Joe Cocker virá ao Brasil: a cara da Geração Woodstock.

Um dos maiores expoentes do rock clássico, o cantor Joe Cocker virá mais uma vez ao Brasil, para um turnê de quatro shows, segundo informa a coluna G1 da Globo.

As datas serão as seguintes:

27 de Março – Pepsi On Stage – Porto Alegre
29 de Março – Via Funchal – São Paulo
31 de Março – Chevrolet Hall – Belo Horizonte
01 de Abril – HSBC Arena – Rio de Janeiro

Dono de uma voz rouca e rascante de uma espasmática performance nos palcos, Joe Cocker foi a voz da Geração Woodstock, sendo um dos maiores astros de rock da passagem dos anos 1960 para 1970. Embora a efervescência de sua carreira tenha sido breve, algo em torno de cinco anos, seu legado é enorme.

Joe Cocker: voz rouca e cheia de personalidade.

Como de costume, o HQRock aproveita uma pequena notícia para recapitular a biografia do artista.

Nascido John Robert Cocker em 1944 em Sheffield, na Inglaterra, filho de uma família pobre, o jovem se interessou por música, especialmente blues, desde criança e ingressou em uma banda de Skiffle – um gênero tipicamente britânico que fazia uma releitura do blues acústico – pertencente ao seu irmão aos 12 anos. Mas sua primeira experiência profissional na música se deu a partir de 196o na banda The Cavaliers, que durou apenas um ano, mas fez o circuito de pubs de Sheffield.

Futura lenda no Led Zeppelin, o jovem Jimmy Page fez várias gravações com Joe Cocker no início da carreira.

Em 1961, Cocker adotou o nome artístico de Vance Arnold e formou uma nova banda, mais bem sucedida localmente, chamada Vance Arnold and the Avengers, cujo maior momento foi abrir um show dos Rolling Stones em Sheffield, em 1963. No ano seguinte, o cantor conseguiu um contrato com a gravadora Decca – a mesma daquela banda – e gravou um compacto: um cover de I’ll cry instead (dos Beatles) que não aconteceu nas paradas. A gravação contou com o famoso guitarrista de estúdio Jimmy Page (futuro líder do Led Zeppelin) e foi a primeira incursão de Cocker no circuito londrino.

De volta a Sheffield, adotou seu próprio nome e formou a banda Joe Cocker’s Big Blues, que tocou nos pubs por dois anos. Em 1966, Cocker se uniu ao tecladista Chris Stainton e fundou o The Grease Band, que foi ainda mais bem sucedido no circuito de pubs. A banda chamou a atenção do produtor Danny Cordell, que fazia sucesso trabalhando com Procol Harum e Moody Blues, que levou Cocker e Stainton para Londres, onde formaram uma nova Grease Band, de membros menos fixos, e fizeram residência no lendário Marquee Club.

A Grease Band com Chris Stainton (esq.) e Henry McCullough (dir.).

Assinando contrato com a nanica Regal Zonophone, em 1968, Cocker lançou o seu primeiro single oficial: Marjorine, que fez algum sucesso para além do Top20 britânico, bem como do norteamericano também. Em seguida, o segundo compacto trouxe uma versão absoluta de With a little help from my friends dos Beatles, numa gravação que, além de Cocker e Stainton, trouxe novamente Jimmy Page na guitarra.

O compacto começou a chamar a atenção do circuito musical londrino e Cocker e Stainton montaram uma nova Grease Band com o guitarrista irlandês  Henry McCullough, que anos mais tarde faria parte dos Wings de Paul McCartney.

A capa do álbum de "With a Little Help from my Friends".

O grupo entrou em uma grande turnê pelo Reino Unido e que, na primavera de 1969, chegou aos Estados Unidos. Enquanto o primeiro álbum de Joe Cocker, também chamado With a Little Help From My Friends, chegava às lojas, o cantor se tornava cada vez mais popular nos dois lados do Atlântico. O disco trazia grandes momentos, além da faixatítulo, como as versões de Feelin’ Alright do Traffic e I shall be released de Bob Dylan, além de uma interpretação em modo reggae de Don’t let me be misunderstood, imortalizada pelos Animals anos antes.

Essa turnê pelos EUA teve sua maior culminância em uma emblemática performance no Woodstock Festival, em agosto de 1969. Lançada com destaque no filme e no disco que cobriram este que foi o mais importante festival da história do rock, a interpretação de With a little help from my friends tornou-se um dos pontos altos do evento e um símbolo do que ele representava.

Joe Cocker no palco em Woodstock.
A performance epilética de Joe Cocker em Woodstock marcou uma geração.

A partir daí, Cocker se tornou uma das maiores estrelas do rock no período. Tanto que os Beatles se apressaram em fornecer duas canções ainda inéditas para o seu segundo álbum, chamado apenas Joe Cocker! e lançado em novembro daquele mesmo ano. As canções eram She came in through the bathroom windon (de John Lennon e Paul McCartney) e Something de George Harrison, ambas registradas antes mesmo que a banda realizasse suas versões.

Capa de "Joe Cocker!", o disco: os Beatles ofereceram canções novas para o intérprete.

Além disso, o excelente álbum trazia as clássicas versões de Delta lady (de Leon Russell) e Darling be home soon (do Lovin’ Spoonful). Além de Chris Stainton nos teclados e Henry McCullough na guitarra, o disco trouxe outros músicos bem tarimbados, como o guitarrista Clarence White (dos Byrds) e os tecladistas/guitarristas Leon Russell e Steve Winwood (este do Traffic e Blind Faith).

