
Este aqui também é um blog de rock, não é? Então, nada mais justo do que fazermos uma resenha também de Somos Tão Jovens, a cinebiografia do cantor e compositor Renato Russo, que estreou este final de semana no Brasil. Russo é um dos maiores compositores da música brasileira das últimas décadas, um ídolo de multidões e líder da Legião Urbana, banda de rock mais popular do país até hoje: até hoje foram mais de 20 milhões de discos vendidos, marca rara de ser alcançada por aqui.
Somos Tão Jovens é um empreendimento interessante. Os EUA já têm uma tradição de retratar figuras de destaque – às vezes inclusive quando ainda estão vivas – no cinema, como uma maneira de publicizar feitos ou ideias. No Brasil, com uma cena cinematográfica ainda à caminho da consolidação (pelo menos enquanto indústria), tais obras ainda são escarças. Porém, a música tem sido um canal de exploração dessa tendência nos últimos anos, rendendo frutos diversos, como Cazuza – O Tempo Não Para, Os Dois Filhos de Francisco e Gonzaga – De Pai para Filho.
Nesse sentido, Somos Tão Jovens se insere em uma nova tendência. E cumpre bem seus objetivos.

Não dá para não compará-lo a Cazuza – O Tempo Não Para, já que os dois compositores têm diversas semelhanças biográficas – ambos foram ícones dos anos 1980, grande sucesso em vida desde cedo, letristas habilidosos e reconhecidos, homossexuais assumidos (a partir de determinado ponto, pelo menos) e morreram vítimas da AIDS. Contudo, Somos Tão Jovens acerta em tentar se afastar da outra obra e construir uma nova história com os mesmos ingredientes.
Somos Tão Jovens é muito mais a história de Renato Russo com a música do que com as bandas ou com seus amores. Não há um arco romântico no filme, por exemplo. Há um arco de amizade com Aninha e a música.
Assim, Somos Tão Jovens se desvia de alguns temas ou pontos. A melancolia e a solidão de Renato Russo são partes importantes da história, assim como seu desejo de ser reconhecido. Sua personalidade difícil e egocêntrica também está lá em destaque. A homossexualidade é abordada, mas de um modo mais delicado do que em Cazuza. E não é o centro da trama, apenas um subcapítulo que aparece mais como tensão do que como resolução.

Outro acerto do filme é ser mais focado. Em vez de retratar a vida inteira de Renato Russo, que morreu aos 36 anos em 1996, o filme concentra-se em um período bem menor, entre o fim dos anos 1970 e o início dos anos 1980. Mais precisamente entre 1978 e 1983 (embora a legenda indique o ano anterior). Com menos tempo biográfico, dá para aprofundar mais os personagens e as situações, de modo que as coisas não fiquem tão corridas como normalmente acontece nas cinebiografias: muita história para pouco tempo.
Assim, o roteiro de Marcos Bernstein escolhe alguns personagens principais – Renato Russo, os irmãos Flávio e Fê Lemos, a amiga Ana Cláudia – para desenvolver suas relações com o ídolo, enquanto outros personagens menores – Petrus, os pais do cantor, sua irmã, Dinho Ouro-Preto, o primeiro namorado Carlinhos – ganham pequenos momentos importantes para complementar a trama.

Também há participações especiais interessantes, como os irmãos Herbert e Hermano Vianna. O primeiro, futuro líder do Paralamas do Sucesso, é mostrado como alguém mais velho e com certo ar esnobe num retrato tão ótimo enquanto personagem que chega a ser cômico. Seu irmão, o antropólogo Hermano, que trabalhava há época como jornalista musical, aparece para dar o empurrãozinho final para deslanchar a carreira da Legião Urbana.

