a trama do vilão Kiber incompleta.

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Hannigan e Bingham fecham a história.

A edição 13 fecha o ciclo apropriadamente, com o novo editor-chefe da Marvel, Jim Shooter provendo a trama, o escritor Ed Hannigan fazendo o roteiro e Jerry Bingham a arte.

Em Busca de Um Lugar

Marvel_Premiere_Vol_1_52A fase comandada por Ed Hanningan e Jerry Bingham começa mesmo em Black Panther 14, de março de 1978, quando T’Challa aparece no Prédio da ONU em Nova York e declara que a antes reclusa nação de Wakanda agora irá manter relações diplomáticas com o mundo, introduzindo o personagem do embaixador Omoro. Rondando pela cidade, o Pantera Negra encontra um enfraquecido Garra Sônica, que não apenas é derrotado, mas tem sua arma geradora de som sólido roubada pela gangue dos Thunderbolts, aquela mesma de Daredevil 69/ Jungle Action 23. Ao mesmo tempo, descobrimos que a ex-namorada Monica Lynn e o vilão Wind Eagle (que aparecera na última Jungle Action) também estão atrás do herói. O Pantera leva o corpo de Klaw para os Vingadores, mas os Thunderbolts atacam e o Capitão América se junta a ele para detê-los.

A edição 15 tem uma participação ainda maior dos Vingadores, com o Visão e outros membros levando Klaw ao porto para despachá-lo para Wakanda, mas são surpreendidos pelos Thunderbolts usando a arma de Klaw. Um dos raios atinge o vilão e o Garra Sônica volta à  vida mais poderoso do que nunca. Mas o Pantera Negra se une ao time e usa a arma de Klaw contra ele mesmo, e o corpo do vilão se dissolve. Enquanto Omoro recebe Monica Lynn na Embaixada de Wakanda, o Wind Eagle aparece para atacar o Pantera.

Mas a mudança de Kirby para Hannigan-Bingham veio tarde demais, e Black Panther foi cancelada justamente no número 15. A aventura incompleta do herói seria publicada na revista Marvel Premiere 51 a 53, apenas um ano e sete meses depois, em dezembro de 1979. A trama de Hannigan e Bingham procura explicar porque Monica Lynn e o restante do elenco do Pantera “desapareceu” na fase de Kirby. O motivo seria que T’Challa teria sido sequestrado pela Ku Klux Klan em segredo e suas memórias teriam sido apagadas. Ao descobrir isso, por meio de Lynn e Omoro, o herói se volta novamente contra a KKK, concluindo a ação na edição 53 daquela revista, já em fevereiro de 1980.

Também Vingador

É importante frisar que na maior parte desse ciclo final de aventuras do Pantera Negra – a partir da fase de Jack Kirby, essencialmente – o herói também esteve na revista dos Vingadores, em paralelo.

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Avengers 162 traz A Noiva de Ultron.

Após três anos afastado do time, T’Challa retorna aos Vingadores em Avengers 159, de 1977, bem no comecinho da fase do escritor (e em breve novo editor-chefe da Marvel) Jim Shooter, contando com os desenhos maravilhosos de George Perez, um dos mais importantes da época. Inclusive, na edição 160, o vilão Ceifador retorna para se vingar do Visão, e é o Pantera Negra quem tem que decidir quem deve morrer: o sintozoide ou o homem de quem ele herdou os padrões mentais, Magnum, irmão do vilão. Mas claro, o herói dá um jeito de vencer a batalha.

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Avengers 181 traz 16 Vingadores e os Guardiões da Galáxia: Arte de John Byrne.

A fase de Jim Shooter nos Vingadores – assim como a de Roy Thomas dez anos antes – é uma das melhores e mais importantes na longa trajetória dos Maiores Heróis da Terra, se desenvolvendo por meio de arcos famosos e essenciais, como A Noive de Ultron (Avengers 161 a 163); A Trilogia Nefária (edições 164 a 166 – esta belamente desenhada por John Byrne) e A Saga de Korvac (edições 167 a 177, já em 1978), que é uma das maiores batalhas já enfrentadas pela equipe. (Saiba mais no nosso Dossiê sobre os Vingadores!)

