Já há pelo menos quatro décadas, O Incrível Hulk é um dos personagens mais populares da Marvel Comics. Que coisa mais improvável: um monstro bestial, de pele verde, dotado de uma raiva infinita e uma força descomunal ser tão popular no grande público, inclusive, entre as crianças. Tamanha popularidade que, no Brasil, nasceu a expressão “verde de raiva” em referência ao gigante esmeralda; e seu nome virou um tipo de adjetivo, em expressões como “é um Hulk” ou “forte feito o Hulk”. Na última década, seu retorno aos cinemas só fez o alter ego de Bruce Banner ficar mais popular ainda, embora agora, tenha que dividir os louros com outros heróis, em particular, seus colegas dos Vingadores.

Este post, com um Dossiê Especial do HQRock sobre a trajetória do Hulk nos quadrinhos foi originalmente escrito em 2012 no contexto do lançamento de Os Vingadores, o épico do Marvel Studios que reuniu nos cinemas pela primeira vez a equipe formada por Capitão América, Thor, Homem de Ferro e o próprio Hulk. Mas, desde então, foi atualizado. Ele faz parte de uma série com Dossiês com aqueles membros originais do cinema.

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O Hulk do filme, com o rosto de Mark Ruffalo.

A série traz Dossiês com a trajetória nos quadrinhos de Viúva Negra, Gavião Arqueiro e do Homem de Ferro e Thor (que foi publicado pelo HQRock depois da do Hulk), somando-se ao já existente do Capitão América.

Então, construa sua bomba gama, vire um monstro verde e saia destruído tudo, ficando cada vez mais forte quanto mais fique com raiva e conheça toda a trajetória do Incrível Hulk nas histórias em quadrinhos, com alguns comentários rápidos a outras mídias. Quer saber como foram suas histórias, quem as escreveu e os segredos de bastidores? Pois siga conosco!

De Monstro a Herói

O Nome Hulk já havia sido usado outras vezes por Stan Lee e Jack Kirby quando a dupla decidiu criar a história de um monstro cinza (isso mesmo, cinza!) extremamente forte na qual se transforma acidentalmente o genial cientista Bruce Banner. Mas uma vez que The Incredible Hulk foi lançado, em 1962, o sucesso do monstro levou a se consolidar como um dos mais populares da Marvel.

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O Hulk na arte pintada de Alex Ross.

Apesar de ser um monstro antissocial, o Hulk, curiosamente, terminou sendo membro-fundador não apenas dos Vingadores, mas também dos Defesores, outro supergrupo dos anos 1970.

Quando ganhou uma série de TV com atores nos anos 1970, o antiherói se tornou o mais popular personagem da Marvel Comics depois do Homem-Aranha e sua revista viveu alguns anos de altas vendas. Depois, a febre passou, mas o golias esmeralda continuou querido no coração dos fãs e bastante conhecido mundo afora.

Seus filmes-solo não emplacaram, mas sua popularidade garantiu a presença do Hulk em Os Vingadores e o personagem foi realmente um grande destaque do filme-evento que se tornou a terceira maior bilheteria da história do cinema na época em que foi lançado, ultrapassando US$ 1 bilhão de arrecadação e mudando para sempre os filmes de super-heróis com sua consolidação do Marvel Cinematographic Universe (MCU). Um imbróglio com a Universal Pictures impediu que o Hulk fosse bem explorado nos cinemas, mas continuou aparecendo nos filmes dos Vingadores e, em seguida, nas séries do Disney+.

Subproduto da Guerra Fria

O Universo Marvel foi criado dentro de um contexto muito específico de Guerra Fria, ou seja, a guerra ideológica entre os Estados Unidos e União Soviética, que nunca saíram em conflito direto entre si, mas promoveram muitas e muitas guerras menores com outros países sob sua influência. Esse pano de fundo teve grande importância para as origens do Hulk como personagem, também, mas se somou à situação específica da Marvel Comics naqueles inícios dos anos 1960.

É preciso entender que o mercado de quadrinhos vinha tentando se recuperar da maior crise que vivera em sua história até então… As HQs viveram seu auge nos tempos da II Guerra Mundial, em que as revistas de Superman, Batman (ambos da DC Comics), Capitão Marvel (hoje conhecido como Shazam, então, propriedade da Fawcet Comics) e Capitão América (da Marvel) vendiam mais de 1 milhão de unidades todos os meses. Mas findo o conflito, em 1945, os super-heróis entraram em decadência quase imediatamente em favor de novos gêneros, como terror, faroeste, policial e romance.

Mas com o início dos anos 1950, uma velha questão ganhou mais força: a pretensa má influência das HQs na formação da juventude (embaladas no horror dos pais com a violência, nudez e morbidez das revistas de terror) e atingiu o apogeu com o livro A Sedução do Inocente do psiquiatra Fredric Wherthan, de 1954, que acusava os quadrinhos de serem os responsáveis pela delinquência juvenil dos EUA, o que derrubou as vendas das revistas e colocou a indústria inteira em cheque. Para se ter uma ideia, a editora que conhecemos hoje como Marvel, chamava-se Timely Comics nos anos 1940 e, com a crise no início dos anos 1950, mudou de nome para Atlas Comics (como recuperação de imagem), mas a queda das vendas foi tão grande que a empresa quase foi à falência em 1956 e demitiu todos os seus artistas, passando a trabalhar apenas com escritores e desenhistas free-lancers.

Após uma comoção da sociedade, uma investigação no Congresso e a criação de um órgão de autocensura para fiscalizar o conteúdo das histórias (o Comics Code Authority/ CCA) e garantir que a leitura fosse “segura” à juventude; lentamente a população foi reconquistando a confiança nas HQs e a as vendas foram crescendo de novo, permitindo que os anos 1960 fossem outra época dourada dos quadrinhos: a Era de Prata.

Entre o fim dos anos 1950 e o início dos 60, a DC Comics deu a largada com uma linha nova de heróis renovados e a criação da Liga da Justiça, que ampliaram as vendas da Distinta Concorrente. Enquanto isso, a antiga Timely-Atlas ainda vivia basicamente de revistas genéricas de faroeste e terror comandadas pelo editor-chefe Stan Lee. Mas o sucesso da rival motivou a criação de novos super-heróis.

Stan Lee e Jack Kirby em 1965: principais arquitetos do Universo Marvel.

Então, Stan Lee se uniu a Jack Kirby e criaram o Quarteto Fantástico, que estreou em Fantastic Four 01, de novembro de 1961 e deu partida ao Universo Marvel: era um quadrinho diferente, pois misturava o estilo de histórias de monstro típicas da editora (o grupo sequer usa uniformes nessa primeira edição) com uma abordagem extremamente dramática e o desenvolvimento altivo de personagens, cada qual com uma personalidade, cheia de humanidade e falhas. Os membros – os irmãos Johnny e Sue Storm, o namorado desta, Reed Richards, e o amigo Ben Grimm – brigavam o tempo todo e tinham atitudes de arrogância e orgulho proporcionais aos seus atos de heroísmo.

A capa de “Fantastic Four 01”, de 1961, por Lee e Kirby: marco zero do Universo Marvel.

Era algo novo nos quadrinhos de super-heróis, cujo padrão era a monotonia da DC Comics, onde os heróis eram infalíveis, modelos de bondade sem defeitos. E sem humanidade. E indistintos uns dos outros, pois todos eram perfeitos. Mas não tinham personalidade.

No Quarteto de Lee e Kirby, Richards era inteligente e frio, o que o tornava presunçoso; Johnny era arrogante e convencido; Ben era esquentado e atormentado; e Sue era sensata, mas insegura. Era uma forma nova de escrever super-heróis que não passou despercebida pelos leitores. E foi um sucesso.

Isso abriu as portas para novos empreendimentos da recém rebatizada Marvel Comics no mesmo estilo e o projeto seguinte de Lee e Kirby para a nova linha da Marvel foi justamente O Incrível Hulk.

Um Monstro Quebra Tudo!

Assim, como a “primeira família”, o monstro raivoso também estreou em sua própria revista, The Incredible Hulk 01, de maio de 1962. Como a Marvel ainda era uma editora pequena (que somente então voltava a crescer), o título era bimestral. Stan Lee e Jack Kirby já havia usado o nome “Hulk” para outro personagem pouco tempo antes, outro monstro, mas era um termo tão bom que o escritor (que também era o editor-chefe da editora) decidiu reciclar. Em inglês, a palavra hulk significa originalmente algo mucoso, mas ganhou um significado de algo forte, robusto e disforme.

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O Hulk na coloração cinza de “The Incredible Hulk 01”, de 1962, por Stan Lee e Jack Kirby.

Tal qual no Quarteto Fantástico, a trama daquela edição 01 não era o típico conto de super-herói, reforçando o caráter “diferente” da Marvel no mercado. Carregada de drama, a história mostrava o tímido e franzino Dr. Bruce Banner prestes a testar sua maior invenção: a bomba de raios gama (g-bomb). Vemo-lo apaixonado por Betty Ross, que também gosta dele, mas ambos são tímidos demais; e ela é a filha de seu patrão, o colérico General Thaddeus “Thunderbolt” Ross, do Exército dos EUA, que comanda uma base secreta no deserto do Novo México. (A base será batizada anos depois de Los Diablos Base, mas era referida nas histórias originais simplesmente como Base do Deserto).

Lee e Kirby mostram a tensão nos momentos anteriores ao primeiro testa da bomba gama, e que o assistente de Banner, chamado Igor, é um espião soviético disposto a sabotar o experimento. Para piorar tudo, na hora do teste, Banner percebe que há um garoto na área proibida e pede para que a contagem regressiva cesse, indo tirar o menino de lá. Porém, pensando que pode se livrar do maior cientista dos EUA, Igor mantém a contagem. Lá fora, Banner percebe que a contagem não parou e leva o garoto, Rick Jones, até uma vala de proteção, mas enquanto salva o menino, é atingido pela explosão!

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Bruce Banner se transforma em Hulk pela primeira vez: texto de Stan Lee e arte de Jack Kirby.

Mas Banner não morre! Levado para uma casamata, onde é submetido a exames médicos, e, enquanto se recupera, quando anoitece, se transforma em uma monstro: cresce de tamanho, fica muito mais musculoso e bruto, e a sua pele numa horrível cor cinza (isso mesmo, cinza, não verde!) e sai enlouquecido. Rick Jones presencia o momento e tenta ajudar o seu salvador, mas o bruto cinza se comporta de modo selvagem e só quer saber de ir embora.

Batizado de Hulk por um soldado do exército, o monstro sai destruindo tudo em seu caminho e sua força é demonstrada quando, por exemplo, destrói um Jeep com as mãos nuas. O monstro também sequestra Betty Ross, mas não a faz mal, que enxerga nele “uma tristeza, quase como se estivesse pedindo ajuda”, como diz ao seu pai. A ameaça da filha já cria uma animosidade férrea de Thunderbolt Ross com o monstro.

Mas a trama se desenvolve: o espião Igor age sob o comando de um cientista deformado chamado Gárgula, que vai até os EUA para sequestrar o tal monstro. Usando uma forte dardo anestésico, ele captura o Hulk e Jones e os leva à União Soviética. Só que ao cruzar o globo, se faz sol e o monstro reverte à forma de Banner, o que surpreende o Gárgula, que fica intrigado, por também ser um monstro e sonhar em voltar a ser um homem normal. Sendo um cientista de bom caráter, Banner descobre uma forma de curar o cientista soviético usando radiação, ainda que ao custo de seu intelecto avantajado. Em troca, o curado Gárgula envia Banner e Jones de volta aos EUA.

Essa trama brincava com elementos essenciais da época: o medo de uma hecatombe nuclear, o que pode explicar o seu sucesso inicial, além de toda a subtrama da Guerra Fria. Lee e Kirby também definem alguns elementos básicos do que é o Hulk, com sua força avantajada e intelecto confuso, ainda que sua transformação ocorra à noite.

Outro detalhe interessante sobre as origens do Hulk está em sua cor. Lee e Kirby pensaram num monstro da cor cinza, o que lhe dava um aspecto terrível e assustador, mas naqueles tempos, não era fácil conseguir cores escuras e um problema de colorização na edição 01 fez com que, em alguns quadrinhos, o personagem terminasse saindo em variações de cinza claro e escuro e até preto. Em outros quadrinhos, sua cor chegou a ficar vermelha e verde. Tendo em vista isso, para a edição 02, Stan Lee definiu que o Hulk seria verde, que era uma cor mais fácil de conseguir no arcaico processo de coloração da época e, a partir de então, o Hulk virou o gigante esmeralda.

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O Hulk na arte de Jack Kirby e Steve Ditko.

Lee tinha uma grande preocupação com a cronologia, mas ficou definido que o Hulk sempre fora verde. Nas reedições seguintes dessa história, o Hulk foi repintado como verde, mas em 1985, o escritor e desenhista John Byrne criaria uma história em que definia que o Hulk tinha sido originalmente cinza e se tornou verde pouco a pouco. Esta característica é a oficial nos dias de hoje, embora não tenha sido adotada nos cinemas. E falaremos mais sobre isso bem lá adiante.

Um Gigante Esmeralda

Personagens dos quadrinhos não nascem prontos, mas vão se desenvolvendo aos poucos. O Hulk continua a se definir em The Incredible Hulk 02, que dá um passo seguinte em um tema também muito comum à época: alienígenas. Na trama, uma raça de homens-sapos tenta invadir a Terra e seu caminho se cruza com o do nosso monstro verde. A história mostra Rick Jones ainda andando com Bruce Banner em dívida por ter salvo sua vida (e com culpa por ter ajudado a transformar o cientista em um monstro), e o cientista descobre uma caverna na qual improvisa um laboratório secreto e cria uma cela para conter seu alter-ego, com as paredes rochosas e uma porta de concreto de três metros de espessura.

Reprisando em algum sentido a trama da aventura anterior, os alienígenas estão atrás do Dr. Banner, que é a maior mente científica do planeta, mas ao abduzi-lo, nas trevas do espaço, ele se transforma no Hulk e ataca a nave, que cai próximo à Base do Deserto e Banner é encontrado nos escombros e acusado de traição. Mas o cientista se engaja em derrotar os ETs, usando um novo projetor de raios gama para derrubar outras naves e o Hulk, claro, também dá a sua força. Sem saber que o monstro e o cientista são a mesma pessoa, Ross retira a queixa contra Banner.

Um Hulk relativamente inteligente e malvado aparece pela primeira vez. Guarde isso para o futuro. Arte de Jack Kirby com tintaria de Steve Ditko.

Essa história traz um elemento interessante à época, pois é mostrado que o Hulk tem um intelecto, ainda que dominado pela raiva e por uma postura mesquinha, quase maligna. Por exemplo, quando o monstro se vê na nave alienígena, logo pensa que pode usar aquela tecnologia para o seu proveito, e com isso, “deixar de caça e se tornar caçador” e tomar o mundo. Isso é importante porque é a primeira aparição desse tipo de personalidade do Hulk que terá grande reverberação nas HQs de 20 anos depois, como veremos lá na frente.

E esse traço de personalidade logo desapareceria, pois não teria continuidade.

Outro detalhe importante é que a edição 02 trouxe o artista Steve Ditko fazendo a tintaria (cobrindo o lápis de Kirby com tinta nanquim, um procedimento que no Brasil chamamos de arte-final). Ditko estava apenas firmando seu nome na Marvel – ele seria o cocriador do Homem-Aranha muito em breve – e seu principal papel era (naquele momento) auxiliar Kirby. Mas Ditko realmente adicionava ranhuras e dava um senso de profundidade muito interessante à arte de Kirby, como pode ser visto na gravura do rosto do Hulk ali de cima.

The Incredible Hulk 03 traz não uma, mas três aventuras do monstro! Na primeira, o general percebe o vínculo de Rick Jones com o golias verde e cria uma armadilha para atrair o garoto e fazer o Hulk entrar dentro de uma nave de teste e, simplesmente, mandá-lo embora para o espaço sideral. O plano dá certo e o Hulk chega à estratosfera, onde recebe uma carga extra de radiação cósmica – aquela mesma que deu origem aos poderes do Quarteto Fantástico – mas a nave termina por cair de volta no deserto. Contudo, o excesso de radiação tem dois efeitos: o Hulk permanece ativo mesmo durante o dia e seu intelecto regride ao de uma fera bestial, não muito maior do que o de uma criança bem pequena e extremamente raivosa.

Esta história também é importante por mostrar pela primeira vez um dos poderes mais duradouros do Hulk: a capacidade de dar enormes saltos, com quilômetros de altura e extensão, que lhe permitem se mover rapidamente em longas distâncias. Essa habilidade era uma “homenagem” (provavelmente involuntária, ou melhor, tomada de empréstimo) ao Superman, que em suas histórias não voava, mas saltava tal qual o Hulk passou a fazer).

A aventura também trouxe um elemento bizarro: por causa do excesso de radiação, que também atingiu Rick Jones, o garoto passa a controlar a mente do Hulk.

A segunda história era uma precoce recontagem da origem do Hulk. Ainda que curta, o artifício mostra que havia uma leva nova de leitores interessados na revista que não tiveram acesso ao número 01 numa época em que as republicações eram praticamente inexistentes.

O Mestre do Picadeiro e seu Circo do Crime na splash page (página de apresentação) da terceira história de Hulk 03.

A terceira aventura introduzia um dos grupos de vilões mais recorrentes da Classe D da Marvel: o Circo do Crime, uma trupe de circo que usa poderes e habilidades circenses para cometer crimes, e é liderada pelo Mestre do Picadeiro, que possui um chapéu capaz de hipnotizar as plateias e roubá-las. Por idiotas que fossem, o Circo do Crime combateria todo mundo da Marvel, dos Vingadores e Thor ao Homem-Aranha.

Na edição 04, de novembro de 1962, o general Ross testa uma nova arma, um míssil congelante, que espera usar no Hulk e manda seu exército caçar o monstro, o que leva a um confronto breve, mas o gigante verde ainda sob o comando mental de Rick Jones o segue até o laboratório secreto de Banner em uma caverna, onde o jovem analisa o projetor gama criado pelo cientista e, finalmente, usa no monstro, que reverte à forma humana. Bruce estuda novamente sua criação e percebe que pode usá-la para induzir suas transformações e usar a força do Hulk para o bem (como um tipo de super-herói, pela primeira vez).

A oportunidade aparece quando há um incêndio em uma fazendo e Rick e Bruce usam o disruptor, o que faz com que o Hulk apareça, mas diferente dessa vez: mais ou menos imbuído da mente de Banner, ainda que um pouco mais brutal e menos articulado. Mas o plano dá certo e ele salva o dia.

A segunda história da revista mostra uma ameaça alienígena pousando no deserto e ameaçando a humanidade, mas logo descobrimos que são apenas agentes soviéticos se passando por ETs e um homem usando uma grande armadura de batalha para se passar por Mongul. Vendo a ameaça pela TV, Bruce usa o disruptor para se transformar no Hulk e vai combatê-los, logo percebendo o logro e acabando com todos eles.

Esta é a primeira vez que o Hulk bate as palmas das mãos para produzir uma onda de choque contra seus oponentes, um golpe que vai virar uma das armas do golias verde dali em diante.

