Jim Morrison morria aos 27 anos há 40 anos atrás.

O dia 03 de julho de 1971 entrou para a história do rock como o fechamento de um ciclo macabro que resultou na morte de algumas das estrelas mais icônicas do gênero: Brian Jones (dos Rolling Stones) morreu em 1969; Jimi Hendrix e Janis Joplin morreram em 1970 com apenas poucas semanas de diferença. No ano seguinte, foi a vez do emblemático líder da banda norteamericana The Doors.

O The Doors surgiu como uma experiência quase anômala dentro do panorama musical dos EUA e do mundo. O rock americano estava pautado essencialmente na folk music (Bob Dylan, The Byrds, Simon & Garfunkel, The Mamas and the Papas, Lovin’ Spoonfull) e começava a emegir uma cena psicodélica em São Francisco, com grupos misturando o blues com o rock inglês de Beatles e Stones, resultando em uma sonoridade cheia de experimentalismos e exentricidades.

Mas o The Doors vinha de Los Angeles e embora fosse sem sombra de dúvida nenhuma uma banda psicodélica, era profundamente distinta da turma de São Francisco puxada por Grateful Dead, Big Brother and the Holding Company (a banda de Janis Joplin), Country Joe and the Fish, Jefferson Airplane etc. The Doors misturava blues, jazz, música japonesa, música indiana, bossa nova brasileira com rock e com a poesia radical e existencialista, marcando um som de cadência única, sem nenhuma similaridade com nenhuma banda de sua época e com nenhuma outra posterior.

The Doors: banda de sonoridade única até hoje.

Essa estranheza cativou o público imediatamente e o primeiro single, Break on through (to the other side), lançado no início de 1967, já foi bem recebido, enquanto o segundo, Light my fire, apesar de seus sete minutos de duração (ou justamente por isso), se transformou em um fenômeno mundial e um grande sucesso nos Estados Unidos.

Mas o caminho até aí não foi simples. E seria muito menos em seguida.

James Douglas Morrison nasceu em 1943, filho de um militar e cresceu como uma criança educada e inteligente. Não era particularmente rebelde na escola e tinha boas notas. Mas algo mudou na adolescência e, enquanto os pais continuavam a se mudar de cidade para cidade por conta do serviço militar do sr. Morrison, Jim foi cursar a Faculdade de Cinema em Los Angeles. O ambiente universitário encontrou um rapaz rebelde, boêmio, poeta e experimental que entrou em choque com a instituição e os professores. Apesar de ter alguns colegas brilhantes, como o futuro gênio Francis Ford Coppola, Jim começou a ficar desgostoso do curso e a se dedicar mais à poesia e à música.

Jim Morrison ao vivo: sempre provocador.

Enquanto morava na praia de Venice, em 1965, Morrison reencontrou outro colega da faculdade, Ray Manzareck, que agora era pianista de uma pequena banda de rock que se apresentava em barzinhos. Jim contou que escrevia canções e cantarolou para ele Moonlight drive, de sua autoria. A melodia escorregadia e sensual em conjunto com a letra poética de imagens fortes cativou Manzareck de imediato e, ali mesmo, os dois montaram o conceito de uma nova banda, que deveria se chamar The Doors (as portas) em homenagem à máxima do poeta William Blake: “quando as portas da percepção se abrirem, todas as coisas se mostrarão como são: infinitas!”. A banda teria a missão de cumprir essa função libertadora.

Em pouco tempo, o The Doors chegou à formatação que conhecemos, com Morrison nos vocais, Manzareck no piano e com a adesão de Robert “Robby” Krieger na guitarra e John Densmore na bateria. O grupo nunca encontrou um baixista que se encaixasse na sonoridade, então, decidiram simplesmente abrir mão do instrumento, cabendo a Manzareck fazer o “baixo” com os tons graves do piano e, logo, usando um pequeno órgão especial com os graves saturados, fazendo o baixo com a mão esquerda, enquanto tocava melodias no piano ou em outro órgão com a direita.

Em 1966, a banda começou a ficar conhecida no circuito de bares e boates de Los Angeles, na avenida Sunset Strip, fazendo residência no lendário clube Whiskey A Go-Go, embora tenham sido expulsos, certa vez, por causa do conteúdo sexual entre um filho e a mãe presente na letra de The end.

"The Doors" o álbum de estreia.