O Pantera Negra encerra sua participação na equipe em Avengers 181, de 1978. É interessante notar que quando isso aconteceu, as aventuras solo de T’Challa ainda estavam sendo publicadas e só se encerrariam dois anos depois. Mas de qualquer modo, o herói não retornaria a ser um membro fixo dos Vingadores por mais de 20 anos!!!

Retornos Pontuais

Black_Panther_Vol_2_1Infelizmente, dado o fim de suas aventura solo em 1980 e seu desligamento dos Vingadores dois anos antes, o Pantera Negra passou a maior parte dos anos 1980 longe das bancas, aparecendo apenas ocasionalmente como convidado especial em uma revista ou outra.

O herói só retornaria a ter uma aventura própria com o lançamento de sua primeira minissérie, que no sistema de classificação da Marvel é considerada a revista Black Panther (vol. 2) 01 a 04, de 1988. A trama foi escrita por Peter B. Gillis e desenhada por Dennys Cowan e traz uma trama essencialmente política, muito afinada ao ainda existente Aparthaid da África do Sul, que era referendado nas aventuras do personagem desde as aventuras de Roy Thomas nos anos 1960!

Black_Panther_Vol_2_2Na trama da minissérie, T’Challa é atacado por duas panteras negras, o que devia ser impossível, e indica que o espírito de Bast, o deus pantera, deixou seu corpo. Paralelamente, o país vizinho de Azania vive um regime de Aparthaid e é abalado por um movimento revolucionário opositor, que ganha a adesão de um homem que se transforma em um felino humanoide, o Man-Cat. Paralelamente, o herói precisa recuperar o espírito da pantera e, para isso, tem que subir nas míticas montanhas dos Gorilas Brancos e trazer a folha de uma árvore que só cresce lá. Mas sem T’Challa saber, seu amigo (e embaixador de Wakanda) Moise Bomvana trapaceia para ajudá-lo, usando um artefato que enfraquece os Gorilas Brancos, o que leva o rei a ter que encarar um julgamento.

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O Pantera Negra contra o deus Bast. Arte de Dennis Cowan.

Depois, T’Challa precisa enfrentar os Supremacistas, um grupo de “super-heróis” racistas que querem proteger o povo (branco) de Azania. O herói vence, mas isso cria um enorme tensão política entre Wakanda e Azania, de modo que este chega a declarar guerra à terra do Pantera Negra. O herói precisa até impedir um míssil nuclear lançado contra Wakanda; antes de chegar até o Man-Cat e derrotá-lo, mas ele era apenas um fantoche do próprio deus Bast e T’Challa é obrigado a enfrentá-lo em batalha. O herói, claro, perde, e quando acorda Bast lhe diz que tirou seus poderes porque ele não ajudou o povo de Azania. T’Challa se mostra arrependido e promete dedicar todo seu tempo à ajudar nessa questão.

Esta aventura foi um interessante retrato do Aparthaid da África do Sul, que naquele tempo viva tempos muitos tensos, com a prisão de Nelson Mandela completando 20 anos e a pressão internacional para que o líder dos negros fosse liberto, o que ainda só ocorreria anos mais tarde, em 1990. Mandela ganharia o Prêmio Nobel da Paz em 1993 e no ano seguinte seria eleito Presidente da África do Sul, coroando sua trajetória como o mais importante líder negro do continente africano.

panther's quest hardcoverA história foi bem recebida pela crítica e o Pantera Negra estreou uma nova série de aventuras, novamente escritas por Don McGregor, mas agora, com arte do magnífico Gene Colan. Infelizmente, a saga Panther’s Quest foi publicada de modo pulverizado: 25 capítulos com histórias de 08 páginas na revista quinzenal Marvel Comics Present (números 13 até o 37, durante todo o ano de 1989). Depois, a história foi reunida numa coletânea, que permite a melhor fruição da trama: T’Challa descobre que a mãe que nunca conheceu pode estar viva e feita prisioneira na África do Sul! Assim, o herói usará todas as suas habilidades para combater o regime do Aparthaid e encontrar sua mãe, Ramonda, que é mantida cativa há muito anos pelo regime.

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A bela arte de Gene Colan em Panther’s Quest.

Note que dessa vez, não foram usados subterfúgios e o problema da África do Sul foi abordado diretamente, sem metáforas. Era mais um indicativo da crescente pressão internacional que crescia sobre a nação africana e que resultaria na libertação de Mandela no ano seguinte.