Na edição 05, de novo temos duas histórias do Hulk. Na primeira, o general Ross traça um novo plano para caçar e destruir o gigante esmeralda e coloca justamente Bruce Banner à frente da assessoria científica para tal, e a ação se dá com a invasão de Tyrannus, o líder de um reino que vive secretamente nos subterrâneos da Terra (um local batizado anos mais tarde de Subterranea) e que se mantém vivo por milênios por causa da Fonte da Juventude que brota sob seu domínio, que sequestra Betty Ross e mobiliza Banner a usar outra vez o Projetor Gama para se transformar no Hulk e resgatá-la das profundezas da Terra.

E, na segunda história, mais um episódio típico da Guerra Fria, quando um militar chinês chamado general Fang toma o poder em uma cidade chamada Llhasa e ameaça a ilha vizinha de Formosa, deixando o mundo à beira da III Guerra Mundial. Banner pensa que o Hulk é o único que poderia detê-lo e vai até lá fazer isso – mas sua ausência não passa desapercebida pelo general Ross e sua filha Betty que se perguntam, por motivos diferentes, o que está acontecendo com o cientista e onde ele está? Banner inventa que tirou férias rápidas nas Bermudas, mas Betty não fica convencida.

The Incredible Hulk 06, de março de 1963, lançava dois alertas discretos aos leitores: primeiro, só traz uma única aventura do monstro, com um número menor de páginas; segundo, a arte não é realizada por Jack Kirby, mas por seu “assistente” Steve Ditko, inclusive, na capa, ainda que o roteiro continue creditado a Stan Lee.

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Capa de “Hulk 06”, última edição da primeira fase. Capa de Jack Kirby, arte interna de Steve Ditko.

Na trama, como sempre labiríntica, chega à Terra outro alienígena ameaçador chamado Mestre dos Metais, que ataca a Base do Deserto; depois, a Rússia; e depois, Washington, DC. Após uma rápido confronto com o exército, o Hulk retorna ao laboratório secreto na caverna e usa o projetor de raios gama para voltar a ser Banner, mas algo dá errado: embora sua pele volte ao normal, Bruce permanece muito maior e musculoso do que o normal. Após o primeiro ataque do alien, outra vez, Banner usa o projetor para se transformar no Hulk, mas algo dá errado de novo: seu corpo muda e cresce, mas não apenas ele mantém o seu intelecto integralmente, como também seu rosto permanece como o de Bruce – um indicativo claro que as transformações induzidas no gigante esmeralda estão começando a cobrar um preço.

Coisas estranhas começam a acontecer… Arte de Steve Ditko.

Receoso de que qualquer um irá reconhecer seu rosto no corpo do Hulk, Banner usa uma máscara de látex com a expressão do monstro e vai à luta contra o Mestre dos Metais, que tem a habilidade de manipular os metais, liquefazendo um tanque para se transformar numa gaiola, por exemplo, o que faz nosso herói ser derrotado. O exército tenta capturar o monstro e um soldado percebe que está usando uma máscara e quando a retira… suspense!… está o rosto normal do Hulk.

Quando o Mestre dos Metais parte para sua conquista mundial, Rick Jones usa um equipamento de rádio (eram os anos 1960 e não existia internet, lembrem!) para conectar uma rede de jovens que possa trocar informações rápidas e ajudar o mundo, nascendo a Brigada Juvenil (Teenage Brigade), um grupinho que remete aos grupos juvenis criados por Jack Kirby em sua carreira pretérita (como os Boy Commandos e os Boy Ranchs, ambos na DC Comics) – elemento que meio que comprova que Kirby teve participação na história, seja no roteiro, seja nos layouts para Ditko (provavelmente os dois), embora sem ser creditado.

Hulk versus Mestre dos Metais por Steve Ditko.

A Brigada Juvenil auxiliar Banner a reunir uma série de artefatos para deter o vilão e quando o Mestre dos Metais ataca Washington, o Hulk intervém armado de um imenso míssil que o alien não consegue alterar (porque é feito de plástico) e o golias verde ameaça exterminá-lo se não desfazer todo o seu mal e for embora, o que revela o vilão como um covarde que acata tudo, sem saber que é um blefe e o tal míssil não funciona. Uma mostra das vantagens do intelecto de Banner sobre o domínio do Hulk.

A ação heroica do Hulk em Washington lhe rende um Perdão Presidencial. O primeiro que recebe, mas não o último! E os leitores podem imaginar que o Mestre dos Metais seria reciclado de algum modo como o vilão Magneto dos X-Men.

Monstro Sem Revista

A trama parou aí e The Incredible Hulk foi cancelada. É preciso pensar que, no início de 1963, a Marvel ainda era uma editora pequena (em franco crescimento) e tinha um contrato de distribuição restritivo de apenas 8 revistas mensais. Por isso, a revista do golias verde era bimestral, pois esse artifício permitia à editora ter 16 revistas publicadas. Portanto, era um espaço disputado.

E The Incredible Hulk não vinha vendendo tão bem, ao mesmo tempo em que a história do Homem-Aranha, publicada em Amazing Fantasy 15, de agosto de 1962, (por Stan Lee e Steve Ditko) se mostrou a revista mais vendida daquele ano, e o publisher (e proprietário) da Marvel, Martin Goodman, decidiu exterminar a publicação do gigante esmeralda para dar lugar a uma revista própria para Peter Parker. E The Amazing Spider-Man 01 chegou às bancas em seu lugar, comandada por Lee e Ditko.

Mas Lee e Kirby adoravam o Hulk e, de imediato pensaram numa estratégia de trazê-lo de volta às bancas.

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O primeiro confronto entre Hulk e Coisa ocorreu em “Fantastic Four 12”, de 1963. Arte de Jack Kirby e texto de Stan Lee.

Uma maneira de mostrar que o Hulk prosseguia existindo era colocá-lo dentro de outra das revistas da Marvel, algo que Stan Lee e Jack Kirby fizeram de modo magistral fazendo o Hulk entrar numa batalha contra o Quarteto Fantástico, em Fantastic Four 12, publicada no mesmíssimo março de 1963 em que sua última revista foi às bancas. Foi uma tacada de mestre da dupla, porque: 1) Fantastic Four era a revista de maior sucesso da Marvel naqueles tempos; e 2) Lee e Kirby sabiam que um confronto entre eles, em particular do Hulk contra seu equivalente, o Coisa, iria dar o que falar entre os leitores e manteria o personagem sendo comentado por vários meses seguintes.

Outro ponto a destacar é que esse foi um dos primeiros crossover de personagens da Marvel, ou seja, personagens de uma revista migrando para outra. Só não foi o primeiríssimo, porque no mesmo mês de março de 1963, o Quarteto Fantástico aparecia em destaque na capa de Amazing Spider-Man 01.

O Hulk e o Coisa se encontram pela primeira vez, em Fantastic Four 12. Arte de Jack Kirby.

A trama de Fantastic Four 12 não prossegue exatamente do ponto em que The Incredible Hulk parou, apenas se aproveita da mesma ambientação, com Bruce Banner usando o projetor gama para se transformar, por exemplo. Na trama, o general Ross vai a contragosto buscar o auxílio do Quarteto Fantástico para capturar o Hulk (e o perdão presidencial?), e a chegada do time ao deserto do Novo México, claro, resulta em um choque colossal entre Senhor Fantástico, Mulher-Invisível, Tocha Humana e o Coisa contra nosso gigante verde. Até que descobrem que os infortúnios recentes da Base do Deserto são fruto de um agente soviético infiltrado chamado Destruidor, o que gera uma união entre a primeira família e o golias esmeralda.

Com isso, Reed Richards e companhia terminam percebendo que o Hulk não é uma força do mal, e sim, alguém trágico e mal compreendido, e vão embora.

Sem dúvidas a tática de Lee e Kirby deu certo e a empreitada ainda serviu para apresentar o personagem a um grande número de leitores que jamais o havia lido. E ele não tardaria a voltar.

Os Vingadores

Quando Martin Goodman pedira a Stan Lee criar um grupo de super-heróis para bater de frente com a Liga da Justiça, em 1961, Lee e Jack Kirby criaram um time totalmente novo de personagens, pois a Marvel não tinha nenhum super-herói uniformizado em publicação naquela época. Mas passados apenas dois anos, Lee, Kirby, Ditko e alguns outros artistas já haviam criado um pequeno punhado de heróis próprios da Marvel, então, já era possível reuni-los em um grupo.

E assim nasceu os Maiores Heróis da Terra, a reunião de Homem de Ferro, Thor, Hulk, Homem-Formiga e Vespa!

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Capa de Avengers 01 por Jack Kirby.

The Avengers 01, de setembro de 1963, por Lee e Kirby, mostra uma trama em sequência às aventuras de Thor na revista Journey Into Mystery (onde fora criado por Stan Lee, Larry Lieber e Jack Kirby, baseados na Mitologia Nórdica), na qual seu meio-irmão e arqui-inimigo Loki consegue escapar de sua prisão mística e vem a Midgard (a Terra) em busca de um plano para matar o deus do trovão, vendo o Hulk em ação e tendo a ideia de usá-lo como isca. Daí, o deus da mentira cria uma ilusão que faz as pessoas pensarem que o gigante esmeralda atacou um trem e isso cria uma comoção nacional.

Os heróis se unem contra Loki, por Lee e Kirby.

Rick Jones mobiliza sua Brigada Juvenil para interceptar o Hulk e Loki garante que a mensagem de rádio chegue aos ouvidos de Thor, que pensa que a comunicação é para ele e vai atrás. Mas como efeito colateral, a ação do deus da mentira permite que Tony Stark, Hank Pym e Janet Van Dyne também escutem e também partam em missão.

O Homem de Ferro fora criado por Stan Lee, Larry Lieber, Jack Kirby e Don Heck e era publicado na revista Tales of Suspense; enquanto Homem-Formiga e Vespa foram criados por Stan Lee, Larry Lieber e Jack Kirby na revista Tales to Astonish.

Nascem os Vingadores!

Então, os heróis encontram o Hulk disfarçado trabalhando como uma atração de circo no deserto – isso mesmo – e engatam uma luta breve com o monstro, mas logo, Thor percebe o dedo de Loki nisso tudo, e o leva à batalha, que é vencida com o esforço conjunto do grupo e os heróis decidem permanecerem unidos como uma equipe fixa, os Vingadores.

Hulk versus Vingadores em Avengers 02. Arte de Jack Kirby.

Mas Lee e Kirby não gostavam de mesmice e, desde o início, a intenção era tornar o Hulk um fator instável à revista dos Vingadores. Assim, Avengers 02, de novembro de 1963, mostra o time enfrentando o Fantasma do Espaço, que troca de lugar com os heróis, assumindo sua aparência e enviando-os temporariamente para o Limbo (uma dimensão perdida no espaço-tempo).

Primeiro quebra-pau de verdade entre Hulk e Thor.

E tal artifício deixa claro que os demais heróis não confiam no Hulk, o que motiva ao monstro sair na porrada com eles de novo, e tendo uma luta um pouco mais detida com Thor.

Um Hulk rejeitado abandona a equipe.

Chateado com a incompreensão dos “fracotes”, o Hulk decide deixar o grupo naquela edição mesmo, mostrando que estabilidade não é o forte dos Vingadores.

Mas o monstro era um bom chamariz, então, mesmo sem ser mais um membro oficial, lá está ele de novo em Avengers 03, de janeiro de 1964, quando os heróis saem em batalha contra Namor, o Príncipe Submarino – um herói criado em 1939 por Bill Everett na primeiríssima revista da Marvel e que fora bastante popular nos anos 1940, porém, após anos desaparecido é reencontrado pelo Quarteto Fantástico (em Fantastic Four 03, de 1962) e percebe que sua civilização subaquática, a Atlântida, foi destruída por testes nucleares, então, se volta contra a humanidade.

Escapando de um primeiro confronto com os Vingadores, Namor cruza o caminho com o Hulk e, bem ao estilo Marvel, os dois saem em combate, mas percebendo as semelhanças trágicas entre os dois, o atlante propõe uma aliança contra aqueles heróis, e lá vão os Vingadores terem que lutar contra a dupla. No fim, o Hulk também se sente usado pelo Príncipe Submarino e vai embora. (Hulk e Namor teriam um grande futuro pela frente, como veremos).

Mas esta edição deixou um legado, pois embora Bruce Banner estivesse se transformando no Hulk e vice-versa exclusivamente pelo uso do projetor gama em suas aparições mais recentes, em Avengers 03 ocorre pela primeira vez a transformação de Banner em Hulk por causa de estresse ou raiva, o recurso que se transformará no futuro no meio mais famoso e estabelecido dessa transformação.

Avengers 04, de março de 1964, não traz o Hulk, e sim, o grupo encontrando o seu substituto: o Capitão América, que é resgatado depois de passar décadas congelado desde o fim da II Guerra Mundial! O Capitão América fora criado por Jack Kirby e Joe Simon em 1941 e foi o maior sucesso da Marvel nos anos 1940 – tendo entre os seus escritores o jovem Stan Lee em início de carreira – até ser cancelado devido às vendas baixas em 1949, e cuja tentativa de retorno em 1953-54 esbarrou na campanha anti-quadrinhos da época e fracassou.

Seu retorno foi anunciado com estardalhaço e foi um sucesso imenso, ao mesmo tempo em que adicionava ao time uma liderança forte e um personagem mais experiente do que todos os outros em atos heroicos, à exceção de Thor (que tinha milhares de anos de idade).

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Mais uma vez contra o Quarteto Fantástico, por Lee e Kirby.

Em seguida, o golias verde reencontrou o Quarteto Fantástico, desta vez em uma ensandecida batalha no meio de Nova York, sendo o primeiro encontro daquela equipe com os Vingadores, que vão ajudar, como pode ser visto nas clássicas Fantastic Four 25 e 26, de abril e maio de 1964, ainda por Stan Lee e Jack Kirby. Na primeira, o Hulk está novamente no deserto, sendo perseguido pelo exército, mas o monstro escapa e adormece, revertendo à forma de Bruce Banner, que busca por Rick Jones para lhe ajudar, mas o garoto não está por lá (pois está em Nova York, com os Vingadores). Estar sozinho no deserto, perdido e sem ajuda causa um grande desespero no cientista que termina se transformando no Hulk de novo, que segue até seu laboratório na caverna e lá descobre que foi substituído pelo Capitão América nos Vingadores.

Hulk e Coisa têm um segundo round. Arte de Jack Kirby.

Furioso, o monstro decide ir até Nova York se vingar, mas é confrontado pelo Quarteto Fantástico, com Tocha Humana, Mulher-Invisível e Coisa sucessivamente lutando e sendo derrotados pelo monstro.

A poderosa batalha de Hulk e Coisa em Nova York por Jack Kirby.

Se os fãs acharam a luta entre Hulk e Coisa muito curta e contida um ano antes, foram recompensados em FF 25: são páginas de puro deleite em que Jack “O Rei” Kirby mostra sua famosa habilidade de batalhas dinâmicas e esses dois colossos destruindo a cidade. É um clássico!

Vitorioso, contudo, o Hulk segue seu caminho.

Fantastic Four 25 trouxe três curiosidades. Além de ser a segunda vez em que Banner vira o Hulk por estresse, o escritor Stan Lee cometeu um erro crasso ao chamar Banner de “Bob” em um dos recordatórios. Os leitores notaram isso e uma carta sobre o tema foi publicada na edição 28 daquela revista, na qual Lee endereçou o leitor afirmando que o nome completo do herói era Robert Bruce Banner – o que justificaria o uso de Bob – e, dali em diante, esse realmente se tornou o nome oficial do cientista, embora sempre chamado de Bruce.

A terceira coisa é que esta é a primeira vez que se dá a entender que quanto mais raiva o Hulk sente, mais forte ele fica. Essa que é uma das características primordiais do personagem até hoje seria oficializada mais ou menos um ano depois, como veremos.

Hulk versus Vingadores em Fantastic Four 26, por Kirby.

A batalha prossegue em Fantastic Four 26, com o Coisa e o Tocha Humana revidando contra o Hulk, que novamente os vence e vai até a Mansão dos Vingadores, que aguardam por ele. Enfrentando o time completo – adicionados pelo Capitão América – o Hulk não consegue vantagem e busca fugir, sendo interceptado em meio a um prédio em construção pelos Vingadores e pelo Quarteto Fantástico (agora, reagrupado e completo), numa titânica batalha dos dois grupos contra o gigante esmeralda.

Uma pena essa batalha estar nas páginas de Fantastic Four e não Avengers, mas é puro delírio. Arte de Jack Kirby.

De novo, são páginas e páginas de puro deleite nas mãos de Jack Kirby. O destaque maior – me perdoem os donos da casa – é do Hulk contra os convidados Vingadores, em uma batalha que segue o estilo do artista, que mostra que cada quadro tem uma sequência, num efeito muito cinematográfico.

Lá também está Rick Jones, que vinha acompanhando os Vingadores, (e Thor nos informa que o Capitão América vem treinando o rapaz para agir ao seu lado – como um tipo de substituto para Bucky, que então, era dado como morto) e, buscando ajudar seu amigo, joga uma capsula de radiação gama na boca do Hulk, que termina por reverter à forma de Bruce Banner no meio de um salto e desaparece no Rio Hudson.

Mas ele estará de volta imediatamente a seguir, em Avengers 05, do mesmo maio de 1964: agora, enquanto os Vingadores se recuperam da batalha com o Hulk (e o Capitão América continua a treinar Rick Jones), Banner regressa suas atividades na Base do Deserto, onde vai investigar uma misteriosa rocha que emergiu do solo. É fruto do ataque dos Homens-Lava (que já tinham enfrentado Thor antes) e os Vingadores se reúnem para detê-los, e Banner, ao vê-los, é novamente acometido de estresse e se transforma no Hulk, que vai outra vez atrás de acabar com seus ex-amigos.

Mas usando a inteligência e com o Gigante forçando o Hulk contra os Homens-Lava, os Vingadores saem vitoriosos e vão embora.

Depois disso, o Hulk ficou um longuíssimo tempo se se envolver diretamente com os Vingadores, ainda mais na revista própria do time.

E a tour do Hulk pelos títulos alheios continuava: ele está de volta Amazing Spider-Man 14, de julho de 1964, por Stan Lee e Steve Ditko, na qual temos a primeira aparição do vilão Duende Verde que arma um plano mirabolante para levar o Homem-Aranha até o deserto da Califórnia, e lá, os oponentes entram em uma caverna e encontram o Hulk. Dessa vez, era apenas um cameo (uma rápida participação especial) mais para lembrar aos leitores de que o gigante esmeralda estava por aí.

A última dessas participações especiais nessa fase se deu na aventura solo da dupla Gigante e Vespa em Tales to Astonish 59, de setembro de 1964, por Stan Lee no texto e Dick Ayers na arte. Na trama, ainda preocupados com o Hulk, Hank Pym e Janet Van Dyne vão ao deserto prestar seu auxílio ao time do general Ross, mas são seguidos pelo vilão The Top, que tenta usar o monstro verde contra o casal heroico, mas no fim, claro, o Hulk termina por ajudá-los a vencer o inimigo.

