Capa do álbum "Let it Be" de 1970.

Os fãs da banda britânica The Beatles – a de maior sucesso e respeitabilidade da história do rock – têm um sonho: ver uma versão remasterizada e ampliada do filme Let it Be, lançado nos cinemas originalmente em 1970 e marco do fim do grupo. O filme chegou a ser comercializado em VHS e Laser Disc (lembram dele?) no final dos anos 1980 e início dos 1990, mas logo foi retirado de catálogo e permenece desaparecido desde então, jamais ganhando sequer uma versão em DVD.

Contudo, parece que isso vai mudar. Em uma recente entrevista nos Estados Unidos, o diretor do filme, Michael Linsday-Hog, garantiu que vem trabalhando no material há dois anos e que o lançamento está previsto para 2013. Também acrescentou que o formato deverá ser o de DVD duplo, com o Disco 1 trazendo o filme original, remasterizado, e o Disco 2 com um making off e bônus com execuções de várias canções. Não se falou em uma versão em Blu-ray.

Os Beatles tocam "Revolution" na TV em 1968: momento raro.

E por que tanto desejo pelo filme? Let it Be é o registro de alguns dos últimos momentos da banda e uma das poucas oportunidades de vê-la tocar seus sucessos, tendo em vista que a banda abandonou os concertos em 1966 e, depois disso, só fez algumas poucas aparições na TV tocando ao vivo. Inclusive, é no filme onde se pode assistir ao último show dos Beatles: o famoso concerto no telhado do prédio da Apple – a gravadora criada pela banda – no centro de Londres.

Mas para entender mesmo esse fetiche é preciso um pouco de história. Em 1968, os Beatles enfrentaram sérias dificuldades internas para finalizar o álbum duplo The Beatles, mais conhecido como White Album (ou Álbum Branco, no Brasil), porque os membros da banda não paravam de brigar, John Lennon e Paul McCartney tinham dificuldades de compor juntos como outrora; George Harrison precisava gritar para ter suas canções gravadas pela banda; e o baterista Ringo Starr se sentiu tão inútil que pediu demissão e ficou duas semanas fora da banda até ser chamado de volta. A banda poderia ter acabado aí, mas decidiu seguir em frente.

Para continuar, tiveram uma ideia genial: voltar a fazer shows! Ou pelo menos um único show. A banda tornaria isso um grande evento; filmaria os ensaios para o concerto e o concerto em si; lançando tudo em um filme e um disco inédito e ao vivo ao mesmo tempo. O concerto deveria ser realizada em uma casa de shows de pequeno ou médio porte, como Roadhouse ou Savile Theatre ou London Palladium, mas ideias mirabolantes como um anfiteatro grego ou uma balsa sobre o rio Tâmisa também foram pensados.

Repare a felicidade da banda ao ouvir os tapes que estavam fazendo!

Assim, em 02 de janeiro de 1969, os Beatles se reuniram em Twickenham Studios para o início dos ensaios, apenas três meses após o fim das gravações do álbum anterior e em meio ao intenso inverno londrino. Para piorar, o local do show não tinha sequer sido escolhido e iniciar os ensaios de um novo set list (as canções seriam inéditas) a partir do zero na frente das câmeras e às 8 da manhã era algo simplesmente não agradável para uma banda que estava em crise e tinha hábitos noturnos, inclusive, passara os últimos anos gravando seus álbuns no exótico horário entre as sete horas da noite e as quatro da manhã.

Ainda assim, a banda trabalhou sem parar por duas semanas, criando novas canções e, vez por outra, tocando coisas velhas para esquentar ou mesmo usar como recurso de contingência no referido show. Mas o ambiente hostil e as abaladas relações da banda só puderam culminar numa única coisa: eles brigavam sem parar. As câmeras inclusive registraram um bate-boca fervoroso entre McCartney e Harrison que discordaram sobre o arranjo de guitarra para On own way home, título de trabalho do que acabaria sendo a balada Two of us.

A banda executa "The long and winding road": clima intimista e frio.

Por coisas desse tipo – e frustrado porque suas canções não eram levadas à sério pela banda – Harrison saiu batendo a porta e pediu demissão. Os Beatles restantes ainda seguiram trabalhando durante alguns dias, mas terminaram parando tudo e renegociando a volta do camarada. Houve uma condição: trocar de lugar e não fazer mais o show. A banda acatou.