Black_Panther_Panther's_Prey_Vol_1_1Criticamente aclamada, aquela história permitiu a Don McGregor retornar ao personagem mais uma vez, dessa vez, com uma minissérie regular de quatro edições chamada Black Panther’s Prey, publicada de dezembro de 1990 a março de 1991. Desta vez, o escritor trabalhou com o desenhista Dwayne Turner e abordou o problemas das drogas.

Na trama, enquanto leva sua mãe de volta para Wakanda e planeja se casar com a cantora Monica Lynn, o Pantera Negra descobre que traficantes de drogas se instalaram nas minas de vibranium em seu país, o que desencadeia uma epidemia de uso de crack; ao mesmo tempo em que surge um novo terrível vilão chamado Solomon Prey, que faz experimentos científicos em si mesmo para se transformar num monstro capaz de derrotar o ex-vingador.

Black_Panther_Panther's_Prey_Vol_1_3Apesar da bela arte, o tema mais pesado e urbano das drogas, abordando a ascensão do crack que também ocorria nos EUA naquele momento, não caiu no gosto do público. Isso trouxe um pequeno problema cronológico (e editorial) para o herói: no fim da minissérie, T”Challa desiste do casamento com Monica, mas não são dadas as explicações, porque Don McGregor havia planejado uma nova história (sua quinta saga com o herói) na qual iria explorar este fato. Porém, com a má recepção de Prey, a Marvel engavetou o projeto e a não concretização do casamento ficou sem explicação. E, para piorar, a trama não foi retomada pelos escritores seguintes.

Nova Revista Própria

Black_Panther_Vol_3_1O reveze deixou o Pantera Negra afastado dos quadrinhos (pelo menos como um personagem recorrente) por muito tempo. Para piorar, a Marvel Comics e o mercado de quadrinhos quase implodiram numa grave crise no meio da década de 1990, o que desfavoreceu que personagens menos populares tivessem histórias publicadas. A Marvel chegou ao limite de pedir concordata em 1997 e foi estabelecido um plano de recuperação para que a empresa não fechasse as portas. Parte do plano envolveu a criação de histórias melhores, com melhor qualidade e de grande impacto.

Black_Panther_Vol_3_5Assim, o desenhista e editor Joe Quesada teve a ideia de criar um selo chamado Marvel Knights, dedicado principalmente aos heróis mais urbanos (e “pés no chão”) que passariam a ter histórias mais realistas e com abordagem mais adulta, mirando num público mais sofisticado. O resultado foi revistas incríveis de personagens como Demolidor, Justiceiro e até mesmo alguns medalhões, como Homem-Aranha, a partir de 1998. O Pantera Negra foi outro beneficiado do movimento, que foi tão bem sucedido que Quesada se tornou o editor-chefe da Marvel dois anos depois, em 2000, permanecendo no cargo por dez anos e, ainda hoje, sendo homem de cúpula da editora, seu Diretor Criativo.

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Christopher Priest (ex-Jim Owsley).

Black Panther (vol. 3) estreou em novembro de 1998, com roteiros de Christopher Priest e desenhos de Marc Texera. Essa fase é bastante importante por vários motivos. Em primeiro lugar, Priest (que nos anos 1980 assinava suas histórias como Jim Owsley) era o primeiro escritor afroamericano a escrever as histórias do Pantera Negra, o que é um grande feito, 22 anos após sua criação. Sem dúvida, todos os escritores que trabalharam longamente com T’Challa nas décadas anteriores eram extremamente talentosos, porém, todos eram caucasianos. Priest tinha condições de se relacionar com o personagem de maneira diferente e, além disso, era um fã incodicional da fase Panther’s Rage de Don McGregor nos anos 1970, considerando-a o melhor trabalho já realizado nas HQs de super-heróis.

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Christopher Priest, assim, resgatou muitos dos personagens e tramas de Rage, como Erik Killmonger, Barão Macabro e Venomm, mas também acrescentou uma série de novos personagens, que se tornaram itens essenciais do cânone do herói, como Zuri (o leal guerreiro amigo de seu pai); a ordem Dora Milaje com suas duas notórias guerreiras, Okoye e Nakia; o meio irmão de T’Challa, Hunter; a sua protegida Queen Divine Justice; e Everett K. Ross, o homem do Departamento de Estado dos EUA, que servia como um tipo de ponte entre o país e Wakanda.