Nova Casa, Nova Fase

A aparição na aventura de Gigante e Vespa era apenas uma artimanha de Stan Lee para “apresentar” o Hulk aos leitores de Tales to Astonish, pois o editor-chefe da Marvel iniciava a partir dali uma estratégia para burlar a falta de espaço da editora nas bancas: dividir a revista entre duas atrações especiais. Tales to Astonish publicava há dois anos as aventuras de Hank Pym (primeiro como Homem-Formiga e, depois, como Gigante, e unindo-se à Vespa) e a partir de seu número seguinte (o 60º), a revista passaria a ter duas atrações: Gigante e Vespa na primeira história e o incrível Hulk na segunda – mantendo o mesmo preço de 12 centavos!

Hulk Tale of Astonish 60 cover 1966
Capa de “Tales to Astonish 60” de 1966 por Jack Kirby: volta de histórias próprias.

Não foi uma estratégia isolada e Stan Lee fez o mesmo com as outras revistas de antologia (ou seja, histórias variadas) da Marvel: Tales of Suspense passou a ser dividida entre o Homem de Ferro e o Capitão América; e Strange Tales passou a ser dividida entre o Doutor Estranho e Nick Fury, agente da SHIELD. Assim, apesar do número pequeno de revistas, a Marvel marcava uma presença mais forte nas bancas, com mais personagens publicados.

Tales to Astonish era uma revista lançada pela Marvel, em setembro de 1958, especializada em histórias de monstros – a maioria delas por Stan Lee e Jack Kirby. Inicialmente bimestral, se tornou mensal na edição 11 (setembro de 1960) e na edição 27 (janeiro de 1962) publicou uma singela história na qual o cientista Hank Pym desenvolve um soro para diminuir de tamanho e se torna alvo das formigas de sua casa. Era uma história dramática com toques de terror, mas Lee e Martin Goodman perceberam que ela vendeu bem mais do que as outras, então, em vista do lançamento da nova linha de super-heróis – então, com Quarteto Fantástico, Hulk, Thor e Homem-Aranha (que foi a primeira leva da Era Marvel – Lee e Kirby decidiram transformar Pym em um super-herói também, nascendo o Homem-Formiga em Tales of Astonish 35 (setembro de 1962).

Hulk versus Gigante em Tales to Astonish 59. Arte de Dick Ayers.

A partir daí, o Homem-Formiga (que mudou para Gigante na edição 49) se tornou a atração principal da revista e aparecia em todas as capas até que Tales to Astonish 60, de outubro de 1964, passou a dividir a capa em duas, dando destaque também às novas aventuras solo do Hulk.

Temos que admitir que, apesar da introdução do personagem e do estabelecimento dos preceitos básicos, a primeira fase do Hulk em seu título solo não foi realmente memorável e nem fez sucesso, e Lee e Kirby só acertaram a mão quando colocaram o gigante esmeralda contra os demais heróis da Marvel, nessa segunda fase nos títulos alheios. A questão com a novíssima fase de aventuras próprias era compor um ambiente mais interessante para a dinâmica do cientista que se transforma em monstro.

Nessa nova fase, Stan Lee não mudou realmente o status quo do personagem, mas parece ter dimensionado melhor as coisas, aprofundou o universo do Hulk, estreitando as relações com Rick Jones, tornando a relação com Betty Ross mais turbulenta, aumentando o ódio do General Ross pelo monstro e criando alguns vilões importantes, especialmente o Líder, que se tornaria o principal oponente do “herói” nos anos seguintes; e o Abominável, aquele que se tornaria seu igual em força.

Banner atormentado, Ross e Betty em Tales to Astonish 60. Por Lee e Ditko.

Aparentemente, ter tornado a transformação de Banner em Hulk através da raiva ou do estresse – como se desenvolveu nas suas aparições mais recentes – deu mais dinâmica às histórias, que deixaram de ser confinadas à passagem noite-dia como nas primeiras histórias ou a estapafúrdia estratégia de Banner se transformar deliberadamente no monstro. Afinal, por que alguém faria isso, ainda mais quando não tem o controle da criatura depois da transformação?

Fazer Banner se transformar via raiva ou estresse dava a possibilidade de explorar melhor o fator maldição dessa condição: o drama de um cientista brilhante que muda para uma criatura bestial e incontrolável que vai paulatinamente destruindo sua vida. E esse passou a ser o elemento essencial do personagem.

Mas como Stan Lee gostava de impor limitações claras aos seus personagens, esse ciclo de histórias coloca a curiosa situação em que o excesso de excitação transforma Banner no Hulk, mas o mesmo pode acontecer ao contrário, ou seja, muita raiva ou muito cansaço terminam fazendo o Hulk reverter à forma humana.

A temporada que se inicia com TA 60 mantém os roteiros de Stan Lee, mas a arte passa para Steve Ditko, que naquele ponto já era uma das estrelas da Marvel, responsável pela cocriação de Homem-Aranha e Doutor Estranho e também desenhando histórias do Homem de Ferro. Essas histórias mostram as consequências do Hulk na vida do Banner, com suas ausências na Base de Mísseis da Força Aérea (como a Base do Deserto também passa a ser chamada) fazendo Betty Ross se preocupar e buscar deliberadamente se aproximar de Bruce, pedindo que lhe confidencie o que está acontecendo, o que ele rejeita; enquanto isso gera suspeitas no general Ross, que passa a considerar a possibilidade de Banner ser um espião, o que é reforçado pelo constante ataque à base de agentes soviéticos como é o caso nessa sequência de histórias.

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Primeira aparição do Líder na arte de Steve Ditko.

Na TA 61, o major Glenn Talbot chega à base para investigar justamente isso e, logo, começa a suspeitar de um envolvimento de Banner com o Hulk, ao mesmo tempo em que começa a disputar a afeição de Betty; e na TA 62 somos introduzidos ao Líder que é quem infiltrou um espião na base, e depois, envia o Camaleão (um vilão criado por Lee e Ditko nas aventuras do Homem-Aranha). As ações do Líder e do Camaleão aumentam as suspeitas, culminando com Banner sendo preso em TA 63; mas, na TA 64, Rick Jones tenta convencer o cientista a revelar que é o Hulk, o que ele nega, pois teme que isso seja usado como uma arma pelos inimigos do país, então, Jones usa seu cartão de membro honorário dos Vingadores para ir até o Presidente dos EUA (retratado como Lyndon Johnson) e lhe conta a verdade, o que resulta em Banner ganhando outro Perdão Presidencial.

Mas isso não elimina as suspeitas de Talbot e um novo ataque de agentes soviéticos e a captura de Banner por eles só piora as coisas em TA 65, com a edição 66 fazendo o Hulk esmagar os soviéticos em sua própria terra (um gozo pros americanos da época), e o número 67 mostrando o monstro fugindo até a Mongólia, onde Banner é localizado pelos militares e Talbot é enviado para resgatá-lo, mas o ataque de bandidos faz surgir o Hulk que decide voltar para casa aos saltos, deixando o major desmaiado para trás.

Banner preso por traição. Arte de Steve Ditko.

Com Banner de volta para casa na edição 68, o cientista é preso de novo (acusado de traição), mas o presidente sabe da verdade e o liberta de novo, mandando-o para um importante teste nuclear sob a responsabilidade de Talbot, que não confia nele, mas agora, o Líder ataca e consegue sequestrar o monstro, sendo a última edição com a arte de Steve Ditko. Nunca foi revelado exatamente porque Ditko saiu, mas provavelmente, o artista queria mais tempo para se dedicar ao Homem-Aranha, cuja as histórias ele também roteirizava.

No número 69, de julho de 1965, Stan Lee prossegue no roteiro e a arte retorna às mãos de Jack Kirby. O rei dos quadrinhos não estava desocupado: naquela altura, desenhava Quarteto Fantástico, Thor, X-Men, Vingadores e Capitão América, mas usava sua capacidade de desenhar rápido para tal, embora é visível que o gigante verde não era sua prioridade no momento, infelizmente. A trama mostra Banner enviando um código Morse de socorro e o Hulk devastando o laboratório do Líder até os militares chegarem e encontrarem o cientista aparentemente morto, mas na edição 70, Rick Jones sequestra o corpo e o leva para o laboratório escondido na caverna do deserto, onde o bombardeia de radiação, com Banner virando o Hulk e mantendo seu intelecto, mas percebendo que irá morrer se voltar ao estado normal.

O Hulk é salvo da destruição pelo Líder. Arte de Jack Kirby e Mike Demeo.

Tales to Astonish 70 mudou um pouco seu status, pois deixou de publicar as aventuras de Gigante e Vespa em favor das novíssimas aventuras solo de Namor, o Príncipe Submarino, comandadas por Stan Lee e Gene Colan. Dali em diante, Namor e Hulk dividem a revista.

Continuando, o Hulk com a mante de Banner vai à Base do Deserto escondido e presencia Betty e Talbot se aproximando, mas o Líder ataca com um robô gigante e a grande batalha ocorre no número 71, quando os militares o destroem com um poderoso míssil, e Hulk foge com Rick Jones, mas o exército os cerca no laboratório secreto e o general Ross ordena um ataque aéreo, mas na edição 72, o monstro é salvo pelo Líder, que o teleporta à sua base na esperança de forjar uma aliança.

Os militares não encontram o corpo do monstro e pensam que ele morreu, e o Líder tenta estudar o Hulk para saber porque ele ficou inteligente, curando o gigante esmeralda de sua condição de saúde e, no número 73, enviando-o ao planeta do Vigia (o alienígena que registra os eventos na Terra, que aparecia nas histórias do Quarteto Fantástico), para colher a Ultimate Machine e o Hulk combate o Amphibion que também quer a arma; mas no número 74, o Hulk vence e leva o artefato de volta ao Líder, que ao tentar usá-la, termina sendo morto por ela, encerrando o longo arco do vilão.

Kirby não tinha condição de se dedicar integralmente às aventuras do golias verde e, portanto, nas edições 70 e 71 fez apenas os esboços de layouts à lápis e a arte foi finalizada por Mike Demeo (que fazia a tintaria das aventuras) e no número 74 o recurso foi repetido, agora, com Bob Brown.

Além de Ditko, a arte das histórias em Tales to Astonish também contaram com a arte de Jack Kirby (que voltou para os números 68 a 84) e dois novatos (e futuros lendários) artistas para a Marvel fizeram trabalhos na revista: Gil Kane (edição 76) e John Buscema, que se tornou o artista oficial do título.

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Capa de “Tales to Astonish 87”, por Gil Kane. A arte interna era de John Buscema.

Ainda com textos de Lee, desenhos de Kirby e arte-fnal de Bill Everett, Tales to Astonish 77, de 1966, trouxe a história em que o mundo descobre que o Hulk é o cientista Bruce Banner, que passa a ser perseguido pelas autoridades. Nessa época, a revista não trazia mais histórias do Gigante, mas sim, de Namor, o Príncipe Submarino, que dividia a publicação com o golias verde.

Após a saída de Kirby, John Buscema cuidou das histórias entre as edições 85 e 87, para em seguida, Gil Kane se tornar o artista fixo por um número maior de edições.

Foi nessa temporada em que surgiram personagens como o major Glenn Talbolt, que passaria a auxiliar o Gen. Ross na perseguição ao Hulk e também quando surgiu o principal oponente físico do herói: o Abominável, em um arco de histórias publicadas em Tales to Astonish 90 e 91,de 1967, por Stan Lee e Gil Kane. O vilão seria levado aos cinemas em O Incrível Hulk de 2008, o segundo filme do Marvel Studios.

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O Abominável aparece na capa de “Tales to Astonish 91”, por Gil Kane.

A partir de Tales to Astonish 92, as histórias do Hulk passaram a ser desenhadas por Marie Severin, uma das primeiras mulheres a ter destaque na indústria de quadrinhos dos EUA.

Nascida em 1929, Severin já havia desenhado a revista do Dr. Estranho e, além do Hulk, também trabalharia com vários outros personagens, como Conan e o Demolidor.

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Bela capa de “Tales to Astonish 100” por Marie Severin.

Lee e Severin produziram a história em que, entre os números 99 e 101, reuniu Hulk e Namor um contra o outro na mesma aventura. Esta foi a última edição da revista que, no mês seguinte, mudou de título para The Incredible Hulk (vol 2), embora estranhamente tenha mantido a numeração original com o número 102.

Os Loucos Anos 1970

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A capa forte de “Incredible Hulk 102” por Marie Severin.

The Incredible Hulk 102 dava início a uma fase na qual os roteiros passaram para as mãos de Gary Friedrich, um dos principais escritores da época, enquanto a arte permaneceu com Marie Severin.

Contudo, a maior característica dos anos 1970 foi a instabilidade nas equipes criativas. Stan Lee logo voltou aos roteiros, enquanto Marie Severin deu lugar a Herb Trimpe, o artista que cuidaria da maior parte da arte da revista durante a primeira metade da década. Contudo, escritores como Archie Goodwyn e Roy Thomas também escreveram o título.

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A clássica história de Jarella.

A história mais marcante dessa época foi “The Brute that Shouted Love at the Heart of the Atom”, publicada em The Incredible Hulk 140, de 1971, que teve a sinopse criada pelo escritor de ficção científica Harlan Ellison, roteiro adaptado por Roy Thomas e arte de Herb Trimpe.

Na trama, um vilão alienígena chamado Psyklop usa sua tecnologia para encolher o Hulk até o tamanho milhares de vezes menor do que um átomo. Só que o golias verde termina caindo em um tipo de dimensão subatômica, um mundo estranho onde todos os seres são verdes como ele. Dotado do intelecto de Bruce Banner, o Hulk se encanta com esse mundo que guarda características medievais e decide viver lá, feliz. E se apaixona pela princesa Jarella.

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A introdução de Leonard Samson em “Incredible Hulk 141”.

A partir de Incredible Hulk 141, Thomas e Trimpe iniciaram o arco de histórias que introduziu o Dr. Leonard Samson (ou Doc Samson), um psiquiatra de cabelos longos que termina sendo exposto à radiação gama e se tornando quase tão forte quanto o Hulk. E ainda um importante personagem coadjuvante pelos próximos 20 anos.

Roy Thomas e Herb Trimpe ficariam um bom tempo no título juntos, mas enquanto o artista permaneceu mais ainda, Thomas – que se tornou o Editor-Chefe da Marvel em 1972 – deixou o título nas mãos de Archie Goodwyn. Em seguida, em 1973, Steve Englehart escreveu alguns números, enquanto cuidava também dos Vingadores e outras revistas.

Os Defensores

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A estreia dos Defensores, em 1971. Capa de John Buscema e arte interna de Ross Andru.

Paralelamente à sua revista principal, o Hulk estrelou também outra revista ao longo de praticamente toda a década de 1970: os Defensores. Era um grupo meio incomum criado por Roy Thomas em Marvel Feature 01, de dezembro de 1971, numa história desenhada por Ross Andru.

Na verdade, era a conclusão de um arco de histórias que havia sido deixado inacabado com o cancelamento da revista do Dr. Estranho. Assim, Thomas prolongou a trama para outras revistas que escrevia, como as de Namor e do Hulk, culminando naquela Marvel Feature, que foi pensado, inicialmente, como um tipo de teste. A resposta dos leitores foi calorosa e as cartas inundaram a redação para que a editora prosseguisse a aventura daqueles heróis reunidos.

Então, Thomas, que se tornou o Editor-Chefe da Marvel em substituição a Stan Lee no meio desse processo, decidiu criar uma revista própria para o grupo, estreando The Defenders 01, menos de um ano depois, em setembro de 1972, com roteiros de Steve Englehart e arte de Sal Buscema. Os Defensores originais tinham, além do Hulk, o Dr. Estranho e Namor, o Príncipe Submarino, mas logo na edição 02 ganharam um novo membro, na figura do Surfista Prateado, e logo em seguida, uma nova heroína com Valquíria, na edição 04.

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Capa de “Defenders 02” por Sal Buscema.

Este quinteto consistiu no núcleo da equipe ao longo dos anos seguintes, quando as histórias abordavam os Defensores como um “não-time”, ou seja, eram apenas heróis reunidos para uma missão comum, sem o status de um grupo oficial, como eram, por exemplo, os Vingadores. Isso era no mínimo irônico em vista que o tal “não-time” manteve seu núcleo base a maior parte do tempo e se manteve sendo publicado por mais de 100 edições!

A dupla Englehart e Buscema produziu apenas as nove primeiras edições, que incluíram o famoso arco The Avengers-Defenders War, na qual um vilão articula um bombástico confronto entre os Vingadores e os Defensores, e rendeu uma das mais famosas batalhas do Hulk contra o Thor; mas Englehart achou cansativo demais escrever os dois grupos ao mesmo tempo e optou por permanecer apenas com os Vingadores, e Len Wein assumiu o título na edição 12, de setembro de 1973, ainda com Sal Buscema na arte, e criou A Gangue da Demolição (um dos grupos de vilões mais fortes da Marvel) e incluiu o Falcão Noturno (ex-membro do Esquadrão Supremo, que combateu os Vingadores) no não-time.

Montagem com os membros dos Defensores: Valquíria, Guardiã Vermelha, Falcão Noturno, Surfista Prateado, Gárgula, Fera, Namor, Hulk, Doutor Estranho, Felina, Filho de Satã e Lea.

Após a breve temporada de Wein, Steve Gerber assumiu The Defenders a partir do número 20, de junho de 1974, ainda ao lado de Buscema, e permaneceu por um tempo maior, até a edição 41, de novembro de 1976, no que é considerado como o apogeu do não-time. Essa primeira fase da revista trouxe um grande número de membros rotativos, como Gavião Arqueiro (edição 07), o já citado Falcão Noturno (edição 14), Luke Cage (edição 17), Daimon Hellstrom, o Filho de Satã (Giant-Size Defenders 02) e Hank Pym/ Jaqueta Amarela (edição 23), enquanto Doutor Estranho, Hulk e Valquíria eram os membros fixos mais constantes e Namor e Surfista Prateado iam e vinham ao sabor dos ventos.

Em termos criativos, vários outros roteiristas contribuíram para a revista, como Gerry Conway, David Anthony Kraft, Steven Grant e J.M. DeMatteis; enquanto Sal Buscema deixou a revista na edição 41 e foi sucessivamente substituído por Keith Giffen, Ed Hanningan e Don Perlin. Já em 1983, DeMatteis e Perlin mudaram o status da equipe a partir da edição 125, na qual Hulk, Dr. Estranho, Surfista Prateado e Namor deixam o time para dar lugar a uma nova formação, os Novos Defensores, com Fera, Anjo, Homem de Gelo (três ex-membros dos X-Men), Gárgula, Nuvem, Serpente da Lua e a veterana Valquíria.

Apesar do Hulk se manter como membro e chamariz da revista até o início dos anos 1980, realmente, pouca coisa em The Defenders teve real impacto em sua revista solo ou em sua cronologia, e na verdade, as aventuras do não-time eram tomadas quase como algo a parte, levando a situações estranhas como o fato de Hulk e Surfista Prateado compartilharem a publicação por muitos e muitos anos, mas o alienígena jamais encontrar Bruce Banner até uma edição futura de The Incredible Hulk. Em Defenders, o foco era apenas no monstro verde.

