Ao longo das décadas, o Incrível Hulk já teve várias personalidades distintas: selvagem e burro, inteligente e calmo, sacana etc., cada uma da qual com suas próprias características físicas e mentais. E uma das mais queridas em relação aos fãs foi a de Joe Fixit ou Joe Tira-Teima: uma versão cinza e de personalidade malvada e mesquinha, que sempre queria levar a melhor, enganando e manipulando todos ao redor com grande inteligência. E o personagem criado pelo escritor Peter David nos anos 1980 estará de volta com uma minissérie a ser publicada pela Marvel Comics em 2023 nas mãos de seu autor.

Após terminar uma trilogia de minisséries sobre outra de suas célebres criações, com o vilão Maestro – uma versão do futuro no qual o Hulk se tornou um vilão amoral e destruiu o mundo – Peter David prossegue sua intensa ligação com Bruce Banner ao criar uma nova minissérie focada no Sr. Tira-Teima. Com desenhos de Yildiray Cina, a história estará situada no período de tempo em que a persona atuou, quando o Hulk era cinza, menor e mais fraco do que sua versão verde e selvagem, mas compensava isso com sagaz inteligência, manipulação e maldade, o que o levou à curiosa situação de viver uma boa vida como segurança nos cassinos de Las Vegas, e terminar, claro, envolvido com intrigas do submundo e da máfia.

A criação do Hulk Cinza não é de Peter David, mas foi ele quem, posteriormente, desenvolveu a personalidade desse golias cinza, de suas singularidades e toda uma trama específica que culminou no Sr. Tira-Teima, capanga da máfia de Las Vegas.

Bruce Banner se transforma em Hulk pela primeira vez: texto de Stan Lee e arte de Jack Kirby.

A história do Hulk Cinza é bastante curiosa e você pode vê-la em detalhes no Dossiê Especial do HQRock sobre o Hulk, clicando aqui; mas podemos resumir o seguinte: quando o Hulk foi criado, em 1962, por Stan Lee e Jack Kirby, a intenção dos autores era fazê-lo cinza, e não verde, contudo, na época, o precário sistema de coloração não conseguia garantir bons resultados nas cores escuras, especialmente, cinza e preto, daí, que pouquíssimos personagens antigos traziam essas cores. Como resultado, The Incredible Hulk 01 trazia o monstro cinza, mas sua coloração ia variando ao longo das páginas, ficando entre o cinza claro e o escuro, e às vezes, sem querer, aparecendo em outros tons, como vermelho e verde.

Quando se une (e rapidamente larga) os Vingadores, o Hulk já tem outro visual. Arte por Jack Kirby.

Frustrado, Lee, que também era o editor-chefe da Marvel, decidiu tomar a saída mais fácil e optou pela cor verde, que era uma das mais fáceis de conseguir – muitos personagens antigos dos quadrinhos são verdes, não é mesmo? – e, a partir da edição 02, o Hulk se tornou o golias esmeralda. Nas republicações da primeira aventura que se seguiram, a coloração foi refeita e ficou admitido que o monstro no qual Bruce Banner se transforma sempre foi verde e o assunto foi esquecido.

John Byrne estabelece as diferenças dos Hulks Verde e Cinza.

Bom, pelo menos até 1986, quando o escritor e desenhista superstar John Byrne assumiu a revista do Hulk e estabeleceu que nas primeiras transformações de Bruce Banner, o monstro era realmente cinza e menor – adotando o preciosismo da representação de Kirby para o personagem, que inicialmente era apenas uma versão ligeiramente mais alta e forte do próprio Banner – mas foi rapidamente “evoluindo” para uma forma mais alta, mais forte, com o rosto de um monstro (supercílio avantajado, cabelos revoltos, nariz pequeno, boca grande) – já que Kirby foi aperfeiçoando a aparência do Hulk nas edições seguintes – e na cor verde.

Al Migron traz o Hulk Cinza de volta!

A diferença entre o Hulk “original” (cinza, mais baixo, mais fraco) e sua versão “posterior” (verde, maior, mais forte) estabelecida por Byrne, com certeza, não era acidental, e o autor devia ter planos para brincar com essa dicotomia, porém, a fase de Byrne no personagem foi muito curta, já que um sério desentendimento com o editor Bob Harras levou Byrne a se demitir da Marvel no meio da história. O sucessor foi o também escritor e desenhista Al Migrom, que já tinha sido editor da revista (e do Homem-Aranha também), que terminou por realmente criar uma história na qual o Governo dos EUA captura o Hulk e promove um experimento para acabar com o monstro, mas o resultado é que ele é apenas enfraquecido, revertendo à sua forma cinza e menor… e mais inteligente.

O reencontro do Hulk com Betty Ross: abordagem madura e ousada do relacionamento por Peter David. Arte de Todd McFarlane.

Pouco tempo depois, Peter David assumiu o roteiro da revista, em The Incredible Hulk 331, de 1987, tendo como desenhista o futuro artista sensação Todd McFarlane. David desenvolveu uma trama complexa, na qual o Hulk Cinza é extremamente inteligente e arma um plano para se livrar de Bruce Banner, invertendo a lógica que guiou o personagem desde o seu início, na qual Banner tentava se “curar” da maldição do Hulk.

O conceito de Joe Tira-Teima era interessante, mas a arte de Jeff Purves desagradou demais.