Black_Panther_Vol_3_26As tramas de Priest alteravam entre Wakanda e Nova York; traziam os velhos vilões em novas abordagens; e também não isolaram o herói do contato com o resto do Universo Marvel, trazendo várias participações especiais ao longo de suas primeiras 50 edições, como o Capitão América (mais de uma vez), os Vingadores, Hulk, Wolverine etc. Também foram nessas aventuras em que começou o romance entre T’Challa e a também africana Ororo Monroe, a Tempestade dos X-Men.

Black_Panther_Vol_3_52Quando a fase começou a cansar, em busca de uma novidade para aquecer as vendas, a Marvel e Priest fizeram com que o coadjuvante Kevin Cole, um policial mestiço de Nova York, se tornasse o novo Pantera Negra, enquanto T’Challa virara um coadjuvante em sua própria revista. Por mais estranho que fosse o conceito, ele ainda durou por um ano inteiro, pois a fase se estendeu entre Black Panther (vol. 3) 50 a 62, entre 2002 e 2003. No último número da revista, T’Challa retoma o manto do Pantera Negra e Cole assume a identidade do Tigre Branco (um velho herói da Marvel dos anos 1970 e que na época estava morto), com suas aventuras sendo retratadas na revista The Claw, que teve somente sete edições.

Uma Fase Dourada

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A capa de Black Panther (vol. 4) 01, por John Romita Jr.

Com o fim do Vol. 3, a Marvel decidiu zerar a numeração e iniciar uma fase totalmente nova. Para dar novamente peso ao Pantera Negra, a editora contratou o escritor e diretor de cinema Reginald Hudlin para assumir a revista. Hudlin era um cineasta que trazia militância do movimento de reconhecimento dos afroamericanos, tendo dirigido filmes de grande caráter étnico, como Festa de Arromba (House Party, 1990); O Príncipe das Mulheres (Boomerang, 1992), com Eddie Murphy no auge da carreira; The Great White Hype (1996); The Ladies Man (2000); e Marshall (2017), sobre Turgood Marshall, o primeiro negro a chegar à Alta Corte dos Estados Unidos, estrelado por Chadwick Boseman (esse nome lhe soa familiar?).

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O diretor de cinema Reginald Hudlin foi o principal escritor do Pantera Negra nos anos 2000.

Hudlin também foi Presidente de Entretenimento da Black Entertainment Television (BET) entre 2005 e 2008; foi produtor de Django Livre (2012) de Quetin Tarantino; e dirigiu episódios de Modern Family, The Office e The Middle.

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Wakanda na arte exuberante de John Romita Jr.

Assim, foi com grande alarde que a Marvel lançou Black Panther (vol. 4) 01, em abril de 2005, com textos de Reginald Hudlin e arte do desenhista-sensação da editora John Romita Jr., filho do lendário artista que fez muitas das capas da Marvel nos anos 1960 e 70. A trama do primeiro arco, Who is the Black Panther?, foi até a edição 07 e investigava as origens e a essência do personagem, trazendo de volta toda a exuberante ambientação em Wakanda com todo o contexto, interações e conflitos criados tanto por Don McGregor quanto por Christopher Priest no início de sua temporada. Também há uma adição fundamental ao cânone do personagem: a irmã de T’Challa, Shuri, que aparece no número 02.

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Uma jovem S’huri na arte de John Romita Jr.

A história envolve T’Challa contando a história do Pantera Negra e seus antepassados, enquanto velhos inimigos como Klaw e Erik Killmonger estão de volta. Além disso, outros personagens afrodescendentes como Luke Cage, Blade, Irmão Vodoo e Monica Rambeau (a ex-Capitã Marvel e atual Fótom) interagem com o T’Challa.

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A edição do casamento.

A partir da edição 14, já com desenhos de Scott Eaton, começa o arco mais famoso: The Bride of the Panther na qual T’Challa precisa lidar com uma questão inevitável a qualquer rei: se casar. O herói contempla várias possibilidades, inclusive com Monica Rambeau (Fótom) sendo a preferida de Zuri, que a considerava a “deusa do sol” por seus fantásticos poderes de manipular a luz. Mas T’Challa termina optando por Ororo Monroe, a Tempestade dos X-Men, que já havia parecido em um crossover com a revista nas edição 08. O arco se encerra em Black Panther (vol. 4) 17, de 2006, na qual T’Challa e Ororo se casam, e ela se torna a Rainha de Wakanda.