Começa a Fase Len Wein

Até o então novato Chris Claremont (que faria fama nos X-Men anos depois) escreveu alguns números da revista, que também passou às mãos de Gerry Conway em 1974, por pouco tempo, de modo que a revista passou às mãos de Len Wein, que já tinha escrito o golias esmeralda em The Defenders. Outro dos autores advindo do fandom e parte da mudança rumo à maturidade da Era de Bronze, Wein tinha começado a carreira no fim da década anterior na DC Comics, especialmente na linha de terror – onde criou o Monstro do Pântano – mas também escreveu Liga da Justiça e Superman, antes de ir para a Marvel, na qual começou em títulos como os Defensores.

Pouco depois de se notabilizar em The Incredible Hulk, Wein terminaria assumindo o cargo de Editor-Chefe da Marvel, ainda em 1974, em substituição a Roy Thomas – que preferiu permanecer apenas escrevendo – e manteve a produção do gigante verde concomitante à nova função, e ainda iria assumir o principal título da Marvel, The Amazing Spider-Man, em 1975.

Em termos criativos, Wein manteve o artista Herb Trimpe no comando da arte do Hulk.

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A estreia de Wolverine em “Incredible Hulk 181”, de 1974. Arte de John Romita.

A principal marca do início do período de Wein à frente do Hulk foi a criação de Wolverine, junto ao desenhista John Romita, que fez sua primeira aparição no arco publicado entre The Incredible Hulk 180 e 182, de outubro a dezembro de 1974, apresentado como um agente secreto do Canadá que interfere em uma luta do golias verde com o Wendigo nas geladas terras canadenses. Romita criou o visual do personagem e fez as capas, mas a arte da história permaneceu com Trimpe.

O baixinho invocado foi criado a partir de uma demanda quando Thomas ainda era o editor-chefe, pois a Marvel tinha muitos fãs no Canadá, e seria interessante ter um herói advindo de lá. Wolverine já é apresentado como mutante e foi incorporado ao plano que Thomas e Wein elaboravam na época de criar uma nova geração dos X-Men, pois o time tinha tido a revista cancelada por baixas vendas anos antes. Os novos X-Men estreariam no verão de 1975, contendo Wolverine, em Giant-Size X-Men 01, por Wein e Dave Crockum.

Sal Buscema.

A Chegada de Sal Buscema

Pouco depois, em 1975, Herb Trimpe, o principal desenhista do Hulk nos últimos cinco anos, saiu do título e foi substituído por Sal Buscema, que já era então um dos principais ilustradores da Marvel, com passagens por Vingadores, Capitão América e Defensores, onde – como vimos – desenhou os 41 primeiros números da revista do time ao qual o Hulk era um dos protagonistas. O golias verde era o personagem favorito de Buscema, irmão caçula de John Buscema, e Sal teria um vínculo muito duradouro com o personagem.

Sal Buscema seria o principal ilustrador da revista pelos próximos 10 anos, batendo o recorde de artista que por mais tempo desenhou o Hulk em sua história.

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“Incredible Hulk 203” traz a saga de Jarella. Arte de John Romita.

A principal história produzida pela dupla Len Wein e Sal Buscema foi a morte de Jarella, que ocorre em um arco inicado em Incredible Hulk 201 e se finda na edição 205.

Sucesso na TV e nos Quadrinhos

Len Wein continuaria no título de 1974 até 1978, quando passou a bola para o estreante Roger Stern, a partir de The Incredible Hulk 219.

Nascido em Noblesville, Indiana, em 1950, Stern era mais um membro do fandom (ou seja, da comunidade de fãs) que migrou para a condição de criador. Ele e Bob Layton (futuro escritor e desenhista) criaram o fanzine CPL, em 1970, que se tornou bastante popular e chegou a ser publicado pela Charlton Comics (a terceira maior editora de HQs dos EUA na época). Quando seus colegas de fandom começaram a ganhar espaço na indústria – como Marv Wolfman e o próprio Wein – Stern começou a escrever histórias para a Marvel de modo esporádico, em 1975. No ano seguinte, se tornou editor assistente e assumiu a editoria da revista The Incredible Hulk. Quando Wein deixou a revista, novo editor-chefe da Marvel, Jim Shooter (que tinha iniciado no cargo há apenas algumas semanas) comissionou que o próprio Stern assumisse o título.

Shooter bem sabia da capacidade de escritor de Stern, porque este tinha escrito como ghost writer algumas histórias de Shooter na DC Comics.

Roger Stern estreou em The Incredible Hulk 219, com data de capa de janeiro de 1978, ainda dividindo os créditos com Wein e passou as edições imediatamente seguintes fechando as pontas deixadas pelo ex-escritor antes de iniciar sua própria temporada. A capa era de Ernie Chan e a arte interna de Sal Buscema. Como Stern era anteriormente o editor da revista, deixou esse cargo, que passou para Al Migrom, que passaria bastante tempo na coordenação de The Incredible Hulk dali em diante. Migrom era também ilustrador, de modo que ele assumiu a maioria das capas dessa fase.

A fase de Roger Stern foi muito boa, mas o título se tornou um grande sucesso por uma ajuda externa: naquele mesmo ano, estreava a série de TV da CBS baseada no personagem, estrelada por Bill Bixby como David Banner (e não Bruce por motivos escusos) e Lou Ferrigno como o Hulk.

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Hulk e Banner por Lou Ferrigno e Bill Bixby: grande sucesso na TV.

Na época, Stan Lee era o publisher da Marvel e uma de suas funções era negociar o licenciamento dos personagens, conseguindo uma parceria com a Universal Television para produzir uma série baseada no Hulk na rede CBS. A abordagem do programa era mais “humana” (para justificar o baixo orçamento) e realista, com o monstro verde sendo bem mais forte do que um humano normal, mas dentro de parâmetros contidos.

Na trama, o cientista David Banner havia perdido a mulher e o filho em um acidente de carro e tentara, inutilmente, erguer o veículo para salvá-los; e ficou obcecado com o fato de que algumas pessoas despertam um tipo de “força extra” quando num momento de grande fúria ou desespero. Daí, faz um experimento com raios gama que dá errado e o transforma numa criatura bestial, superforte e verde quando fica com raiva. Dado como morto, Banner roda o interior dos EUA em busca de uma cura, enquanto é perseguido por um jornalista sensacionalista e se mete em confusão em todos os lugares.

O piloto da série foi exibido como um longametragem de 90 minutos em novembro de 1977 e fez bastante sucesso, justificando uma primeira temporada feita às pressas com apenas 10 episódios e exibida no primeiro semestre de 1978. A segunda e a terceira temporadas seguiram o formato padrão, iniciando em setembro e encerrando em abril ou maio, com 22 e 23 episódios, respectivamente, entre 1978 e 1980. A quarta temporada teve 18 episódios e a quinta apenas 7, se encerrando em maio de 1982.

The Incredible Hulk, a série, deixou um legado duradouro, marcou uma geração e tornou o golias verde um dos personagens mais famosos da Marvel.

O seriado foi o único dos vários que a Marvel tentou lançar – Homem-Aranha, Capitão América e Dr. Estranho também tiveram suas tentativas e Mulher-Hulk e Demolidor & Viúva Negra chegaram a ser planejados – que deu certo. E sua revista se beneficiou disso.

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A bela arte de Arnie Chan em “Incredible Hulk 220”.

A temporada de Roger Stern na revista começou para valer a partir de Incredible Hulk 223, de maio de 1978, quando Bruce Banner percebe que ficou curado de sua maldição por causa da descarga de radiação que sofreu nas edições anteriores. Porém, o mendigo que havia sido acolhido na Base Gama nos números anteriores se revelou ser o vilão Líder, que tomou o controle da instalação, fazendo o Capitão Bowman, o General Ross, Doc Samson e Bruce Banner como reféns, enquanto vemos Jim Wilson caindo na estrada em busca de seu velho amigo verde.

Arte de Al Migrom.

Com o Líder anunciando planos de dominação mundial, Samson e Ross tentam convencer Banner a se tornar o Hulk de novo e acabar com o vilão, na edição 224, mas o cientista se recusa e, em vez disso, usa o velho Hulk-Robô para atacar o Líder e seu Módulo Mortal, mas o embuste é descoberto e a conexão neural entre Banner e o robô termina ferindo mortalmente o cientista quando a máquina é destruída. Samson luta para mantê-lo vivo na edição 225 e, como último recurso, bombardeia Banner com raios gama, mas não há resultado algum e ele morre na frente do psiquiatra e do general Ross. Morre? Claro que não, o Hulk desperta e Samson o provoca, deixando-o furioso e lutando contra o Líder, que é morto, mas o gigante esmeralda não está satisfeito e ataca o psiquiatra de cabelos verdes.

Hulk enfrenta Sócrates: conhece-te a ti mesmo! Arte de Sal Buscema.

A edição 226 traz um toque sentimental e reflexivo: após Hulk vencer Samson, ele foge e vai parar na Universidade do Deserto, um local em que o monstro lembra ter lutado contra o Capitão Marvel no passado, mas que foi a universidade em que Banner estudou e o golias verde também recorda do jovem Banner apaixonado e namorando uma garota chamada Sally. Enquanto o Reitor da instituição tenta encarar o Hulk, o monstro fica atormentado ao ver uma estátua de Sócrates com os dizeres “Conhece-te a ti mesmo” e a destrói, mas tão impactado pela mensagem, termina revertendo a Banner com a cabeça do filósofo nas mãos. Poético, não? Jim Wilson e Samson chegam ao local também.

Uma boa sacada vem a seguir: em Incredible Hulk 227, escrita por Stern com a ajuda de Peter Gillis, Samson leva Banner de volta à Base Gama e decide fazer uma terapia com o Hulk e analisá-lo pela primeira vez (pois já tinha feito isso com Banner). Dando uma dose altíssima de um calmante contaminado com radiação gama, Samson consegue que Banner se transforme em Hulk, mas se mantenha calmo e deitado em um divã de ferro, na qual consegue acessar à mente do monstro por meio de uma máquina especial.

Hulk versus Banner no plano mental. Arte de Sal Buscema.

Com isso, Samson mergulha na psiquê do Hulk e percebe como o monstro nada mais é do que a manifestação dos medos, da raiva e da frustração de Banner desde a infância, mas o Hulk chega a lhe dizer que, após a explosão da bomba gama, ele ficou “livre”, o que faz o psiquiatra perceber que Banner e Hulk são duas entidades separadas. Mas como efeito do tratamento, o Hulk subjuga Banner, aliado ao fato de Samson perceber que errou a dose do calmante radioativo e o monstro verde não regredirá à forma humana por semanas!

Continuando essa história, temos The Incredible Hulk Annual 07, de outubro de 1978, na qual Stern divide o roteiro com John Byrne, que também desenha a aventura. Byrne vinha da mesma geração do fandom que tomou o controle dos quadrinhos na Era de Bronze e se tornaria um dos maiores escritores-desenhistas da época, dono de uma arte muito bonita.

Belíssima arte de John Byrne no Annual 07.

Na trama, o Hulk o cruza o caminho com Anjo e Homem de Gelo, dois ex-membros dos X-Men e dos Campeões (e que seriam futuros membros dos Novos Defensores), para enfrentar o Molde Mestre, o mais poderoso dos Sentinelas (os robôs gigantes caçadores de mutantes), descobrindo que esse modelo era a fusão da inteligência artificial original com o cientista Stephen Lang, que morrera em uma aventura dos X-Men (em Uncanny X-Men 100, do ano anterior).

De volta à revista mensal, a edição 228 dá início a outro ciclo, trazendo de volta Betty Ross (ainda com seu visual loira de cabelos longos), que está separada de Glen Talbott, e vê o pai, o general Ross, dar uma entrevista descontrolada na TV, ensandecido de raiva, e ela pensar que não o vê assim desde a morte da mãe. Mas enquanto Samson continua a tratar do Hulk, uma certa Dra. Karla Sofren consegue emprego na Base Gama, e logo descobrimos que ela é ninguém menos do que a vilã Rocha Lunar.

Arte de Herb Trimpe.

Ao longo do número 229, após ser flagrada pelo Hulk tentando roubar artefatos da base e entrar em confronto com ele, Sofen manipula a todos (Samson e Ross) para fazer crer que o monstro verde está descontrolado e é bem sucedida. Quando Sofen é encurralada pelo Hulk e se transforma na Rocha Lunar, Ross chega a ver tudo, mas fica tão chocado pela traição dela que sofre um colapso nervoso e desmaia. Por sua vez, Samson pensa que o gigante esmeralda está atacando a “inocente” doutora e pensa que o Hulk é mesmo um monstro que merece ser perseguido. O Hulk vai embora outra vez.

A edição 230 é um “número de férias”, com o roteiro ficando com Elliot S. Maggin (famoso roteirista do Superman) e a arte de Jim Mooney (que também trabalhou na DC com Batman e Supergirl, mas fez vários trabalhos na Marvel, notadamente, com o Homem-Aranha), que contam uma história na qual um alienígena com aparência de inseto abduzindo o Hulk para dissecá-lo.

Hulk versus Rocha Lunar e Doc Samson. Arte de Sal Buscema.

O ciclo de Stern e Buscema prossegue no número 231, movimentando a trama: enquanto o Hulk vai à Califórnia e encontra o hippie Fred Sloan e é acolhido por ele; a Base Gama passa ao comando de Doc Samson (que não quer o cargo) e sofre uma visita dos senadores Andrew Hawk e Eugene K. Stivak como um tipo de vistoria, em vista dos fiascos recentes com destruição e a fuga do Hulk.

Esse número conecta a revista do Hulk com a grande trama da Corporação, uma organização criminosa secreta que vinha agindo nos bastidores do poder como uma conspiração e que se desenvolvia em várias revistas da Marvel – um típico de recurso incentivado por Jim Shooter – como Capitão América e Homem-Máquina. Era uma releitura da saga do Império Secreto, que o escritor Steve Englehart havia desenvolvido na revista do Capitão América apenas alguns anos antes e uma forma de reciclar a ideia.

Logo na edição 231 descobrimos que o senador Stivak é conhecido como Kugger e é o líder da Costa Oeste da Corporação e que ele sabe que a doce Dra. Karla Sofen é a Rocha Lunar. Daí, quando as notícias de que o Hulk está na Califórnia chegam à Base Gama, ele articula para que ele mesmo, Jim Wilson e Sofen partam num jatinho para lá, supervisionar a ação das autoridades.

Icônica capa de Ron Wilson para Captain America 230.

Então, em um efeito relativamente raro para a época, a trama salta inteira para uma outra revista: Captain America 230, de fevereiro de 1979, traz argumento de Roger McKensie, roteiro de Roger Stern e arte de Sal Buscema e Don Perlin, resultado da fusão das equipes criativas das duas revistas, e trazem uma trama na qual o Capitão América vai à prisão de Alcatraz junto com o remanescentes da equipe de superagentes da SHIELD (que tinha sido infiltrada pela Corporação), com Marvel Man e Vamp, em busca do Falcão, que estaria lá, numa base escondida da organização criminosa. Ao mesmo tempo, Kugger usa a Rocha Lunar para simular suas próprias mortes na queda do jatinho e seguirem com o plano, conseguindo capturar Fred Sloan e o Hulk, que tentavam escapar disfarçados na kombi do hippie.

Todos se reúnem em Alcatraz e numa grande batalha na qual Vamp se revela uma agente da Corporação e vira um monstro (Annimus) que ataca o Capitão América e o Hulk.

De volta à Incredible Hulk, o número 232 traz Roger Stern dividindo o roteiro com David Michelinie, e arte de Sal Buscema, para mostrar a Corporação matando Kugger por seu fracasso e Curtiss Jackson se tornando o novo líder, enquanto o Capitão América e o Hulk vencem os vilões, mas Jackson foge num módulo submarino e o Hulk usa o mesmo túnel de fuga para ir embora.

Arte de Al Migrom.

Na edição 233, o Hulk resgata Fred Sloan e vão embora, enquanto o Marvel Man tenta detê-lo. Na Base Gama, o agente Jasper Sitwell (antigo coadjuvante das histórias do Homem de Ferro e da SHIELD) atualiza Samson, Hawk e Clay Quartermain sobre tudo: Kugger, a Corporação e que a Dra. Karla Sofen é a Rocha Lunar; o que reforça a ideia de Hawk de que a Base Gama precisa de uma reestruturação completa, o que gera uma tensão com Samson, que não quer o cargo. Após prestar seu depoimento, Marvel Man vai embora, assumindo o nome Quasar (ele será um membro dos Vingadores na década de 1990).

Glenn Talbot e Betty Ross se reencontram no México. Para o quê?

E enquanto vemos Betty Ross e o major Glenn Talbot se reunirem na Cidade do México para um “evento” misterioso, acompanhamos Sloan levar o Hulk à casa de uma amiga em Berkeley, perto de San Francisco, e fica surpreso quando os dois já se conhecem: ela é Trish Starr!

Hulk com Fred Sloan e Trish Starr. Arte de Sal Buscema.

Na edição 234, Trish conta a sua história: sobrinha do vilão Egghead, ela foi salva pelo Homem-Formiga em Marvel Feature 05, o que a fez se mudar para Nova York em busca da carreira de modelo e terminar namorando o Águia Noturna, membro dos Defensores, se tornando uma coadjuvante daquela revista (a partir de Defenders 21), até que um ataque do Egghead, explodindo o carro deles, resultou nela perdendo o braço esquerdo. Enquanto foi apoiada por Hank Pym, agora como Jaqueta Amarela, o olhar de pena de Águia Noturna para ela fez os dois terminarem e ela voltar à Califórnia, se envolver com misticismo e ser dominada por uma entidade maligna chamada Shazanna (em Defenders 41) e ser salva pelo Doutor Estranho.

Lembrando que os Defensores tinham Hulk, Doutor Estranho e Namor como membros originais e outros heróis mais rotativos, de modo que toda essa ambientação de Trish envolvia o golias verde, também.

Uma curiosidade é que a revista mostra os amigos hippies de Sloan e Starr rejeitando o Hulk, o que faz a dupla refletir sobre “o fim do sonho” e porque a geração que mudou tanto os anos 1960 não conseguiu fazer o mesmo pelos 70, o que devia ser mais uma angústia de Stern do que de qualquer personagem. Ademais, a edição mostrava a Corporação continuar sua ação: usam um falso Homem-Máquina para sequestrar Trish, como vingança pela interferência do herói em Machine Man 08, e fazer o Hulk ir atrás dele.

Hulk versus o Homem-Máquina, por Sal Buscema, em Incredible Hulk 235.

Isso ocasiona em duas edições explosivas – os números 235 e 236 – com um grande quebra-pau entre o Hulk e o Homem-Máquina, até que na edição 237, Aaron Stack (ou X-51) percebe o que está acontecendo ao acessar a mente do Hulk e conduzir os eventos para que o monstro, a despeito de sua fúria, o ajude a ir atrás da Corporação. Contudo, com Curtiss Jackson, Trish e Jim Wilson (que tinha sido sequestrado por Kugger lá atrás lembram) em um prédio na (fictícia) cidade de Central City, na Califórnia (cidade de origem de Reed Richards e onde surgiu o Quarteto Fantástico) terminam levando um Hulk totalmente ensandecido indo ao resgate de seus amigos e, juntando o conflito com o Homem-Máquina e a Corporação, terminar por destruir metade da cidade. No fim, Jackson é preso – pondo fim ao arco da Corporação – e o Homem-Máquina hipnotizar o Hulk e enviá-lo para bem longe.