No final daquele ano, a banda assinou um contrato com a gravadora Elektra, até então, uma companhia semiindependente, especializada em música folk. Produzidos por Paul Rothchild, eles se reuniram para gravar seu primeiro álbum sem grandes problemas, pois segundo as “lendas do rock”, já tinham 40 composições próprias prontas. Verdade ou não, ainda assim, selecionaram dois covers para constar no disco: o blues sobre infidelidade de William Dixon, Back door man e a canção crítica de Bertold Bretch e Kurt Weills, Alabama song. Mas a pioneira Moonlight drive, por exemplo, ficou de fora.

The Doors, o álbum, foi lançado no início de 1967, e trazia uma força incomum. A sonoridade robusta, psicodélica e cheia de experimentalismos da banda em combinação às letras fortes, poéticas e imagéticas de Morrison tinham um efeito singular e se apresentavam como algo totalmente incomum. Além dos sete minutos de Light my fire e seu solo interminável de teclado, Break on through era uma bossa nova transformada em rock e The end, tinha 11 minutos, cheios de conteúdos estranhos e uma letra que misturava Édipo com totens indígenas e rituais xamânticos, que seriam, a partir dali, uma das marcas do letrista. Ao vivo, Morrison era um provocador, se movimentando de modo sensual e, às vezes, insultando a plateia.

Morrison à frente do The Doors: apelo sexual e xamanistico.

O primeiro álbum foi aclamado e chamou a atenção popular, de modo que a banda foi convidada a se apresentar no famoso Ed Sullivan Show da CBS, o mais popular dos programas de TV dos Estados Unidos. Foi o programa que “lançou” Elvis Presley e os Beatles à fama no país. Mas a produção pediu ao grupo que mudasse a letra de Light my fire, porque continha referências sexuais muito explícitas. Eles achavam que não teriam problemas, porque os Rolling Stones tinham alterado o refrão de uma de suas faixas no programa pelo mesmo motivo. Mas não o The Doors. A banda disse “ok”, mas na hora da performance, Morrison cantou a letra exatamente do mesmo jeito. Sullivan não cumprimentou a banda como de costume e eles nunca mais apareceriam no programa.

Pouco depois, lançaram o segundo álbum, Strange Days, que repetia mais ou menos a mesma estrutura do primeiro, inclusive, encerrando com uma faixa quilométrica: este continha When a music over, com 10 minutos e a máxima: “nós queremos o mundo e queremos agora!”. Além da faixa-título, havia People are strange,  Love me two times e a pioneira Moonlight drive. Outro álbum fantástico.

O sucesso vertiginoso continuou em 1968, com o álbum Waiting For the Sun, com clássicos como Hello, I love you, Love street, Unknown soldier, Spanish caravan e Five to one. Apesar de alguns críticos encontrarem certo cansaço no disco, este foi o apogeu do grupo em termos de popularidade, o que lhes valeu até uma vitoriosa turnê europeia, que rendeu um filme que é um dos melhores retratos sobre a banda. Mas nesta altura, os problemas já apareciam: Morrison estava cada vez mais absorto em suas experiências com o álcool, chegando até a se ausentar de alguns concertos.

Capa de "Waiting For the Sun", de 1968.

Este clima deve ter influenciado a decisão da banda de mudar de ares em 1969 e gravar um álbum totalmente diferente, mais pop e com acompanhamento de orquestras e instrumentos como saxofone. The Soft Parade terminou sendo o disco menos popular da banda, na qual apenas Touch me realmente se destaca. O vocal de Morrison está claramente bêbado em várias faixas. Ao mesmo tempo, uma enorme polêmica quase destruiria a carreira do The Doors.

O concerto em Miami, para 20 mil pessoas, era apenas mais um da concorrida agenda da banda, mas algo deu errado.

Os relatos sobre o que aconteceu são incrivelmente díspares. Os autores Marsicano & Howard (no famoso Jim Morrison Por Ele Mesmo) relatam várias versões, além de copilarem reportagens da época: o certo é que o local era pequeno demais para a quantidade de público, estava quente, não havia refrigeração e o show foi marcado por uma crescente tensão entre Morrison e a plateia, com troca de insultos e algumas ações excedentes do cantor. Em dado momento, comprovado por fotografias, o vocalista entrou segurando um pequeno carneiro nos braços, ameaçando sacrificá-lo ou transar com ele, de acordo com quem conta a história. Além disso, há discordância sobre se Morrison exibiu sua genitália à plateia ou somente insinuou isso; e ainda, se se masturbou ou apenas simulou; tendo também simulado sexo oral no guitarrista Robby Krieger.