Mas àquela altura, o tradicional estúdio em que atuavam, aqueles da gravadora EMI em Abbey Road, no norte de Londres, e que era grande o suficiente para caber toda a equipe de filmagem, não estava disponível para as sessões dos Beatles. E o estúdio supermoderno que a banda estava montando na sua própria gravadora, a Apple, em Savile Row, no centro de Londres, não estava pronto. O grupo teve que esperar alguns dias, mas quando foram vistoriar o material, viram que foram enganados pelos construtores. Por meio da empresa de gravações do produtor George Martin – que trabalhava com a banda desde o início da carreira – o AIR Studios, os Beatles conseguiram alugar um console de gravação de oito canais (o mais moderno da época) e reconstruir o estúdio da Apple.

John Lennon aparece alienado e distante nas filmagens.

Assim, no dia 23 de fevereiro, os Beatles voltaram a se reunir para dar prosseguimento ao filme. Mas se não iam mais fazer o show, para quê se reunir? A banda decidiu continuar filmando os ensaios até as canções ficarem finalizadas. Assim, teriam as imagens da banda tocando, compondo e ensaiando um novo disco que seria gravado ao vivo no estúdio, sem público. Ainda assim, era um tipo de novidade.

Seguindo a nova lógica, a banda trabalhou até rápido e em apenas oito dias finalizou o novo set list, com canções como Get back, Let it be, I’ve got a feeling, Two of us, The long and winding road, Dig a pony e One after 909, esta um velho número da banda composto por John Lennon ainda em 1959, na época em que se chamavam The Quarrymen e era uma bandinha skiffle (blues acústico) tocando em bailes.

O famoso rooftop concert foi o último show dos Beatles.

No processo, Lennon e McCartney ainda conseguiram “enganar” George Harrison e promover, mesmo que de maneira improvisada, o tal do último show dos Beatles. Alguém sugeriu que fizessem uma apresentação rápida no telhado do prédio e, assim, teriam o show do projeto original. Harrison foi contra – as imagens do documentário The Beatles Anthology, lançado em 1995, mostram ele sendo convidado para subir ao telhado e tocar e o guitarrista dizer que “não estava afim” – mas terminou convencido.

A capa da coletânea de 1973 traz a imagem que seria usado para o álbum "The Get Back Sessions". Ela imita a capa do primeiro disco, de 1963.

A banda subiu ao telhado por volta do meiodia e tocou de surpresa. Logo, as pessoas nas ruas perceberam que eram os Beatles quem estavam tocando no telhado e a rua se transformou em um pandemônio. Mas alguém não gostou, chamou a polícia e a banda foi obrigada a parar o concerto, após apenas cinco canções.

O projeto foi encerrado e a banda designou o engenheiro de som Glynn Johns, que trabalhava com os Rolling Stones e o The Who, a editar as melhores partes das gravações e produzir o álbum que se chamaria Get Back. O corte de Johns era um álbum duplo trazendo o novo set list da banda mais algumas reinterpretações de canções antigas e um ou outro cover de rock and roll dos anos 1950. Mas os Beatles detestaram o material e o mandaram refazer.

Imagem da última sessão de fotos dos Beatles, em agosto de 1969.

Enquanto Johns trabalhava arduamente para editar o material bruto, os Beatles decidiram esquecer aquilo e se concentrar em um novo projeto: um novo álbum com novas canções (e sem usar nada daquilo que foi feito para o outro projeto!). Esse novo álbum seria gravado entre abril e agosto de 1969 e seria lançado em setembro com o título de Abbey Road, a última vez em que os Beatles se reuniram em estúdio e o álbum de maior sucesso de sua carreira. (Há um velho post do HQRock sobre ele, leia aqui).

A primeira edição de "Let it Be" veio em um box com um livro de fotografias.

Entretanto, os Beatles ainda deviam um disco à gravadora EMI e o contrato do filme com a United Artists estava pendente. Por isso, se decidiu por resgatar o projeto Get Back. Mas tendo em vista o desgaste com Glynn Johns, a banda decidiu passar a tarefa para outro: o polêmico produtor norteamericano Phil Spector, talvez um dos mais famosos do ramo na época. Spector produziu a versão do álbum Let it Be que conhecemos, mas enfureceu Paul McCartney ao inserir cordas, orquestras e coros femininos em algumas canções, particularmente nas suas, como The long and winding road; porém, Lennon e Harrison gostaram do resultado.