As consequências dão início a um outro arco, na edição 238, de agosto de 1979, na qual o presidente dos EUA (desenhado como Jimmy Carter) visita as ruínas de Central City e conversa com o senador Hawk e o agente da SHIELD Clay Quartermain, que estão lá para supervisionar as ações do Hulk, e o presidente os convida a segui-lo no Air Force One; enquanto o Hulk desperta no Canadá, mas retorna aos EUA indo parar no Monte Rushmore (aquele com as estátuas gigantes de quatro presidentes do país).

Central City depois do Hulk. Por Sal Buscema.

Então, finalmente descobrimos o que Betty Ross e Glenn Talbot estão fazendo no México: foram assinar seu divórcio e ela descobre sobre o colapso do pai e sai correndo para ir embora. Talbot se dá conta de que perdeu tudo por causa de Banner e o Hulk e fica possesso.

Glenn Talbot fica possesso por Banner.

Então, a ação: um misterioso grupo de seres poderosos chamados Eles observam o Hulk ao mesmo tempo em que um criminoso chamado Escaravelho Dourado parte ao encalço do gigante verde. E passamos ao número 239, na qual Doc Samson decide ir embora da Base Gama e leva consigo o catatônico general Ross, seu paciente. Ao mesmo tempo, o exército encurrala o Hulk em Rushmore, mas mal começa a batalha, o monstro é abduzido pela nave do Escaravelho Dourado, que usa a energia gama para alimentar o veículo e disparar até os Andes, onde irá em busca da mítica cidade de El Dorado numa missão associada aos misteriosos Eles.

Bruce Banner em El Dorado. Arte de Sal Buscema.

Claro, que dá tudo errado, com o Hulk se libertando, destruindo a nave e caindo, mas de fato, a dupla aterrissa em El Dorado e são recebidos por Tulak, que na edição 240 explica que o Hulk é um tipo de salvador aguardado por uma antiga profecia e o Hulk é apresentado a Eles, um trio formado por Rey, Des e Lann; enquanto vemos Betty chegar à Base Gama em busca do pai, mas ele já não está mais lá; e sabemos que Fred Sloan está sendo pago por uma editora para escrever um livro sobre o Hulk e Trish Starr atua como sua secretária.

Na edição 241, o arco inicia seu clímax, com Eles apresentando a Chama Eterna para o Hulk e, como forma de irritá-lo, revelando-lhe que o corpo de sua amada Jarella está armazenado na Base Gama para estudos; e ficamos sabendo dos planos nefastos do grupo que quer usar a força do Hulk para aumentar seu poder. Porém, quando Jack Smith, o Escaravelho Dourado, desperta e percebe que El Dorado é toda construída em ouro, ele percebe que seu sonho de riqueza é inútil, pois se o mundo souber que a cidade – que é inteiramente construída em ouro – realmente existe, o valor do ouro no mercado internacional vai simplesmente reduzir a quase nada.

Hulk versus Tyrannus em El Dorado. Arte de Sal Buscema.

Essa constatação lhe deixa irado para se vingar do Hulk por ter acabado com seu sonho, mas ao presenciar as ações de Eles, termina se unindo ao golias esmeralda para ajudá-lo. Mas com ambos subjugados, o ancião Des se revela como sendo o velho vilão do Quarteto Fantástico Tyrannus (que também enfrentara o golias verde na Incredible Hulk 05, de 1963), soberano do submundo da Terra, e mata os outros dois membros e absorve seus poderes, iniciando um grande confronto com o Hulk, que prossegue pela edição 242.

Até que, na edição 243, de janeiro de 1980, Roger Stern divide os créditos com Steven Grant, para o encerramento do arco, com o Hulk vencendo Tyrannus com a ajuda do Escaravelho Dourado e o povo de El Dorado os teletransportando para Nova York. O Hulk, então, tenta acertar as contas com o vilão, que busca fugir, mas termina sendo preso pela dupla Luke Cage e Punho de Ferro, enquanto o Hulk parte para o interior. Na Califórnia, Betty Ross cede uma entrevista para o livro de Fred Sloan e Trish Starr lhe comunica que conseguiu que ele participe do Programa de Mike Douglas, que terá participação do cantor e compositor Rick Jones, que é outra pessoa que ele quer entrevistar. Enquanto isso, na Base Gama, Clay Quartermain vai embora, enquanto o senador Hawk o apresenta ao novo diretor do complexo: o promovido coronel Glen Talbott, que está imbuído de completo ódio contra o Hulk e sua missão é deter o monstro a qualquer custo!

A nova diretriz da Base Gama por Glenn Talbot: deter o Hulk a qualquer custo. Por Roger Stern e Sal Buscema.

A edição 344 é outro número de férias, com Steven Grant e Carmine Infantino contando uma aventura do Hulk contra It, o Colosso de Pedra em Los Angeles; e a Incredible Hulk Annual 08, traz novamente Roger Stern unindo forças com John Byrne (dessa vez apenas nos roteiros) com arte de Sal Buscema e trazendo uma luta do Hulk contra o Sasquatch, membro da Tropa Alfa – que Byrne criara em sua temporada nos X-Men ao lado de Chris Claremont. Esta história é importante, porque mostra Banner sendo acolhido por uma garota e ao ver que o Hulk e seu mundo podem estragar tudo o que lhe cerca, aquele momento de paz, ele pega uma espingarda e pensa em se suicidar. Esse caráter suicida de Banner seria explorado no futuro.

Contudo, o arco com Tyrannus e o Anual encerram a rica temporada de Roger Stern à frente do golias esmeralda. Stern deu dinâmica à revista e trouxe algumas discussões interessantes, sobre a crise moral dos anos 1970 e um mergulho na psiquê de Bruce Banner, trazendo não somente o aspecto do suicídio (que falaremos mais em breve), mas as sementes das ideias acerca da origem real do monstro, relacionando aos traumas da infância e juventude do cientista e o fato de Hulk e Banner serem mesmo duas entidades distintas.

Uma Nova Fase de Ouro: Bill Mantlo

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A longa parceria entre Bill Mantlo e Sal Buscema é um dos períodos mais clássicos do Hulk.

A edição seguinte já trouxe o substituto Bill Mantlo, que ficaria os cinco anos seguintes à frente do título, a maior parte ainda com Sal Buscema na arte.

Mantlo em 1978.

Nascido no Brooklyn, em Nova York, em 1951, Mantlo estou na High School of Arts and Design e cursou faculdade da Cooper Union School of Arts, se especializando em pintura e fotografia. Foi um colega de faculdade que o levou a trabalhar na Marvel em 1974 como colorista, pintando as histórias dos heróis que tanto amava. Mas apenas alguns meses depois, ao ver o editor Marv Wolfman desesperado porque uma das histórias que coordenava iria ficar fora do prazo, Mantlo lhe entregou um roteiro para publicar como uma história fill-in. Contudo, Wolfman ficou tão impressionado com a qualidade que Mantlo se tornou o roteirista fixo da tira Sons of Tiger, publicada em The Deadly Hands of Kung-Fu, na qual criou, ao lado do desenhista George Perez, o Tigre Branco, primeiro super-herói latino dos quadrinhos.

Logo em seguida, Mantlo assumiu alguns títulos secundários, como The Champions (os Campeões), e Marvel Two In One (com aventuras do Coisa e outros convidados a cada número) em 1976, antes de pegar Marvel Team-Up (que trazia histórias do Homem-Aranha com outros heróis da editora), e se dar tão bem que saltou para Peter Parker: The Spectacular Spider-Man, em 1977. Em 1978 e 1979 ele iniciou seu trabalho mais conhecido com Os Micronautas e Rom, o cavaleiro espacial, duas licenças de brinquedos que a Marvel publicou em revistas com bastante sucesso na época, com 58 e 74 edições, respectivamente.

A longa temporada de Bill Mantlo durou das edições 245 à 313, entre 1979 e 1985, e manteve Sal Buscema na arte, pois já trabalharam juntos com sucesso em Peter Parker: The Spectacular Spider-Man, revista secundária do Homem-Aranha. Como Buscema era um artista rápido, ao mesmo tempo, Mantlo e Buscema também trabalharam juntos na revista de Rom. Aliás, uma questão curiosa é que, num típico arranjo editorial, Mantlo trocou de lugar com Roger Stern, com este assumindo a revista de Peter Parker, e Mantlo tomando seu lugar com Bruce Banner.

A fase de cinco anos de Mantlo à frente do Hulk foi aclamada como um dos melhores momentos do monstro em todos os tempos, com roteiros ágeis e vinculados com o mundo real, e teve dois grandes arcos. O primeiro foi uma série de histórias em que o Hulk sai viajando pelo mundo, o que o coloca nos cenários mais improváveis. Nesse percurso, o autor e Sal Buscema também criaram muitos personagens, como a heroína israelense Sabra e o grupo de vilões Alienígenas (U-Foes, no original).

Arte de Rick Buckler.

Mantlo começa em The Incredible Hulk 245, de março de 1980, exatamente do ponto em que a fase anterior terminara: Fred Sloan aparece no Programa Mike Douglas ao lado de Rick Jones (o velho parceiro do Hulk, mas que também acompanhou as aventuras dos Vingadores, Capitão América e Capitão Marvel), com os dois defendendo o Hulk das acusações de ser um selvagem destruidor. O próprio Capitão Marvel aparece para dar um alô, mas quando eles vêm pela TV o Hulk atacar a Base Gama, o guerreiro Kree parte para lá voando.

Glenn Talbot extravassa seu ódio usando a Mandroide contra o Hulk. Por Mantlo e Buscema.

O Hulk está em disparada contra a Base Gama porque descobriu a algumas edições atrás que os militares guardam lá o corpo de Jarella, a mulher que ele amou (e morrera quarenta edições antes) e que jurou que iria enterrá-la em seu reino, com seu povo. Mas o ataque é a oportunidade perfeita para o coronel Glenn Talbot se vingar dele, e o militar usa uma das poderosas armaduras Mandroide da SHIELD, mas claro, ela não é o suficiente para deter a força do ensandecido monstro e Talbot está prestes a ser morto quando o Capitão Marvel chega.

O Hulk luta com o Capitão Marvel pelo corpo de Jarella.

Porém, já na edição 246, os poderes cósmicos de Mar-Vel lhe permitem perceber o que o Hulk quer e que o objetivo de Talbot é apenas matar o Hulk e se vingar, então, o guerreiro Kree faz um acordo de que os militares lhe entreguem o corpo de Jarella e deixem o Hulk ir embora, o que Talbot finge aceitar. O Hulk se apossa do cadáver preservado de sua amada e Talbot usa um aparelho para enviá-lo ao mundo subatômico de K’ai, mas destrói a máquina em seguida, “prendendo para sempre” o golias esmeralda lá. Enquanto isso, vemos que Samson e Ross estão em uma cabana de caça no Colorado, com o primeiro cuidando da saúde mental do segundo.

No número 247, o Hulk chega a K’ai, é acolhido pelos habitantes – que o consideram rei – e ficam felizes, honrados e emocionados de que o golias verde cumprira sua promessa de trazer o corpo de Jarella para ser enterrado lá. Mas K’ai vive tempos difíceis, com o declínio de sua tecnologia e uma seca que deixou uma única floresta fértil em um vale, mas na qual ninguém que entrou vivo saiu de lá. O Hulk decide ir mesmo assim, para enterrá-la lá e após ser atacado por todos os seres vivos da floresta, inclusive, as plantas, descobre que o lugar é guarnecido pelo Jardineiro.

Arte de Michael Golden.

Então, ficamos sabendo, na edição 248 que o Jardineiro é portador da Joia da Alma, que antes pertencera a Adam Warlock, e que não permite nenhum outro ser vivo consciente na floresta que não ele próprio, mas o Hulk insiste, luta, é derrotado, se converte de volta em Banner, e ele também volta à floresta para cumprir sua missão, vira o Hulk de novo e, no fim, na luta com o Jardineiro termina por lhe arrancar a Joia e lançá-la no centro do planeta.

O Hulk cumpre sua missão e enterra a amada e um “milagre” acontece, com uma flor brotando imediatamente sobre a sepultura. Tocado, o Jardineiro percebe seu próprio erro e como forma de se redimir, se propõe a ajudar K’ai e manda o Hulk de volta para a Terra.

Na edição 249, Sal Buscema cumpre um pequeno intervalo de férias e é substituído por Steve Ditko, que retorna ao personagem num período em que fazia alguns trabalhos para a Marvel. Ele mostram o Hulk enfrentando Jack Frosty/Nevasca, ex-vilão do Homem de Ferro e que agora procura viver um vida calma e isolada no subterrâneo. Enquanto isso, Betty, Sloan e Rick vão ao Colorado visitar Samson e Ross, mas não os encontram na cabana, pois a dupla saiu para caçar e se deparam com uma coisa que não é humana, e a edição termina em suspense com o trio de amigos do Hulk vendo um Centauro invadir a cabana.

Arte de Al Migrom.

Então, Sal Buscema volta para ele e Bill Mantlo apresentarem a edição comemorativa de The Incredible Hulk 250, de agosto de 1980, que se tornou uma das melhores histórias já escritas sobre o golias esmeralda. Na trama, o Hulk chega a uma cidadezinha rural tranquila do Sul chamada Liberty, onde está situada uma base científica que o monstro já visitara no passado, chamada Tranquility Base, e se transforma em Bruce Banner, mas em um ambiente tranquilo e acolhedor, o cientista é abrigado pela viúva Clare Mundy e sua filha Mary Beth, com quem passa a viver em troca de trabalho na fazenda; mas no fim das contas, termina se envolvendo romanticamente por algumas semanas.

Banner encontra uma família em Clare Mundy e sua filha. Por Mantlo e Buscema.

Até que o Surfista Prateado encontra Banner e percebe que a sua energia gama pode ser a chave para romper a barreira invisível que lhe confina na Terra, criada por Galactus quando o traiu na sua primeira história lá atrás em 1966. Lembre, o Surfista foi parceiro do Hulk nos Defensores até não tanto tempo antes… Então, um desesperado Surfista encontra Banner e suga sua radiação gama, mas a intervenção tira todo aquele equilíbrio e tranquilidade que Banner manteve nas semanas anteriores e ele vira o Hulk de novo, é visto pelos habitantes da cidade e Clare descobre que ele é o monstro.

No fim, o Surfista leva o Hulk para o espaço e, sugando sua radiação, consegue romper a barreira e singrar livre o espaço pela primeira vez em anos; todavia, Banner cai desolado rumo à Terra, e o Surfista percebe que não pode deixá-lo morrer, então, retorna e deixa Banner num campo. O alien percebe que poderia repetir o procedimento e conseguir a liberdade, mas então, entende a grande tragédia que causou na vida de Banner movido por seu egoísmo e desespero, fica arrependido, e jura que não irá mais interferir da vida dele, indo embora, deixando Banner desolado por ter conhecido a paz e a felicidade e isso ter sido tirado dele.

Um soco no estômago, não?

Ao mesmo tempo em que a edição comemorativa estava nas bancas, também circulou The Incredible Hulk Annual 09, novamente com a arte de Steve Ditko, mas o roteiro desta vez por Doug Moench.

Arte de Rick Buckler.

Em seguida, após alguns números de transição – com o confronto com o 3D-Man (edição 251) e o fechamento do arco na cabana de caça de Leonard Samson (edições 252 e 253), com o Hulk enfrentando os Changelins novamente (que ele e o Homem-Aranha haviam encontrado em Marvel Team-Up 53 a 55, de 1977, uma história de Mantlo e John Byrne); a temporada de Bill Mantlo entrou em um de seus momentos mais fortes, um longo arco que os leitores e críticos chamam às vezes de Turnê Mundial, na qual o golias verde dá uma volta completa no globo.

Tudo começa com The Incredible Hulk 254, de dezembro de 1980, na qual enquanto vaga pelo deserto, o Hulk enfrenta pela primeira vez os Alienígenas (péssima tradução brasileiras para o nome U-Foes, expressão em inglês que é um trocadilho de UFOs [Objetos Voadores Não-Identificados] com “you foes” [“os inimigos de vocês”]). O time de vilões se tornaria um tradicional oponente do Hulk e sua origem era uma homenagem ao Quarteto Fantástico, com um grupo de cientistas inescrupulosos tentando mimetizar o acidente que deu origem à “primeira família” da Marvel, e o quarteto Vector, Ironclad, Vapor e X-Ray ganhando poderes mais relacionados a propriedades químicas, mas ao mesmo tempo, relacionados aos poderes do Quarteto.

Arte de Rick Buckler.

É uma edição memorável, com uma grande batalha encarniçada do Hulk contra os vilões, dando bastante espaço para os amplos painéis arrebatadores de Sal Buscema, e os U-foes aparentemente sendo mortos. Em seguida, a edição 255 mostra o Hulk perigosamente chegando em Nova York, o que alarma as autoridades e provoca uma grande batalha contra o Thor, reprisando um pouco o espírito da célebre história de sete anos antes.

Arte de John Romita.

No fim, o monstro escapa e adormece escondido no porão de carga de um navio que o leva para Israel, onde Banner desperta no número 256, o que causa uma grande confusão, um confronto com as autoridades israelitas e a intervenção da heroína Sabra (Ruth Bat-Sedaph), que estreia de verdade e é creditada a uma colaboração de Mantlo e Buscema com Belinda Glass, enquanto John Romita desenhou a capa (o que alguns insistirem que foi ele quem criou o visual).

Talbot questionado pelo Congresso, por Mantlo e Buscema.

Nessa mesma edição, vemos o coronel Glenn Talbot comparecendo a uma comissão de investigação do Congresso dos EUA sobre a Base Gama, no que resulta o Governo considerando o projeto um fiasco completo e fechando a instalação – um evento importante, interrompendo a ação da base que esteve presente desde a primeira aventura do Hulk – , o que deixa Talbot completamente louco ao ponto de roubar um artefato especial que havia construído, o Vagão de Guerra, uma nave superpotente projetada especialmente para exterminar o gigantes esmeralda, e partir em uma missão sozinho de vingança, como já vemos na edição 257, enquanto o Hulk chega à Arábia Saudita e confronta dois demônios antigos – Gog e Mangog – e ver nascer um novo herói, o Cavaleiro Árabe, que empunha uma espada e um tapete mágicos. Ao mesmo tempo, vemos Rick Jones preocupado com a questão: se não há mais Base Gama, quem irá cuidar do Hulk? Então, ele vai atrás dos Vingadores em busca de ajuda.

Nas edições 258 e 259, o Hulk chega ao Afeganistão – país que havia sido invadido pela União Soviética pouco tempo antes – e o ataque do exército vermelho o leva à Zona Proibida, região da Sibéria que foi acometida de um grande desastre radioativo (antecipando Chernobyl em cinco anos!) e que descobrirmos estar relacionado aos poderes de Presence, namorado da Guardiã Vermelha (heroína que foi parte dos Defensores pouco tempo antes), ambos membros dos Super-Soldados Soviéticos (Darkstar, Vanguarda, Dínamo Escarlate e o estreante Ursa Maior), que são enviados para deter a ameaça e manipulados pelo vilão Doutor Phobos. As notícias viajam o mundo e Rick Jones pede ao Capitão América para os Vingadores irem lá, mas o herói diz que não pode, pois o grupo teve uma atuação controversa na União Soviética pouco tempo antes; mas Glenn Talbot leva seu Vagão de Guerra para lá, mas não encontra o Hulk, apenas cria um incidente internacional ao confrontar os russos.

