A DC Comics teve a melhor das ideias quando decidiu investir em animações em longametragem para o mercado de vídeo. Após mais de uma década realizando alguns dos melhores desenhos animados para a TV – com destaque para Batman – The Animated Series e Justice League – The Animated Series – a divisão do setor, DC Entertaintment, resolveu mudar de estratégia e investir em filmes mais longos.

Sem precisar construir uma cronologia como as séries televisivas e com mais tempo disponível, um longametragem em animação permite adaptar histórias específicas da longa trajetória da editora e transportar seus leitores para o mundo de sonhos em que seus personagens de papel se movimentam. E a DC não brincou em serviço: saiu fazendo animações, a partir de 2007, voltadas para algumas de suas melhores e mais famosas histórias: A Morte do Superman, Batman Contra o Capuz Vermelho, Liga da Justiça – A Nova Fronteira, Superman & Batman – Inimigos Públicos e All Star Superman, além de algumas obras mais ou menos originais (unindo elementos de várias histórias distintas), como Liga da Justiça – Crise em Duas Terras, e alguns contos de origem, como Lanterna Verde – Primeiro Vôo e Mulher-Maravilha.

A animação anterior, "Batman Contra o Capuz Vermelho": melhor do que a obra original.

O resultado não poderia ser outro: são as melhores animações de super-heróis já criadas. Todos os filmes têm seus méritos e a maioria é simplesmente muito bom. Alguns são mesmo melhores do que longametragens live action (com atores) do mesmo gênero. O departamento de animações da DC é tão competente que mesmo histórias que não eram assim tão geniais, como o arco do Batman contra o Capuz Vermelho, se transformam em algo melhor. Para ficar neste último exemplo, a aventura do Batman teve o roteiro escrito pelo mesmo Judd Winick que escreveu a história em quadrinhos original. O resultado? Batman Contra o Capuz Vermelho é um filme excelente, uma visão adulta, sombria e violenta do homem-morcego e dezenas de vezes melhor do que a história que lhe deu origem.

A revista "Batman: Ano Um" acabou de ser relançada no Brasil pela editora Panini Comics.

Por isso, a expectativa em torno do anúncio de que Batman: Ano Um seria adaptado como longa metragem causou um furor entre os leitores de quadrinhos. Afinal, a história escrita por Frank Miller e desenhada por David Mazzucchelli e publicada em 1987 é uma das melhores, se não a melhor, dentre todas as histórias do Batman. O conto de origem definitivo do homem-morcego. (Veja as melhores histórias do Batman em um post do HQRock, clicando aqui).

Na época, a DC Comics saía de uma fase de baixas vendas. A solução para melhorar foi tomar duas atitudes: primeiro, publicar histórias melhores; depois, reformular a cronologia da editora. Assim, o evento Crise nas Infinitas Terras, produzido por Marv Wolfman e George Pérez em 1985, serviu para criar um álibe para que as biografias de todos os seus personagens fossem modificadas, alteradas, revolucionadas. O Superman foi um dos mais afetados. Batman nem tanto.

Bruce Wayne escolhe o morcego como símbolo no fim do capítulo 01 de "Ano Um": texto de Miller e arte de Mazzucchelli.

O conto de origem publicado em apenas duas (!) páginas por Bob Kane e Bill Finger em 1939, na revista Detective Comics 33, era tão perfeito que não precisava ser modificado: aos oito anos, o milionário Bruce Wayne vê os seus pais serem mortos em um assalto banal nas ruas de Gotham City e decide dedicar sua vida inteira a fazer justiça; treinando seu corpo e sua mente para se tornar um homem perfeito; e quando adulto, assume a identidade de Batman para combater os criminosos. Pronto! O que é necessário mudar nisso? Nada!

Mas pode-se rechear os espaços entre as informações. O escritor Dennis O’Neil e o desenhista Dick Giordano tinham feito isso numa história chamada O Homem que Cai, mostrando outros elementos da origem do Batman: como ele foi ao oriente treinar artes marciais, se envolveu com o submundo do crime para aprender como ele funciona, aprendeu com os melhores detetives e os maiores mercenários do mundo, até voltar a Gotham City e virar o Batman.