No início de 1970, Joe Cocker dispensou a Grease Band e entrou em depressão, mas havia um contrato pendente por uma outra turnê nos EUA e o cantor foi obrigado a ir. Para isso, pediu ao amigo Leon Russell que montasse uma banda para ele e o resultado foi a reunião de um time de mais de 30 dos melhores músicos de rock da época!

Leon Russell, Joe Cocker e Bobby Keys em meio aos shows loucos da Mad Dog and the Englishmen.

Batizada com o louco nome de Mad Dog and the Englishmen, o que devia refletir o clima dos bastidores, o núcleo do grupo eram os ex-membros da banda Delaney, Bonnie & Friends, que tinham feito uma turnê britânica ladeados por Eric Clapton, George Harrison e David Mason. Este núcleo era formado por Carl Randle no baixo, Jim Gordon na bateria, Bobby Keys no saxofone e Jim Price no trompete, somados a muitos outros como o próprio Leon Russell nas guitarras e teclados, Chris Stainton nos teclados, o guitarrista Don Preston e o baterista Jim Keltner, além de uma verdadeira equipe de backing vocals que incluía Rita Coolidge.

Capa do álbum ao vivo: fim da trilogia clássica.

Apesar da loucura total de sexo, drogas e rock and roll, dos abusos constantes de Cocker de álcool e tudo mais, a turnê conseguiu fazer 48 cidades e rendeu um álbum duplo ao vivo chamado Joe Cocker and the Mad Dog and the Englishmen, lançado em 1970, que foi um sucesso e rendeu mais dois hits: Cry me a river e The letter.

Após o fim da turnê, Cocker continuou um tempo na roda de festas loucas de Los Angeles, cidade que começava a se tornar o centro da música mundial, no lugar de Londres. Depois, voltou para sua Sheffield natal, onde passou praticamente dois anos afastado da música, tentando se recuperar do vício em álcool e da depressão.

Joe Cocker: alcoolismo e depressão...

Durante esse período, a gravadora A&M ainda resgatou uma gravação não utilizada, High time we went, e a lançou em compacto, que fez algum sucesso. Esta pausa encerrou a fase de maior efervescência da carreira do artista, bem como o seu melhor período.

Mas em 1972, seu velho amigo montou a The Chris Stainton Band, com os bateristas Jim Keltner e Alan White (este em breve ingressaria no Yes), e o convenceu a voltar à ativa. Cocker saiu em turnê pelos EUA e Europa e lançou o disco Joe Cocker, que misturava canções ao vivo com outras em estúdio e tem como destaque Woman to woman. O grande diferencial desse disco em relação aos demais é que a maioria das canções são originais, colaborações entre o próprio Cocker e Stainton.

... prejudicaram a carreira do cantor a partir dos anos 1970.

Sem conseguir causar o mesmo impacto no público e na crítica em relação a antes, o cantor começou a beber cada vez mais e chegou a ser preso por porte de drogas na Austrália. Como consequência de toda essa turbulência, seu velho amigo e produtor Danny Cordell deixou o barco.

Isso rendeu outro período de reclusão, dessa vez mais curto. Em 1974, Cocker voltou à ativa de novo, lançando o álbum I Can Stand a Little Rain, que fez um grande sucesso e rendeu um grande hit: You are so beautiful, de Billy Preston. Porém, o cantor não pode aproveitar esse sucesso, pois seus problemas com o álcool dificultavam demais a realização de turnês.

O disco seguinte, Jamaica Say You Will, de 1975, não chamou muito a atenção, e Cocker teve que se esforçar para pagar as dívidas com a gravadora A&M, resultantes da ausência de sucesso e de shows. Com isso, o cantor se associou com o empresário Michael Lang e, em 1976, partiu em uma longa excursão pela Oceania e América do Sul, na qual cantou no Brasil pela primeira vez.

Entretanto, daí em diante, a carreira de Joe Cocker caiu em estagnação e só muito pontualmente o artista voltou a fazer sucesso ou ganhar espaço na mídia. Um dos momentos foi em 1982, quando seu dueto com Jennifer Warner em Up where we belong, que fez grande sucesso e chegou ao n.º 01 das paradas dos EUA.

"Unchain my Heart": criando uma imagem para uma nova geração.

Em 1986, a canção You can leave you hat on foi incluída no filme 9 1/2 Semanas de Amor, que fez um sucesso estrondoso, e a canção ganhou com isso. Mas o grande momento tardio de Cocker foi mesmo a canção Unchain my heart, lançada em 1987 no álbum de mesmo nome, que fez um enorme sucesso e virou uma espécie de marca do cantor para as novas gerações. 

Para os mais jovens, Cocker é mais o cantor de Unchain my heart do que o de With a little help from my friends.

Joe Cocker: legado histórico.

Ainda assim, a exposição na mídia levou ao álbum seguinte, One Night of Sin, de 1989, a vender mais ainda do que seu antecessor, embora nenhuma de suas canções tenha se firmado no tempo.

Embora esteja desde então distante das paradas de sucesso, o trabalho de Joe Cocker é memorável e este senhor de 67 anos merece o respeito por ter sido uma das maiores vozes do rock and roll e a cara da Geração Woodstock.

Quem quer aprender um pouquinho da história do rock, fique ligado nos shows.