Talbot versus Hulk, por Mantlo e Buscema.

No fim, o Hulk foge e aparece no Japão na edição 260, na qual atrapalha as filmagens de um filme-catástrofe chamado Dragon Over Tokyo, que é realizado à força pelo diretor Sanshiro Sugata, que acha a produção desrespeitosa aos valores do seu país. Mas tudo fica pior, quando o Hulk é encontrado por Talbot, que o ataca com seu Vagão de Guerra e a acirrada batalha termina por ativar um vulcão extinto no Monte Kuroishi. O golias verde ainda simpatiza com uma estátua de jade de Buda, que Sugata luta desesperadamente para salvar da lava, e a põe em lugar seguro, e o evento termina com a morte de Talbot e a destruição de seu veículo.

No número seguinte, a edição 261, mostra o Hulk chegando a nado na Ilha de Páscoa, no meio do Pacífico, e encantado com a paz do lugar, decide descansar por lá, mas o Homem-Absorvente está lá também, após sua derrota pelos Vingadores (em Avengers 183 e 184), com a mente desestabilizada após ter se transformado em água, o que gera um confronto e Creed se transformando em uma ilha rochosa após absorver as propriedades de Páscoa.

Arte de Al Migrom.

Bruce Banner finalmente acorda na Califórnia na edição 262, e é acolhido por uma mulher chamada Glazier que transforma pessoas em estátuas de vidro e vive em uma mansão de vidro, oportunidade para Mantlo contar uma história mimética ao conto do Rei Midas, que transformava tudo o que tocava em ouro, e o mesmo acontece com o vidro de Glazier. Curiosamente, este número teve duas histórias e a segunda mostra um confronto contra os Espectros (tradução brasileira para Dire Wraits), os monstros especiais perseguidos por Rom, o herói que Mantlo e Buscema também produziam paralelamente em sua própria revista na época.

Este arco da Turnê Mundial, embora pareça bastante episódico para os padrões atuais – em que as tramas são bem mais interconectadas de edição para edição – na verdade é um deleite ao leitor sensível, pois mesmo nas situações mais fantasiosas, Bill Mantlo está fazendo uma leitura do mundo naquele momento, fazendo críticas e criando situações a partir de temas como o conflito político-religioso na Palestina, a invasão do Afeganistão pela União Soviética, o uso perigoso da energia atômica, o conflito ético-cultural do Japão em contato com o mundo ocidental, a reflexão sobre a obsessão de Talbot e, por fim, uma sensível leitura do conto do Rei Midas. Quadrinhos de altíssima qualidade.

O arco de histórias seguinte lida com o reencontro com Betty Ross e Rick Jones e a dupla trabalhando juntos com Bruce Banner para tentarem se livrar do Hulk. É um momento interessante, pois é a primeira vez que Bruce e Betty se reaproximam em muitíssimo tempo (desde que ele se apaixonara por Jarella, em Incredible Hulk 140; o que contribuiu para ela ser jogada nos braços de Glenn Talbot e os dois casarem na edição 158). E, ainda assim, Mantlo não faz isso durar muito.

Começa na edição 263, de setembro de 1981, na qual, com as notícias de que o Hulk está na Califórnia, Rick Jones e Betty Ross voam para lá, e o aeroporto de Los Angeles é atacado pelo mutante Avalanche (membro da Irmandade de Mutantes), mas isto termina por reuni-los com Bruce Banner e eles saem se escondendo nas cavernas do deserto, na edição 264, na qual Jones usa os novíssimos comunicadores sem fio que o Homem de Ferro lhe deu em sua estada recente com os Vingadores, e monta uma nova Brigada Juvenil (aquele grupo de adolescentes que se comunicam via rádio das histórias dos anos 1960); mas eles são localizados pelo vilão Night Flyer, que está agindo ao mando do Corruptor, que quer dominar a mente do Hulk.

Arte de Al Migrom.

Então, tal qual Mantlo homenageou o Quarteto Fantástico com a origem dos U-Foes, faz o mesmo com os Vingadores e um novo grupo de heróis, os Rangers. Na edição 265, a Brigada Juvenil envia um pedido de socorro aos Vingadores, mas a maquinaria do Corruptor consegue enfraquecer o sinal, que só chega mais ou menos até o Arizona, mas é ouvido por heróis terciários da Marvel que atuam no meio-oeste: Flama (Firebird), Night Rider, Shooting Star, Texas Twister e Lobo Vermelho (Red Wolf), que ajudam a derrotar o vilão e, em seguida, decidem permanecer juntos como um grupo fixo de heróis. Ao fim da batalha, Bruce e Betty fazem um pacto de pôr um fim definitivo no Hulk, algo que Rick no fundo não concorda, porque acha que o golias verde pode ser uma força do bem.

As duas edições anteriores, também mostram que a morte de Glenn Talbot causou um grande incidente internacional e o Governo dos EUA decide retomar alguma frente de ação sobre o Hulk, o que faz com que o general Ross saia da reserva e volte à ativa, agora trabalhando no Pentágono, ao mesmo tempo em que lhe é dito de que não haverá refinanciamento à Base Gama.

Arte de Al Migrom.

Então, na edição 266, Bruce, Betty e Rick vão ao velho laboratório secreto que Banner usava nos seus primeiros tempos de Hulk, em busca de encontrar uma cura para sua maldição, porém, ao chegarem lá, o vilão Alto Evolucionário está usando a instalação, usando uma energia para de-evoluir a vida ao redor do local, o que transforma Betty e Rick em Dryopithecus africanus (um homídio ancestral da raça humana de milhões de anos atrás). Banner é imune ao processo e quando o Hulk confronta o Alto Evolucionário, descobre que o plano do vilão é destruir a própria armadura para cometer suicídio, o que no fim das contas consegue, desevoluindo até virar uma gosma protoplasmática.

No número 267, vemos a volta de Glorian e do Shaper of Worlds que hipnotizam uma cidadezinha do deserto exibindo-lhes seus sonhos; e na edição 268, enquanto o gigante esmeralda luta contra o Pária, há um conflito entre Bruce e Rick, porque o garoto insiste na força positiva do Hulk, enquanto Banner quer se livrar para sempre. Mas também há problemas entre Bruce e Betty, pois ela quer um envolvimento amoroso – ela quer transar, diríamos hoje – e Bruce diz que não pode se comprometer com ela até finalizar sua missão. Putz!

A mesma questão se repete na edição 269, quando Bruce e Betty têm um momento “romântico” vendo as estrelas na noite, e de novo, ela leva um fora; e o Hulk luta contra um grupo de alienígenas, o que termina com o gigante esmeralda fazendo uma pequena “turnê” pelo espaço nos números seguintes. Assim, na edição 270, enquanto o Hulk enfrenta o Abominável e dá uma surra homérica no vilão, Rick comete uma grande estupidez ao disparar em si mesmo o disruptor gama (a arma que Banner usava para provocar sua transformação no monstro quando era necessário nos primeiros tempos), ficando às portas da morte por envenenamento radioativo.

Seu objetivo era transformar a si mesmo em um novo Hulk, de modo a manter o potencial bem do golias verde. Uma ideia que terá consequências no futuro não tão distante.

The Incredible Hulk 271, de maio de 1982, era uma edição celebrativa de 20 anos de publicação do golias verde e Bill Mantlo preparou uma história especial, inteiramente baseada na canção Rocky Raccoon dos Beatles. A canção, composta por Paul McCartney, foi lançada no The White Album, de 1968, e narra uma história meio de faroeste do herói do título para lutar contra um vilão e resgatar sua amada. Mantlo transformou tudo isso em uma epopeia espacial.

O hoje popular Rocket Raccoon estreou numa história do Hulk. Arte de Al Migrom.

Assim, ele mudou o nome do herói para Rocket Raccoon (sim, ele mesmo, o herói hoje famosíssimo pelos Guardiões da Galáxia) e criou a história na qual o Hulk cruza o caminho desse aventureiro espacial que tem como parceiro Wal Rus (uma brincadeira com walrus/ morsa, que vem de outra canção dos Beatles: I am the walrus, de 1967), que viajam na nave Rakk’n’Ruin (sacaram?) contra o vilão Judson Jakes, que está atrás de um artefato cósmico chamado Bíblia de Gideon e sequestrou Lylla, a namorada do herói-guaxinim, nomes e situações inspiradas na canção da banda britânica. Uma loucura divertida e que terminou criando toda uma nova ambientação que seria reutilizada pela Marvel Comics no futuro e ao cinema também.

Mantlo batizou a história de Now somewhere in the black holes of Sirius Major there a lived boy named Rocket Raccoon, que é uma alteração da primeira frase da canção, que cita originalmente as Black Hills de Dakota.

Bereet é introduzida.

Em paralelo, vemos a introdução da personagem Bereet, uma bela alienígena que é fascinada pelo heróis da Terra e produziu uma série filmes fictícios sobre o Hulk – que quando são mencionados trazem quadros das histórias do gigante esmeralda na revista The Rampaging Hulk – e que, agora, teve a ideia de produzir um documentário sobre o monstro. Ao chegar à Terra, Bereet é interpelada por Betty para que ajude Rick, que está morrendo de envenenamento radioativo, e Bereet fica em dúvida, pois isso eliminaria sua “objetividade” no documentário; contudo, termina por suar sua tecnologia mais avançada para salvá-lo.

O Hulk regressa à Terra na edição 272, e após esse interlúdio galáctico, dá-se início outro arco de histórias baseado em Bruce Banner assumindo integralmente o controle da mente do Hulk. Mantlo replica um recurso já usado por Roger Stern antes dele: como o gigante esmeralda recebeu uma dose maciça de radiação em sua aventura no espaço, isso altera sua dinâmica de transformação. Dessa vez, Banner percebe que ao se transformar, mantém sua consciência e o controle do corpo do Hulk, ao mesmo tempo em que nota que a fúria do monstro tem sua utilidade ao se ver no meio de uma batalha do Sasquatch (membro do grupo heróis canadenses Tropa Alpha) e o velho Wendigo.

Na edição 273, Banner-Hulk encontra uma trupe de alienígenas insectoides que roubam trigo de uma cidadezinha e, de imediato, se propõe a ajudar as pessoas, terminando por descobrir que o plano dos extraterrestres é, em troca, doar à cidade um tipo especial de grão que poderia acabar com a fome no mundo, mas foi arruinado pela ação equivocada do herói; num conto moralista de “cuidado com as aparências” (algo que sem dúvida ressoa no próprio Hulk) elaborado por Mantlo.

Na edição 274, Betty guia Bereet até à desativada Base Gama, onde haveria mais recursos tecnológicos para salvar Rick; ao mesmo tempo em que Banner-Hulk salta pelo território dos EUA em busca de reencontrar seus amigos no Novo México. No caminho, vê um trem prestes a sofrer um acidente em uma ponte danificada e tenta ajudar, mas Banner ainda não controla totalmente a força de seu corpo e cria algumas dificuldades, aliada à percepção de que as pessoas temem terrivelmente a presença do Hulk.

Banner e Betty Ross são supreendidos pelo retorno dos U-Foes. Por Mantlo e Buscema.

Banner chega ao seu velho laboratório no número 275, e como Betty e Rick não estão lá, logo supõe que foram à Base Gama, onde se junta a Bereet no esforço de salvar o garoto, mas são atacados pela vilã Jackdaw, que está ao comando de uma figura misteriosa e ativa uma arma guardada na instalação: um robô gigante chamado Megalith. Porém, ao mesmo tempo, os U-Foes se recompõem e atacam a base na edição 276, quando vencem o Hulk (Banner não tem a ferocidade necessária para sobrepô-los) e o levam sequestrado; enquanto Bereet, Betty e o já curado Rick vão atrás, e, no número 277, conseguem impedir os vilões de televisionarem a execução do Hulk.

Uma das pouquíssimas capas do Hulk feitas por Sal Buscema.

Então, temos uma grande virada em The Incredible Hulk 278, de dezembro de 1982: Banner vai a Nova York onde pede a ajuda do Quarteto Fantástico para conseguir uma anistia ao Hulk, agora que ele controla o monstro. Daí, é articulado que o defensor público Matt Murdock (que secretamente é o Demolidor) faça uma petição em Washington, DC. Percebendo que pode lucrar com isso, o Líder – o misterioso vilão que atuou nas sombras três números antes – promove uma invasão alienígena na hora, e o Hulk-Banner se une aos Vingadores e ao Quarteto Fantástico para impedi-los, e ao fim, o golias verde é aclamado um herói!

Coisa e Alicia entregam a estátua de adamantium ao Hulk.

Em consequência, na edição 279 – que é excepcionalmente ilustrada por Mark Gruenwald – é promovida uma grande homenagem ao Hulk no Central Park, com Banner recebendo o Perdão Presidencial e ganhando uma estátua de adamantium feita pela artista Alicia Masters. Infelizmente, agora, que Banner está convencido do ponto de vista de Rick de que pode usar o Hulk para o bem, Betty decide ir embora, pois não está disposta a continuar vivendo ao lado do gigante esmeralda.

Banner e Bereet terminam se envolvendo amorosamente.

Com Betty ausente, a edição 280 mostra Banner e Bereet saindo para jantar e iniciando um romance até que o Líder sequestra Rick Jones e a garota-alien, o que obriga Banner a pegar um Quinjet (o jato dos Vingadores), já no número 281, e ir ao espaço até o Omnivac, o asteroide artificial do vilão, mas de novo, a incapacidade de Banner de acessar a fúria do Hulk o impede de vencer os humanoides do vilão, e declarando-se vencedor, o Líder os envia de volta à Terra.

Hulk e Mulher-Hulk juntos por Al Migrom.

No número 282, Banner e seus amigos se mudam para a Mansão dos Vingadores e pesquisa ao lado do Homem de Ferro para localizar onde está o Omnivac, antes de o Hulk precisar se unir à sua prima, Jennifer Walters, a Mulher-Hulk, para combater o Arsenal. Mas isto é apenas um embuste elaborado pelos Vingadores para mostrar a Banner que ele pode acessar à raiva do monstro sem perder o controle e se beneficiar do incremento de força. Mais preparado, no número 283, Banner-Hulk termina por liderar os Vingadores num ataque ao Omnivac, mas o Líder não está lá e todos os heróis desaparecem, exceto Bruce e Jen.

Hulk lidera os Vingadores numa homenagem à capa de Avengers 04.

Então, na edição 284, Banner descobre que o Líder enviou os Vingadores de volta no tempo e ele e a Mulher-Hulk usam a máquina do vilão para resgatá-los, encontrando o Capitão América em meio à II Guerra Mundial, em 1944; o Gavião Arqueiro e Homem de Ferro nos tempos de Robin Hood no século XII; Thor no meio dos Vinckins, no século VIII; por fim, chegando à longínqua pré-história, onde o Líder está usando a Vespa e os poderes da Capitã Marvel para bombardear a vida com radiação gama e mudar a história da humanidade. Mas a reunião dos Vingadores é capaz de vencer o vilão, que termina aparentemente morto num mar de lava.

Tudo dá tão certo que a Vespa, então líder da equipe, convida o Hulk para regressar oficialmente aos Vingadores, mas embora Banner fique lisonjeado, prefere se dedicar à pesquisa dos potenciais positivos da radiação gama para a humanidade. Então, uma nova fase começa em The Incredible Hulk 285, de julho de 1983, na qual Banner inaugura o Northwind Observatory, nas Catskills Montains, no norte do estado de Nova York, onde irá realizar suas pesquisas. Contudo, um dos equipamentos enviados pelo Homem de Ferro traz em si o vilão Zzzax, que é derrotado pelo intelecto de Banner e uma ajudinha de Doc Samson. A história também estabelece que Bereet parte para Hollywood para finalizar seu documentário.

Arte de Ron Wilson.

Na edição 286, o Hulk viaja no tempo de novo: dessa vez, para o futuro, onde encontra Kang, o conquistador – um dos maiores inimigos dos Vingadores – que promove um tipo de jogo na qual o “Herói do Dia” (um cidadão comum diariamente sequestrado) precisa enfrentar uma série de perigos, no que Banner tenta ajudar, mas o pobre coitado ainda acaba sendo morto. A trama era uma releitura do conto O Soldado do Amanhã, do aclamado escritor de ficção científica Harlan Ellison (aquele que escreveu o conto original de Jarella), mas isso não saiu creditado na revista, o que mobilizou uma ação reparatória ao autor.

Banner conhece Kate Waynesboro. Por Mantlo e Buscema.

A trama volta para o Northwind Observatory na edição 287, na qual Banner ganha sua assistente, Kate Waynesboro, que descobrimos ser uma agente da SHIELD infiltrada para vigiar de perto o cientista-monstro, mas também, é uma real admiradora do trabalho científico de Banner. E logo que começam a trabalhar, outro tipo de afinidade começa a surgir entre os dois. Falando nisso, vemos que Bereet está lançando seu documentário com imenso sucesso em Hollywood, mas ao mesmo tempo, a garota alienígena está aflita por estar se rendendo ao aspecto comercial do cinema em vez de perseguir ambições artísticas mais altas. Infelizmente, seu arco se encerra aqui.

Bereet encerra seu arco esmagada pelas engrenagens de Hollywood. Por Mantlo e Buscema.

E a ação? O velho MODOK invade as instalações do Projeto Pégasus do Pentágono e descobre que o general Ross está manipulando o Abominável – que caiu de volta à Terra – para derrotar o Hulk definitivamente. Vendo que ambos têm um interesse em comum, Ross permite que MODOK leve o Abominável consigo para executar o plano, algo que transcorre ao longo da edição 288, pois Emil Blonsky está traumatizado da surra que levou do Hulk algumas edições antes e não quer enfrentá-lo.

Após vermos a relação de Banner e Waynesboro rapidamente evoluir romanticamente na edição anterior, o número 289 mostra o cientista descobrir a verdade sobre sua assistente, mas ela consegue provar que seus sentimentos e admirações são verdadeiros a despeito de sua missão. Em meio a isso, o Abominável ataca o laboratório e o general Ross leva sua filha Betty até lá para lhe mostrar “o fim do Hulk”, mas esse gesto termina provando que o militar cometeu um ato de traição, o que deixa a garota furiosa, dizendo que está é a última vez que o pai interfere na vida dela. Betty também fica triste ao perceber que Bruce nutre sentimentos por Kate.

Falando nisso, o Abominável sequestra Kate e, na edição 290 a leva para o Maine, numa base da facção da IMA liderada por MODOK, e o vilão se encanta pela cientista e a transforma numa versão feminina de si mesmo, a Ms. MODOK, mas a ação do Hulk a reverte ao normal. O drama do general Ross prossegue pela edição 291, quando o militar contempla o suicídio por ter sua carreira destruída por sua obsessão pelo monstro verde.