Porém, havia mais a ser contado. Por que “batman”? Como foram os primeiros dias de ação do homem-morcego? E para contar essa história pós-Crise nas Infinitas Terras foi chamado Frank Miller, que já havia sido aclamadíssimo ao lançar, em 1986, a minissérie Batman: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight Returns), outra das melhores histórias do personagem, mostrando, no futuro, um Bruce Wayne de 50 anos forçado a voltar a agir como o homem-morcego.

Batman confronta a polícia. Arte de Mazzucchelli.

Para desenhar, veio David Mazzucchelli, parceiro de Miller em outra das melhores histórias já publicadas – mas desta vez, na concorrente Marvel Comics – com A Queda de Murdock, um conto do Demolidor contra o Rei do Crime.

A versão "hardcore" de Selina Kyle por Miller e Mazzucchelli. Junto dela, a pequena Holly.

Publicada apenas em quatro capítulos, na própria revista mensal do personagem – Batman entre os números 404 e 407Ano Um estabeleceu um background fortíssimo para o surgimento do homem-morcego: uma cidade grande e decadente, tomada pela corrupção, inclusive na força policial, que é aliada estreita do tráfico de drogas e da máfia. O tratamento da dupla aos personagens padrões do universo do homem-morcego foi radical: Bruce Wayne é um jovem de 25 anos ainda sem toda a experiência e expertice que teria mais tarde; James Gordon (o futuro Comissário) é apenas um tenente transferido de Chicago para Gotham que, por ser absolutamente honesto, se choca contra a corrupção de seus pares; Selina Kyle (futuramente a Mulher-Gato) é uma prostituta que trabalha para um cafetão no East End da cidade; Harvey Dent (o futuro vilão Duas Caras) ainda é um assistente da promotoria que ajuda o homem-morcego a prender os criminosos; Barbara Gordon, a esposa do policial, está grávida do filho do casal, James Jr.; e Alfred Pennyworth é o mordomo fiel que ajuda o patrão em suas missões.

Design de personagens para a animação de Batman e Gordon.

Além disso, Miller e Mazzucchelli criam toda uma nova gama de personagens para rechear esse universo: o supercorrupto e asqueroso Comissário Gill Loeb; o detetive amoral Arnold Flass; o sanguinário chefe do esquadrão da SWATT Brenden; o correto policial Merkel; a honesta detetive Sarah Essen; o mafioso maior de Gotham, Carmine “Romano” Falcone; a prostituta mirim Holly Robinson.

A Mulher-Gato de "Ano Um".

A trama recortada por datas, segue de janeiro (quando Bruce Wayne volta de sua longa viagem e James Gordon chega a Gotham) até dezembro. Nesse meio tempo, Batman começa a agir e entra em choque com a polícia, a corrupção, a máfia; enquanto Gordon é incubido de perseguir o Batman e tem que lutar contra a própria corrupção na polícia, além de enfrentar a paixão extraconjugal pela detetive Essen.

Bruce Wayne treina na arte de Mazzucchelli...

Além disso, a visão radical de Miller enche a história de pequenos detalhes relevantes, como insinuações de que Selina Kyle é lésbica e, bem, é estranho que ela ande por aí com uma meninda de uns 12 anos que é Holly Robinson, não é mesmo? As duas até dividem um apartamento. E Holly diz, em determinado momento, “você está gastando o nosso dinheiro”.

... e a mesma cena adaptada na animação.

Quase tudo isso está em Batman – Ano Um, o filme. O longametragem em animação – produzido por Bruce Timm, dirigido por Sam Liu e Lauren Montgomery, escrito por Tab Murphy – se esforça em ser o mais fiel possível à obra de Miller e Mazzucchelli e consegue. Neste ponto, o tamanho da obra é uma grande vantagem. Filmes como Contra o Capuz Vermelho e A Morte do Superman se basearam em histórias enormes, por vezes com mais de 12 capítulos, o que obriga a cortar muita gordura quando se vai transportar a um filme de 75 minutos.

A bela Sarah Essen.

Não é o caso de Ano Um que só teve quatro capítulos e pôde ser contado integralmente. Praticamente todas as cenas da revista estão no filme, algumas inclusive ampliadas, como a luta entre Bruce Wayne e Selina Kyle antes dos dois se tornarem Batman e Mulher-Gato. A narração em off de Batman e de James Gordon foi parcialmente mantida, retirada apenas quando seria redundante em relação às imagens, o que cria um clima interessante, permitindo uma análise do que está ocorrendo e um aprofundamento dos personagens.

Selina Kyle troca o sexo pelo crime.