Jim Morrison procurado pelo FBI após polêmica apresentação em Miami.

De concreto, o público invadiu o palco que começou a desabar e o concerto foi suspenso, causando um grande tumulto nas ruas. A imprensa local deu destaque ao ocorrido, transformando aquilo em uma polêmica nacional. Como conseqüência, praticamente todo o resto da turnê da banda pelo interior dos EUA foi cancelada pelos próprios estabelecimentos. Ao mesmo tempo, o Estado da Flórida entrou com um processo contra Morrison, acusando-o de profanação, atentado ao pudor, exibição indecorosa e simulação de masturbação e copulação oral. Como não residia no estado, foi considerado “fugitivo da lei” pelo FBI, aumentando a celeuma e a histeria dos setores conservadores. Como piada, a revista Rolling Stone imprimiu em uma de suas edições um cartaz com a foto de Morrison e a chamada “procurado”, como nos panfletos do velho oeste.

Morrison teve que se entregar ao FBI e permaneceu solto após fiança de cinco mil dólares. Nos meses seguintes, compareceu a diversas audiências e ao julgamento, no qual, um ano e meio depois, seria condenado a 60 dias de prisão por profanação e mais seis meses no processo por exibição indecorosa, que deveriam ser cumpridos com trabalhos forçados na Penitenciária de Dade, além de uma condicional de dois anos e meio. A Defesa apelou e o cantor permaneceria sendo julgado até a sua morte em 1971.

Ao longo de quase todo o ano de 1969, o The Doors transformou-se no bode expiatório de uma “cruzada pela moralidade e decência” que tomou conta dos Estados Unidos, apoiada com fervor pelo presidente Richard Nixon e pelo novo governador da Califórnia Ronald Reagan, o que prejudicou bastante o prestígio do grupo. O álbum The Soft Parade foi massacrado pela crítica.

Um Morrison envelhecido emerge em seu próprio julgamento.

Em conseqüência, o grupo reduziu a agenda de shows, que passaram a ser mais tranqüilos, inclusive com o vocalista passando a cantar sentado em um banquinho. Morrison passou a ostentar uma grande barba e engordou bastante, o que além de um aspecto envelhecido, lhe passava uma ideia de decadência. Em 1970, de modo mais discreto, lançaram o álbum Morrison Hotel, que é mais conciso e contido, mas com boas canções, como Roadhouse blues e Waiting for the sun.

Capa de "LA Woman", de 1971.

A banda se empenhou bastante na gravação do álbum LA Woman, que além da faixa-título, teve os sucessos Riders on the storm e Love her madly. Foi lançado no início de 1971, mas com a banda já praticamente dividida. O comportamento errádico de Morrison já tinha irritado os outros ao limite e o cantor queria se reinventar e se dedicar mais à poesia. Assim, nenhum show de lançamento foi organizado e Morrison se mudou “temporariamente” para Paris, oficialmente de férias, mas na verdade para se afastar da banda e reencontrar sua escrita literária.

O grupo, por sua vez, começou a ensaiar um repertório instrumental à revelia do cantor. (Eles lançariam dois álbuns nesse estilo logo depois). Mas as preocupações foram à toa: Morrison

Morrison e a namorada Pamela Coulson, a única testemunha de sua morte.

morreu misteriosamente em Paris em 03 de julho de 1971. Não se sabe muito o que aconteceu. A versão mais conhecida é de que ele teria tido uma parada cardíaca dentro de sua banheira. Mas há muita discordia, inclusive com relatos que ele teria tido uma overdose de heroína em um bar e morrido lá, sendo em seguida, transportado para seu apartamento pela namora Pamela Coulson.

Ela chamou um médico, não foi feita uma necrópsia, Morrison foi enterrado no cemitério de Père-Lacheise e só depois Pamela comunicou aos amigos, familiares e imprensa do ocorrido. Isso cercou sua morte de mitos, inclusive, daqueles que acreditam que ele não morreu.

Desde então, a figura de Morrison e do The Doors só fez aumentar e a banda terminou adquirindo uma popularidade e admiração que não existiam nem quando estava ativa. Até hoje, seu túmulo em Paris é ponto de peregrinação de fãs.