O número 292 traz um pequeno interlúdio, com Banner e Kate indo ao México visitar um cientista e terminarem encontrando o Circo do Crime e o Homem-Dragão, mas o mais importante é que Bruce tem um pesadelo e acorda gritando, o que é o início de um tópico importante às edições seguintes.

O número 293 é outro interlúdio, com mais uma daquelas histórias humanas típicas de Mantlo: Bruce e Kate chegam ao Aeroporto de Nova York e, enquanto são cercados pela imprensa, um homem armado tenta matar o cientista-herói. Enquanto trabalha no Edifício Baxter no laboratório de Reed Richards (e tem outro pesadelo, dessa vez, atacando o Quarteto Fantástico), Banner descobre que seu pretenso assassino é um homem atormentado que teve a vida destruída após o Hulk arrasar a cidadezinha em que vivia e ele perder sua família. Então, ele visita o homem e, depois, ele é libertado em condicional e Kate o leva à sua cidade, onde testemunha que o Hulk-Banner está reconstruindo a cidade com as próprias mãos.

Na Incredible Hulk 294, abril de 1984, um chefe criminoso chamado Max Stryker (que nos números seguintes passará a ser chamado de Hammer) contrata o Bumerangue para sequestrar Kate Waynesboro e forçar Banner a curá-lo de um câncer em estado terminal. O Hulk vai a Nova York atrás de Kate, mas termina encontrando uma grande estrutura metálica no Central Park que o teleporta para o Mundo Bélico onde ocorrerão as Guerras Secretas, publicadas na maxissérie Secrets Wars, em 12 capítulos publicados entre 1983 e 1984, por Jim Shooter e Mike Zeck.

Guerras Secretas.

Na trama do evento, um ser poderosíssimo chamado Beyonder transporta os principais heróis e vilões da Marvel para um mundo alienígena para que lutem uns contra os outros, num típico movimento oportunista com a mera finalidade de vender uma linha de bonecos. Mas ao longo dos 12 episódios da saga vemos gradativamente Bruce Banner ir perdendo o controle de sua personalidade sobre o Hulk e, na edição final, o gigante esmeralda é gravemente ferido na perna.

Então, The Incredible Hulk 295 já mostra Banner regressando do evento – o que em termos cronológicos parece ter durado uma quinzena de dias – e imediatamente partindo para continuar sua missão de resgatar Kate das mãos do Bumerangue, mas a garota percebe de imediato que há algo diferente: o Hulk está mais raivoso, descontrolado e selvagem, lembrando pouco o controle de Bruce sobre o monstro. Nessa condição, vence facilmente o vilão e leva Kate de volta a Northwind Observatory, apenas para encontrar Max Hammer usando a tecnologia gama para curar outras pessoas doentes; o que deixa Banner desesperado, pois não se sabe os efeitos a longo prazo do procedimento, que não estava pronto para testes.

Como resultado, Hammer se transforma em um monstro e o Hulk precisa enfrentá-lo, passando à edição 296, quando Rom, o cavaleiro especial aparece e usa sua arma de absorção de radiação para desfazer a contaminação de Hammer e das outras pessoas. Mas o Hulk está selvagem de novo e, na tentativa de acalmá-lo, Kate termina sendo atingida pelo monstro, que percebe o que fez e fica desesperado, indo embora.

O quadrinho de apresentação à esquerda da capa, que mostrara o Hulk com roupa de laboratório nas edições anteriores, nesta edição, exibe o golias verde derrubando o tubo de ensaio que era exibido usando.

Bela capa de Mike Mignola.

Na edição 297, a nova situação é estabelecida: o Hulk está de novo selvagem ao ponto de em seus saltos pelo país destruir uma cidadezinha e nem se dar conta. A SHIELD envia um time para detê-lo, liderado pelo agente Gabe Jones e Kate Waynesboro vai junto; e vemos o Hulk parando para descansar, dormir e tendo um sonho ruim, no qual descobrimos que o vilão Pesadelo – tradicional oponente do Doutor Estranho – está manipulando os sonhos de Banner há cinco edições e resultando em seu descontrole mental. Por meio do sonho, Pesadelo lhe informa que o Doutor Estranho pode lhe ajudar, dando uma “missão” ao Hulk.

Hulk nem reconhece Kate na edição 299, pondo fim ao romance dos dois.

Na edição 298, a equipe de Gabe Jones enfrenta o Hulk de novo e é novamente derrotada, e dessa vez, o Hulk praticamente nem reconhece Kate, lhe batendo de novo, e demonstrando à cientista que o homem que ela amava não existe mais. Por fim, o Hulk chega a Nova York no número 299 (com o fabuloso título Strange Days have found us, tirado da canção Strange days da banda The Doors), novamente enfrentando o time de Jones e Waynesboro, e vencendo, e encontrando o Doutor Estranho, que rapidamente percebe a ação de Pesadelo. Usando seus poderes místicos, Strange consegue resgatar a mente de Banner, mas o cientista fica tão desesperado pelo o que está acontecendo que comete um suicídio psíquico, desaparecendo e deixando o monstro verde como uma criatura totalmente irracional, sem mente.

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“Incredible Hulk 300” dá início à saga da Encruzilhada: psicologia, psicodelismo e tramas oníricas.

Chega então à histórica The Incredible Hulk 300, de outubro de 1984, na qual o Hulk está completamente fora de controle, destruindo a cidade, e um verdadeiro batalhão de heróis vem confrontá-lo: Demolidor, Homem-Aranha, SHIELD, Punho de Ferro, Luke Cage, os Vingadores (Starfox, Feiticeira Escarlate, Visão, Capitã Marvel, Thor) e todos são paulatinamente derrotados até que o Doutor Estranho não ver outra opção a não ser exilar o Hulk na Encruzilhada das Dimensões, um lugar fora do espaço e do tempo no qual não poderá machucar ninguém.

Incrível batalha do Hulk contra os Vingadores, por Mantlo e Buscema.

Com essa edição que mostra uma das maiores batalhas já travadas pelo gigante esmeralda, Bill Mantlo e Sal Buscema encerram não apenas um arco ou ciclo, mas toda uma era do personagem.

Em seguida, tem início o último arco de histórias de Bill Mantlo à frente da revista: A Saga da Encruzilhada, publicado entre Incredible Hulk 301 e 313, na passagem de 1984 para 1985. A estada do monstro verde em uma outra dimensão, ou melhor, o encontro impreciso de várias dimensões, a Encruzilhada da Eternidade, foi uma ruptura total com o status quo do personagem e um grande feito de experimentação que durou exatamente um ano. Mantlo colocou o Hulk quase sem mente, saltando de dimensão em dimensão, de bizarras ameaças outras, aparentemente aleatórias, mas ao mesmo tempo, usou esse recurso como uma viagem de autoconhecimento do monstro e um mergulho em sua psiquê atormentada, que resultou na revelação de que Bruce Banner tinha sofrido violências físicas constantes de seu pai, Brian Banner, algo que se tornou fundamental ao personagem dali em diante.

O Hulk na Encruzilhada: arte de Sal Buscema.

Começa na edição 301, que apenas define o cenário da Encruzilhada da Eternidade e suas “regras” – num lugar em que as dimensões coexistem, o Hulk pode atravessar uma quantidade infinita de portais e pousar em realidades e mundos diferentes, ao mesmo tempo em que o Doutor Estranho (que o monitora nesta primeira aventura) instalou um tipo de feitiço de gatilho no qual, se a criatura se sentir ameaçada, ela retorna de volta para a Encruzilhada. Essa primeira edição também apresenta o Puffball Colective, um ser coletivo que fica bastante intrigado com o Hulk e busca conhecê-lo, servindo como companhia ao monstro.

Muitos dos oponentes do Hulk na Encruzilhada eram mais fortes do que ele. Arte de Sal Buscema.

A história-símbolo da fase da Encruzilhada, curiosamente, não foi publicada na revista mensal, mas em The Incredible Hulk Annual 13, na qual Mantlo trabalha com o desenhista Allan Kupperberg (mais conhecido por seu trabalho com a Supergirl na DC Comics), e mostram o Hulk sendo atacado por uma raça de criaturas simbiontes que se anexam à coluna cervical de seus hospedeiros e passam a dividir seu corpo e mente, mas o ser que se uniu ao Hulk termina criando uma afetividade por ele e se voltando contra a própria espécie até que, num ato de suicídio, se desconecta do golias verde, deixando o monstro, mesmo sem mente, tocado pelo o que ocorreu.

Ao mesmo tempo, os números 302 e 303 mostram o Hulk indo parar num mundo medieval com criaturas de pele verde enfrentando outras de pele vermelha; e as edições 304 e 305 mostram os U-Foes terminando por parar na Encruzilhada também e o Hulk lutar contra eles, recendo ajuda do Puffball Collective, a quem passa a considerar aliados, enquanto damos uma excepcional passada na Terra para ver o Doutor Estranho aparecendo em uma Comissão do Congresso dos EUA sobre o que aconteceu com o gigante esmeralda. Essas duas revistas também marcam a estreia do magnífico Mike Mignola na arte das capas.

Bela arte de Mike Mignola.

Nas edições 306 e 307, o Hulk reencontra os piratas especiais da nave Andrômeda (que encontrara lá atrás em Incredible Hulk 136 e 137), o que termina numa reviravolta e na morte de todos; passando ao número 308 onde o Puffball Collective leva o golias verde ao seu próprio mundo e se revela como um vilão que quer explorar o monstro, o que leva ao nosso herói combater os demônios N’Garai (que surgiram em Uncanny X-Men 143). Esta última edição também é importante porque é a primeira aparição da Tríade, três seres “psíquicos” que passam a ajudar o Hulk: Guardiã, Duende e Glow, levam o Hulk a um planeta desértico atrás de comida no número 309.

A edição 309 trouxe o fim da longuíssima temporada de Sal Buscema na arte do gigante esmeralda. Foram 10 anos de deleite artístico, mas o desenhista agora queria outros desafios, e migrou para a revista do Thor.

O Hulk na arte de Mike Mignola.

Na edição 310, o Hulk e a Tríade vão parar em outro mundo medieval e o gigante esmeralda impede que uma mulher cor de bronze seja sacrificada, o que o coloca em confronto com um povo alienígena liderado por um alquimista terráqueo – um escocês advindo do século XVIII – que se mantém vivo bebendo sangue; e no processo, Bruce Banner reaparece pela primeira vez desde que cometeu “suicídio psíquico” várias edições atrás. Após desestabilizar totalmente aquela realidade, o Hulk regressa à Encruzilhada no número 311.

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A expressiva arte de Mike Mignola à serviço do Hulk em “Incredible Hulk 311”.

A arte foi assumida brevemente por Bret Blevins na edição 310 e passou às mãos de Mike Mignola no número 311, artista que já vinha fazendo as capas da revista e estava relativamente no início da carreira, mas se tornaria um dos grandes nomes da indústria dos quadrinhos e seria o criador do Hellboy na Dark Horse Comics alguns anos depois.

O Hulk ganha uma das melhores e mais importantes histórias em sua longa trajetória em The Incredible Hulk 312, de outubro de 1985, por Bill Mantlo e Mike Mignola. Na trama, enquanto busca uma saída da Encruzilhada e vemos as consequências psíquicas do retorno de Bruce Banner, a Tríade navega pelas memórias do cientista e, então, somos apresentados pela primeira vez à infância de Bruce. E é aterrorizante!

A infernal vida doméstica do pequeno Bruce Banner, por Bill Mantlo e Mike Mignola.

Mantlo cria uma história incrível na qual o pai de Bruce, Brian Banner, é um cientista que atuava na pesquisa de radiação em Los Alamos, no deserto americano, e quando sua esposa Rebecca engravida, ele se dá conta do terrível risco de que sua exposição à radiação pode ter consequências na criança. Um histórico de alcoolismo somado ao azar de Rebecca ter um parto difícil, quase indo a óbito, destravam uma crise paranoica em Brian Banner, que passa a surrar a mãe e a criança, e a chamá-lo de monstro, o que Mantlo deixa claro que enche o pequeno Bruce de fúria – fúria esta que resultará na raiva incontrolável do Hulk, retomando aquela “dica” deixada lá atrás por Roger Stern de que o Hulk é uma “entidade” separada de Banner.

Bruce espancado pelo pai, por Mantlo e Mignola.

O clímax dessas memórias ocorre quando o pequeno Bruce tem uns cinco anos de idade e ganha um presente de montar de sua mãe no Natal. De manhã cedo, o menino corre para os brinquedos e começa a montá-lo, o que desperta o horror em Brian Banner ao notar que é um artefato indicado para crianças de 12 anos e Bruce o montou sem sequer olhar o manual de instruções. Brian grita que uma criança normal jamais poderia fazer isso, que Bruce é um monstro, um mutante, e a intervenção de Rebecca, resulta em ambos levando uma surra.

Bruce adulto enfrenta seu pai, por Mantlo e Mignola.

As memórias avançam no tempo e, dessa vez, Mantlo não entra em detalhes, mas vemos uma confrontação entre Bruce e Brian sobre o túmulo de Rebecca, dando a entender que Brian matou a mulher num ataque de fúria e chantageou emocionalmente o filho para depor a seu favor no tribunal, o que resulta numa pena leve e Bruce sendo institucionalizado em parte de sua adolescência.

Até então, não houvera grandes reflexões sobre o passado de Banner e a adesão de Mantlo, bem no final de sua temporada, se tornou um ponto crucial da personalidade de Banner-Hulk dali em diante e seria bastante explorado pelos autores seguintes, em especial Peter David, como veremos mais adiante.

Faltava, então, encerrar A Saga da Encruzilhada, e na edição 313, Banner assume o comando do Hulk para buscar uma saída dali, resultando neles cruzando diversas dimensões diferentes e até se lançar ao vazio do “espaço” até que Banner é encontrado pelo espírito de Walter Langkowski, o Sasquatch, da Tropa Alfa (com quem o Hulk já lutara duas vezes, lembra?). Tendo “morrido” na Terra, a mente de Langkowski vagava como um espírito pela Encruzilhada em busca de um corpo e tenta ocupar o do Hulk, mas o resultado disso é inesperado: o Hulk termina se transportando à Terra, aparecendo na base da Tropa Alfa, o que gera um confronto imediato.

É o fim da longa temporada de Bill Mantlo, depois de cinco anos, 69 edições e mais 4 anuais, o que o tornou o escritor que mais tempo trabalhou com o Hulk naquela época. É bastante tempo e o escritor queria novos desafios, assim, aceitou a proposta do escritor e desenhista John Byrne de trocar seu lugar na revista da Tropa Alfa, os super-heróis canadenses.

Sendo ele próprio canadense, Byrne criara a Tropa Alfa como coadjuvantes dos X-Men, em 1977, mas o sucesso dos personagens motivou a Marvel a lançar uma revista própria do time sob o comando dele, algo que Byrne aceitou a contragosto. O autor sempre revelou que não sabia muito bem o que fazer com os personagens fora do contexto dos X-Men e, àquela altura, estava ansioso para deixar a revista. Como soube que Mantlo queria o mesmo com o Hulk propôs uma troca. E assim, Mantlo entrou no Hulk por meio de uma troca e saiu por outra.

Byrne assumiu o golias verde a partir de Incredible Hulk 314, de 1985.

John Byrne

Hulk vs Doc Samson by John Byrne
Hulk vs. Doc Samson na arte exuberante de John Byrne.

John Byrne era então a maior estrela da Marvel, com passagens vigorosas como desenhista dos Vingadores e Capitão América e com grande sucesso escrevendo e desenhando o Quarteto Fantástico. Além disso, Byrne e o escritor Chris Claremont tinham criado a melhor de todas as fases dos X-Men.

A temporada de Bryne no Hulk foi curta, apenas seis edições, mas o artista mostrou ao que veio. Colocou Leonard Samson à caça do golias verde para que este fosse alvo de um experimento científico que separasse o Hulk de Bruce Banner. O experimento dá certo e Banner tenta viver uma vida tranquila, finalmente se casando com sua velha amada Betty Ross, numa história que traz de volta dois velhos coadjuvantes há muito desaparecidos do título: o Gen. Ross (em desgraça por sua falha em deter o Hulk no passado) e Rick Jones.

Avengers - Hulks attack by john byrne
O Hulk encara as duas equipes de Vingadores… e ganha! A arte de Byrne em seu auge.

Mas ao perceber que o Hulk vai ser simplesmente exterminado pelo Governo dos EUA, Leonard Samson decide libertar a criatura. Só que, sem a mente de Banner em seu corpo, o Hulk é apenas uma besta furiosa e sem limites que saí destruindo tudo em seu caminho, restando ao Dr. Samson caçá-lo.

O próprio Bruce Banner cria, então, uma equipe especial treinada pela SHIELD para ir atrás de sua cara-metade: os Caça-Hulks, liderados por Samuel LaRoquette. Mas no fim das contas, os cientistas percebem que Banner e Hulk estão morrendo longe um do outro e é preciso uni-los, mas para isso, é preciso parar o Hulk, o que leva a uma batalha selvagem contra os Vingadores e um golias verde irrefreável.

Nesse meio tempo, Byrne também oficializou que o Hulk nascera cinza e só se tornou verde depois. Inclusive, afirmando que o primeiro Hulk era menor, mais fraco e mais inteligente do que o que veio depois, o selvagem Hulk verde.

Porém, Byrne não terminou sua temporada, por causa de divergências criativas com o Editor-Chefe da Marvel, Jim Shooter, saindo da editora para escrever o Superman na DC Comics.

O Hulk Cinza

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Al Migron traz o Hulk Cinza de volta!

O lugar dele foi ocupado pelo desenhista Al Migrom, que já havia sido editor da revista no passado. Mas os textos e a arte de Migrom era muito inferiores aos seus predecessores, o que fez as vendas da revista despencarem.

Ainda assim, foi Migrom quem fez com que o Hulk voltasse a ser cinza – num experimento para eliminá-lo que dá errado. O novo Hulk Cinza, porém, não era o monstro acéfalo de outrora, mas um monstro incrivelmente inteligente e sacana, que quer se livrar de Banner a todo custo, embora menor e mais fraco do que antes.

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Capa de “Incredible Hulk 329”, por Al Migrom, traz o Hulk Jones. Nova versão do monstro não pegou…

Outra criação de Migrom foi o Hulk Jones, ou seja, Rick Jones se torna um novo Hulk – verde – por ter caído acidentalmente no tanque de químicos que possibilitou a experiência na qual Banner deixou de ser o Hulk (por um tempo) e voltou a ser cinza.

Inicialmente, Migrom também desenhava, mas depois passou a arte para outros artistas não-fixos, como Dwayne Turner e Todd McFarlane.

A última história de Migrom, Incredible Hulk 330, desenhada por McFarlane, trouxe a morte do Gen. Ross, algo que seria revertido anos depois.

A Era Peter David

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A estreia de Peter David nos roteiros em “Incredible Hulk 331”: seriam 12 anos à frente do título.

Coube ao escritor Peter David reformular a revista e transformá-la em um sucesso de vendas como nos velhos tempos. O HQRock já tem um post específico para detalhar a obra do escritor à frente do Hulk – leia aqui – mas convém lembrar pelo menos os fatos principais.