As cenas de ação estão muito boas e a movimentação dos desenhos é impressionante. A citada luta entre Wayne e Kyle é um dos destaques, com angulação e efeitos 3D que não ficam nada atrás dos vídeo games mais modernos de hoje. A história flui muito bem e mantém o interesse do expectador numa trama rica, cheia de bons personagens e num visual muito legal, inteiramente inspirado na marcante arte de Mazzucchelli.

Entretanto, há de se considerar que houve uma pequena amenizada em alguns elementos da história, talvez para diminuir a “carga pesada” que Miller insere em suas obras. A cena em que Selina Kyle é introduzida, como uma prostituta de rua, traz o seguinte diálogo entre ela e um cliente:

Selina: Eu odeio os homens. Sabe porque eu os odeio?

Cliente: Porque?

Selina: Porque nunca conheci um.

Carmine Falcone: o chefão da máfia em Gotham.

Este trecho cria uma leve impressão lésbica à personagem – reforçada pelo outros elementos já citados – mas foi retirado do filme. Até aparece a mesma cena, dela com o cliente, mas o trecho em questão foi removido.

Outro pequeno problema do filme é no relacionamento entre Gordon e Essen. Na história original, duas cenas curtas mostram uma crescente tensão sexual entre os dois, mas elas não estão no filme, o que torna o envolvimento de Gordon com a bela detetive Essen um tanto quanto brusco e repetino. Mas é um detalhe menor.

Batman encurralado pela polícia.

Ao contrário, o filme resolve melhor algumas questões. Por exemplo, na cena em que Bruce Wayne é capturado pela polícia, nos quadrinhos, ele rompe as algemas dentro da viatura. Mas como ele faz isso? Ele não é o Superman, não tem esse nível de força. No filme, em vez de parti-las, Wayne passa as mãos para frente e imobiliza o policial que está dirigindo o carro. O veículo vira e, no momento seguinte, Wayne sai da viatura sem as algemas. Não se mostra como ele as tirou, mas é melhor essa solução – pode ficar implícito que ele usou as chaves para abri-las – do que simplesmente rompê-las com a força, algo que nem mesmo o Batman é capaz.

Os túmulos de Martha e Thomas Wayne.

Honestamente, eu achava que a cena final, que se passa de dia e não traz o Batman propriamente dito, mas Wayne usando uma roupa preta, seria modificada para exibir o Batman em sua plenitude. Mas a produção acertadamente manteve o contexto original, o que serve para mostrar que o Batman é apenas um disfarce e que Bruce Wayne é o herói em questão.

No fim, os créditos exibem imagens da história original, com a arte de Mazzucchelli e os recordatórios de Miller, o que é um efeito muito bacana e não muito usado nem mesmo nas adaptações da DC.

Cena entre Gordon e Batman em "Begins" replica o final de "Ano Um".

E para aqueles que não leram a obra original, mas assistiram aos filmes do Batman dirigidos por Christopher Nolan e estrelados por Christian Bale, preste atenção nas inúmeras referências. Nenhum dos filmes adapta a história de maneira integral, mas elementos dela estão dispersos em todo aquele universo, não apenas em personagens – Loeb, Flass e Falcone estão presentes em Batman Begins, por exemplo – mas várias cenas foram adaptadas aos filmes, como a revoada dos morcegos ou a cena que encerra tanto Ano Um quanto Begins com uma conversa no telhado entre Batman e Gordon.

Laura Montgomery, Andrea Romano, Sam Liu, Eliza Dushku e Bruce Timm.

Em suma, outro clássico moderno da DC Comics no ramo da animação.

PS: Só para constar, o rosto de Bruce Wayne criado por David Mazzucchelli é baseado no ator Gregory Peck e a transposição para as telas só reforça esse efeito.

Em sentido horário: Bryan Cranston, Ben McKensie, Eliza Dushku e Katee Sackhoff.

Batman – Ano Um, o desenho, foi lançado em DVD e Blu-ray nos Estados Unidos em 18 de outubro. Produzido por Bruce Timm, com direção de vozes de Andrea Romano, direção de animação de Sam Liu e Lauren Montgomery e roteiro por Tab Murphy. No elenco estão as vozes de Ben McKenzie (Batman), Bryan Cranston (Jim Gordon), Eliza Dushku (Mulher-Gato) e Katee Sackhoff (Sarah Essen). O filme já está disponível no Brasil.