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Crossover com Guerra Civil. Capa por Michael Turner.

O ritmo da revista foi atrapalhado pela necessidade irritante de se conectar ao restante do Universo Marvel e suas sagas, especialmente, aquelas relacionadas aos Vingadores de Brian Michael Bendis que eram publicados em paralelo, como House of M (edição 07), Guerra Civil (números 22 a 25, de 2007) e The Iniciative (números 26 a 30). Em Guerra Civil, o Pantera se alia à facção dissidente do Capitão América, que luta contra os legalista de Tony Stark, o Homem de Ferro, que apoiam a Lei de Registro de Superseres. Os antenados vão perceber que isto é diferente do cinema, na qual em Capitão América – Guerra Civil, na qual T’Challa está aliado ao Homem de Ferro (mas não porque concorda com a Lei, mas porque quer vingança contra o Soldado Invernal).

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A Volta de Erik Killmonger. Capa por Alan Davis.

Uma segunda etapa do Vol. 4 começa em Black Panther 31, de 2007, numa batalha contra o Homem-Psíquico (o inimigo que combateu ao lado do Quarteto Fantástico nos anos 1960), seguido do arco Back to Africa, na qual após passar boa parte do tempo nos EUA (em vista da necessidade de interagir com os Vingadores), T’Challa retorna para Wakanda e precisa enfrentar a nova ameaça de Erik Killmonger, numa atualização das questões tribais e étnicas que dividem Wakanda (e de modo metafórico, a África), que é considerado outro dos pontos altos do volume, ainda com textos de Hudlin e desenhos de Francis Portela e capas de Alan Davis; e se encerra na edição 38, de 2008, que também termina a longa temporada de Hudlin à frente do título.

A partir de então, o Vol. 4 passou às mãos do escritor Jason Aaron, que se tornaria um importante editor da Marvel em breve, trabalhando com o desenhista Jeffe Palo, mas foi apenas um paliativo para encerrar a revista, na edição 41, com este último arco conectado à saga Invasão Secreta, dos Vingadores.

Shuri, a Pantera Negra

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S’huri se torna a Pantera Negra.

Houve apenas um pequeno hiato longe das bancas, mas como era a prática da Marvel na época, a cada par anos as revistas principais eram zeradas em novos volumes. Assim, em abril de 2009, estreava Black Panther (vol. 5) 01, novamente com Reginald Hudlin no roteiro, ao lado de Ken Leshley na arte; com uma trama que explorava o fato de Shuri, a irmã de T’Challa, se tornar a nova Pantera Negra de Wakanda.

Na trama de The Deadliest of the Species, que seguiu até a edição 07, é contada a história de que Shuri sempre quis ser a Pantera Negra, mas não tinha as habilidades necessárias. Inclusive, é mostrado um flashback reatroativo (retcon) na qual quando da disputa por um novo titular do cargo, o tio deles S’Yan era o Pantera Negra, mas na hora de ser desafiado por um guerreiro de Wakanda, S’huri não se candidatou rápido o suficiente e um mascarado o derrotou, revelando-se T’Challa, que se tornava o novo Pantera Negra. Mas nesta história, em meio ao ataque do Dr. Destino (Doctor Doom) a Wakanda, surge a ameaça do Culto do Leão e o vilão Morlun que precisam ser defendidos por uma nova Pantera Negra: S’huri!

O arco também tem uma subtrama que seria importante num futuro próximo: Namor, o príncipe submarino se aproxima de T’Challa, estabelecendo relações diplomáticas entre Wakanda e o reino submarino de Atlântida. Namor (que já foi inimigo da humanidade no passado), alerta T’Challa que o vilão Norman Osborn (o Duende Verde, que havia se tornado um homem de confiança do Governo dos EUA e novo Diretor da SHIELD) estava recrutando um grupo secreto de seres poderosos e influentes chamado Cabala, em oposição ao também altamente secreto dos Iluminatti (que reunia representantes das raças que habitavam a Terra, como os humanos [Tony Stark, o Homem de Ferro], os humanos aprimorados [que ganharam superpoderes, por meio de Reed Richards, o Sr. Fantástico], os mutantes [Charles Xavier, o Professor X], os atlantes [Namor], os Inumanos [Raio Negro], e os magos [Doutor Estranho]). A Cabala reunia Namor, Loki e Osborn junto a outros vilões. Mas T’Challa diz que não quis se envolver nos Iluminatti e não o faria na Cabala de Osborn.