A fase inicial. Iniciando em Incredible Hulk 331, de 1987, Peter David e Todd McFarlane logo se livraram do Hulk Jones, numa trama em que a energia gama do novo monstro é transferida para o Líder, o velho vilão que tinha perdido os seus poderes. O novo Líder emerge como um manipulador nos bastidores de grande importante para toda a fase da dupla.

Desde já, David impõe algumas mudanças, tratando de maneira ousada os problemas do casamento de Bruce Banner com Betty Ross (imagine ser casada com um cientista frio que vira o Hulk escondido dela!) e dando uma personalidade forte e avançada para a garota, inclusive revelando que além do casamento com Glenn Talbot (personagem dos anos 1970, há muito falecido), a garota teria tido outro casamento com um hispânico chamado Ramon.

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Na edição 332, Peter David explica a ligação do Hulk com a lua e define a psiquê do Hulk Cinza. (E um confronto entre os dois hulks também).

A abordagem psicológica do Hulk também foi outra grande adesão, monstrando o monstro cinza como alguém extremamente inteligente, que busca várias maneiras de neutralizar sua contraparte, Bruce Banner.

E por fim, o escritor explica, por meio do Líder, o mecanismo de transformação de Bruce Banner no Hulk, usando os raios solares como inibidores da energia gama, o que explica porque inicialmente a transformação só ocorria à noite – como passou a ser então, de novo – e como as fases da lua influenciavam a personalidade do monstro, pois o astro reflete a luz solar. Assim, o Hulk é mais calmo na lua cheia e mais selvagem na lua nova.

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Hulk, Clay Quarterman e Rick Jones: a arte cheia de linhas de Todd McFarlane agradou demais o público.

Nesta parte inicial, a SHIELD descobre que Banner voltou a se transformar no Hulk e passa a caçá-lo. Quando o agente da SHIELD, Clay Quartermain descobre que os planos da agência são de eliminar o monstro e Banner, decide ajudá-lo e explode a Base Gama.

Fugitivos. O segundo arco de David e McFarlane mostra Hulk, Quartermain e Rick Jones fugindo pelo interior dos EUA e perseguidos pela SHIELD, enquanto passam a tentar localizar as novas bombas gamas que o Governo dos EUA está produzindo. Foi um dos melhores momentos da revista.

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Selvagem confronto entre Hulk e Wolverine por Todd McFarlane.

Houve um interessante encontro com o X-Factor – equipe derivada dos X-Men – e, mais importante ainda, um épico confronto entre o Hulk e Wolverine, retomando a rivalidade dos dois personagens. Para muitos leitores, este encontro, ocorrido em Incredible Hulk 340, é o melhor já produzido. O texto de Peter David brinca com Logan tentando segurar os seus impulsos, enquanto a arte de Todd McFarlane esbanja selvageria.

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O reencontro do Hulk com Betty Ross: abordagem madura e ousada do relacionamento por Peter David. Arte de Todd McFarlane.

No fim das contas, o trio reencontra Betty Ross – que havia desaparecido após Bruce Banner se transformar no Hulk durante um ato sexual (isso mesmo!) – e o fato dela estar grávida obriga a uma conversa/confrontação com o Hulk.

Mas o Líder está de volta e cerca uma cidade com um campo de força para testar uma nova bomba gama. Quartermain, Jones e Betty ficam do lado de fora, mas o Hulk é apanhado pela explosão e é dado como morto. É o fim da estada de Todd McFarlane na revista, que se transfere para fazer um enorme sucesso mundial no Homem-Aranha.

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O conceito de Joe Tira-Teima era interessante, mas a arte de Jeff Purves desagradou demais.

Joe Tira-Teima. O tempo avança vários meses e descobrimos que o Hulk está vivendo escondido em Las Vegas, fazendo trabalhos como guarda-costas de um gangster local e usando o nome de Joe Tira-Teima, além de namorando (!) a bela ruiva Marlo Chandler.

Era a vida que o Hulk pediu a deus, ainda livre de Bruce Banner, mas tudo isso acaba quando as transformações voltam a ocorrer de modo inconstante. O relacionamento com Marlo é prejudicado e uma série de eventos termina acabando com a vida idílica do Hulk em Vegas, de modo que é forçado a fugir para o deserto.

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A bela Marlo Chandler já na arte de Gary Frank.

Esta fase trouxe argumento interessantes, mas a arte de Jeff Purves desagradou demais os fãs. Por isso, foi um alívio quando o canadense Dale Keown assumiu a revista, com uma arte mais clássica, remetendo a John Byrne.

Após uma grande busca, Bruce Banner localiza Betty, apenas para descobrir que ela não apenas perdeu o bebê, como tenta viver como freira em um convento. Os dois tentam se reconciliar, mas por algum motivo inesplicável, Bruce começa a sofrer transformações descontroladas em Hulk, nas quais sua pele é rasgada, além de alternar entre o Hulk Cinza e o velho Hulk Verde.

Para ajudá-lo, chega o Dr. Leonard Sanson.

Problemas com múltiplas identidades

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Peter David explorou três personalidades distintas de Bruce Banner/ Hulk. Arte de Dale Keown.

Ao longo desse tempo, Peter David explorou a psiquê do Hulk como nenhum outro autor antes, deixando claro que Bruce Banner já tinha problemas sérios antes de se tornar o monstro e que este é, na verdade, a manifestação inconsciente de traumas, raivas e frustrações na turbulenta infância do cientista.

Em Incredible Hulk 377, de 1991, já com desenhos de Dale Keown, David promove uma virada completa, quando o Dr. Leonard Samson localiza Banner e o convence a se tratar. Uma sessão de hipnose analisa os traumas do cientista e mostra que o selvagem Hulk verde pouco inteligente, é na verdade, a manifestação de Bruce criança, irritado pelos abusos físicos do pai e as surras que via a mãe sofrer; enquanto o sacana Hulk cinza bastante inteligente é a manifestação do Bruce adolescente que não conseguia controlar as próprias emoções e agia como um maníaco.

Os esforços de Samson terminam unindo as três personalidades (Banner-verde-cinza) em uma só, que seria apelidade de Professor Hulk: poderosíssimo como o Hulk verde, sacana como o Hulk cinza e inteligente como Bruce Banner. Com a integração das três personalidades, o Hulk deixa de se converter fisicamente à aparência de Banner e se mantém como “Hulk” o tempo todo.

A Saga do Panteão

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O Professor Hulk: Hulk Verde, do Hulk Cinza e de Bruce Banner integrados em um só! Arte de Dale Keown.

Essa grande transformação ocorre já no começo de uma nova fase do personagem, quando David e Keown o envolvem com uma organização secreta chamada Panteão, formado por superagentes que usam os nomes dos deuses e heróis da Grécia Antiga.

O líder Agamenon convoca o Hulk para ser o líder da organização em sua ausência, pois a inteligência e a força descomunal combinadas criam o candidato perfeito. Banner, então, tenta se impor como alguém a ser admirável e fazer um bem à humanidade que compense os problemas que causou no passado.

Mas ao mesmo tempo, seu relacionamento com Betty fica abalado, pois agora, ele é o Hulk em tempo integral. E Peter David passa a usar um recurso na qual se tornaria mestre – e que explorou bastante na revista X-Factor, um dos derivados dos X-Men, que começou a escrever ao mesmo tempo – o humor.

Assim, Rick Jones reaparece e – para surpresa de Banner (e horror de Betty), o jovem está namorando justamente Marlo Chandler. Mas o choque inicial logo passaria e Marlo se tornaria a melhor amiga de Betty e a ruiva casaria com Jones em seguida.

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O Hulk combate o Maestro, uma versão envelhecida e malígna de si mesmo. Arte de George Perez.

Enquanto isso, Peter David também lançou a minissérie Futuro Imperfeito para comemorar os 30 anos do Hulk, em 1993. Na história, desenhada por George Perez, vemos o Professor Hulk ser levado a um futuro caótico na qual ele mesmo é um tirano conhecido como Maestro, que matou todos os super-heróis e reina sobre a Terra. Apenas uma pequena resistência age liderada por um velhíssimo Rick Jones.

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O Hulk de Gary Frank: traços simples e dinâmicos.

A Saga do Panteão, contudo, terminou em tragédia, quando é revelado que Agamenon é um vilão, o que resulta em uma guerra entre seus filhos. À esta altura, Dale Keown já tinha partido e substituído pelo também ótimo Gary Frank.

O Fim

Após o fim daquele longo arco, o Hulk passa a viver escondido, dando início a uma fase de menor fôlego do personagem, quando os anos aos quais Peter David vinha escrevendo começaram a pesar em seus ombros. Não ajudou a instabilidade e qualidade ligeiramente inferior dos novos desenhistas, como Liam Sharp e Angel Medina.

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A arte do brasileiro Mike Deodato Jr.

Uma boa exceção à regra foi a arte fantástica do brasileiro Mike Deodato Jr., que desenhou a revista entre os números 447 e 453, de 1996 e 1997.

A última fase do Hulk por Peter David melhorou os roteiros, ajudado, talvez, pela arte de Adam Kubert. Nas tramas, o Gen. Ross está de volta e reinicía sua guerra contra o Hulk. O Maestro também chega ao presente.

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Capa de “Incredible Hulk 460” por Adam Kubert.

É dessa época uma das melhores histórias do Hulk: Incredible Hulk 460, 1998, na qual Bruce Banner trava uma batalha mental contra si mesmo e, no caminho, revisita sua vida familiar e, principalmente, sua relação com seu pai, Brian Banner. Já sabíamos que Brian Banner havia matado sua esposa, Rebecca, e forçado o pequeno Bruce, ainda criança, a testemunhar ao seu favor no tribunal. Mas esta história avança no tempo e mostra o que houve depois. Fica implícito que Bruce matou o pai sem querer em uma briga! A arte de Adam Kubert deixa tudo ainda melhor.

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Peter David deu novo status à rivalidade entre o HUlk e o Gen. Ross, acrescentando respeito, humor e ironia.

Em seguida, Bruce e o Gen. Ross descobrem que Betty Ross está envenenada pela radiação gama do marido e, apesar dos esforços de ambos, termina morrendo.

Esta história terminou levando ao fim da longuíssima temporada de Peter David à frente do título, porque a editoria da Marvel – nas mãos de Bob Harras – decidiu usar aquela tragédia para trazer o Hulk selvagem e irracional de volta, algo que David discordava.

Peter David deixou a revista Incredible Hulk na edição 467, de 1998, após 12 anos e 137 edições! Um recorde imbatível.

Intermédio

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A fase de John Byrne e Ron Garney não foi bem recebida.

Após a partida de Peter David, demorou um tempo para o Hulk entrar novamente nos eixos como um personagem relevante. Joe Casey assumiu a revista, mas a Marvel decidiu cancelar Incredible Hulk na edição 474, de 1999.

No mês seguinte, estreou Hulk (vol 2) 01, com textos de John Byrne (de volta depois de 13 anos!) e arte de Ron Garney, mas esse arco não foi bem recebido pelo público e pela crítica, durando apenas oito edições. Outros escritores como Erik Larsen e Jerry Ordway também não conseguiram levantar a moral da revista.

Fase Cult

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O início da fase de Paul Jenkins, ainda com Ron Garney nos desenhos.

A Marvel decidiu dar um novo direcionamento para o Hulk e convidou o escritor Paul Jenkins para assumir o título em 2000. O nome da revista mudou para Incredible Hulk (vol 3), mas se manteve a numeração baixa, de modo que a estreia da nova fase foi no número 12.

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A bela arte de John Romita Jr.

Conhecido por suas abordagens psicológicas dos personagens, Jenkins produziu uma série em que Bruce Banner se esforça para conter suas quatro personalidades (o Hulk Verde selvagem, o sacana Hulk Cinza, o Professor Hulk e ele mesmo) sob controle. Cada uma delas podia controlar o corpo durante algum tempo e se uniram para combater uma quinta personalidade, uma versão sádica do Hulk – talvez o início do caminho rumo ao Maestro. Os desenhos ficaram a cargo de Ron Garney e, depois, por John Romita Jr. e Kyle Hotz.

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O Hulk combate o Homem de Ferro na arte selvagem de Mike Deodato Jr.

Em 2002, foi a vez do escritor Bruce Jones assumir a revista, iniciando uma trama bastante complexa e apreciada pela crítica na qual Bruce Banner usa a ioga para controlar o Hulk, enquanto é perseguido por uma misteriosa agência secreta em meio a uma teoria da conspiração.

Esta fase durou até 2005 e a arte ficou primeiro com Lee Weeks e, depois, com o brasileiro Mike Deodato Jr. Na visão do artista, o Hulk ganhou um visual selvagem como poucas vezes foi retratado, sendo uma das imagens modernas favoritas do golias verde.

Depois, Jae Lee também desenhou a revista.

Peter David ainda voltou ao Hulk uma vez mais, em seguida, para escrever o arco Tempest Fugit, na qual “revela” que o vilão Pesadelo era o responsável por muitos dos infortúnios do personagem nos últimos anos, arco que não agradou ao público.

Nos Cinemas

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O Hulk de Ang Lee, em 2003.

Enquanto sua revista fazia sucesso entre os críticos, o Hulk chegou pela primeira vez aos cinemas. Em 2003, o estúdio Universal lançou o filme Hulk, dirigido pelo conceituado diretor chinês Ang Lee (O Tigre e o Dragão, O Segredo de Brokeback Montain, Aconteceu em Woodstock) e estrelado por Eric Bana como Bruce Banner e Jennifer Connely como Betty Ross.

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Jennifer Connelly (Betty Ross) e Eric Bana (Bruce Banner): abordagem psicológica.

É uma boa história à princípio, com uma abordagem bastante psicológica de Banner e centrada na figura de seu pai, mas que falhou em convencer o público por meio da versão digital do golias verde e no terceiro ato do filme, que se torna confuso, chato e desequilibrado em relação ao início.

De qualquer modo, Hulk não foi bem nas bilheterias, num ano que teve como concorrentes filmes como Demolidor, também da Marvel. E embora tenha se iniciado a escrita do roteiro de Hulk 2, o filme jamais aconteceu e a Universal desistiu dos direitos do personagem que voltaram para à Marvel.

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O Hulk de 2008: mais selvagem.

Assim, a Marvel aproveitou a emergência do Marvel Studios, sua própria produtora cinematográfica, para lançar um novo filme do golias verde. O Incrível Hulk estreou em 2008 (apenas cinco anos depois do primeiro), numa mistura de reinício e sequência, com um elenco totalmente novo: Edward Norton como Bruce Banner e Liv Tayler como Betty Ross, mas agora com um vilão físico à altura de sua força física: o Abominável, interpretado por Tim Roth.

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Edward Norton (Bruce Banner) e Liv Tyler (Betty Ross): busca por uma cura.

Novamente, o filme não foi bem nas bilheterias, mas foi o suficiente para ingressar o personagem no Universo Marvel dos Cinemas, que foi lançado naquele mesmo ano com Homem de Ferro e prosseguiu com Homem de Ferro 2, Thor e Capitão América – O Primeiro Vingador, todos preparando o terreno para o grande iencontro antes inimaginável: Os Vingadores, que estreia em abril de 2012.

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Mark Ruffalo como Bruce Banner (esq.), junto a Tony Stark (robert Downey Jr.) em Os Vingadores.

Em Os Vingadores – que funciona como uma sequência de O Incrível Hulk – Bruce Banner é interpretado por Mark Ruffalo, que está fugitivo, aparentemente na Índia e é recrutado pela SHIELD para a equipe de super-heróis que vai enfrentar Loki.

Além do filme da equipe, está em desenvolvimento uma nova série de TV do Hulk, comandada por ninguém menos do que Guilhermo Del Toro (O Labirinto do Fausto, Hellboy) e que é possível estrear ainda em 2012 dentro dos projetos da nova Marvel TV, que também planeja séries do Justiceiro, Harpia, Manto e Adaga e Jessica Jones.

Novos Tempos

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Planeta Hulk foi adaptado como um desenho animado em longametragem pela própria Marvel.

O status do Hulk foi totalmente modificado em 2006 com o arco Planeta Hulk, lançado a partir de Incredible Hulk (vol 3) 92 e foi até a edição 105, na qual o escritor Greg Pak e o desenhista Carlos Pagulayan criam uma história totalmente não-ortodoxa: o grupo secreto dos Illumiati (Homem de Ferro, Namor, Dr. Estranho, Charles Xavier, Reed Richards e Raio Negro, dos Inumanos) decide banir o Hulk da Terra por causa de seus problemas.

O gigante verde termina em um planeta chamado Sakaar, onde é obrigado a lutar como um gladiador contra outras criaturas alienígenas tão poderosas quanto ele. Mas o Hulk termina se tornando um campeão e líder de uma rebelião que tira do poder o Rei Vermelho que governava o local.

Estabelecido como o novo rei, o Hulk começa a perceber que nunca teve uma vida melhor, mas a nave em que chegou explode e destrói o planeta, matando inclusive sua esposa, Caiera, que estava grávida de seu filho.

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Hulk Contra o Mundo por John Romita Jr.: sonho nerd.

Enlouquecido de ódio e vingança, o Hulk decide voltar à Terra para se vingar dos Illumiati, o que dá a origem à minissérie Hulk Contra o Mundo (World War Hulk, no original), escrita por Pak e desenhada por John Romita Jr.

Cronologicamente, este evento revela ao mundo a existência dos Illumiati, que até então era o um grupo extremamente secreto que interferia nas questões sobrehumanas.

Ao fim da história, o Hulk se entrega e Bruce Banner é tomado sob custódia pela SHIELD.

Hulk Vermelho

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Hulk Verde vs. Hulk Vermelho na arte de Ed McGuiness: sem comentários.

Neste ponto, o escritor Jeph Loeb e o desenhista Ed McGuinnes (que haviam produzido a revista Superman/Batman para a DC Comics) dão prosseguimento a uma fase na qual surge um misterioso novo Hulk: o Hulk Vermelho, que absorve a energia gama de Banner, que fica impedido de voltar a ser o Hulk.

A revista Incredible Hulk (vol 3) muda o título para Incredible Hercules, estrelada pelo semideus da mitologia grega que, no Universo Marvel, é um dos membros dos Vingadores. Paralelamente, sai a revista Hulk (vol 2) estrelada pelo novo Hulk Vermelho.

Na trama, Bruce Banner encontra seu filho, Skar, e começa a treiná-lo para matar o Hulk caso ele volte. Mais tarde, é revelado que o Hulk Vermelho é o Gen. Ross e que a Mulher-Hulk Vermelha é Betty Ross.

É, não é realmente o Hulk em seu melhor momento, não é mesmo?

O Presente

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Capa de “Avengers Assemble 01” por Mark Bagley.

Em 2011, o personagem ganhou uma “nova” revista Incredible Hulk (vol 4), com textos de Jason Aaron e arte de Marc Silvestri, numa trama em que Banner e Hulk estão novamente separados.

O golias verde irá retornar aos Vingadores em 2012, na nova revista Avengers Assemble, escrita por Brian Michael Bendis e desenhada por Mark Bagley, na qual a equipe terá a mesma formação do filme (Capitão América, Thor, Homem de Ferro, Hulk, Viúva Negra e Gavião Arqueiro), mas dentro da cronologia padrão do Universo Marvel.