Capa de um dos muitos discos piratas que trazem gravações das sessões de "Let it Be": 144 horas de música.

Enquanto isso, Michael Linsday-Hog finalizou a edição do filme, que foi lançado no início de 1970 como um grande evento. O documentário fez sucesso nos cinemas do mundo e ganhou o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original. Mas o anúncio do fim da banda, em abril daquele ano, antes dos lançamentos, tirou um pouco o brilho da obra.

Além disso, o filme em si não é nenhum primor técnico. Por um lado, é uma oportunidade única de ver os Beatles tocando e ensaiando em sua “segunda fase” onde cenas desse tipo são raras; mas por outro, a edição da obra deixa muito a desejar. A impressão que fica é que Linsday-Hog teve pouco tempo para montá-lo ou as câmeras deixaram de registrar muita coisa, já que há imagens repetidas e edições grosseiras que unem gravações que, nitidamente (a mudança de roupas, por exemplo) foram realizadas em dias distintos. Há também erros irritantes, como dois famosos: em Get back, ao vivo no telhado, John Lennon faz o solo de guitarra, mas quando ele inicia, a câmera se desloca para mostrar Harrison, que faz a base, e fica nele durante toda a execução da peça; em Two of us, McCartney, Harrison e Starr tocam em um canto e Lennon está um pouco afastado, sentado no chão, porém, em nenhum momento os quatro são filmados juntos, aliás em nenhum momento a câmera consegue focar Lennon junto aos demais, mesmo que a canção seja estruturada em cima de um dueto dele com McCartney. Mas há muito mais.

Em 2003, a banda lançou uma versão "limpa" chamada "Let it Be...Naked", sem os acréscimos de Phil Spector. Mas sem canções novas.

Ainda assim, Let it Be se tornou uma peça conhecida e uma obra admirada dentro do rock, embora esses erros talvez ajudem a explicar porque nunca foi lançado em meio digital.

Além de toda essa história, os fãs dos Beatles têm especial apego ao filme pelo o que ele não mostra. Cerca de 144 horas de gravação em áudio foram captadas para o projeto e o álbum só teve 13 faixas. Dessa maneira, existem dezenas e dezenas de canções que foram executadas e não estão no filme nem no disco, sem contar com outras execuções diferentes (com arranjos distintos) das canções já conhecidas. Músicas que ficariam famosas nas carreiras individuais dos membros dos Beatles, como All things must pass de George Harrison, Teddy boy de Paul McCartney ou Look at me e Gimme some truth de John Lennon, foram executadas no projeto com a banda.

DVD pirata com um concerto dos Beatles em 1965 é comercializado normalmente nas lojas do Brasil: ausência de material oficial.

É esse material que os fãs querem ver lançado. Muito pouco disso saiu no volume três da coleção Anthology, como uma bela versão lenta de She cames in throught the bathroom window. Mais coisas desse tipo deve estar por aí. Se puderem vir acompanhadas de imagens, então, melhor ainda!

De qualquer modo, num mundo cada vez mais pautado pela imagem, é no mínimo curioso que uma banda da envergadura dos Beatles não tenha quase nada disponível em vídeo. Afora os filmes em que atuam como atores – A Hard Day’s Night e Help!nada de seu legado musical está disposto no mercado oficial de vídeo doméstico. Absolutamente nada! Nenhum concerto. Nenhuma coleção de concertos. Nenhuma coleção de clipes.

O que existe – e existem como shows de 1965 e 1966 – é “pirata” e não tem autorização da banda.

"The Beatles Anthology vol. 03" traz relativamente pouco material das sessões de "Let it Be".

A coleção Anthology não conta, porque é um documentário com mais de 10 horas de duração.

Quanto tempo os Beatles pretendem manter o seu legado num mundo pautado pela imagem sem ter essa imagem disponível para as novas gerações? Como um jovem de 11 anos de hoje vai conhecer ou gostar dos Beatles sem ter absolutamente nada deles disponível de modo imagético no mercado? Apenas por vídeos no YouTube?

É essa a estratégia da banda?