Black_Panther_Vol_5_7A partir de Black Panther (vol. 5) 08, a revista passa ao comando de Jonathan Mabery e o desenhista Will Conrad, com a Pantera Negra S’huri sendo a protagonista do título, que se encerra na edição 12, de janeiro de 2010.

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A minissérie Doomwar, com capa por John Romita Jr.

Curiosamente, a história continuava, migrando para a minissérie Doomwar, publicada em 6 partes, ainda com texto de Mabery, mas arte de Scott Eaton, continuando a luta contra o Dr. Destino.

T’Challa, o Demolidor

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O Pantera Negra migra para a revista do Demolidor.

Enquanto S’huri permanecia em Wakanda como a Pantera Negra, T’Challa migrou para os Estados Unidos para ajudar mais uma vez seu velho amigo Matt Murdock, o Demolidor. T’Challa assume a identidade de Sr. Okonkwo, um imigrante da República do Congo e dono de um pequeno restaurante, como uma estratégia de viver mais próximo das pessoas e proteger a Cozinha do Inferno, o bairro de Murdock, que estava dado como morto no período. Isso começa na revista Daredevil 513, de fevereiro de 2011, que a partir de então, mudou de nome e se tornou Black Panther: The Man Without Fear, adotando o apelido, a revista e os coadjuvantes do Demolidor. Foi uma experiência interessante, com roteiro de David Liss e arte de Francesco Francavilla.

Black_Panther_The_Most_Dangerous_Man_Alive!_Vol_1_523.1Ao longo de dez edições, o Pantera Negra cruzou o caminho com o Homem-Aranha e Luke Cage e confrontou Kraven, o Caçador e o Monge do Ódio, num crossover com outra saga dos Vingadores: Fear Itself.

Black_Panther_The_Most_Dangerous_Man_Alive!_Vol_1_525Na edição 523, de novembro de 2011, a revista mudou o nome de novo para Black Panther: The Most Dangerous Man Alive, na qual o Pantera Negra tem que combater o Tentáculo, agora liderado por Wilson Fisk, o Rei do Crime, e confrontar duas vilãs do Demolidor: Lady Bullseye e Typhoid Mary. Esta fase continuou com roteiros de David Liss e arte de Shawn Martinborough, com belíssimas capas de Francesco Francavilla. Foi outra boa fase do personagem, explorando sua aplicabilidade em um cenário urbano.

Black_Panther_The_Most_Dangerous_Man_Alive!_Vol_1_529A fase se encerrou na edição 529, de abril de 2012.

Participações Especiais

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De volta à revista do Quarteto Fantástico.

Apesar de ser bastante bem recebida pela crítica, aquela aventura não foi o suficiente para o Pantera Negra voltar a ter uma revista própria, então, T’Challa migrou para a revista do Quarteto Fantástico, sua casa original, participando de Fantastic Four 607 e 608, de 2012, em meio à aclamada fase de Jonathan Hickman, com desenhos de Giuseppe Camuncolli.

Na trama, T’Challa volta a Wakanda querendo voltar a ter “oficialmente” o título de Pantera Negra, mas sem que isso implique na destituição de S’huri, que é a portadora do espírito da pantera. No fim, T’Challa confronta Anubi, a deusa da morte, e ao lado de Bast faz um acordo com ela: S’huri continuará a ser a Pantera Negra de Wakanda, mas T’Challa ganha os poderes de Anubi e a memória de todos os Panteras Negras que já existiram, se tornando o Rei dos Reis, o Campeão de Bast, e reinando em Necropolis, uma cidade subterrânea que existe embaixo de Wakanda.