Para dar vida aos personagens é preciso atores e o filme tem alguns acertos nesse sentido. Thiago Mendonça está ótimo como Renato Russo, equilibrando o desempenho físico (a voz, a aparência perfeita, as afetações do compositor, seus trejeitos no palco…) com o aspecto emocional. Sua dupla com a Ana Cláudia de Laila Zaid está ótima, sendo esta um dos maiores destaques do filme. Também está muito bem o Fê Lemos de Bruno Torres. A pequena participação de Edu Morais como Herbert Vianna, como já citada, está ótima.
Como toda cinebiografia, o roteiro é didático e linear, mostrando Renato Russo no final da adolescência, ainda estudando no colégio Marista, chegando ao mercado de trabalho como professor de inglês, se interessando por punk rock e decidido a virar uma estrela de rock. Com os amigos, forma o Aborto Elétrico, em 1978, a primeira banda punk de Brasília, onde compõe suas primeiras canções. A chamada Turma da Colina se forma em torno da banda, ampliando a cena punk da cidade e dando origem a outras bandas, como a Plebe Rude e Dado e o Reino Animal, dentre outras. Depois, Renato Russo sai do grupo e se apresenta sozinho, como o Trovador Solitário, até decidir formar outra banda, com novos amigos, em 1982, nascendo a Legião Urbana, já bem perto do fim do filme.

A direção de Antonio Carlos da Fontoura acerta em equilibrar as canções, despejando uma série ininterrupta de clássicos – Tempo perdido, Veraneio vascaína, Música urbana, Fátima, Geração Coca-Cola, Que país é este?, Por enquanto, Química, Tédio (com um T bem grande pra você), Faroeste caboclo, Eduardo e Mônica, Eu sei, Ainda é cedo, Será? e até Perdidos no espaço (!) – que vão emocionar as plateias e, o mais interessante, cumprem algum tipo de função na trama. Quase todas são interpretadas pelo próprio ator Thiago Mendonça, que é muito bem sucedido em mimetizar a voz do cantor.
A empreitada ainda rende uma bela versão acústica de Por enquanto, canção imortalizada na voz de Cássia Eller, mas que a Legião Urbana gravou com um arranjo estranhamente eletrônico em seu primeiro disco.
As cenas musicais trazem um quê de videoclipe, mas isso funciona neste caso. Em algumas delas, o diretor deixou a imagem granulada como eram as imagens dos anos 1980, num efeito discreto e interessante. E ao contrário do que geralmente ocorre nas cenas que envolvem bandas tocando, as de Somos Tão Jovens são muito bem filmadas e mimetizadas pelos atores, que parecem mesmo estar tocando seus instrumentos.

A caracterização do filme também é muito boa, mostrando a Brasília de fins dos anos 1970. A fotografia ressalta a singular arquitetura da cidade, contrastando a beleza do dia e o aspecto sombrio da noite. E pelo menos numa cena, contrapõe a limpeza do Plano Piloto com os ares menos desenvolvidos da Ceilândia.
A temática política – eram tempos da Ditadura Militar – é transversal no filme, ocupando pouco espaço, mas sempre presente; e deixando de correr o risco em se tornar algo panfletário. Tal qual na letra de Veraneio vascaína (que seria gravada pelo Capital Inicial), a polícia parece estar sempre por perto para bater, enquanto os jovens se questionam o que podem fazer contra a Ditadura. Tocar punk rock é uma das soluções, claro! Em alguns momentos, a política é motivo de piada, como na cena em que a Legião Urbana toca na Festa da Rainha do Milho em Patos de Minas, na presença de militares e autoridades, executando Que país é este?, enquanto as autoridades ficam se perguntando o que está acontecendo ou quem os colocou ali.
Por outro lado, é muito interessante observar pelo viés da romantização o modo a cena punk eclodiu em Brasília. A tal da Turma da Colina, que encabeça o movimento, no qual Renato Russo se transforma em membro mais proeminente muitos anos antes de ser famoso, é formada por filhos de professores universitários, diplomatas, altos funcionários públicos e altos militares. É interessante como esses pretensos playboys rompem com o status quo de seu próprio grupo social (ou pelo menos do seu entorno) e abraçam uma ideologia e uma atitude de contestação e rebeldia.