Então, após ser dado como morto em uma nova explosão de uma bomba gama, os leitores descobrem, em The Incredible Hulk 346, que o Hulk está escondido em Las Vegas, onde adotou a identidade de Joe Fixit (Tira-Teima), servindo como capanga do dono de um cassino e no meio de disputas da máfia. Usando ternos bem cortados, bebendo, transando com belas mulheres e vivendo uma boa vida, enquanto usa sua força descomunal para garantir os interesses de seu patrão, o Hulk viveu um dos momentos mais felizes de sua vida, justamente porque a pequena radiação extra da explosão que absorveu o manteve como o monstro o tempo todo, sem reverter à forma do “fracote” do Banner. Naquele tempo, o mundo achava que o Hulk estava morto e todos ainda pensavam que ele era verde, daí que o Sr. Tira-Teima podia transitar pelo submundo de Las Vegas sem que ninguém suspeitasse que ele fosse o gigante esmeralda.

Caolho (Wolverine) e Tira-Teima (Hulk) se encontram na arte de John Buscema.

A fase do Sr. Tira-Teima teve roteiros bastante interessantes, embora foi prejudicada pela arte desengonçada de Jeff Purves, muito criticada pelos fãs, acostumados com a arte exuberante de McFarlane na fase anterior. Contudo, histórias especiais ou participações em outras revistas deram a oportunidade de Fixit ser desenhado por outros artistas mais tradicionais, como Mark D. Bright (na edição especial anual da revista), John Buscema (na revista de Wolverine) ou Alex Saviuk (na revista do Homem-Aranha), o que mostrou que a versão de terno, gravata e chapéu do Hulk podia funcionar muito bem.

Ao longo dessa fase, o Hulk namorou com a garota de programa Marlo Chandler, combateu ameaças surtadas, como Glorian e o Diabo, e ainda viu o retorno de Bruce Banner, criando uma divertida situação na qual Banner e o monstro fazem um acordo para que aquela vida se mantenha, mas no fim, tudo vai por água abaixo, e só lhes restam fazer o que sempre fizeram desde a explosão da primeira bomba gama: fugirem.

Peter David explorou três personalidades distintas de Bruce Banner/ Hulk. Arte de Dale Keown.

Veio uma outra fase do Hulk, com desenhos de Dale Keown, na qual Banner começa a alternar suas transformações entre o Hulk Cinza e inteligente e o velho Hulk Verde e selvagem, quase irracional, o que o leva a um tratamento psiquiátrico com o Dr. Leonard Samson, no qual descobrem que as várias personalidades do Hulk são reflexos da psiquê de Banner, entrando na mais rica e complexa etapa da longa temporada de Peter David à frente da revista, na qual o autor se baseou numa velha história de Bill Mantlo que estabelecia que o pai de Banner era um homem violento e o surrava, dando a entender que a raiva infinita do Hulk era uma manifestação desse abuso infantil.

David levou isso a outro patamar, explicando na histórica The Incredible Hulk 377, de 1991, como o próprio Banner terminou criando uma síndrome de múltiplas personalidades e que o Hulk selvagem era ele menino, sempre com uma raiva desmedida e a inteligência de uma criança pequena; enquanto o Hulk Cinza era ele adolescente: sacana, amoral, egoísta e mesquinho; antes de se tornar o cientista pacato, tímido e retraído da vida adulta que viu nascer o Hulk após ser atingido pela radiação da bomba gama. David também mostrou que o pai dele, Brian Banner espancou a mãe dele, Rebecca, até a morte, e a criança presenciou o fato; mas no tribunal, acabou intimidado pelo pai a testemunhar a favor dele, o que contribuiu para sua absolvição. A relação com o pai continuou turbulenta, podemos imaginar, até que, anos depois, ao se encontrarem no túmulo de Rebecca, um jovem Bruce Banner teve uma grande discussão com o pai e terminou por matá-lo, ao golpeá-lo com raiva e Brian cair, bater a cabeça no mármore e sofrer traumatismo craniano.

Banner não foi acusado de nenhum crime e a morte de Brian Banner ficou registrada como acidente, mas esse elemento se tornou mais um fator de desequilíbrio mental que forjou o Hulk tanto quanto a radiação gama. (É por isso que outras pessoas transformadas pela radiação gama, como o vilão Líder, a prima de Banner, Jennifer Walters, que virou a Mulher-Hulk, e o próprio Dr. Samson, não se transformaram em um monstro raivoso que destrói tudo à sua volta).

O Professor Hulk: Hulk Verde, do Hulk Cinza e de Bruce Banner integrados em um só! Arte de Dale Keown.

O tratamento de Samson resulta em Banner conhecer e administrar suas múltiplas personalidades, emergindo uma nova persona do Hulk: o Professor Hulk, que mantém a inteligência de gênio científico de Banner e a força do Hulk Verde, com uma aparência menos monstruosa, mas também, sem a malícia exacerbada da versão cinza. Como pode-se notar, o Professor Hulk é a persona que o personagem exibe na fase atual do MCU, começando em Vingadores – Ultimato e que veremos se desenvolver na série de TV Mulher-Hulk – Defensora de Heróis.

Apesar de ter ficado no passado, o jogo das personalidades do Hulk criadas por Peter David (que ficou no total 12 anos à frente do personagem, até 1999) continuaram a ser exploradas ou referidas pelos autores seguintes, como Paul Jenkins e Jason Aaron, e teve um papel importante na recente e aclamada fase do escritor Al Ewing e do desenhista brasileiro Joe Bennett.

Tudo isso motivou a Marvel a contar mais uma aventura do Sr. Tira-Teima, escrita por seu criador, e situada cronologicamente nos tempos em que viveu em Las Vegas. Curiosamente, o anúncio na página oficial da Marvel não informa quantas edições terá a minissérie e nem uma data de lançamento precisa para além do ano de 2023. A arte será de Yildiray Cina, mas a imagem divulgada da capa da edição 01 é de Cully Hamner.