AVX_Vs_Vol_1_5Outra importante participação de T’Challa foi no megaevento Avengers vs X-Men, escrito por Brian Michael Bendis e desenhado por John Romita Jr. Na trama, a Força Fênix (que teve Jean Grey como hospedeira no passado) retorna à Terra, mas Ciclope, o líder dos X-Men acha que aquilo é uma boa coisa, que pode ajudar os mutantes a evitar a eminente extinção. Mas os Vingadores – com Homem de Ferro e Capitão América à frente – pensam que isso é muito perigoso e decidem combater a Força Fênix, no que os X-Men se voltam contra aquela outra equipe.

black-panther-vs-storm_avx+(3)T’Challa decide abrigar os Vingadores em Wakanda, mas esta é atacada e quase destruída por Namor e suas forças, pois este era um aliado dos X-Men. Isso cria um grande problema diplomático, pois Tempestade é uma das líderes dos mutantes. No fim das contas, T’Challa declara os X-Men inimigos de seu país, no que leva a Ororo a brigar com T’Challa e jogar fora seu anel de casamento. Em consequência, o Alto Sarcedote de Wakanda anula o casamento dos dois. O confronto se dá em AvX: Vs 05, escrita por Jason Aaron.

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Pantera versus Namor, por Mike Deodato Jr.

Ainda sem revista própria, T’Challa vai então para a revista New Avengers (vol. 3) 01, de fevereiro de 2013, com roteiro de Jonathan Hickman e arte de Steve Epting, na qual passa ingressar o grupo Os Novos Vingadores numa trama que envolve a inclusão de T’Challa nos Iluminatti, o grupo que reúne os representantes das mais poderosas raças que povoam a Terra, como humanos, mutantes, atlantes, inumanos etc. É uma oportunidade de T’challa se vingar de Namor, o rei dos Atlantes, por seu ataque a Wakanda, que ocorre na edição 07, de agosto de 2013, com arte do brasileiro Mike Deodato Jr.

New_Avengers_Vol_3_17Em seguida, veio um crossover com a saga Infinito, contra Thanos, um dos maiores vilões da Marvel. New Avengers (vol. 3) seguiu até a edição 33, de junho de 2015.

O Pantera Negra também teve uma importante participação no megaevento Guerra Secretas, escrito por Jonathan Hickman, desenhado por Esad Ribic e com capas pintadas por Alex Ross, publicado em nove partes, entre julho de 2015 e fevereiro de 2016, numa trama que envolve o choque de várias realidades em um Multiverso.

De Volta às Aventuras Solo

Black_Panther_Vol_6_5Em junho de 2016, o Pantera Negra ganhou sua nova revista solo: Black Panther (vol. 6), agora escrita por Ta-Nehisi Coates e desenhada por Brian Stelfreeze, novamente retornando a ambientação para a África e Wakanda, explorando seus mitos e temas.

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Ta-Nehisi Coates é o escritor atual do Pantera Negra.

Ta-Nehisi Coates é um jornalista afroamericano cujo o pai foi veterano da Guerra do Vietnã e membro do Black Panther Party e deu início à publicação de uma série de livros clássicos de autores afrodescendentes. Assim, Coates (o filho) se tornou não apenas um jornalista, mas um especialista em literatura afroamericana e cultura.

As tramas do Vol. 6 se voltam de novo para a política e questões étnicas como metáforas da realidade da África, com uma história na qual T’Challa retorna a Wakanda e precisa governar seu país em meio a uma série de turbilhões. Esta é a revista corrente do personagem ainda em publicação.

Nos cinemas

Black_Panther close up maskApós estrelar diversos desenhos animados da Marvel ao longo dos anos, o Pantera Negra fez sua estreia no cinema em Capitão América – Guerra Civil, de 2016.

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Guerra Civil: espetacular!

Na trama, em consequência à destruição da nação do Leste Europeu de Sokovia, em Vingadores – Era de Ultron (2015), a ONU promove o Pacto de Sokovia, na qual 120 países assinam a favor de que os superseres se registrem às autoridades dos EUA e ajam seguindo as ordens de um conselho especial para isso. Porém, ressabiado da corrupção que tomou conta da SHIELD, que se revelou controlada pela organização terrorista HIDRA em Capitão América – O Soldado Invernal (2014), o Capitão América se recusa a aceitar assinar o Pacto. Assim, caso entre em ação, sozinho ou com os Vingadores, Steve Rogers se tornaria um criminoso. Outros membros do time, como Tony Stark (Homem de Ferro), Viúva Negra, Máquina de Combate e Visão assinam o acordo.

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O Tratado de Sokovia.