Além disso, o filme não esconde os limites dessa rebeldia – ou também podemos interpretar como uma maneira de lidar com as adversidades do sistema – como na cena em que a turminha punk é parada pela polícia e liberada por que a amiga Ana Cláudia é filha de militar. A típica carteirada brasileira. O “jeitinho” transformado em problemática social e objeto de estudo pelo antropólogo Roberto DaMatta.
Ainda assim, o filme mostra que até isso tem limite: em outra cena, a “carteirada” não é suficiente e a turminha passa a noite no chilindró.
Tomado como entretenimento, Somos Tão Jovens responde bem ao seu objetivo. É um filme muito emocionante para a geração que cresceu nos anos 1980 e “conviveu” com Renato Russo. É ver um ídolo brasileiro em sua tenra juventude, inciando sua trajetória, tendo que lidar com seus primeiros fantasmas e compondo suas primeiras canções. E ver as canções dentro de um contexto “real”.
Também deve ser algo interessante para as gerações mais novas, que conhecem Renato Russo unicamente de suas gravações e vídeos, mas cujas letras e hinos ainda ressoam às suas mentes e corações.

E para qualquer um que não conhecia aprofundadamente sua biografia, nunca deixa de impressionar o fato de perceber que ele compôs todos aqueles clássicos da música brasileiro ainda antes de ser famoso! É assustador perceber como grande parte de suas canções mais famosas e amadas já existiam e eram tocadas ao vivo antes mesmo da Legião Urbana gravar seu primeiro disco, o que os obrigou a distribuir tais canções em seus três (!) primeiros álbuns. (Sem falar naquelas gravadas pelo Capital Inicial…).
Cultivar a memória é um hábito muito saudável a uma população. Criam-se mitos, cria-se identidade. Cria-se vínculos. O Brasil precisa disso. Somos Tão Jovens vem contribuir com seu quinhão, mostrando de modo romanceado a juventude de um de seus compositores mais notáveis.
Somos Tão Jovens é produzido por Imagem Filmes e Fox Filmes do Brasil, escrito por Marcos Bernstein (de Zuzu Angel e Chico Xavier) e é dirigido por Antonio Carlos da Fontoura (de Gatão de Meia Idade). O elenco traz Thiago Mendonça (Renato Russo), Sandra Coverloni (Carminha), Marcos Breda (Dr. Renato), Bianca Comparato (Carmem Tereza), Laila Zaid (Ana Cláudia), Bruno Torres (Fê Lemos), Daniel Passi (Flávio Lemos), Sérgio Dalcia (Petrus), Conrado Godoy (Marcelo Bonfá), Nicolau Villa-Lobos (Dado Villa-Lobos), Ibsen Perucci (Dinho Ouro-Preto), Olívia Torres (Gabi), Kotoe Karasawa (Suzy), Nathalia Lima Verde (Helena), Antonio Bento (Carlinhos), Edu Moraes (Herbert Vianna), Leonardo Villas Braga (Hermano Viana). O lançamento foi em 03 de maio de 2013.
A Legião Urbana se formou em Brasília em 1982 e lançou seu primeiro disco três anos depois, tornando-se o grupo de maior sucesso (e prestígio) do rock brasileiro em toda a sua história. Liderado pelo cantor e compositor Renato Russo, contava com Dado Villa-Lobos (guitarras) e Marcelo Bonfá (bateria). A banda lançou nove álbuns oficiais de estúdio e encerrou as atividades por causa da morte de Russo, aos 36 anos, em 1996, em decorrência de complicações causadas pelos vírus HIV.


Excelente resenha! Super contextualizada. Legião é sem dúvida o Beatles brasileiro !
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Obrigado, Raquel. Que bom que você gostou!
Um abraço!
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