Em meio a isso, o Capitão América e o Falcão continuam sua busca por Buck Barnes, o Soldado Invernal. Barnes havia sido o melhor amigo de infância de Rogers e os dois lutaram juntos na II Guerra Mundial (visto em Capitão América – O Primeiro Vingador, 2011), mas em O Soldado Invernal ficamos sabendo que Barnes não morreu na batalha do trem, mas foi encontrado pelos russos e transformado em uma máquina de matar com braço cibernético e mentalmente controlado por meio de um processo de lavagem cerebral, sendo congelado ao fim de cada missão – daí seu codinome – e sendo uma lenda fantasma durante a Guerra Fria, manipulado pela HIDRA. Mas os eventos do fim daquele filme já davam indícios de que Barnes estava recuperando a velha memória.

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Marvel’s Captain America: Civil War Winter Soldier/Bucky Barnes (Sebastian Stan) Photo Credit: Zade Rosenthal © Marvel 2016

Em Guerra Civil, Capitão e Falcão já acumularam suficientes pistas para deduzir que Barnes recuperou a memória, mas não quer ser encontrado, no que Rogers supõe (acertadamente) que é por causa do remorço pelo o que foi obrigado a fazer no passado.

black panther t'chaka wakanda king from civil warAí entra o Pantera Negra na historia. O Rei de Wakanda, T’Chaka, faz um pronnciamento na sede da ONU em Viena, buscando iniciar uma aproximação de sua isolada nação do mundo globalizado. O estopim da audiência é que, no começo do filme, uma ação dos Vingadores na Nigéria resulta, infelizmente, na explosão de uma bomba pelo agente da HIDRA Ossos Cruzados, que mata dezenas de diplomatas wakandianos que estavam naquele país. Mas enquanto discursa na ONU, ao lado do filho, o príncipe T’Challa, T’Chaka é morto em uma outra grande explosão que atinge o prédio e também mata dezenas de pessoas. O causador do atentado é o ex-militar de Sokovia Helmut Zemo que quer se vingar dos Vingadores por causa da destruição de seu país, mas ele é um habilidoso manipulador e faz com que a culpa do ataque recaia sobre o Soldado Invernal.

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Pantera Negra: destaque.

Sedento de vingança, T’Challa – que também é o guerreiro protetor de Wakanda, o Pantera Negra – parte no encalço de Buck Barnes e o localiza em Berlim, na Alemanha. Acreditando que o amigo é inocente, o Capitão América intercepta o ataque, mas sua ação sem a permissão do Pacto de Sokovia faz com que Rogers seja preso.

civilwar cap arrestedMas o plano de Zemo prossegue e ele se passa por um médico para avaliar o cativo Bucky Barnes e por meio da pronúncia de um código secreto consegue reativar (temporariamente) a programação assassina do Soldado Invernal, resultando que este ataca novamente Rogers e outros, como Tony Stark.

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O time do Capitão.

A busca do Capitão a Zemo conduz a uma grande confrontação entre os dois grupos de Vingadores: os que discordam do pacto (Capitão América, Falcão, Soldado Invernal, Feiticeira Escarlate, Gavião Arqueiro, Homem-Formiga) e os que concordam (Homem de Ferro, Viúva Negra, Máquina de Combate, Visão, Pantera Negra e Homem-Aranha) no aeroporto de Frankfurt, mas o Capitão e o Soldado Invernal conseguem escapar rumo à Sibéria, onde sabem que encontrarão Zemo. O Homem de Ferro e o Pantera Negra também vão ao encalço cada um por seus motivos.

civilwar trailer war machine and iron man flyingNa base da Sibéria, Zemo mostra ao Homem de Ferro que o Soldado Invernal matou os pais dele em 1991, e Stark se volta violentamente contra Barnes e contra o Capitão, que tenta defendê-lo. No fim, T’Challa descobre que Zemo armou tudo e ajuda Rogers e Barnes a fugir e ainda dá guarita a este último em Wakanda para tentar remover a programação mental da HIDRA.

black panther tchalla on the throneT’Challa, então, retorna em seu filme solo, Pantera Negra, na qual precisa assumir o trono de Wakanda e lidar com os dilemas da nação isolada, mas extremamente avançada tecnologicamente, ao mesmo tempo em que há um clima de rebelião tribal no país, motivado por forças opositoras do jovem rei.